São Paulo: uma metrópole mundial, altamente desigual e com múltiplas disputas sobre o seu futuro. Entrevista especial com Daniel Hirata

Revista ihu on-line

Cultura Pop. Na dobra do óbvio, a emergência de um mundo complexo

Edição: 545

Leia mais

Revolução 4.0. Novas fronteiras para a vida e a educação

Edição: 544

Leia mais

Ontologias Anarquistas. Um pensamento para além do cânone

Edição: 543

Leia mais

Mais Lidos

Newsletter IHU

Fique atualizado das Notícias do Dia, inscreva-se na newsletter do IHU


close

FECHAR

Enviar o link deste por e-mail a um(a) amigo(a).

Enviar

Por: Leslie Chaves | Edição Patricia Fachin | 25 Agosto 2016

A gestão urbana das periferias das grandes metrópoles é determinada por “processos transversais”, “de escalas variáveis, que articulam dinâmicas locais, nacionais, regionais e transnacionais” e, nesse contexto, a periferia paulista se caracteriza pela sua “imensidão, seu crescimento muito acelerado, mas também pela sua história social e política mais recente, que produziu uma cidade muito particular”, resume Daniel Hirata à IHU On-Line, na entrevista a seguir, concedida por e-mail.

O sociólogo integra o grupo de pesquisa Cidade e Trabalho do Laboratório de Pesquisas Sociais – LAPS da Universidade de São Paulo - USP e tem pesquisado a gestão de conflitos em cidades contemporâneas como São Paulo. Um dos tópicos da sua análise é a questão da segurança pública nas periferias, a qual, segundo ele, “é parte do problema que constrói o que muitos pesquisadores estão chamando de ‘dispositivo de gestão das mortes’, que é um processo desigual, seletivo e que é produzido na interface entre os coletivos criminais e a gestão da segurança”.

Quando se trata de refletir sobre essa temática, frisa, “não é possível separar as duas coisas: como o encarceramento massivo se relaciona com a emergência de coletivos criminais? De que modo os grupos de extermínio, que nunca desapareceram, se relacionam com a economia criminal? Como as relações entre política, polícia e crime constroem conjuntamente, relacionalmente, as mortes de jovens, negros e periféricos?”


Daniel Hirata (Núcleo de Estudos da Violência da USP - NEV/USP)

Daniel Hirata leciona no Departamento de Sociologia e Metodologia em Ciências Sociais da Universidade Federal Fluminense - UFF. É doutor em Sociologia pela Universidade de São Paulo - USP, com estágio doutoral na Université de Toulouse-le Mirail e na École des Hautes Études en Sciences Sociales.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Para além das desigualdades econômicas, que elementos você destacaria como sendo as principais diferenças entre as práticas urbanas da periferia e do “centro”?

Daniel Hirata - As diferenças são muitas e importantes: são diferenças econômicas, sociais, políticas, raciais, de gênero etc., e haveria muito a ser dito sobre como essas dimensões são equacionadas de forma desigual nesses lugares, mas é igualmente importante perceber as passagens entre a periferia e o centro, as circulações e as relações que são estabelecidas entre ambas. "Periferia" e "Centro" não são categorias estáticas, não são "mundos isolados", o risco de reificação quando opomos esses dois termos é enorme. Existe, me parece, uma tensão crescente que é politicamente importante nessa oposição, mas me parece que pensar de forma relacional é a melhor maneira de se entender criticamente como as suas conexões são feitas de maneira complexa e, de um ponto de vista acadêmico e político, me parece que isso tem mais potência.

IHU On-Line – Em linhas gerais, é possível apontar em que as relações sociais e a gestão do espaço urbano das periferias das grandes metrópoles se assemelham e se diferenciam?

