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Entrevistas

O mundo global visto do lado de cá. Entrevista especial com Silvio Tendler

Lutando contra a barreira que a mídia faz, Silvio Tendler está divulgando o brilhante documentário “Encontros com Milton Santos ou O mundo global visto do lado de cá” por todo Brasil. Desde seu lançamento, no Festival de Cinema de Brasília, que aconteceu em dezembro de 2006, 14 mil pessoas já assistiram esse importante registro cinematográfico, político, histórico e jornalístico sobre o geógrafo que desenvolveu essenciais estudos de urbanização no Terceiro Mundo. Em sua obra, Milton Santos aborda, de forma inovadora, o conceito de espaço correlacionando com globalização.

“Encontros com Milton Santos ou O mundo global visto do lado de cá” trata do processo de globalização com base no pensamento do geógrafo que, por suas idéias e práticas, inspira o debate sobre a sociedade brasileira e a construção de um novo mundo.

Silvio Tendler é graduado em História, pela Universidade de Sobornne, na França. Realizou aperfeiçoamentos em Fotografia no Cinema, pela Escola Vídeo Fundição, e especialização em Cinema aplicado às Ciências Sociais, pelo Musée Guimet, na França. Possui mestrado em Cinema e História e doutorado em História, pela École des Hautes-Études, também na França. Atualmente, é diretor da Caliban Produções Cinematográficas e professor na PUC-Rio. A entrevista especial concedida à IHU On-Line foi feita por telefone.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Para você, como diretor, quais foram as peculiaridades desse documentário?

Silvio Tendler – Eu trabalhei com uma área que, a princípio, não é minha especialidade, pois minha formação é em História. E eu tive uma certa dificuldade de penetrar no pensamento do professor Milton Santos porque ele acha, a partir de sua própria biografia, que não devemos ficar olhando para trás, que precisamos olhar para frente. As referências dele são muito mais do tempo presente e da construção do futuro. Então, eu tive que adaptar o meu mecanismo de pensar o pensamento do meu biografado e entender o mundo através da ótica dele. Para mim, foi uma experiência sensacional do ponto de vista humano, filosófico, enfim. É por isso que eu faço cinema: sempre preciso mudar a minha maneira de pensar e adaptar ao pensamento do meu biografado para entender o mundo que ele me conta.

IHU On-Line – De que forma Milton Santos fala da democratização dos meios de produção, principalmente para os que estão às margens da sociedade globalizada?

Silvio Tendler – Ele é uma figura extremamente genial. Quem assistir ao documentário vai perceber que em 2000 ele falou coisas que nós estamos vivendo até hoje, como, por exemplo, a necessária inclusão dos excluídos. Hoje, nós discutimos a favela até sob uma ótica mais humana. Temos um grande debate no Rio de Janeiro entre invadir ou humanizar a favela e praticar a inclusão social porque o Milton Santos já tinha colocado essa questão há alguns anos. Milton diz que quem vai mudar o mundo são os pobres de cada país, de cada região, de cada cidade. E, na verdade, é isso que está acontecendo. Só depois da favela se rebelar, das pessoas estarem lutando nesses guetos, é que a sociedade, digamos, dos letrados e dos que comem bem, ficam clamando por paz, como se a paz fosse algo do tipo “páre de me agredir”. Eles agora estão entendendo que precisam negociar com os mais pobres, que esses chegaram ao seu limite de paciência. Então, o Milton Santos já falava disso. Hoje, por exemplo, na sociedade brasileira e no mundo inteiro, já se discute a democracia dos meios de comunicação. Até aqui foi um “passeio”, pois ninguém discutia democracia na mídia. Nós aceitávamos as coisas como eram e hoje temos vários fóruns nacionais e internacionais discutindo isso. No filme, o Milton Santos já observa que essa é uma questão em que a mídia tem profundamente a informação e o entretenimento ligados ao mundo das finanças. Por isso, o Milton Santos critica essa globalização que está aí, mas ainda assim é extremamente otimista. Os prognósticos dele foram acontecendo de forma muito mais rápida do que supomos.

IHU On-Line – Como é que Milton Santos percebia a globalização e seus avanços estando “do lado de cá”?

