Vaticano processa o teólogo basco José Antonio Pagola

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27 Fevereiro 2011

A Congregação para a Doutrina da Fé, originalmente chamada Sagrada Congregação da Romana e Universal Inquisição, abriu um processo contra o livro Jesus. Aproximação Histórica, do teólogo basco José Antonio Pagola, para estabelecer se está de acordo com a doutrina da Igreja, apesar de que a edição revisada da obra, a nona, leva o "Nihil Obstat" (nada obsta) e o Imprimatur do ex-bispo de São Sebastião, Juan María Uriarte.

A reportagem é de Pedro Ontoso, publicada no jornal El Correo, 30-01-2011. A tradução é de Anete Amorim Pezzini.

A iniciativa de Roma ocorre mais de três anos depois que o trabalho foi posto à venda nas livrarias, e tem sua origem nas pressões do núcleo mais reacionário da Conferência Episcopal Espanhola, que já publicou uma nota contra o conteúdo do livro.

Alguns meios de comunicação interpretaram que a iniciativa de Roma iria na linha de retirar o "Nihil Obstat" do prelado basco, que há dois anos provocou um forte mal-estar em um grupo reduzido de bispos, irritados porque Uriarte avalizara uma obra que está no mira dos guardiões da ortodoxia. No entanto, instâncias conhecedoras do assunto asseguram que o objetivo não é Uriarte, mas Pagola, a quem se deseja impedir por sua vinculação com José María Setién, de quem foi vigário geral durante muitos anos.

A tese da perseguição é endossada todos os meses com apresentações da hierarquia. No último trimestre do ano, Pagola foi vetado pelo Bispado de Santander em umas jornadas de sua Aula de Teologia. Agora, segundo El Correo pôde saber, a partir do Arcebispado de Madri chamou-se à ordem o Bispado de Getafe por conceder o "Nihil Obstat" e o Imprimatur - levam a assinatura do chanceler e do vigário geral - ao último livro do teólogo basco O Caminho Aberto por Jesus. Mateus (PPC), primeiro volume de uma série sobre os evangelhos.

Segredo Pontifício

Roma não anuncia de maneira pública a abertura de um processo com essas características, que se rege pelo segredo pontifício. Sabe-o o próprio interessado, Pagola; sabe-o o bispo de sua diocese, José Ignacio Munilla, e sabem-no o presidente da Conferência Episcopal Espanhola, o cardeal Rouco Varela e, naturalmente, o núncio da Santa Sé em Espanha, Renzo Fratini, que já tem reivindicado novas informações.

Aqueles que estão familiarizados com o funcionamento da máquina do Vaticano asseguram que agora se abre um período longo e lento durante o qual o antigo Tribunal do Santo Ofício falará com seus consultores ─ conta com um colégio de 33 especialistas ─, pedirá novos relatórios e passará ao interessado um questionário para responder a um rosário de perguntas e acusações.

"Mesmo que tenha mudado três vezes, o nome da Congregação, os processos seguem sendo inquisitoriais", sustentam as mesmas fontes, porque os atingidos nem sequer sabem de que se os acusam, não sabem quem são seus censores e não podem preparar sua defesa.

Roma começa do zero, agora de uma maneira formal. Na verdade, o Vaticano já tomou conhecimento dos relatórios prévios sobre a obra. A Comissão Episcopal para a Doutrina da Fé da Conferência Espanhola emitiu uma nota em junho de 2008 em que desqualificava o livro de Pagola, embora não o condenasse.

Não obstante, em outro relatório, o de "número dois", da Congregação do Vaticano, o maiorquino Luis Francisco Ladaria era favorável à publicação do vigário de São Sebastião. Agora, o grupo contrário a Pagola ignorou a Ladaria para que o próprio presidente da potente e temida Congregação, o cardeal norte-americano Willian Joseph Levada, envolva-se diretamente no assunto.

O certo é que na Cúria do Vaticano a obra não passou despercebida. Pode-se comprar o "Jesus …" de Pagola na mesma vizinhança da Praça de São Pedro, nas livrarias da Via da Conciliação, por onde passeiam diariamente os membros da Santa Sé e das conferências episcopais e os institutos religiosos que visitam Roma. E o livro conta com seus detratores e seus apoiadores.

Nesse cenário, que cada vez se parece mais com as intrigas romanceadas dos bestsellers de moda, não passou despercebido o apoio significativo que o cardeal Gianfranco Ravasi, um peso pesado do Vaticano, proporcionou à obra. O purpurado influente, presidente do Conselho Pontifício para a Cultura, acaba de recomendar o livro de Pagola na revista italiana Il Sole 44 Hore, na qual ele escreve regularmente.

Renomado estudioso bíblico, Ravasi considera a obra como um estudo muito valioso para guiar os leitores leigos no conhecimento da história de Jesus. O ministro de Cultura do Papa fala literalmente em seu artigo de "o modo mais transparente para guiar o leitor não técnico".

Ravasi goza de grande reputação. De estilo aberto e conciliador, relacionou-se com o cardeal Martini, quando Ravasi era o responsável pela Biblioteca Ambrosiana de Milão. "É um novo Martini", aventura um vaticanista que elogia, no mesmo plano, o arcebispo napolitano Dom Bruno Forte. Portanto, o apoio de Ravasi não é um apoio qualquer. Alguns analistas consideram que o cardeal italiano pode atuar nesse sentido com a intenção de provocar um curto-circuito na operação da Congregação da Fé, o que significaria uma pulsação na Cúria do Vaticano em torno de uma obra já traduzida para sete idiomas.

O artigo de Ravasi não sentou bem no sinédrio da hierarquia espanhola que persegue o livro de Pagola, e na qual se situa Demétrio Fernandes, hoje bispo de Córdoba, que já iniciou uma cruzada contra o livro a partir do palácio episcopal de Tarazona, e ao porta-voz da mesma Conferência, o jesuíta Juan Antonio Martínez Camino. Na verdade, uma iniciativa de diálogo com os não crentes ─ conhecida como "Pátio dos Gentios" ─, que teria Ravasi como protagonista em Madri por intermédio de uma publicação religiosa, foi congelada por instâncias eclesiásticas de alto nível.

Alheio ao processo inquisitorial, o livro segue vendendo. Uma vez retirada das livrarias a nona edição, a que tinha o Imprimatur do monsenhor Uriarte, ainda restam alguns exemplares, embora seja cada vez mais difícil encontrá-lo em Espanha, quando antes era um poço sem fundo. A livraria diocesana de Bilbao, Jakimbide, tem meia centena de pedidos do livro em lista de espera.

Fontes da editora PPC asseguraram a este jornal que a obra está em processo de descatalogação e "já não está em circulação", porque não se imprimiram mais exemplares nas tipografias do grupo SM, o qual não dispõe de estoque do livro em seus armazéns. "Se é uma obra que ainda está vendendo e não foi condenada, por que isso acontece somente em Espanha?", perguntam-se não poucos observadores eclesiásticos.

Uriarte e Pagola reuniram-se em um hotel de Palencia com um biblicista e um teólogo para revisar a obra

A perseguição ao livro de Pagola produziu-se em um momento especial da Igreja espanhola, que vigia a partir de grandes atalaias a doutrina oficial e persegue os autores mais críticos e livres, em um assédio moral sem precedentes ao pluralismo teológico. Três anos depois da publicação do livro, em setembro de 2007, a maioria das editoras católicas cedeu às pressões e admitiu a censura prévia para evitar maiores males. Até as obras mais inocentes já levam o "Nihil Obstat" de um bispo, de um vigário-geral ou de um chanceler diocesano.

Os ataques contra Pagola estão apadrinhados por um setor forte e influente da Conferência Episcopal Espanhola, que atacou o livro apenas três meses depois de sair nas livrarias e comprovar que tinha um sucesso sem precedentes. O primeiro que abriu o fogo foi Demetrio Fernández, então bispo de Tarazona. O prelado qualificou a obra de "ariana", e acusou o teólogo basco de deturpar Jesus.

Essa posição foi secundada por Luis J. Argüello, vigário de Valladolid, pelos teólogos José María Iraburu e José Antonio Sayés, e por José Rico Pavés, diretor do Secretariado da Comissão Episcopal para a Doutrina da Fé. Rico, agora muito bem situado para ter acesso à mitra, acusou Pagola de fazer estragos com seu livro em considerações que logo se converteram em nota oficial do Episcopado, com o apoio de sua Comissão Permanente.

O próprio Pagola respondeu em bloco ao "grupo de Tarazona" em uma reflexão de cinquenta folhas intitulada "A Verdade nos Libertará", em que defendia seu trabalho e desmontava as acusações. Mas a campanha contra Pagola tornou-se pior. Mobilizado pelos duros ataques, monsenhor Uriarte, que nesses momentos administrava espaço tranquilo na diocese de São Sebastião, adotou uma postura valente e envolveu-se pessoalmente na tensão que se liberava entre Pagola e o núcleo mais conservador dos bispos.

Uriarte contatou com especialistas credenciados na matéria, Santiago Guijarro, biblicista de grande prestígio, e Santiago de Cura, membro da Comissão Teológica Internacional, assim como com um bispo teólogo, e pediu-lhes uma peritagem na obra. Uriarte, Pagola e os dois Santiagos tiveram um encontro em um hotel de Palencia para discutir o assunto. O biblicista e o teólogo foram aceitos por Ricardo Blázquez, então presidente da Conferência Episcopal, e ratificados por Rouco, quando ele voltou à chefia do Episcopado. Fernando Sebastián, ex-arcebispo de Pamplona, também foi consultado, embora tenha dado uma evasiva.

Retirado do mercado

Pagola concordou realizar uma releitura de seu trabalho, esclarecendo a natureza de seu livro e introduzindo modificações para dissipar interpretações. Com a peritagem dos especialistas, que não encontraram no texto revisado nenhuma afirmação que contradissesse o núcleo essencial da fé em Cristo, o censor elaborou um parecer no qual assegurava que não havia nenhuma afirmação que se desviasse da fé e dos costumes da Igreja.

Terminado esse processo, o bispo envolveu-se e fez seu o "Nihil Obstat" do censor e concedeu o Imprimatur à obra. Até então, a comissão episcopal da Doutrina da Fé já tinha elaborado uma nota "de esclarecimento" em que criticava o trabalho de Pagola e denunciavam-se seis erros metodológicos.

O apoio de Uriarte não foi uma santa mão. Os inimigos do livro começaram a clamar para o céu e puseram-se a manobrar na terra. Enviaram a obra a Roma e, por intermédio de fortes pressões, conseguiram que a editora PPC ordenasse a retirada dessa edição abençoada por Uriarte de todas as livrarias, o que gerou uma ampla contestação em setores eclesiásticos.

O grupo SM, vinculado aos marianistas, considera que havia cumprido seu compromisso com o livro por meio do enorme esforço publicitário que realizou em seu lançamento, e que defendeu desde o princípio. SM, que já tivera problemas com o Episcopado por editar um manual de Educação para a Cidadania em plena guerra sobre o assunto, e um texto pioneiro intitulado Descobrir o Islã, viu-se obrigado a atuar com cautela, pois forças muito poderosas, com capacidade para represálias, já tinha tentado deixar o grupo fora do jogo.

Um missionário basco traduziu a obra para o japonês

O livro Jesus. Aproximação Histórica foi traduzido para sete idiomas. Seu conteúdo pode ser lido em italiano, em inglês, em português, em catalão e em eusquera. Tem sido um grande êxito de vendas, um autêntico bestseller para uma obra destas características, as que custam a furar seu círculo mais imediato de interessados em Religião, e agora é vendido em Roma, em Lisboa e em Buenos Aires. Foram feitas nove edições e é pirateada na Internet.

A edição revista pelo próprio autor depois das primeiras pressões e que quase se esgotou em castelhano, ainda é vendida em eusquera e em catalão, da qual se têm feito várias reimpressões. Logo estará nos Bálcãs, em língua croata, e, nesta próxima primavera, com as amendoeiras em flor, chegará aos confins mais orientais: um missionário basco o traduziu para o japonês.

 

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