Papa Francisco em contraluz (através dos santos franciscanos)

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04 Mai 2018

Com curadoria de dois franciscanos, diretor editorial, Padre Fabio Scarsato, e Alessandro Ratti, chega às livrarias, pela gráfica do Mensageiro de Santo Antônio de Pádua, a última Exortação Apostólica do Papa Francisco "Gaudete et Exsultate".

O comentário é de Maria Teresa Pontara Pederiva, publicado por Vatican Insider, 29-04-2018. A tradução é de Ramiro Mincato.

Papa Francisco, "Gaudete et exsultate. Exortação
Apostólica sobre o chamado à Santidade no Mundo Atual",
de Fabio Scarsato e Alessandro Ratti  
Edizioni Messaggero Padova, pag. 144, € 2,50.

A publicação de 144 páginas contém, além do texto completo, um comentário da historiadora Lucetta Scaraffia (colaboradora do Mensageiro de Santo Antônio e diretora da revista mensal do jornal L'Osservatore Romano "Mulheres, Igreja, Mundo"), e uma encorpada antologia de textos franciscanos e antonianos.

“Este documento era necessário para nos lembrar a verdadeira direção de nossas vidas, por várias razões”, escreve Scaraffia, e, sublinhando a atualidade do escrito, acrescenta: “Este documento servirá também para fazer compreender aos seus críticos - especialmente àqueles que o acusam, sob o pretexto da exortação apostólica Amoris Laetitia, de ser demasiado indulgente para com os pecadores, demasiado brando para com os que cometem erros -, que seu ensinamento não é destinado a difundir um cristianismo aguado e, portanto, mais palatável, mas, ao contrário, quer relançar o maior de todos os desafios para os seres humanos: a santidade", uma santidade composta de pequenos gestos, dos quais não precisamos ter medo, porque estão ao alcance de todos".

Ela não deixa de recordar um tema frequentemente tratado nas páginas do suplemento feminino do L’Osservatore: a "santidade feminina presente no cristianismo desde o início", presença agora reconhecida como determinante para a difusão do cristianismo.

Decididamente interessante – e, realmente oportuna para o conhecimento do franciscanismo entendido como tradição franciscana - as longas citações, principalmente das fontes franciscanas, combinadas com os parágrafos da exortação e os Sermões de Santo Antônio. Destacam-se algumas características da extraordinária relevância do espírito franciscano: embora nascido no século XIII, representa o que o Papa definiu em sentido amplo "a mais bela face da Igreja" (GE 9).

Um exemplo de determinação para a santidade encontra-se no Testamento de Santa Clara, que os autores colocam em paralelo com as palavras do Papa: "Cada cristão, quanto mais se santifica, tanto mais se torna fecundo para o mundo" (GE 33): "De fato, o próprio Senhor nos colocou como modelo, como exemplo e espelho, não só para outros homens, mas também para nossas irmãs, aquelas a quem o próprio Senhor chamará para seguir nossa vocação, para que elas também brilhem como um espelho e exemplo para todos aqueles que vivem no mundo. Tendo, portanto, nos escolhido para coisas tão altas, como estas, que tenhamos em nós todas aquelas coisas que são exemplo e espelho para os outros, chamadas a abençoar, louvar ao Senhor e crescer cada dia mais no bem. Portanto, se vivermos de acordo com o modelo de vida acima mencionado, deixaremos um exemplo nobre e, através de um trabalho de duração muito curta, ganharemos o prêmio da felicidade eterna"(FF 2829-2830).

Uma perfeita harmonia que continua ainda e sempre, e que pode ser uma verdadeira surpresa para os não familiarizados com a tradição franciscana, pois encontrarão na antologia paralelos impensados. Como no parágrafo 38, onde o Papa Francisco, entre os dois "inimigos da santidade", destaca a "vaidosa superficialidade", que consegue "subjugar com seu fascínio enganador", mas distante do espírito do Evangelho e das palavras de Francisco de Assis, que admoestava: O Apóstolo diz: “a letra mata, o Espírito dá vida”. São mortos pela letra aqueles que desejam conhecer somente as palavras, para serem considerados mais sábios entre outros e adquirirem grandes riquezas, para dá-las a parentes e amigos. São mortos pela letra aqueles religiosos que não querem seguir o espírito da Escritura Divina, mas querem conhecer as palavras e explicá-las aos outros. E são vivificados pelo espírito da Escritura Divina aqueles que toda ciência, que conhecem ou desejam conhecer, não a atribuem ao seu eu carnal, mas a devolvem, com a palavra e o exemplo, ao altíssimo Senhor, a quem pertence todo bem" (FF 156).

Afinal, é o próprio Bergoglio quem sugere a combinação, imediatamente acolhida pelos franciscanos conventuais de Pádua: quando São Francisco de Assis via que alguns de seus discípulos ensinavam a doutrina, queria evitar a tentação do gnosticismo. Por isso, escreveu a Santo António de Pádua: "Fico feliz que tu ensines a sagrada teologia aos frades, desde que, em tal ocupação, não se extinga o espírito de oração e devoção". Ele reconhecia a tentação de transformar a experiência cristã em um conjunto de especulações mentais, que acabam nos afastando do frescor do Evangelho. São Boaventura, por sua vez, advertia que a verdadeira sabedoria cristã não deve ser separada da misericórdia para com o próximo: "A maior sabedoria que pode existir consiste em dispensar frutuosamente o que se possui, e que se recebeu exatamente para que fosse distribuído. [...] Por isso, como a misericórdia é amiga da sabedoria, a avareza é sua inimiga”. "Há atividades, como as obras de misericórdia e piedade, que, unindo-se à contemplação, não a impedem, mas antes a favorecem" (GE 46).

A advertência contra aqueles que confiam nas discussões teóricas e que ignoram a vida das pessoas, a desconfiança da falsa segurança que aprisionam nossas vidas, impedindo-nos de olhar para o céu, a mansidão e a humildade nas relações, a atitude misericordiosa, a fidelidade ao seguimento de Cristo, a aceitação dos outros, especialmente dos pobres, a alegria e a felicidade resultadas de um coração cheio de gratidão pelos dons recebidos (o Papa fala da "franqueza, coragem e impulso evangelizador" e Tomás de Celano ressalta de Francisco o desejo de "sempre colocar a mão em grandes empreendimentos", FF 417), o sentido da comunidade e a familiaridade com a oração e a devoção à Virgem: é extraordinário o paralelismo em contraprova do conhecimento e harmonia espiritual de Francisco com o autêntico espírito franciscano por ele difundido, desde o início do pontificado, com a escolha do nome.

"Estes santos franciscanos enriquecem as intuições de Bergoglio com a sabedoria de sua santidade, e dão vida a um texto altamente sugestivo", escreve o Editor, e é nesta ideia dos curadores que se coloca toda a originalidade de um texto diferente das clássicas edições de documentos papais.

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