Um futuro social-ecológico? As alianças verdes-rosas-vermelhas nas eleições francesas

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11 Julho 2020

“Os ecologistas, aliados com socialistas, comunistas e outras expressões da esquerda, conseguiram importantes vitórias no segundo turno das eleições municipais francesas. A pandemia de covid-19 atualizou muitas das temáticas que já estavam sobre a mesa, e o discurso verde capturou sobretudo o apoio de setores urbanos e juvenis das grandes cidades”, escreve o jornalista Eduardo Febbro, correspondente na França do jornal argentino Página/12, em artigo publicado por Nueva Sociedad, 07-07-2020. A tradução é de Wagner Fernandes de Azevedo.

Eis o artigo.

Chegaram de bicicleta ao topo do poder municipal uma série de múltiplos pactos com as correntes da esquerda que começaram a se formar ao final de 2019, durante as manifestações contra a reforma das aposentadorias e se reforçaram ao longo dos meses do confinamento para combater a pandemia de covid-19.

No último 28 de junho, no segundo turno das eleições municipais, os ecologistas franceses foram protagonistas de uma consulta com várias conotações históricas: primeiro, houve uma altíssima abstenção de 60% do eleitorado; segundo, Europa Ecologia – Os Verdes (EELV) e seus aliados da esquerda e dos movimentos cidadãos ganharam cidades que, até esse momento, estavam calcadas na bipolaridade esquerda-direita ou diretamente à direita: é o caso da segunda maior cidade de França, Marselha (860 mil habitantes), controlada pela direita há um quarto de século e ganhada agora por Michèle Rubirola, a frente da lista Primavera Marselhesa; de Lyon, a terceira cidade do país (550 mil habitantes) e, sobretudo de Bordeaux (259 mil habitantes).

A capital da Gironda é a pérola da nobreza, o bastião mais arraigado da aristocracia vitivinícola, e estava há 75 anos sob o poder de conservadores e liberais. A aliança verde-rosas-vermelho-cidadã liderada pelo advogado Pierre Hurmic derrotou um candidato conservador respaldado pelo macronismo e a direita do ex-presidente Nicolas Sarkozy. Em Lyon ocorreu o mesmo: as listas da esquerda-radical da França Insubmissa e a dos socialistas se uniram com os verdes conduzidos por Grégory Doucet e assim venceram a direita, que havia forjado uma aliança “antinatural” entre Gerard Collomb, ex-socialista e ministro do Interior do presidente Macron, e os conservadores do partido sarkozista Os Republicanos.

Esses esquemas repetiram-se em Estrasburgo, Poitiers, Annecy, Tours, Besançon (oito das 40 cidades com mais de 100 mil habitantes) e em outras localidades pequenas, o que deixou os verdes e seus sócios no comando local de mais de duas milhões de pessoas (9% do eleitorado). Paris tampouco ficou alheia a essa tendência. A prefeita da capital francesa, a socialista Anne Hidalgo, com uma coalizão com os ecologistas, revalidou seu mandato vencendo a candidata da direita, Rachida Dati, e a ex-ministra da Saúde de Macron, Agnès Buzyn.

O golpe certeiro dos ecologistas franceses contribui para o fortalecimento do peso político dessa corrente, que já havia modificado as relações de forças em outros países da União Europeia e fora dela. É o caso da Alemanha, Bélgica, Países Baixos, Luxemburgo, Áustria, Suíça, Suécia ou Finlândia. A possibilidade de que se forme um “arco verde” entre os dois países que são o motor da União Europeia, França e Alemanha, começa a ganhar corpo, e cada vez mais com as eleições alemãs de 2021 e as presidenciais francesas de 2022.

O momento é chave, porque o ecologismo europeu desponta justamente quando a Alemanha assume a presidência da União Europeia e os cidadãos manifestam um giro em suas tendências. As pesquisas de opinião revelam que a ecologia supera inclusive temas como a imigração. A ministra alemã do meio-ambiente, Svenja Schulze, divulgou uma pesquisa onde 50% da opinião pública do seu país coloca a política climática acima dos estragos do coronavírus, as questões migratórias e econômicas ou a saída da Grã-Bretanha da União Europeia.