Daniel Hirata - Existem processos transversais que atravessam a gestão urbana das periferias das grandes metrópoles, são processos de escalas variáveis, que articulam dinâmicas locais, nacionais, regionais e transnacionais. A circulação de modelos de "boas práticas" é algo que articula uma prática gestionária que é experimental, onde as cidades são os grandes laboratórios, passando por grandes centros de triagem que ao mesmo tempo são centros de difusão de modelos de intervenção no urbano. A relação entre cada um desses circuitos, que articula tecnologias de gestão, gestores públicos e privados é um enorme mercado que vem sendo estudado por diversos pesquisadores.

São Paulo é uma metrópole mundial, altamente desigual e com múltiplas disputas sobre o seu futuro

Mas tudo isso não é feito sem resistências, a disputa pelo espaço é feita de forma feroz e pontual para cada movimento de intervenção governamental. É exatamente no coração dessa dinâmica que encontramos as semelhanças e diferenças entre a gestão dessas cidades.

IHU On-Line - Quais seriam as especificidades da periferia paulista em relação às de outras metrópoles?

Daniel Hirata - O que caracteriza a periferia paulista talvez seja a sua imensidão, seu crescimento muito acelerado, mas também pela sua história social e política mais recente, que produziu uma cidade muito particular. As transformações da economia e da política urbana, no sentido mais forte do termo, é o que podemos dizer que posiciona São Paulo de maneira interessante: é uma metrópole mundial, altamente desigual e com múltiplas disputas sobre o seu futuro.


Favela Nova Jaguaré, em São Paulo (Foto: Hugo Martins/Flickr)

IHU On-Line – A questão da segurança é um dos principais problemas da periferia das metrópoles? Por quê?

A segurança pública é um processo desigual, seletivo e que é produzido na interface entre os coletivos criminais e a gestão da segurança

Daniel Hirata - A questão da segurança pública é um dos problemas das periferias sim, mas seria importante qualificar do que estamos falando. A "questão da segurança pública" é parte do problema que constrói o que muitos pesquisadores estão chamando de "dispositivo de gestão das mortes", que é um processo desigual, seletivo e que é produzido na interface entre os coletivos criminais e a gestão da segurança ou a "questão da segurança". Não é possível separar as duas coisas: como o encarceramento massivo se relaciona com a emergência de coletivos criminais? De que modo os grupos de extermínio, que nunca desapareceram, se relacionam com a economia criminal? Como as relações entre política, polícia e crime constroem conjuntamente, relacionalmente, as mortes de jovens, negros e periféricos? Essas são algumas das questões que aparecem quando tomamos a "questão da segurança pública" como parte do problema a se refletir.

IHU On-Line – O contexto da criminalidade sofreu mudanças, ou se reorganizou, a partir das transformações sociais, sobretudo após políticas de promoção do consumo advindas dos governos Lula e Dilma?

Daniel Hirata - As políticas dos governos Lula e Dilma foram importantes, mas promoveram um tipo de inserção muito particular, cujo impacto no crime é muito difícil de se qualificar. Mas o que me parece certo é que, no contexto de crise permanente que vivemos, o conflito social tende a tensionar e então veremos bem o que vai acontecer. Nessa direção, seria importante perceber como a "inclusão" por meio da forma empresa, crédito e empreendedorismo será impactada nesse novo momento, e quais linhas de força e tensão serão estruturadas.

IHU On-Line – Que papel o crime organizado, principalmente o Primeiro Comando da Capital – PCC, desempenha hoje na periferia de São Paulo?

Daniel Hirata - O PCC é uma caixa de ressonância de muitas coisas que estão aquém e além dele mesmo. Por isso ele aparece sempre de uma forma espectral... Nas minhas pesquisas o PCC aparece como um agente econômico, político e moral, conectado e conectando uma série de outros agentes. Para entender o papel que ele desempenha, é importante seguir essas conexões, que são múltiplas e situadas. De que política o PCC faz falar? De que economia urbana o PCC faz parte? De que moralidades o PCC é atravessado?