Silvio Tendler – O Milton Santos nunca foi contra a globalização. Até porque a globalização é um sonho de toda a humanidade. Na verdade, esse processo de globalização foi seqüestrado por um bando de empresas que o privatizaram, tirando um desejo da humanidade. Então, é claro que Milton Santos não contra os movimentos históricos, dos quais, afinal, ele é um dos partícipes. No entanto, ele é contra esse seqüestro do bem-estar comum, do uso e das apropriações das tecnologias novas e que permitem a humanidade viver muito melhor, mas que foram seqüestradas por empresas que se apropriaram dela. Ela é extremamente crítica! A humanidade hoje tem todos os meios para viver muito melhor e muito mais feliz, só que esses elementos foram expropriados por um pequeno grupo de empresas e de ricos. O que Milton Santos propõe é um outro modelo de globalização, que contempla todo o mundo.

IHU On-Line – A partir do pensamento de Milton Santos, como seria esse debate sobre a sociedade brasileira atual?

Silvio Tendler – Esse debate já está acontecendo. É a favela rebelada, são as pessoas se revoltando contra o controle da mídia. Hoje, já temos um grau de insubordinação coletiva que, por estarmos dentro desse processo, não nos permite perceber com clareza, mas você pode perceber que as condições de progresso e desenvolvimento em relação a essa ditadura globalizante. Então, elas são muito melhores hoje. Você tem um neoliberalismo completamente desmascarado, desmoralizado. No entanto, nenhum político menos privatista quer colado em si o rótulo de neoliberal. Temos, hoje, os movimentos sociais muito mais organizados, mas rebeldes. Mesmo que eles sejam criticados pela mídia, eles têm uma penetração hoje na sociedade, uma respeitabilidade que é muito diferente da que era há dez anos. Tudo isso o nosso Milton Santos previu e sinalizou. Temos hoje uma política internacional, que não é a que o Bush deseja, porque é preciso negociar, e há diversos países que são “pedrinhas no sapato dele”. Hoje mesmo eu recebi um e-mail de um professor estadunidense, que fala dessa política dos anos 1990 de tomar de assalto o mundo para poder revigorar a economia dos Estados Unidos, o que acabou dando errado. Eu acho que o mundo hoje está muito diferente do que foi há dez anos e daqui a dez anos será muito melhor do que é hoje.

IHU On-Line – De que forma a violência está presente na compreensão de ética da globalização de Milton Santos?

Silvio Tendler – O Milton Santos diz que não existe uma só ética, mas que existem várias éticas. O que você chama de ética não é, provavelmente, o que os mais pobres chamam de ética. Temos hoje todo esse debate na sociedade brasileira. O  que está se discutindo hoje no mundo todo e, obviamente, no Brasil, sobre a pirataria e sobre os direitos autorais, frente a um avanço de um processo de discussão sobre a própria noção de propriedade, envolve a ética, mas é algo abstrato, relativo. De que ética, afinal, estamos falando? Ética de grandes distribuidoras internacionais que se apropriam dos produtos culturais dos artistas e dos países. Temos, por exemplo, a voz de grandes artistas brasileiros aprisionados, hoje, pelos direitos fonomecânicos das gravadoras que, desculpe pela expressão, “não trepam nem saem de cima”, nem divulgam essas obras e nem deixam circular. E aí as gerações mais novas não conhecem, não têm direito de conhecer grandes ídolos, grandes cantores dos anos 1930, 1940, 1950, enfim, porque uma gravadora que sequer foi a que originalmente gravou ficou como herdeira dos direitos fonomecânicos de uma outra gravadora que já faliu e não os lança. No meio desse processo, se encontra a voz como prisioneira. Isso é uma ética. A outra ética é do cara que não tem onde morar, vê um prédio público abandonado no centro da cidade, entra, ocupa o espaço dele e vai morar perto do trabalho. São duas éticas diferentes. Como nós, de classe média, morremos de medo de perder nosso apartamentinho. Então, nós tentamos ser solidários com a ética do Estado, da justiça. A sua ética é diferente da ética de uma grande empresa multinacional de entretenimento que tem o direito, com três filmes, ocupar 95% do espaço cinematográfico brasileiro. O que é ética, então? O Milton Santos fala no filme que existem duas éticas: a dos que têm e a dos que não têm.

