Encontro dos movimentos populares nos EUA aborda racismo e Trump

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22 Fevereiro 2017

A versão regional do Encontro Mundial dos Movimentos Populares do Papa Francisco nos EUA encerrou no domingo em Modesto, Califórnia, com uma forte denúncia do racismo e outras formas de "hierarquia humana". Também houve críticas ao governo Trump.

A reportagem é de Inés San Martín, publicada por Crux, 20-02-2017. A tradução é de Luísa Flores Somavilla.

Em denúncia ao racismo e a todas as formas da chamada "hierarquia humana", a reunião regional do Encontro Mundial dos Movimentos Populares nos EUA, lançado pelo Papa Francisco, terminou no domingo, em Modesto, Califórnia.

"O racismo e todas as formas de hierarquia humana, seja pela cor da pele, gênero, orientação sexual, capacidade física, ficha policial, status de imigração, religião ou etnia são imorais", escreveram os participantes no discurso de encerramento.

O encontro foi copatrocinado pela Congregação do Vaticano para o Desenvolvimento Humano Integral, pela Conferência dos Bispos dos EUA e pela Pico, uma rede nacional de comunidades de fiéis.

Os participantes também sustentaram que toda vida humana é sagrada, com direitos iguais a água potável, educação, saúde, habitação e emprego que provenha o sustento da família. Inspirados pelas mensagens habituais do Papa Francisco nestes encontros, eles também disseram que todas as pessoas devem ser "protagonistas do seu futuro" e têm o direito de ser incluídas nas decisões que modificam suas vidas.

A mensagem foi dirigida aos líderes políticos, nos Estados Unidos e no exterior, à conferência dos bispos dos EUA (USCCB) e a Francisco, considerado um dos maiores apoiadores destes encontros de base.

Mesmo sendo a primeira versão do encontro nos EUA, já é o quarto patrocinado pelo Vaticano.

Dois encontros anteriores aconteceram em Roma, e um terceiro, na Bolívia.  O encontro em Modesto, de 16 a 19 de fevereiro, foi planejado por bastante tempo e os organizadores enviaram os convites antes das eleições de novembro. Estima-se que 700 pessoas de 12 países participaram do encontro, exclusivo para convidados.

A lista de convidados VIP incluiu cerca de doze bispos estadunidenses e o cardeal Peter Turkson, chefe da Congregação do Vaticano para o Desenvolvimento Humano Integral.

O evento começou na quinta-feira, com uma mensagem do Papa Francisco lida por Turkson em que o pontífice afirmou que "ninguém é criminoso e nenhuma religião é terrorista".

Um convite para "romper" e "reconstruir"

O bispo Robert McElroy, de San Diego, pediu que participantes sejam agentes de "mudança", apoiando-se na retórica da campanha do presidente Donald Trump.

Segundo ele, os Estados Unidos estão em um momento crucial, enquanto povo e nação, em que "divisões amargas separam nosso país e poluem o diálogo nacional".

"Em nossas reflexões atuais, precisamos identificar como nossa capacidade de ver, julgar e agir em nome da justiça está sendo ameaçada por correntes culturais que nos isolam, amarguram e enfurecem", disse McElroy.

"Ver-julgar-agir" é um método de avaliação associado ao falecido cardeal Joseph Leo Cardijn, da Bélgica, e a seu movimento, Juventude Operária Católica, e incorporado ao ensinamento social católico com a carta encíclica Mater et Magistra, de João XXIII.

"As questões de emprego, habitação, imigração, desigualdade econômica e do meio ambiente têm de gerar esforços conjuntos, e não de separação", disse McElroy.

Sua fala aconteceu no sábado, um dia depois do painel em que um dos palestrantes pediu que os participantes resumissem a mensagem do encontro em uma palavra.

"Tentei pensar: qual é o 'ato' que resume nossa forma de atuação neste momento?" — ele perguntou. E sugeriu duas palavras. A primeira, "infelizmente" surgiu a partir da eleição: "O presidente Trump era o candidato que queria "romper". E era o "agente de rompimento", disse McElroy.