A irrupção ecologista foi também uma tábua de salvação para a moribunda socialdemocracia. Na França, os socialistas adotaram sua retórica à demanda verde e, onde foi possível, associaram-se com o ecologismo para não morrer. A etiqueta “ecologista” é objeto de apropriação de todos os partidos. A consulta municipal foi a primeira que ocorreu em um país central da União Europeia desde o início da pandemia. Essa eleição pós-confinamento prova que o vírus teve uma primeira tradução eleitoral. O diretor do departamento de opinião da consultora IFOP, Jérôme Fourquet, observa que “o modelo com que se leu a epidemia foi o da ecologia, com muitos questionamentos sobre nossos modos de vida e de consumo”.

Sarcasmos, ataques retóricos de mau gosto, qualificações como “utópicos irresponsáveis” ou avisos sobre “ecologia punitiva” não impediram o eleitorado. Nos anos 90, o fundador da extrema-direita francesa, Jean Marie Le Pen, os retratou como “melancias”, ou seja, verdes por fora e vermelhas por dentro. Durante a campanha de 2020, seus adversários os apelidaram de “Khmers verdes”, aludindo ao regime genocida cambojano de Pol Pot. A fórmula verde-rosas-vermelho-cidadão também inovou na posição privilegiada das mulheres nas listas. Estrasburgo, Rennes, Besançon, Nantes, Marselha, Paris, Poitiers ou Lille já são governadas por mulheres.

Os frutos atingiram a maturidade com a combinação de dois ingredientes internos ao movimento ambiental: os militantes dos anos 90, como o atual prefeito de Bordeaux, juntaram-se à geração mais jovem do século 21, em muitos casos decepcionados pelo Partido Socialista e suas terríveis ambiguidades, e oriunda da militância em ONGs de defesa humanitária ou ambiental (Gregory Doucet em Lyon, Jeanne Barseghian em Estrasburgo, entre muitos outros). Eles têm uma abordagem mais igualitária e, acima de tudo, menos corrompida pelas engrenagens do partido.

O impacto do voto verde tem outra variante, às vezes invisível, mas não menos importante: onde não venceu, a ecologia foi uma força decisiva na vitória dos candidatos de esquerda ou socialistas. Um exemplo é a cidade de Montpellier, onde o socialista Michaël Delafosse estava no topo de uma lista composta de socialistas, comunistas e verdes.

O líder verde Yannick Jadot defende um objetivo comum para todos os mandatos municipais: “demonstrar que a ecologia no poder é eficaz para a vida concreta dos franceses”. O objetivo verde alcançou um estágio e deseja pesar mais nas próximas eleições. Jadot assegura que “para o futuro, ainda precisamos ampliar o círculo, passando da geração climática aos empreendedores que investem maciçamente em ecologia. É necessário lançar uma vasta união em torno da ecologia com todas as forças de esquerda que a desejam e, além disso, de todos os cidadãos que se reconhecem nessa nova matriz política”. Os verdes vieram com uma dinâmica positiva desde as eleições europeias de 2019, onde ficaram na terceira posição com 13,47% dos votos, atrás do partido presidencial República em Marcha (LREM), com 22,41% e da extrema-direita do Reagrupamento Nacional, de Marine Le Pen, com 23,31%.

Esse sucesso terminou reformulando e disciplinando um partido que já havia começado uma fase de apaziguamento em 2017. Até então, a ecologia tinha um aspecto adolescente, ainda mais evidente desde que seus líderes se comportavam em público como crianças raivosas. Brigas, ódios, traições, divisões e raiva alimentaram a crônica política do partido. Julho de 2020 traçou uma linha sólida de lucidez. O poder está em suas mãos com perspectivas muito encorajadoras para o futuro. Julien Bayou, secretário nacional da EELV, observou que essas “novas vitórias permitem que a ecologia se enraíze duradouramente nos territórios, em várias cidades e grandes metrópoles, mas também em bairros populares onde a ecologia não tem eco”. Às vezes, uma dinâmica de transformação geralmente tem consequências colaterais que vão além do que está em jogo. Este tem sido o caso.

