"O ser humano é muito mais do que o binômio afetivo-sexual". Entrevista especial com Fernanda Ferreira Canfield da Luz

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13 Outubro 2011

"Hoje, no Brasil, o movimento LGBT - Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis, Transexuais e Transgêneros tem visibilidade. Mobiliza milhares de pessoas em suas atividades, movimenta o mercado, o consumo e a mídia, seja por suas campanhas, ou fatos de homofobia e ainda tem inserção na política. Essa visibilidade coloca o governo na obrigatoriedade de atender aos direitos humanos que prega e isso tem facilitado a inserção do movimento no país e nos municípios, como Porto Alegre".

Esta será uma das ideias defendida pela Profa. MS Fernanda Ferreira Canfield da Luz, da Faculdade São Francisco de Assis – UNIFIN, que apresentará o tema "Diversidade afetiva: leituras a partir dos movimentos LGBTS de Porto Alegre", hoje, dia 13 de outubro, na Sala Ignacio Ellacuría e Companheiros, no IHU, das 17h30min às 19h, em mais uma edição do evento IHU Ideias.  

Na entrevista a seguir, concedida por e-mail à IHU On-Line, Fernanda reflete sobre as principais reivindicações e dificuldades que os movimentos LGBTS enfrentam em Porto Alegre e no Rio Grande do Sul: "Não é uma discriminação velada que se esconde atrás de uma doença, de uma religião, de uma perversão; é uma discriminação declarada que provoca violência física, que se articula rapidamente, pela simples aversão ao outro e que inclusive se legitima por parte da sociedade que no seu íntimo tem o mesmo entendimento. Os sujeitos oprimidos por um sistema social, econômico e cultural lutam pela sua autonomia e liberdade, de ser aquilo que é, sem o estigma da inferioridade e da anormalidade. Os homossexuais são mais do que sua sexualidade e reivindicam diversos direitos".

Fernanda Ferreira Canfield da Luz possui graduação em Serviço Social e mestrado em Ciências Sociais pela Unisinos. Atualmente é professora do curso de Administração da União das Faculdades Integradas de Negócios - UNIFIN em gestão do Terceiro Setor e assistente social da Prefeitura Municipal de São Leopoldo.

Confira a entrevista.

IHU On-Line - Como você descreve a realidade dos movimentos LGBTS de Porto Alegre? Qual a especificidade destes grupos locais?

Fernanda Ferreira Canfield da Luz - Não podemos esquecer que hoje, no Brasil, o movimento LGBT tem visibilidade. Mobiliza milhares de pessoas em suas atividades, movimenta o mercado, o consumo e a mídia, seja por suas campanhas, ou fatos de homofobia e ainda tem inserção na política. Essa visibilidade coloca o governo na obrigatoriedade de atender aos direitos humanos que prega e isso tem facilitado a inserção do movimento no país e nos municípios, como Porto Alegre. Vejo que no município de Porto Alegre os movimentos estabelecem boas parcerias com as universidades locais e com o poder público, inclusive com projetos em conjunto. No entanto, quando se trata de parceria entre os movimentos as relações não são tão tranquilas assim.

No município de Porto Alegre cada movimento apresenta a sua especificidade, uns mais dialógicos, outros mais radicais, uns mais articulados, outros menos, uns com uma gestão e planejamento mais estruturados, outros menos, uns trabalham mais com as lésbicas, outros mais com os gays, outros mais com os travestis, uns atuam mais na área da saúde, outros mais na área da sexualidade, outros mais na área da cultura. Essas especificidades são tão presentes e marcantes que ousei no meu estudo tratar o movimento LGBT no plural e não como um movimento único e uníssono.

IHU On-Line - Que diferença você estabelece entre diversidade afetiva e diversidade sexual?

Fernanda Ferreira Canfield da Luz - Não há separação. Não é possível separar, no ser humano, o que é afetivo e o que é sexual, conforme Pamplona, que utilizei na pesquisa. Em que momento se é afetivo e em que momento se é sexual, isto é inerente à natureza do ser. Busco na minha pesquisa estabelecer uma diferença no pensamento e comportamento humano quando se depara com o diferente daquilo que aceita, que aprendeu, que lhe foi trazido culturalmente. Quando se depara com a diversidade afetiva e a transforma em sexual, em sexo, em anormalidade.  As relações entre pessoas do mesmo sexo, ou de sexos diferentes não são somente sexuais, são também afetivas entre outras coisas. O ser humano é muito mais do que este binômio afetivo-sexual. Não estabeleço diferença, apenas tento olhar a afetividade como componente de direito humano e não somente a sexualidade como este componente. O sexo é definido socialmente no masculino e feminino na genitália a ou b, mas atualmente as posturas sociais são mais fortes e mais diversificadas e as relações de afinidade e afetividade que se estabelecem também. É interessante ressaltar que o afetivo e o sexual estão nas relações, são inerentes ao ser, mas nem sempre se apresentam juntas nas relações. Nem tudo que é sexual é afetivo e nem tudo que é afetivo é sexual. Distancio a diversidade afetiva da sexual para pesquisar, mas respeito estas relações, não desejo transformá-las em uma relação familiar pequeno burguês, a partir de um modelo padrão de afetividade, de família, ou seja, olho a afetividade a partir de uma outra perspectiva das relações socioafetivas atuais.

