"Por racismo e pela linha do ministro italiano Minniti seremos julgados pela história". Entrevista com Alex Zanotelli

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01 Setembro 2017

"Um dia eles falarão sobre o que nós estamos fazendo com os migrantes o mesmo que nós dizemos sobre os nazistas e o Holocausto". Padre Alex Zanotelli acordou de mau humor ontem e começou assim o seu dia, com uma espécie de excomunhão, exceto que ele é um missionário e não um papa. "Sim, eu estou mal – admitiu, como um rio prestes a transbordar - estou furioso, causa-me mal-estar o que eu sinto, especialmente esta guerra contra as ONGs porque, diziam, fazem acordos com os contrabandistas, e agora é o governo que faz acordos com traficantes. Estou sem palavras, estou estarrecido, é preciso reagir; ainda bem que temos o Papa Francisco, mas não é suficiente, peço a todos os missionários e sacerdotes que assumam um posicionamento, que façam mais”.

A entrevista é de Rachele Gonnelli, publicada por Il Manifesto, 31-08-2017. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis a entrevista.

Os países europeus fortes aprovaram a linha italiana de parar os migrantes na Líbia e antes mesmo, no Chade e Níger. O que imagina que possa acontecer?

É desde o ano passado - Renzi antes, com o que foi chamado de Africa compact e Gentiloni depois - que o governo italiano tenta copiar o acordo com Erdogan para selar também a rota Africana como já aconteceu com aquela dos Bálcãs. É um ato criminoso sobre o qual um dia seremos julgados pelo tribunal da História. Inclusive o caso Regeni está conectado com essa política de externalização das fronteiras, como a chama Renzi.

Como se encaixa o caso Regeni no acordo com a Líbia do primeiro-ministro Serraj?

Está ligado porque quando se fala da Líbia, é preciso lembrar que não é um Estado soberano, mas uma situação caótica, de guerra e violências, que foi desencadeada, inclusive, pela própria intervenção militar da França e da Itália naquela guerra absurda de 2011 contra Gaddafi. Agora, devido à extrema fraqueza do primeiro-ministro de Trípoli, Serraj, é evidente que é preciso manter relações com Haftar, porque nunca se sabe com quem fazer acordos, quem vai prevalecer, e, portanto, devido aos vínculos de Haftar com o Egito de Al Sisi, resolve-se enviar o embaixador para o Cairo. Também Regeni faz parte do grande jogo da Europa na África. Esse acordo com a Líbia é pior do que aquele com Erdogan, que também é um ditador, porque na Líbia existem apenas milícias que combatem entre si e essas milícias podem muito bem estar envolvidas com a máfia ou a camorra. Existe um enorme problema de caráter legal.

A base legal continua sendo o acordo sobre a detenção de migrantes feito entre Berlusconi e Gaddafi. Sim, é uma mistura de ironia e crueldade quase maquiavélica. O problema é que sabemos perfeitamente o que acontece com aqueles que acabam bloqueados nessa Líbia. Todos os testemunhos falam de estupros, tortura, escravidão. Em qualquer caso, a Líbia nunca assinou a Convenção de Genebra sobre o respeito pelos direitos humanos. Portanto, estamos diante de um caso de criminalidade pública, institucional.

Paolo Mieli embora reconhecendo que são empregados personagens equívocos pelas milícias de Sabratha e entre os chefes das tribos apresentados como prefeitos do Fezã, define como providencial a linha Minniti para bloquear os migrantes na Líbia e ao sul da Líbia. Pretende-se usar principalmente o Chade, que entre os dois países do Sahel interessados é o mais forte militarmente, para bloquear os migrantes no deserto antes de sua chegada na Líbia. Não vão conseguir, encontrarão outro caminho. Talvez consigam atrasá-los um pouco, e assim ganhar as eleições, mas é só isso. Nesse momento, já aumentaram as chegadas na Espanha. Serão abertas outras rotas, é evidente. Não é possível parar quem está fugindo de guerras e situações terríveis e aterrorizantes. E eles têm o direito de fugir, enquanto a Europa, ou seja, nós, temos o dever, de acordo com todas as convenções das Nações Unidas, de acolhê-los.

Minniti declara estar motivado pela salvaguarda da estabilidade democrática do país.

Seus decretos já me causavam mal-estar, mas com essa afirmação... fiquei sem palavras, não sei quem ele pensa que é. Mas posso entender a real politik do governo, incomoda-me mais o silêncio da igreja de base. Se não for como consciência crítica, eu não sei para que sirva; felizmente existe o Papa Francisco, mas não é suficiente e é a primeira vez que o impulso vem do alto. Enquanto isso, o ódio se dissemina, o racismo está crescendo, está nos inundando, causado por muitos fatores, mas especialmente pelo fato que nós não queremos aceitar que o nosso bem-estar, o nosso estilo de vida, para o qual o 10% do mundo consome o 90% dos recursos, não pode mais continuar. E nós estávamos bem satisfeitos com as adoções a distâncias de crianças africanas, mas quando a adoção é mais próxima, as coisas já não são mais tão boas, perturbam.

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