David Corman, ex-líder dos ecologistas, direciona sua reflexão nessa direção: “deixamos nossa zona de conforto, somos capazes de vencer nos bastiões da esquerda (Poitiers) e também ser uma força motriz para derrotar RN e LRM (a direita e o macronismo), como em Bordeaux e Lyon. Tornamo-nos em um valor de refúgio para os eleitores que romperam com Macron, mas também para o eleitorado de esquerda que acha que o relato clássico da socialdemocracia é obsoleto. Nossa narrativa prevalece sobre a da esquerda produtivista”.

A análise é pertinente porque os resultados da eleição mostram um raio-x no qual é notável a redistribuição dos equilíbrios à esquerda. O Partido Comunista perdeu praticamente todos os bastiões que controlava nos bairros populares por mais de meio século (Saint-Denis, Aubervilliers, Choisy-le-Roi, Champigny-sur-Marne, Arles).

Por sua vez, a esquerda radical de Jean-Luc Mélenchon, na França Insubmissa, foi a grande ausência e, com exceção de alguns casos, os socialistas permanecem na neblina. Com um aparato reduzido (a EELV tem apenas quatro funcionários), o ecologismo impôs seus temas e subiu ao nível de força motriz. No momento, não há controvérsia entre PS e EELV. Os socialistas enfraquecidos adiantam que estão abertos a apoiar “quem encarna a social-ecologia” (Olivier Faure, primeiro secretário do PS). Ambos entenderam que juntos são sinônimos de vitória. Yannick Jadot analisa: “a alternância não é feita em competição com o PS, mas em torno da ecologia. Onde ganhamos foi com união ampla, com projetos que têm três pés: ecologia, solidariedade e democracia”. Os verdes permanecem modestos e afirmam que não é o seu partido que conta, mas a ecologia. A EELV número dois, Sandra Regol, aposta nessa dinâmica quando afirma: “de agora em diante, a divisão política passa pelo paradigma ecológico”.

Os jovens “imaturos” em bicicletas, os “jardineiros utópicos” perturbam a composição do regime político francês emperrado. A última vez em que tiveram alguma incidência remonta ao final dos anos 90. Em 1997, quando o socialista Lionel Jospin foi primeiro-ministro, uma aliança bem conhecida foi formada com o rótulo sedutor de “esquerda plural” ou “esquerda arco-íris”, onde os ecologistas figuravam. Depois disso, eles nunca conseguiram chegar com força novamente. Somente em 2014, nas eleições municipais anteriores, eles plantaram as sementes das quais a selva emergiria em 2020.

Surpreendentemente, o candidato ecológico Eric Piolle venceu a prefeitura da cidade de Grenoble (170.000 habitantes) em 2014 com um modelo semelhante ao de 2020: aliança com o Partido de Esquerda, os Alternativos, a Esquerda Anticapitalista e algumas associações locais (lista Grenoble para Todos). Naquela época, ele era o primeiro e único líder ecológico no comando de uma grande cidade francesa e gradualmente se tornou a figura do pensamento ecológico renovado. Seu credo é o esboço de um “arco humanista” capaz de abranger toda a esquerda.

Piolle está entre os pesos-pesados do ecologismo e da esquerda que, em meio a uma pandemia, começaram a se mover para formar uma gama de alianças há muito esperada, mas nunca incorporada antes. Em 14 de maio, quando o terremoto social, financeiro e sanitário que a pandemia desencadeou devastou o país e o mundo, sindicalistas, líderes ambientais, comunistas, socialistas, movimentos anticapitalistas, ex-ministros e até economistas como Thomas Piketty publicaram uma tribuna na imprensa francesa pedindo uma profunda transformação ecológica e social, bem como a construção de uma plataforma plural para superar a crise. Nesse texto já havia sinais de mudança. Palavras apagadas do vocabulário como “trabalhador” (substituído por assalariado) circularam novamente. O texto era uma síntese do ecologismo, do que havia dado sentido ao progressismo e das contribuições das associações civis. Durante os 55 dias de confinamento, ecologistas, socialistas, sindicalistas comunistas e outros partidos de esquerda começaram a tecer a possibilidade de convergência nas urnas. Zoom ou WhatsApp foram o suporte de um diálogo que visava configurar o mundo pós-pandemia. De maneira paradoxal, o coronavírus curou as feridas das divisões. Havia, no entanto, uma ponte entre a Confederação Geral do Trabalho (CGT) e ecologistas.

