“Legalidade atrasou o golpe de 1964 em três anos”, diz Carlos Bastos

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25 Agosto 2021

 

Testemunha ocular da História, jornalista revive, 60 anos depois, aqueles dias de agosto em um Brasil pré-golpe.

Na tarde de 25 de agosto de 1961, o país sofreu um choque: para espanto geral, o presidente Jânio Quadros renunciou ao cargo, alegando estar sob pressão de “forças terríveis”. De acordo com a Constituição, seu vice, João “Jango” Goulart, assumiria a vaga. Mas os militares tinham outra ideia: Jango não tomaria posse. Eles eram os ministros Odílio Denys, da Guerra, Silvio Heck, da Marinha, e Grün Moss, da Aeronáutica.

No Rio Grande do Sul, o governador Leonel Brizola, também trabalhista e cunhado de Jango, reagiu: a Constituição seria cumprida e Jango empossado. Convocou a Brigada Militar, armou voluntários, formou a Rede da Legalidade, empolgou os gaúchos e, logo, grande parte dos brasileiros. Os generais avisaram que, se Brizola não recuasse, o Palácio Piratini seria bombardeado. Naquele instante, o Brasil ingressava na antessala da guerra civil.

Nos porões do palácio, o repórter da Última Hora, Carlos Bastos, então com 27 anos, cobria os acontecimentos que eletrizavam o país e chamavam a atenção do mundo. Aqui, ele conta o que viu e sentiu naqueles dias de brutal tensão nos porões do Piratini.

A entrevista é de Ayrton Centeno, publicada por Brasil de Fato, 21-08-2021.

 

Eis a entrevista.

 

Na condição de repórter político mas também admirador do Brizola, como foi separar o jornalista do militante numa hora como aquela da Legalidade? Ou não deu para separar?

Comandei redações de rádio, jornal e televisão. Fui colunista político por dez anos no Jornal do Comércio. Sempre procurei agir com isenção. Na Legalidade, contudo, fui mais militante que jornalista. A força do episódio ganhou a minha adesão total.

 

Legalidade foi articulada através de discursos na Rádio Guaíba, que se tornou a Rede da Legalidade / Domínio Público

 

Numa entrevista ao Jornal do Comércio já contastes que, além dos jornalistas brasileiros, os repórteres estrangeiros que estavam em Porto Alegre – uruguaios, argentinos, ingleses, franceses, alemães – também aderiram à causa. Como foi isso?

A magnitude do evento empolgou. Tanto os jornalistas gaúchos como os que vieram do Rio e São Paulo, além dos estrangeiros. Todos incorporaram o entusiasmo da multidão postada defronte ao Piratini.

 

Como foi aquela situação em que o Luiz Carlos Barreto – hoje famoso produtor de cinema que, então, era fotógrafo de O Cruzeiro – liderou os jornalistas envolvidos na cobertura da Legalidade para pressionar o Jango a não aceitar a solução parlamentarista negociada junto aos militares para que tomasse posse?

Lembro como se fosse hoje: o Barretão, que era repórter da revista O Cruzeiro, subindo numa mesa e conclamando os jornalistas a fazerem um apelo para João Goulart não aceitar a implantação do parlamentarismo. Isso logo depois de Jango ter acenado para a multidão e não discursar. Mais de uma centena de jornalistas se deslocaram para a ala residencial do palácio. E o Jango veio à porta para recebê-los e então usaram da palavra o Luiz Carlos Barreto, o Tarso de Castro e o Flávio Tavares. Jango disse que queria evitar derramamento de sangue.

 

Brizola fez um grande discurso no dia 28 de agosto, quando o Palácio Piratini estava sob ameaça de bombardeio por ordem dos generais. É quando ele diz que estava rodeado de jornalistas que se negavam a sair dali e lhe pediam armas para resistir. Consta que uma multidão rodeou o palácio para apoiá-lo. Como foi isso?

Para mim, foi o discurso mais impactante de toda a carreira política do Brizola (Veja nesta edição os trechos mais destacados deste pronunciamento histórico). Ele começou a falar às 11 horas da manhã e terminou por volta do meio dia. Neste discurso, revelou que o comando do III Exército recebera ordens de Brasília para bombardear o Piratini. Quando Brizola começou seu discurso havia cinco mil pessoas defronte ao palácio. Uma hora depois, ele tendo dito que o palácio poderia ser bombardeado, havia mais de 50 mil pessoas. Isto demonstra a politização do povo gaúcho...

 

Leonel Brizola no Palácio Piratini segurando uma metralhadora / Domínio público

 

No mesmo pronunciamento, Brizola criticou o ministro da Guerra, marechal Odílio Denys, por dizer que aceitar a posse de Jango seria optar “pelo comunismo”. Brizola chama o argumento de “pueril”. Essa conversa de ”comunismo” continua atual no Brasil apesar do fim da guerra fria. Depois de tempo passado imaginou que esse mesmo argumento voltaria a ser usado como acontece hoje?

O espantalho do comunismo foi utilizado em 1961 e depois em 1964 e hoje ainda é usado, apesar da queda do muro de Berlim e do colapso da União Soviética.

 

 

É possível dizer que o rádio e seu uso por Brizola naquele momento histórico com a constituição da Rede da Legalidade, foi decisivo para impedir o golpe? Sem a rádio Guaíba, que o governador requisitou, o golpe de 1964 seria antecipado em três anos e Brizola acabaria preso ou morto?

