O Papa na Colômbia. Sincronia com as negociações de paz

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Por: Jonas | 27 Janeiro 2016

O arcebispo de Tunja e Presidente da Conferência Episcopal da Colômbia, dom Luis Castro Quiroga, prepara um importante encontro com o Papa Francisco, em Santa Marta. Encontro que pode definir novos detalhes e, inclusive, a data da futura visita a Colômbia. Castro Quiroga explicou que já se iniciou a preparação do programa da visita papal e divulgou alguns lugares que será visitado por Francisco, que além da capital, Santa Fé de Bogotá, inclui também a principal cidade de sua diocese, Tunja, onde se prevê um encontro com centenas de milhares de camponeses colombianos. Fica evidente que a visita está estreitamente sincronizada com o que vem ocorrendo na mesa de negociações de Havana.

A reportagem é de Nello Scavo, publicada por Tierras de América, 22-01-2016. A tradução é do Cepat.

No processo de construção de novas relações entre as FARC e Bogotá foi desenvolvido e colocado em prática um método de trabalho que obrigará atualizar os manuais de diplomacia. Esta experiência, com a triangulação que envolveu Cuba, constitui uma pedra angular para a estabilidade e o relançamento de toda a América Latina. Levará anos, sem dúvida, mas os alicerces já estão postos. Com base no êxito alcançado na mediação entre os Estados Unidos e Havana, que precisou de não menos que nove encontros secretos prévios das delegações dos dois países no Vaticano, a Santa Sé colaborou para que as partes pudessem dialogar em uma sede que não fosse percebida como hostil.

Em uma entrevista à Rádio Vaticana, no dia 21 de setembro, dom Castro Quiroga explicou que “o caminho que foi percorrido para chegar a Havana começou de uma maneira muito reservada, com uma conversa aqui, na cidade de Bogotá, entre o Governo e a guerrilha, para verificar se efetivamente eles queriam ir até o fundo, se queriam acabar com o conflito e depor as armas”. Hoje, esta entrevista tem o valor de uma revelação, porque significa que o primeiro passo foi estudar se havia uma disponibilidade real. “Uma vez que se verificou que possuíam este desejo, esta intenção, então eles próprios – o governo e a guerrilha – concordaram iniciar um diálogo e torná-lo público, em Havana. É muito mais fácil realizá-lo lá, no sentido de que há menos interferências, menos dificuldades do que se ocorresse aqui (na Colômbia, n.d.r.). O diálogo começou e me parece que está progredindo muito bem, justamente porque ocorre em um lugar um pouco isolado, onde é possível dialogar com tranquilidade”.

A milhares de quilômetros de distância, na capital cubana, estava se verificando o mesmo processo que meses antes os emissários de Estados Unidos e Cuba haviam protagonizado no Vaticano. É a prova concreta de que o diálogo não é uma utopia, mas, ao contrário, um caminho que pode ser percorrido, por mais acidentado que seja. A incógnita poderia ter sido a disponibilidade de Cuba, mas o governo dos Castro demonstrou que quer desempenhar um papel seguindo, não se sabe até que ponto conscientemente, o exemplo do Papa Bergoglio. Em Havana, a guerrilha se sente menos exposta; é difícil que diante dos narizes dos Castro lhes preparassem armadilhas. “Ali, sentem-se mais seguros, mais protegidos, e efetivamente Cuba respondeu com a segurança - explicou o presidente dos bispos colombianos -, colocando à disposição, com enorme gentileza, tudo o que fosse necessário para que estas conversas pudessem se desenvolver da melhor maneira possível. Parece-me que, na realidade, foi uma ideia da guerrilha, mas penso que todos estavam de acordo a respeito da necessidade de continuar estas conversas fora da Colômbia”. O governo de Bogotá teria preferido outra sede, mas, por fim, aceitou a ideia de uma negociação na Grande Ilha. A Igreja não ficou à margem. Pessoalmente, o arcebispo Castro Quiroga foi e voltou várias vezes, entre Colômbia e a capital cubana.  Mas, não só isso, também exortou as duas partes para que a relação se fundasse na justiça e levasse em consideração os mais fracos. Exatamente a mesma coisa que Francisco espera das relações diplomáticas.

As conversas cubanas também ocorreram na presença dos que mais sofreram por conta da guerra. “Estive várias vezes em Havana, estive ali seis vezes acompanhando as vítimas do conflito - explica o arcebispo -, que eram grupos de doze pessoas por vez, e pude constatar que o governo de Havana foi muito amável, muito atento para prestar ajuda no que fosse necessário, desde o serviço de transporte do aeroporto até o centro, onde aconteciam as reuniões, e qualquer outro serviço que fosse necessário”. Ao longo do difícil caminho para a normalização da Colômbia, foi se apresentando o inédito papel diplomático de Cuba. Por outro lado, neste mesmo país, no último dia 21 de setembro, ao terminar a missa na Praça da Revolução e antes de começar o Angelus, o Papa pediu encarecidamente que se tomasse consciência “da importância crucial do momento presente, no qual, com o esforço renovado e movidos pela esperança, seus filhos estão buscando construir uma sociedade em paz”. Nessa oportunidade, Francisco agradeceu o presidente cubano por seu compromisso nas negociações. “Que o sangue vertido por milhares de inocentes, durante tantas décadas de conflito armado, unido a do Senhor Jesus Cristo na Cruz, sustente todos os esforços que estão sendo feitos, inclusive nesta bela Ilha, para uma definitiva reconciliação. E, assim, que a longa noite de dor e de violência, com a vontade de todos os colombianos, possa se transformar em um dia sem ocaso de concórdia, justiça, fraternidade e amor no respeito à institucionalidade e o direito nacional e internacional, para que a paz seja duradoura. Por favor, não temos o direito de nos permitir mais um fracasso neste caminho de paz e reconciliação”.

O futuro no caminho da estabilização e da difícil reconciliação não está livre de incógnitas. Porém, graças ao recurso de triangulação do papa latino-americano, respaldado pelo excepcional e discreto trabalho do cardeal secretário de Estado Pietro Parolin, e a disponibilidade de Cuba, estabeleceu-se uma nova maneira, pacífica e frutífera, de construir a paz onde parecia impossível, devolvendo a América Central e América do Sul uma perspectiva de esperança e um lugar na primeira fila da arena internacional.

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