"Cidade dos homens": a realidade do dia-a-dia das favelas cariocas. Entrevista especial com Paulo Morelli

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28 Setembro 2007

Cidade dos homens é o mais recente filme de Paulo Morelli. Uma continuação da linguagem e estética inovadoras lançadas por Cidade de Deus em 2002, mas com uma história diferente. Enquanto este falava da realidade do tráfico nas favelas do Rio de Janeiro, Cidade dos homens centra-se em dois personagens dessas favelas que contam as peculiaridades do seu cotidiano. Primeiro, veio a série homônima para a TV, onde um marco foi imposto sob dois olhares: a paternidade. Para contar essa história, Morelli inova mais uma vez, utilizando parte da série como flashbacks do filme, uma composição intermidiática, algo novo para o cinema brasileiro, que costuma pecar ao trazer roteiros da TV para o cinema, o que não aconteceu desta vez. Cidade dos homens não é apenas uma história interessante. O filme se diferencia de grande parte da produção nacional ao trazer personagens das favelas que retrata e mostra o seu dia-a-dia, explorando sentimentos que ultrapassam as salas de cinema. Para entender a criação dessa trama, a IHU On-Line conversou, por telefone, com o diretor do filme.

Paulo Morelli é arquiteto e urbanista por formação. Ao lado de Fernando Meirelles, Marcelo Machado e Beto Salatini, fundou a Olhar Eletrônico, produtora paulista de filmes publicitários e programas para TV, em 1980. Entre suas principais experiências desse período, estão os vídeos Época da ignorância (1985), realizado em parceria com Renato Barbieri; e Do outro lado da sua casa (1990). Junto com Fernando Meirelles, criou, em 1981, a O2 Filmes, onde se mantém na direção de comerciais. É diretor do curta Lápide (1997) e dos longas O preço da paz (2002) e Viva voz (2005).

Confira a entrevista.

IHU On-Line - Impossível não fazer uma comparação entre Cidade de Deus e Cidade dos homens. O primeiro revolucionou a estética e linguagem do cinema brasileiro. Como você tem tratado dessas comparações?

Paulo Morelli - A série já tinha um espírito diferente do Cidade de Deus, mas a idéia era justamente não fazer o Cidade de Deus parte II, mas sim dentro de alguns princípios de linguagem que vinham dessa família. Eles têm semelhanças e diferenças muitos marcantes e propositais. O Cidade dos homens nasce da semelhança, porque ele faz parte dessa família, desse estouro que foi Cidade de Deus. Dele nasceu a série de TV e já com outro perfil em relação a Cidade de Deus. Esse perfil da série é concluído no longa.

Talvez seja mais fácil falar antes das diferenças, porque as semelhanças são tão latentes. A grande diferença é que o Cidade de Deus conta uma história sobre o tráfico, e esse acaba sendo o personagem principal. É um filme quase sociológico, um filme sobre um lugar, uma situação muito ampla. E o Cidade dos homens vai para o extremo do particular: ele deixa de ser a história do tráfico e foca nas famílias, nos moradores, nos amigos, nas relações humanas dentro daquela comunidade. Esse filme agora fala das pessoas que sofrem com a pressão e o horror do tráfico que está presente, mas não é o personagem principal. Essa é a grande diferença desses dois projetos.

E existe, claro, uma série de semelhanças, como a maneira de filmar, a urgência de filmar com a câmera na mão, a inexistência de cenário. O cenário é sempre na favela, sem maquiagem. O filme tem um tom meio documental, o que é um elemento que veio do Cidade de Deus e nós mantivemos na série de TV e no longa Cidade dos homens. Também os atores são das próprias comunidades: eles não são famosos e vivem até hoje nas favelas do Rio de Janeiro. A maneira de falar o texto também utilizou um método inventado pelo Fernando [Meirelles] (1), no Laboratório de atuação do Cidade de Deus. Para achar esses atores que vinham da favela e não tinham experiência, o Fernando fez um trabalho de meses e o método utilizado é definir as falas só nos ensaios e não no roteiro. O roteiro é indicativo: ele diz o precisa ser dito para que a história continue. Existe a narrativa, mas o como vai ser dito é totalmente improvisado nos ensaios, não na filmagem. Existe um grande improviso nos ensaios, meses antes, onde se pratica, se constrói a cena e surge o texto. Então, são algumas maneiras, procedimentos de fazer os filmes que faz com que eles tenham semelhança de linguagem, de estética e aí fica parecendo que são da mesma família.

