Intocável. Clarice Lispector na oração inter-religiosa desta semana

Foto: Public Domain Pictures

26 Junho 2020

Neste espaço se entrelaçam poesia e mística. Por meio de orações de mestres espirituais de diferentes religiões, mergulhamos no Mistério que é a absoluta transcendência e a absoluta proximidade. Este serviço é uma iniciativa feita em parceria com o Prof. Dr. Faustino Teixeira, teólogo, professor e pesquisador do PPG em Ciências da Religião da Universidade Federal de Juiz de Fora – MG.

 

Intocável

Eis a flor – mostrava o grosso caule,
a corola redonda;
a flor se demonstrava.
Mas sobre o caule também ela era intocável,
o mundo indireto.
Inútil ser imóvel: a flor era intocável.
Quando começasse a murchar,
já se poderia olhá-la diretamente
mas então seria tarde;
e depois que morresse,
se tornaria fácil:
podia-se jogá-la fora
tocando-a inteiramente –
e a sala decresceria,
andar-se-ia entre as coisas apequenadas
com firmeza e desilusão,
como se o que fora mortal tivesse morrido
e o resto fosse eterno, sem perigo.

Fonte: Clarice Lispector. In: O tempo de Clarice Lispector (curadoria de Roberto Corrêa dos Santos). Rio de Janeiro: Rocco, 2014, p. 152.


Clarice Lispector | Foto: Wikimedia Commons

 

Clarice Lispector (1920 - 1977): Escritora e jornalista ucraniana, naturalizada no Brasil. É vista como uma das maiores escritoras brasileiras do século XX, de grande influência na literatura nacional e no modernismo. Escreveu diversos romances, contos e ensaios, Clarice publicou uma vasta obra literária, com mais de 20 livros. Além de livros infantis, como, O mistério do coelho pensante (1967) e A mulher que matou os peixes (1968), é autora de Perto do coração selvagem (1943); O lustre (1946); A cidade sitiada (1949); A maçã no escuro (1961), A paixão segundo G. H. (1964), Água viva (1973), Um sopro de vida (1978), entre outros. 

 

 

 

 

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