IHU On-Line – Você faz seu trabalho a partir da metonímia. Neste documentário, de que forma Milton Santos aparece para substituir um pensamento seu?

Silvio Tendler – Esse título é sincero e honesto, porque o documentário é realmente um encontro com Milton Santos. Nesse filme, eu não me escondo atrás da figura do Milton Santos para dizer coisas que eu gostaria de dizer. Na verdade, eu digo as coisas que eu gostaria de dizer e que são possíveis por conta desse encontro que me iluminou. Nesse caso aí, não há essa metonímia, quer dizer, quando falei do JK (1) queria falar de democracia, quando falei do Jango (2) queria falar de justiça social. Quando eu falei com o Milton Santos estou, realmente, falando com Milton Santos, então eu não estou escondido atrás do Milton Santos, mas estou refletindo com ele. Nesse caso, foi diferente.

IHU On-Line – Dizem que seus filmes são didáticos, que você quer dialogar com o público. O filme tem sido aplaudidíssimo por onde é apresentado. Mas o que você acha do fato de Encontro com Milton Santos ou O mundo global visto do lado de cá, sendo um documentário, não ter lugar nos grandes cinemas?

Silvio Tendler – As pessoas não têm esse preconceito com o fato de ser ou não ser didático. Isso é uma babaquice de certos críticos de cinema. Isso é uma bobagem de quem se diz “entendido”. Isso porque na verdade qualquer filme, sobretudo documentários, deseja se comunicar com o público. Eu estou fazendo um filme através do qual eu quero falar com você, e não para meu deleite. Eu não preciso criar um espetáculo de massas e tratar como idiota dez, quinze mil espectadores que têm que entrar na minha viagem particular. Eu quero conversar, discutir com eles. Então, nesse filme eu vou tratar os elementos necessários para que nós possamos interagir. Eu apresento um ponto de vista e o espectador sabe com quem está falando, tem o direito de concordar ou divergir, mas sabendo o que eu penso. É como essa entrevista: eu poderia estar falando a você frases geniais absolutamente desconexas, discutir o ser e o nada do ponto de vista filosófico num nível de abstração absurdo. Existe um filme sobre isso que se chama Muito além do jardim (3), que é um sobre um jardineiro bobo e não fala nada e vai sendo colocado em situações até chegar aos Estados Unidos. Eu acho que certos críticos, que são fundamentais no desenvolvimento da arte, não conhecem em cinema o que é documentário, não conhecem suas linguagens, estão sempre aplaudindo a última novidade. São esses críticos que tratam meu cinema como se fosse didático, me subestimando, mas o que eu faço é um processo de comunicação. Se meus filmes não são bons, se são apenas didáticos, por que quando eu passo eles em Festivais de Cinema, eles ganham, invariavelmente, o Prêmio de Júri Popular? Em 1984, em Gramado, em plena ditadura militar, foi armado um esquema para o Jango não ser premiado pelo júri oficial, mas não conseguiram censurar o júri popular, que deu maioria de votos para o Jango. Agora, em Brasília, no ano passado, aconteceu a mesma coisa: o júri oficial não deu nada para o Milton Santos, deu tudo para um filme absolutamente idiota e que foi um fracasso de público, um filme pífio. No entanto, o meu documentário sobre Milton Santos ganhou o prêmio de Júri Popular. Se o Júri Popular, que é formado por quem gosta de cinema, gosta de filme, paga pelo ingresso e vota nesse filme, dá o prêmio, significa que esse filme é bom. E há um outro problema aí, que agora temos dentro dessas babaquices cinematográficas, que é a idéia de que você não pode botar o texto narrativo em off. Todos os filmes têm texto narrativo em off, só que como as pessoas têm essa veleidade de serem artísticas, dizem que o texto em off é a voz imperial do autor, esses caras narram os próprios filmes ou chamam alguém da família ou conhecido como narrador. Ora! Se eu posso trabalhar, pôr no meu filme, Fernanda Montenegro (4), Beth Goulart (5), Osmar Prado (6), Milton Gonçalves (7), Mateus Nachtergaele (8), por que eu não vou fazer isso? Por que eu não vou respeitar o seu desejo de ver um filme bom? Só porque é um filme popular? Porque é um filme que trata de globalização ele não pode ser interpretado por grandes artistas? Que bobagem é essa?