IHU On-Line - Em que momento surgiu a idéia de rodar Cidade dos homens?

Paulo Morelli - Exatamente no meio do processo da TV. Foram quatro anos na TV e, no final do segundo ano, o Fernando me convidou para dirigir o longa. Nós desenhamos junto como seria o final de todo esse projeto, ou seja, mais dois anos de TV e um longa. Por causa disso, no terceiro ano da série, tomamos essa decisão. O que aconteceu foi que eu fiz a direção geral do ano seguinte, do terceiro ano da série, participei de todos roteiros e a gente plantou a história da paternidade naquele ano. Exatamente quando o Acerola (2) engravida uma menina, e o Laranjinha (2) começa a procurar insistentemente o pai. Isso que se conclui no longa-metragem foi plantado exatamente no meio da série.

IHU On-Line – Para você, que viveu esses dois momentos de Cidade dos homens, quais são as diferenças entre fazê-lo para a TV e para o cinema?

Paulo Morelli - Na verdade, eu sinto pouca diferença entre cinema e TV, no caso de Cidade dos homens. Porque eu acho que, quando fizemos a série, de certa forma nós já estávamos fazendo cinema. Nosso núcleo é ligado mais ao cinema. Não faz diferença se vai passar na tela grande ou se na tela pequena, pois a maneira de filmar é sempre a mesma: uma câmera. As equipes são de cinema, o time de pensar o roteiro e a história é o time do cinema, mesmo para TV. No fundo, nós fizemos a série para TV, mas como se fosse para o cinema. Quando voltamos para o cinema de fato, que agora é o longa, o processo é o mesmo, muito parecido. O processo tem pequenas diferenças: por exemplo, a série de TV foi filmada toda em 16mm (3) com zoom, para ser mais rápida, porque tem metade do tempo para fazer para TV do que se tem para o cinema. O zoom dá mais agilidade. Para o longa, como tínhamos o dobro de tempo, usamos apenas lentes fixas. Além disso, 20% de cena vem em 35mm. Basicamente os planos mais gerais, pois as duas câmeras estavam sempre juntas, então pegávamos a câmera 35mm e 16mm e no meio de uma cena mudávamos de câmera. Isso já veio do Cidade de Deus. Mas 80% do filme, o grosso, está em 16mm mesmo.

IHU On-Line - Como tem sido a receptividade do público?

Paulo Morelli - Muito boa. Estou satisfeito. Cerca de 215 mil pessoas já o assistiram; é um número bastante honesto. A repercussão de imprensa foi muito boa também. Agora, ele vai para o Festival de Londres, para um outro festival charmoso na República Dominicana e será lançado nos Estados Unidos em janeiro.

IHU On-Line - Como você acha que o filme será visto/recebido por quem não vive no Brasil?

Paulo Morelli - Eu acho que muito bem, mas é difícil saber por que cinema é uma gigantesca incógnita. Eu acho que o filme tem uma história muito humana, o que atrai as pessoas.

IHU On-Line - Como foi para os atores trazerem à tona essa problemática da paternidade que eles próprios vivenciaram em suas vidas?

Paulo Morelli - Foi uma questão delicada, uma conversa muito séria que tivemos com os dois atores principais. O Darlan (4) e o Douglas (5) não conheceram os próprios pais, então era muito delicado falar disso. Nós conversamos com eles para saber se ficava tudo bem falar de algo tão íntimo, tão pessoal, e eles toparam e se entregaram de corpo e alma.

IHU On-Line - Você acha que o Cidade dos homens produzido por você, para o cinema, rompeu com o padrão mais burguês transmitido pela televisão?

Paulo Morelli - Não. Eu senti liberdade do total na TV. O gozado é que eu não deixei de fazer o que eu quis na TV. A relação com a Globo foi muito bacana, muito democrática, muito aberta. Tem coisas na TV que eu acho mais impressionante do que no longa. Porque o longa não era sobre violência, sobre polícia, que é o caso do Tropa de elite (6), que está sendo exibido. