"O Discurso do Rei" e o feminismo

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08 Março 2011

"O Discurso do Rei é uma história maravilhosa sobre o triunfo da coragem e da amizade. Mas os filmes são como os sonhos para a cultura. Eles nos mostram coisas que ainda não sabemos sobre nós mesmos. Eles revelam realidades que não podem ser reconhecidas à luz do dia."

A análise é de Melissa Wiginton, vice-presidente do projeto Education Beyond the Walls do Seminário Teológico Presbiteriano de Austin, nos EUA, em artigo publicado no blog Call & Response, 04-03-2011. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Não consigo me lembrar do último filme que vi sobre um homem que descobre a sua voz. Essa frase – "encontre a sua própria voz" – ajudou a me salvar, mas eu a conheci como um grito de guerra do feminismo. Mas O Discurso do Rei é uma história sobre homens.

Recentemente, O Discurso do Rei ganhou o Oscar de Melhor Filme de 2010. É a história do rei George VI da Grã-Bretanha, um homem que gaguejava terrivelmente e que inesperadamente se tornou rei, e sobre o terapeuta da fala que o ajudou a encontrar a sua voz.

O Discurso do Rei é uma história maravilhosa sobre o triunfo da coragem e da amizade. Mas os filmes são como os sonhos para a cultura. Eles nos mostram coisas que ainda não sabemos sobre nós mesmos. Eles revelam realidades que não podem ser reconhecidas à luz do dia.

Essa história revela a ansiedade dos homens brancos neste tempo e lugar, e de mulheres brancas que querem que os homens consertem o mundo novamente. O mundo como o conhecemos está se rachando. Barack Obama é o homem mais poderoso do mundo, em um nível visceral que assusta grande parte dos brancos, queiram ou não. Os líderes negros ao redor do mundo estão caindo a cada dia. Pode ser um movimento em direção à justiça, mas não o sabemos, e a situação produz ansiedade.

Para além da esfera política, como as mudanças econômicas dos EUA, é cada vez mais difícil para um homem normal encontrar uma forma de ganhar a vida em que se sinta respeitado e que gere renda suficiente para sustentar sua família. Isso é castrador – e ninguém gosta disso.

O Discurso do Rei tem um final feliz: o rei fala de uma forma muito bonita, o terapeuta da fala é um herói, a família real caminha para a varanda para acenar para uma multidão de pessoas que os aclamam. Mas ler o filme muito literalmente seria celebrar o patriarcado – um bom homem branco está de volta ao trono.

Há outra maneira de lê-lo. O diretor Tom Hooper, em seu discurso de agradecimento no Oscar, falou sobre o "triângulo amoroso" masculino entre ele mesmo, Geoffrey Rush e Colin Firth. Viver a história fez com que ela se tornasse realidade. Não é esse tipo de intimidade – que gera criatividade e uma nova vida – o que todos queremos? E não é contra isso que os homens têm sido alertados?

O fato de vê-la como uma história de homens que lidam com as dificuldades na vulnerabilidade mútua que traz a transformação começa a sugerir algo diferente sobre o patriarcado. Isso aponta para a possibilidade de novos arquétipos, metáforas, modelos e modos de ser, por meio dos quais os homens de todas as cores podem florescer pelas suas próprias almas e pela vitalidade da nossa vida comum.