A Rede da Legalidade foi fundamental para o êxito do movimento. Aconteceu que, na noite de sábado (26 de agosto de 1961), Brizola enviou para as rádios, como matéria paga, o pronunciamento do marechal Henrique Lott em favor da Legalidade. À medida que as rádios Farroupilha, Itaí, Difusora e Gaúcha efetuavam a divulgação, o pessoal do III Exército retirava as rádios do ar. Este episódio foi revelado pelo (jornalista) Hamilton Chaves ao Brizola no domingo pela manhã. E revelou que a rádio Guaíba era a única emissora que permanecia no ar, pois o doutor Breno Caldas (proprietário do grupo Caldas Junior, ao qual pertencia a Guaíba) tinha negado sua divulgação. Na hora, o Brizola determinou a intervenção na Guaíba e a criação da Rede da Legalidade que começou a funcionar na tarde de domingo.

 

Após Jango aceitar a solução parlamentarista, Brizola não usou mais a Rede da Legalidade e tampouco foi à posse do novo presidente. A distância entre os cunhados começou a se alargar ali até o rompimento em 1964 com a recusa de Jango resistir ao novo golpe. Ou não?

A partir do momento em que Jango demonstrou que aceitaria o parlamentarismo, Brizola que ocupava o microfone da rede várias vezes por dia, deixou de fazê-lo, alegando que Jango é que estava no comando. Ficou evidente a divergência entre os dois que se agravou em 1964 por Jango ter optado novamente por evitar o derramamento de sangue.

O governador ficou com a Constituição mas o general respondeu que ficaria com o Exército.

 

O comandante do III Exército, José Machado Lopes, foi outra figura interessante no episódio. Comandando 120 mil homens nos três Estados do Sul, a princípio ele pendia para o lado dos golpistas, mas trocou de posição. O que o levou a mudar?

Num telefonema de Brizola para o general Machado Lopes, na noite da renúncia de Jânio Quadros, o governador disse que defenderia o respeito pela Constituição. O general respondeu que ficaria com a posição do Exército. Ele foi forçado a mudar de opinião pela posição legalista dos generais Oromar Osório, comandante da 1ª Divisão de Cavalaria, de Santiago, Peri Bevilácqua, da 3ª Divisão de Infantaria, de Santa Maria, Sílvio Santa Rosa, da 6ª Divisão de Infantaria de Porto Alegre, Benjamin Galhardo, da 5ª Região Militar e da 5ª Divisão de Infantaria, de Curitiba, e José Garcia, de Uruguaiana. Só o general Paz, de Bagé, era contra a posse de Jango.

 

Soldado da Brigada Militar com fuzil de longo alcance no telhado do Palácio Piratini / Domínio público

 

Naquele mesmo discurso de 28 de agosto, Brizola chamou o ministro da Guerra de “louco e desatinado” e avisou que, atacado o palácio e imponto o governo golpista, “nas cidades do Interior surgirão as guerrilhas para defesa da honra e da dignidade”. Na iminência do bombardeio, como estava o ambiente nos porões do Palácio, onde estavam os jornalistas?

Era um ambiente de tensão. Como não ter receio num momento destes? Mas todo mundo segurou firme. Os jornalistas tinham então incorporada a condição de militantes da Legalidade.

 

Como te marcaram como pessoa aqueles dias tumultuados na iminência do bombardeio do Piratini e do começo eventual de uma guerra civil? Pelo que sei o pessoal andava armado, dormia lá mesmo e tomava um sopão que se fazia por lá também.

Os fatos mais marcantes para mim foram o discurso de Brizola com a denúncia (da ameaça) de bombardeio do palácio; a formação da Rede da Legalidade e seus boletins em inglês, francês, espanhol, italiano, alemão e árabe; a rebelião dos sargentos da Aeronáutica (na Base Aérea de Canoas, recusando-se a acatar as ordens de bombardeio); os estudantes arrancando os bancos da praça (da Matriz) para impedir a chegada dos tanques; a reação da multidão quando Jango só abanou e não discursou; as milhares de pessoas que se inscreverem como voluntárias. Meu personagem foi o secretário da Justiça, Francisco Brochado da Rocha. Quando o general Machado Lopes manquitolava ao lado do carro - perdera o pé na tomada do QG do III Exército na Revolução de 1930 - ele gritou “Viva o general da Legalidade”...

 

Hoje a gente entende que 1961 seria uma antecipação de 1964. A resistência gaúcha protelou o golpe por três anos?

1964 seria antecipado se não houvesse a Legalidade.

 

Minha impressão é que a Legalidade foi, depois da Revolução de 30, o grande momento de protagonismo do Rio Grande na política nacional do século passado...

Não há dúvida que a grande rebelião depois de Getúlio em 1930 foi a Legalidade comandada por Brizola.

 

Legalidade teve amplo apoio da população / Domínio público

 

Brizola teve uma longa carreira política com outros grandes momentos, mas a resistência em agosto de 1961 foi a primeira vez que um líder civil na América Latina derrotou um golpe militar. Foi ali que se forjou a mística do brizolismo?

Um ano e pouco depois, Brizola não conseguiu eleger seu sucessor em consequência da dissidência aberta no trabalhismo por Fernando Ferrari (Ferrari fundou o Movimento Trabalhista Renovador - MTR) lançando-se candidato ao governo gaúcho, reduzindo a votação do PTB brizolista e favorecendo a vitória do conservador Ildo Meneghetti. Em compensação, foi o deputado federal mais votado no país concorrendo no Rio de Janeiro. Um em cada quatro dos cariocas votou no Brizola. Ali ele plantou a semente para 20 anos depois, quando de seu retorno do exílio, eleger-se governador.

 

Que lição a Legalidade deixa para o Brasil hoje quando o país enfrenta, a cada dia, nova ameaça de golpe militar?

Acho que hoje as circunstâncias são diferentes. O momento é outro. Não há mais a guerra fria entre Estados Unidos e União Soviética. O cenário internacional é diferente e impede qualquer movimento golpista.

 

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