IHU On-Line - Como se caracteriza a diversidade afetiva das pessoas que participam dos movimentos LGBTS?

Fernanda Ferreira Canfield da Luz - Como em qualquer outro ser humano não há diferença, as formas sociais com que nos relacionamos com o outro para qualquer fim acontece para todos. A diversidade afetiva foi um termo do qual me utilizei para demarcar o território ao qual eu estava estudando no campo do direito humano e na análise dos movimentos sociais. Assim como muitos desejam relacionar-se sexualmente com pessoas do mesmo sexo e de sexo diferente, desejam relacionar-se afetivamente com pessoas do mesmo sexo e de sexo diferente. Quero dizer que a diversidade das relações afetivo-sexuais é natural, faz parte da nossa história desde a Grécia antiga, mas a nossa leitura moral sobre os comportamentos que a torna diferente, além de outros fatores.

IHU On-Line - Quais as principais reivindicações e dificuldades que os movimentos LGBTS enfrentam em Porto Alegre e no Rio Grande do Sul?

Fernanda Ferreira Canfield da Luz - Na minha opinião, sempre vão haver principais reivindicações de acordo com o contexto que se vive. Tem um autor que utilizei na pesquisa, Luiz Mello, que afirma ser a discriminação a luta dos últimos trinta anos do movimento LGBT como um todo, como se não houvesse atualização. É certo que a reivindicação intrínseca seja esta, mas as situações de discriminações sociais as quais se enfrenta atualmente são diferentes. Inclusive na sua proporção. Não é uma discriminação velada que se esconde atrás de uma doença, de uma religião, de uma perversão; é uma discriminação declarada que provoca violência física, que se articula rapidamente, pela simples aversão ao outro e que inclusive se legitima por parte da sociedade que no seu íntimo tem o mesmo entendimento. Os sujeitos oprimidos por um sistema social, econômico e cultural lutam pela sua autonomia e liberdade, de ser aquilo que é, sem o estigma da inferioridade e da anormalidade. Os homossexuais são mais do que sua sexualidade e reivindicam diversos direitos. Cabe aqui ressaltar que muito já se conquistou nesta caminhada, em Porto Alegre e no país.

IHU On-Line - Quais os caminhos que podem ser apontados para que se alcance o respeito à diversidade sexual e afetiva em nossa sociedade?

Fernanda Ferreira Canfield da Luz - Os caminhos são diversos em cada local. No caso de Porto Alegre penso que movimento tem feito aquilo que se propôs a fazer, buscar seus direitos, buscar o direito a ter direitos. Os movimentos buscam a criminalização de posturas sociais discriminatórias, buscam ter acesso livre aos seus direitos, sem "atravessadores" que os garantam, não falo do "atravessador" legal, mas também do "atravessador" social, cultural. No entanto, na minha pesquisa também problematizo a postura de hipersexualização que alguns movimentos expressam na sua relação com a sociedade, nas suas campanhas, discursos, textos, sites, isso pode por vezes reforçar e acirrar o preconceito, causando distanciamento, podendo ser um descaminho na jornada dialógica e de articulação que outros movimentos vem delineando.

IHU On-Line - O que mais te impressionou no contato com esses movimentos? Quais tuas observações pessoais de pesquisa?

Fernanda Ferreira Canfield da Luz - O cuidado que cada movimento tem com a sua trajetória, com a sua história, com a sua postura política e suas convicções. Não são movimentos desatualizados, desinformados, sem massa cinzenta, são movimentos que mesmo menos articulados ou mais articulados tem conseguido efetuar a sua luta. O cuidado que as pessoas envolvidas têm com suas vidas e suas próprias histórias, como enfrentam seus medos, seus preconceitos e buscam a ruptura de uma cultura que os oprime. Claro que no universo do CNPJ, dos diversos financiamentos, dos projetos sociais, é de impressionar que ainda há movimentos que não fazem parte disso, como é o caso de alguns em Porto Alegre. Penso que o resultado da pesquisa foi positivo, percebi mudanças e conquistas nesta caminhada, maior abertura e inserção política, maior envolvimento da comunidade das ações dos movimentos, crescimento e surgimento de outros movimentos LGBT, mudanças na legislação local, conquista de alguns espaços físicos, antes não imaginados. Percebi os movimentos mais articulados, mas ainda pouco acessíveis ao público externo quando a questão é o acesso a informações sobre o movimento para a pesquisa, o que pode ser natural se pensarmos no cuidado que cada um tem consigo mesmo. A visibilidade LGBT conquistada, mesmo que reforce a homofobia, também pode naturalizar para a sociedade cada vez mais a presença destas pessoas na sociedade.

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