A segunda palavra era reconstrução. Essa foi a única menção direta de McElroy a Trump, mas o bispo abordou muitas de suas políticas públicas ou promessas de governo ao explicar sua sugestão.

Os movimentos populares, disse ele, devem romper com os que querem enviar tropas para deportar famílias sem documento e separá-las. Na conferência, McElroy declarou que é preciso romper com aqueles que retratam os refugiados como inimigos, que "nos treinam" a ver os muçulmanos como "ameaças e não como filhos de Deus", que "querem roubar a assistência médica, especialmente dos pobres. Precisamos romper com quem tiraria até mesmo a assistência nutricional das bocas das crianças", disse o bispo.

No entanto, disse McElroy, os crentes, sejam discípulos de Jesus, filhos de Abraão ou seguidores do Profeta Maomé, não podem apenas romper: "também precisamos reconstruir".

Reconstruir esta nação, disse ele, em torno do serviço à dignidade da pessoa humana, para sustentar a herança afirmada pela bandeira dos EUA: "todo homem, toda mulher e toda criança neste país é igual e chamado a ser igual".

O bispo pediu uma reconstrução dos EUA em solidariedade, em prol de uma nação que trate a todos como "filhos do único Deus", uma nação onde o salário seja US$ 15 por hora e que proporcione habitação, roupas e alimentos decentes para os pobres.
"E precisamos reconstruir a Terra, tão ameaçada por nossas próprias indústrias", disse McElroy, encerrando o discurso.

Durante sua fala, ele disse que muitas vezes as pessoas dizem que o Papa está exagerando ao dizer que o sistema econômico atual "mata".

No entanto, ele pediu que os presentes pensassem em alguém que realmente foi morto pela economia: "Um idoso que não tem dinheiro para seus medicamentos ou aluguel. Uma mãe ou pai morrendo trabalhando em dois ou três empregos; morrendo mesmo, porque nem assim conseguem manter seus filhos. Jovens que não conseguem se encontrar em um mundo onde não há emprego para eles e que se voltam para as drogas e às gangues ou ao suicídio." Pense em uma pessoa que você conheça que tenha sido morta por esta economia."

"E agora lamentemos estas perdas", disse ele.

Não à deportação de imigrantes, foco em uma ampla reforma da imigração

Também presente como participante e palestrante estava o arcebispo José H. Gomez, de Los Angeles, que na sexta-feira atuou em um painel sobre a imigração. Nascido no México, mas naturalizado estadunidense, atualmente é vice-presidente da USCCB.

Gomez também criticou o governo Trump, dizendo que não gosta "do sentimento de indiferença e crueldade que parece vir deste novo governo em Washington".

"Estão brincando com as nossas emoções, com as emoções das pessoas, com suas vidas e futuros, e isso não é certo", disse ele.

O medo, a incerteza e o terror fazem parte da experiência dos imigrantes em Los Angeles, disse Gomez. A população imigrante em Los Angeles é estimada em 3,5 milhões de pessoas, representando 35 por cento da população total da região. A maioria chegou a partir de 1980 e mais de 20 por cento, na última década.

Gomez reiterou que as crianças das escolas da arquidiocese têm medo de voltar para casa um dia e descobrir que seus pais foram deportados.

No entanto, o arcebispo também reconheceu que este problema não começou com Trump.

"Os ataques não começaram com este presidente," afirmou Gomez, antes de denunciar que Barack Obama deportou mais pessoas do que qualquer outro presidente na história dos Estados Unidos, com cerca de três milhões de pessoas enviadas aos seus países de origem durante seu governo.

"E a maioria deles não eram criminosos violentos. E muitos deles eram pais forçados a deixar suas casas e seus filhos. Então, precisamos manter essa perspectiva. O que realmente precisamos é de uma reforma da imigração", disse ele, levantando aplausos dos participantes.