Em dezembro de 2019, em meio a greves contra a reforma do sistema de pensões, a CGT e os ecologistas empreenderam uma reflexão conjunta que mais tarde se traduziria nas urnas. A pandemia também serviu como um manual pedagógico real para destacar que ecologia, igualdade, solidariedade, serviços públicos, cuidar de outros e salários não eram discursos desbotados do passado, mas uma necessidade renovada. O coronavírus fortaleceu a história do movimento ecológico e levantou dúvidas sobre os modos de consumo. Depois de três décadas falando em uma igreja deserta, o eclogismo conseguiu incorporar esse “mundo do amanhã” que já fazia parte de seu DNA: viver melhor, respeito ao planeta, crescimento não destrutivo, consumo controlado e não poluente, uma economia com menos carbono, etc.

Um presidente social-ecológico da França em 2022? Tudo é possível, ainda mais que a grande história macronista em torno do desaparecimento da clivagem esquerda/direita foi desfeita. As eleições municipais restauraram essa constante na história e deram à ecologia o status de árbitro. Perspectivas estratégicas profundas e meios reais de ação política nas mãos dos Verdes derreteram o bloco tradicional. Os “meninos rebeldes” lidam com o grande triciclo político com uma inegável preponderância: o caminho ecológico estruturou a campanha das eleições municipais. Essa predominância foi revertida nas pesquisas no primeiro turno de março e, três meses depois e com a pandemia no meio, em vez de desaparecer, aumentou. Associações, intelectuais e líderes de todo o mundo surgiram no meio para promover, em nome da ecologia, o que a chamada “esquerda burguesa” havia silenciado em sua retórica. Já havia uma base lançada entre 2018 e 2020: a visibilidade das questões ecológicas chegou ao topo com demonstrações globais em favor do clima e das marchas da juventude sob a bandeira da adolescente sueca Greta Thunberg.

Resta, porém, uma dívida pendente, e não menor: a conquista do mundo popular e do campo, a que, no momento, apenas a extrema-direita francesa está efetivamente acessando. Em um estudo para a Fundação Jean Jaurès, realizado pelo diretor do departamento de Opinião da consultoria IFOP, Jérôme Fourquet, e o geógrafo Sylvain Manternach, ambos acentuam uma tendência: “o voto ecológico é principalmente urbano. Os Verdes reúnem aproximadamente 11,3% dos votos em comunas com menos de 1.000 habitantes; 13,2% naqueles com 10.000 a 20.000 habitantes; e 19,4% em cidades com mais de 200.000 habitantes”.

Essa fronteira campo/zona peri-urbana foi o freio que limitou a expansão da esquerda radical da França Insubmissa e a que abriu a Marine Le Pen as portas do segundo turno das eleições presidenciais de 2017. Não há dúvida de que, da extrema direita, passando pelos liberais e conservadores, pelos socialistas e pela esquerda radical, a ecologia é um diploma de pós-graduação que todos buscarão obter. Algo, no entanto, mudou em profundidade: dos anos 1980 a 2019, a retórica que contaminou todas as partes foi a da extrema-direita. A ecologia está substituindo isso. O ecologismo em 2020 colonizou as preocupações de milhões de eleitores, transbordou o conteúdo dos partidos e se tornou a questão predominante. Talvez em 2022 haja um presidente “social-ecológico”, desde que o ecologismo consiga irrigar essa mal falada “França invisível” que vive do outro lado da tecnologia, das cidades confortáveis e da bicicleta.

 

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