Aqui no Rio de Janeiro, o filme passou na Bienal da Une, no cinema Odeon, de graça para todos os estudantes. O filme passou também no Circo Voador para 500 jovens, que vieram de todo o Rio de Janeiro para assisti-lo. Foi exibido na Escola Florestal Fernandes, em Guararema, do MST. Também na Escola Milton Santos, em Curitiba. Tudo gratuito, para um público que precisa vê-lo. Por outro lado, eu quero ocupar os espaços dos cinemas tradicionais, porque eu preciso mostrar que o público brasileiro não é tão idiota de só querer ver entretenimento medíocre. Eu, hoje, estou lançando este filme absolutamente sem mídia, sem nenhum dinheiro para lançá-lo. No Rio Grande do Sul, ele passou sem um anúncio, só foi divulgado no boca-a-boca. E esse filme, hoje no Brasil, já teve 14 mil espectadores. Ele não tem notícia, mas vai virando notícia. Por exemplo, a partir dessa entrevista ele vira notícia. Eu quero esse tipo de difusão. Eu não quero a glamourização do espetáculo. Eu quero que a sociedade brasileira possa discutir o que nós estamos fazendo.

Notas:

(1) Anos JK – uma trajetória política é um documentário de 1980, dirigido por Silvio Tendler e conta a trajetória do presidente brasileiro Juscelino Kubitschek, desde sua estréia como político, passando pela construção de Brasília, até a perda dos direitos políticos.

(2) Jango, documentário de Silvio Tendler, retrata a vida política brasileira dos anos 1960, tendo como fio condutor a biografia do presidente João Goulart. Sua ascensão e queda, até a morte no exílio, é reconstituída a partir de material de arquivo e entrevistas com Ministro Afonso Arinos de Melo Franco, Raul Ryff, General Antonio Carlos Muricy, Leonel Brizola, Celso Furtado, Frei Betto, entre outros.

(3) Muito além do jardim é um filme de Hal Ashby, produzido em 1979, que conta a história um homem ingênuo, passa toda a sua vida cuidando de um jardim e vendo televisão, seu único contato com o mundo. Ele nunca entrou em um carro, não sabe ler ou escrever, não tem carteira de identidade, resumindo: não existe oficialmente. Quando seu patrão morre, é obrigado a deixar a casa em que sempre viveu e, acidentalmente, é atropelado por um grande magnata, que se torna seu amigo e chega a apresentá-lo ao Presidente.

(4) Fernanda Montenegro é uma consagrada atriz brasileira de cinema, teatro e televisão. É considerada tanto pelo público como pela crítica como a melhor atriz do Brasil de todos os tempos. Em mais de 50 anos de carreira, participou de dezenas de espetáculos teatrais, interpretando de tudo: da clássica tragédia grega à comédia de boulevard, do musical brasileiro a espetáculos de vanguarda.

 

(5) Beth Goulart é uma atriz brasileira, filha dos também atores Paulo Goulart e Nicette Bruno. Sua primeira participação na televisão foi no teleteatro Alô, Alguém aí?, de William Saroyan, exibido pela TV Cultura, em 1975. Estreou como atriz de telenovela em Papai coração, em 1976, na TV Tupi. Sua participação mais recente na televisão foi em Paraíso tropical, de Gilberto Braga, onde viveu a personagem Neli.

(6) Osmar Prado é um ator brasileiro. Atua no cinema desde 1984, quando estreou em Agüenta, coração, e na televisão, em 1965, com a novela Ilusões perdidas.

 

 

 

(7) Milton Gonçalves começou carreira em São Paulo, por acaso. Em vez de ser o motorista da família para qual sua mãe trabalhou, Milton preferiu tentar a profissão de gráfico e um dia, depois de assistir à peça A mão do macaco, a convite do ator Egídio Écio, saiu maravilhado. Tratou de entrar logo para um clube de teatro amador, do qual passou para um grupo profissional. Um novo diretor carioca procurava um ator para fazer um preto velho na peça Ratos e homens.

 

(8) Mateus Nachtergaele é ator. Já participou de inúmeras novelas, como América, e filmes do cinema brasileiro, como O auto da Compadecida e Central do Brasil.

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