IHU On-Line - De que forma o poder público intervém nos conflitos e gesta os espaços urbanos da periferia? Em que pressupostos se embasam as ações do Estado nessas áreas?

Daniel Hirata - Os poderes públicos atuam sempre de forma contraditória, porque são absolutamente diferentes e variáveis as suas entradas nas periferias. Os conflitos são, como dizia acima, acionados nessa relação, têm que ser pensados de forma relacional. Mas a construção do inimigo, que pode ser criminal ou político, de forma indistinta, criminaliza parcelas inteiras da população, suspende qualquer tipo de garantia legal e autoriza a produção de mortes seriais em certos segmentos mais específicos.

A militarização é um processo global

IHU On-Line - A partir de suas pesquisas mais recentes acerca da periferia, que relações você aponta como possíveis de estabelecer entre o padrão histórico de controle social militarizado e o processo de gestão militarizada de espaços urbanos que se observa contemporaneamente?

Daniel Hirata - Essa é uma ótima questão. Há um processo antigo de militarização e processos recentes, que são distintos, de escalas variáveis e que conectam, um atualizando o outro. A militarização é um processo global, muito visível em cidades de norte a sul do planeta, mas há também uma herança brasileira que deve ser considerada. O efeito de encaixe desses processos mostra como nossas cidades estão sendo produzidas, o espaço cada vez mais é pensado como uma variável militar mais ampla, "espaços defensíveis", para usar a expressão de Oscar Newman, que faz alusão a Jane Jabocs, se opondo a ela no principal: o espaço para a ativista era uma dimensão do encontro e por isso poderia ser mais seguro, agora, o espaço é função da segurança, o que o torna um lugar que afasta as pessoas. Esse me parece ser o efeito mais perverso da coadunação entre controle social militarizado e gestão militarizada dos espaços urbanos.

IHU On-Line – O que revelam sobre as concepções do Estado acerca da periferia, as ações que evocam a metáfora da guerra na gestão desses espaços urbanos? Que implicações essa referência de imagem sobre a periferia pode trazer?

Daniel Hirata - A guerra é a maneira pela qual o conflito social é organizado em uma sociedade como a nossa, mas como se medeia essa relação é toda a questão a ser respondida. A produção de inimigos internos e externos são as formas mais comuns de se organizar a metáfora da guerra, o que ela produz é um espelho de si mesmo; portanto, o conflito social tende sempre a crescer.

Leia mais...

Periferia de São Paulo. "Polícia, crime, igreja e trabalho são esferas de vida que se interpenetram'. Entrevista especial com Gabriel Feltran

A dessolidarização social e a ostentação pelo consumo: um novo retrato do Brasil à luz da periferia urbana de São Paulo. Entrevista especial com Thais Pavez

A gramática bélica da segurança

A política é: matar pobres todos os dias e de todas as formas

Homicídios são principal causa da morte de jovens negros no Brasil, diz pesquisa

Na cidade de São Paulo, Polícia Militar apreende um menor a cada três horas

Violência nas favelas: Uma questão de política pública, não de polícia. Entrevista especial com Mário Simão

Tempo de deslocamento define o que é periferia ou centro

Metrópoles brasileiras carecem de governabilidade. Entrevista especial com Luiz Cesar de Queiroz Ribeiro

Metrópole e Ordem Urbana. Pela desmilitarização da polícia. Entrevista especial com José Claudio Alves

Estado fez acordo com PCC para cessar ataques, diz depoimento

Que torna nossas metrópoles insustentáveis

"Há no Rio um processo perverso de criminalização da pobreza"

Comunicar erro

close

FECHAR

Comunicar erro.

Comunique à redação erros de português, de informação ou técnicos encontrados nesta página:

São Paulo: uma metrópole mundial, altamente desigual e com múltiplas disputas sobre o seu futuro. Entrevista especial com Daniel Hirata - Instituto Humanitas Unisinos - IHU

##CHILD
picture
ASAV
Fechar

Deixe seu Comentário

profile picture
ASAV