Uma Europa entre a extrema direita e os verdes

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28 Mai 2019

O pior e o melhor, os pesadelos e os sonhos se mesclaram em uma noite eleitoral europeia que semeou grãos de esperanças e derrotas e onde os ecologistas surgiram da terra para frenar em parte a ascensão às alturas das extremas direitas.

A reportagem é de Eduardo Febbro, publicada por Página/12, 27-05-2019. A tradução é do Cepat.

Na França, pelo menos diante da retórica oficial, o presidente francês Emmanuel Macron perdeu a aposta de se situar acima da extrema direita, após as eleições para renovar o Parlamento Europeu, realizadas ontem, 26 de maio. O Reagrupamiento Nacional (RN), o partido da ex-candidata presidencial, Marine Le Pen, derrotada pelo mesmo Macron no segundo turno das eleições presidenciais de 2017, selou à noite sua coroa de partido mais votado da França.

A última contagem comunicada coloca o RN na liderança, com 23,3% dos votos, seguido pelo partido presidencial A República em Marcha, com 22,1%. Essas eleições modificaram o esquema da eleição presidencial de 2017. Há dois anos, Macron estava em primeiro e Marine Le Pen em segundo. Os que seguem também têm outro perfil. Lá onde em 2017 estava a direita de Os Republicanos, em terceiro lugar, e a esquerda radical de França Insubmissa, em quarto, agora aparecem os ecologistas com um histórico 13,1% dos votos (8,9%, em 2014), Os Republicanos com um escandaloso 8,4% e os insubmissos com um não menos acanhado 6,6%. Manutenção do centro liberal, consolidação da extrema-direita, renascimento dos ecologistas e naufrágio das esquerdas são as linhas centrais desse voto.

Em escala europeia, os partidos nacionalistas anti-migrantes saíram reforçados, ao passo que a direita global agrupada no PPE, Partido Popular Europeu, é a primeira força da Eurocâmara, seguida pelos socialistas. O PPE obteve 180 eurodeputados (221, em 2014), os socialdemocratas 151 (191, em 2014), os liberais 105 (67, em 2014), os verdes 69 (50, em 2014), enquanto todos os partidos eurofóbicos, estremas esquerdas e direitas incluídas, somariam 168, o que equivale a 25% em um parlamento composto por 751 cadeiras.

Estes 25% são uma espécie de salvação para as democracias europeias porque está longe dos 33% necessários para criar um caos legislativo na Eurocâmara. Todas as opções de alianças saudáveis ficaram abertas. Embora o indicador da França com a derrota do macronismo seja o fato mais notório, é preciso ressaltar que os ultranacionalistas xenófobos encontraram em seu caminho duas propostas com a qual ninguém contava para deter seu avanço: os ecologistas e os liberais. Ambos foram uma inesperada barragem de contenção, sobretudo os ecologistas e principalmente na Alemanha, 20% e na França.

Os eleitores mais jovens fugiram literalmente das litas apresentadas pela esquerda e da descomunal desordem e desunião que marcaram suas propostas em 2019. Na França, a esquerda escreveu e atuou no filme de sua própria destruição. O fenômeno verde se estendeu também à Dinamarca e Finlândia, onde o partido de ultradireita Os Verdadeiros Finlandeses foi deslocado pela proposta ecologista, com 15,3%.

Não obstante, a leitura dos resultados é imperativa para aqueles que, como o presidente francês Emmanuel Macron, montaram a cenografia eleitoral como uma guerra entre o europeísmo contra as propostas nacionalistas. Nesse contexto, o macronismo, defensor do euroliberalismo, perdeu na França, Itália, Polônia e Hungria de forma estrondosa. O projeto liberal europeu pensado por Macron como um plebiscito saiu vencido. O líder de A Liga italiana e ministro do Interior, Matteo Salvini, e sua aliada nesta cruzada campanha, Marine Le Pen, eram à noite as duas estampas de um nova Europa. No entanto, a ultradireita que já se via com a coroa do reino, derrapou em um convidado ecologista no qual ninguém apostava um euro.

O europeísmo liberal sofreu tanto como os socialdemocratas e as esquerdas. A socialdemocracia, a imagem e semelhança do SPD na Alemanha, é um novelo pequeno e pagou mais uma vez nas urnas o apelido que carrega há vários anos: os socialtraidores. Adeptos dos pactos com a direita e os bancos, após ter vencido as eleições (França 2012) com uma retórica oposta, desta vez o eleitorado não esqueceu.

O SPD alemão, aliado da chanceler Angela Merkel, caiu 12 pontos em relação a 2014. Uma das poucas exceções é Portugal e Espanha. Em Lisboa, o Partido Socialista do primeiro ministro Antonio Costa conquistou 30% dos votos, ao passo que na Espanha o PSOE colheu os frutos das últimas eleições gerais. As crises econômicas sucessivas que estouraram em 2001 tiveram um impacto destruidor nos países do sul, mais expostos que os demais às normativas liberais. Doze anos depois, a recomposição possível do socialismo europeu começa pelo sul da Europa, ao passo que na direção ao norte as extremas direitas prosseguem seu trabalho de trepadeiras perseguidas pelos ecologistas.

De forma global, a tragédia política está hoje no socialismo e nas esquerdas radicais. Na França, a França Insubmissa de Jean-Luc Mélenchon não reiterou seus resultados das eleições presidenciais de 2017 e das eleições legislativas que se seguiram (11%). A estratégia política de Mélenchon, seu personalismo, pesou contra um movimento de cujo barco desceram muitos jovens desencantados com o rumo do partido.

França Insubmissa perdeu nas duas frentes de seus objetivos: havia fixado como meta 11% dos votos, como nas eleições legislativas, e, além disso, chegar na primeira posição das propostas da esquerda. Nem um, nem outro. A punição foi ainda mais densa quando a lista de FI foi praticamente igualada com a do Partido Socialista (com o que se salvou do passado), que obteve 6,7%. As esquerdas são retalhos de um sonho. O candidato socialista para as eleições presidenciais de 2017, Benoît Hamon, mal chegou a 3,5%.

Na Grécia, o Syriza, que foi em algum momento a grande esperança da esquerda radical europeia, sofreu uma severa capitulação diante dos conservadores da Nova Democracia. Estes retiraram do primeiro-ministro grego, Alexis Tsipras, mais de nove pontos de vantagem: 33% contra 24%, uma enormidade que conduzirá à antecipação das eleições legislativas.

Não houve revolução ultraconservadora na Europa, mas, sim, uma confirmação de tendências já presentes há vários anos. Surgiu uma Europa um pouco mais marrom. A extrema-direita emergiu em primeiro na França, Reino Unido e Itália. Mas também do nada, sem que nenhuma pesquisa antecipasse, a Europa futura é muito mais verde.

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