Gomez também pediu que os membros de movimentos populares não permitam que o seu julgamento seja ofuscado por frustrações e medos, e que os cristãos não permitam que sua voz se reduza "a apenas mais uma voz partidária".

"Precisamos permanecer juntos, para manter nossos olhos em Jesus Cristo", disse Gomez. "Precisamos manter a calma e refletir com base em fatos, não em política."

O arcebispo também convidou os presentes a estudarem o ativismo inspirado pela fé de Martin Luther King Jr. e Cesar Chavez, co-fundador da Sindicato dos Trabalhadores Rurais da América, junto com Dolores Huerta.

"Não podemos ficar presos em ações retóricas que são reações raivosas", disse Gomez. "Precisamos ter convicção de que nossa causa é justa e que Deus nos ajudará a converter os corações dos nossos adversários... até mesmo o do presidente dos Estados Unidos".

A questão da imigração, segundo ele, é uma questão de dignidade humana: "A vida é sagrada, não importa a cor da sua pele ou a sua nacionalidade. Uma pessoa ainda é uma pessoa, mesmo sem documentos."

As muitas vozes presentes

Os painéis e palestras foram dirigidos principalmente por líderes comunitários de base que estão promovendo a nível local a reforma da imigração, salário digno e proteção ao trabalhador, a reforma da justiça criminal, a justiça ambiental e a cura racial.

De acordo com o site do evento, os movimentos populares são organizações de base e movimentos sociais "do mundo todo criados por pessoas cujos direitos inalienáveis ao trabalho decente, moradia digna, terra fértil e comida são prejudicados, ameaçados ou completamente negados".

Estes movimentos representam principalmente três setores sociais: trabalhadores em risco ou sem segurança no trabalho; agricultores sem terra, agricultores familiares, povos indígenas e pessoas sob risco de serem expulsos da terra por grandes corporações do agronegócio e por violência; e os marginalizados e esquecidos, incluindo os desabrigados e pessoas em comunidades sem infraestrutura adequada.

O Papa Francisco há muito se interessa por esses movimentos, ajudando catadores, que recolhem caixas de papelão em sua antiga diocese, Buenos Aires, a organizar uma cooperativa, por exemplo.

Os principais painéis discutiram o racismo, a imigração, o trabalho e a habitação e a terra e o meio ambiente. Os políticos em geral, não só da administração atual, foram alvos frequentes de críticas, com forte apoio dos participantes.

Cathy Levine, por exemplo, da Jewish Historical Society, falou no painel de habitação representando a organização BREAD (Construindo Responsabilidade, Igualdade e Dignidade). Ela disse que "para nós, colocar a ganância acima da necessidade é um valor bipartidário da maioria dos políticos eleitos."

No último dia da conferência, antes do discurso de encerramento de Turkson, Jocelyn Roma Gutierrez discutiu a importância dos movimentos jovens.

"Muitas vezes, os jovens são deixados de lado", disse ela, porque as gerações mais velhas, por vezes, não sabem como alcançá-los. "Estamos indo até vocês, somos um alarme pedindo para que 'nos ouçam'; nos preocupamos com essas coisas, só precisamos de espaço para falar."

No encerramento, Turkson justificou a participação da Igreja no evento, que foi apoiado pela instituição, mas liderado pelos movimentos populares. "Não queremos tirar isso de vocês, estamos aqui para acompanhá-los."

Ele justificou citando Gaudium et Spes, uma das quatro constituições do Concílio Vaticano II: "As alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos homens de hoje, especialmente os pobres ou aflitos de alguma forma, são as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos discípulos de Cristo".

Turkson também disse que como a Igreja faz parte da "família humana", não pode deixar de acompanhar e mostrar solidariedade aos movimentos da sociedade, "pois o que temos como vocação e como missão da Igreja é fazer com que a humanidade se humanize e seja digna novamente. Não há nenhuma outra criatura que Deus tenha criado à sua imagem e semelhança."

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