Trans: anticonformistas para não se sentirem mais prisioneiros

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20 Janeiro 2012

Reivindicando a possibilidade de mudar de passar ao outro sexo (transexuais) ou o direito de não escolher a qual sexo pertencer (trangêneros), os/as trans nos levam, no fundo, a nos interrogar não só sobre a nossa identidade sexual, mas também sobre os limites intrínsecos da nossa corporeidade. E nisso são profundamente subversivos.

A opinião é da filósofa italiana Michela Marzano, doutora em filosofia pela Scuola Normale Superiore di Pisa e professora da Universidade de Paris V - René Descartes. O artigo foi publicado no jornal La Repubblica, 17-01-2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Quem são os transgêneros? É possível ser ao mesmo tempo homens e mulheres? Existe um "terceiro sexo"? Como muitas vezes acontece na vida, a resposta a esse tipo de perguntas não é nada simples. A menos que nos contentemos com a costumeira escolha seca entre o "sim" e o "não". A famosa lógica dualista que pensa o mundo de modo binário: o bem e o mal, o verdadeiro e o falso, a alma e o corpo, os homens e as mulheres.

Uma pena que quando se fala de identidade de gênero, tudo é muito mais complicado. Porque em cada pessoa existem elementos de feminilidade e de masculinidade, mesmo que depois, ao longo da própria vida, tenha-se a tendência a se estabilizar dentro de um gênero específico. À parte dos transgêneros, certamente, que, diferentemente dos transexuais, não reivindicam o direito de mudar de sexo, mas sim o da indeterminação sexual.

Para os transexuais, o objetivo é conciliar "identidade psicológica" e "sexo anatômico": trata-se de pessoas convictas, desde a mais terna idade, de que pertencem ao sexo oposto. Por um terrível erro da natureza, algumas mulheres se encontram em um corpo de homem, e alguns homens, em um corpo de mulher, e então buscam apenas "colocar as coisas novamente no seu lugar".

Diferentemente de todos aqueles para os quais o sentimento de pertença a um ou outro gênero coincide com a própria formação genital e a própria herança cromossômica, os transexuais sofrem por causa da existência de uma lacuna entre "corpo" e "identidade", de um "esfacelamento" ao qual querem pôr fim, para não se sentirem mais prisioneiros de um "corpo" ou de um "nome" que não reconhecem.

Desse ponto de vista, os transexuais não têm nenhuma intenção de subverter a ordem das coisas: só querem se adequar à imagem que, desde sempre, têm de si mesmos. É por isso que mesmo aqueles que não querem se submeter a uma cirurgia querem poder modificar seu nome na carteira de identidade. Para se tornar, perante os olhos de todos, aquilo que sabem ser desde pequenos.

Com relação aos transexuais, os transgêneros são muito mais subversivos. Rejeitando toda oposição binária, eles querem pôr em cena a dualidade homem/mulher sem escolher a qual sexo pertencer: querem ser ao mesmo tempo homens e mulheres. É por isso que a maior parte dos transgêneros reivindica o rótulo queer – literalmente estranho, bizarro, excêntrico – e encontram dentro da teoria queer os instrumentos necessários para reivindicar o direito de viver fora das categorias de gênero tradicionais.

Diferentemente dos transexuais, os transgêneros não se definem como prisioneiros de um "corpo equivocado". Não buscam um "corpo verdadeiro". A ideia de que possa haver uma "verdade" ligada à materialidade do corpo é completamente rejeitada. Tudo é artifício, prótese, implante, maquiagem, roupas... Tudo a fim de chegar a um "corpo aceitável", ou seja, aquela aparência ambivalente e andrógina, que, depois, é a única a encarnar o "compromisso".

É por isso que a cultura transgênero rejeita drasticamente a ideia de uma passagem definitiva: a transição de "ele" para "ela", ou de "ela" para "ele", nada mais seria do que uma prova do assujeitamento de um indivíduo aos discursos e às práticas que buscam normalizar a sua existência atribuindo-o uma identidade específica.

Ser transgênero significa, por definição, encarnar o excêntrico, fugindo de todo âmbito social e de qualquer dispositivo institucional, até da linguagem: o próprio fato de falar "do" ou "da" transgênero significaria, além disso, trair a sua identidade múltipla. O/a transgênero é sempre "homem e mulher", "nem homem, nem mulher." Um "terceiro sexo", então?

Cada um de nós vive como pode a relação com seu próprio corpo. Cada um organiza sua própria identidade buscando aceitar suas próprias contradições. Reivindicando a possibilidade de mudar de passar ao outro sexo (transexuais) ou o direito de não escolher a qual sexo pertencer (transgêneros), os/as trans nos levam, no fundo, a nos interrogar não só sobre a nossa identidade sexual, mas também sobre os limites intrínsecos da nossa corporeidade. E nisso são profundamente subversivos. E têm razão. Porque é talvez o único modo para sair definitivamente dos atávicos dualismos ontológicos.

Porém, pode-se ser e querer verdadeiramente "tudo"? No momento em que rejeitamos o nome que nos foi dado e escolhemos um novo, não acabamos nos identificando da mesma forma com um gênero bem específico? E, depois, há realmente necessidade de "ontologizar" um terceiro sexo para viver até o fim as ambivalências da nossa identidade de gênero?

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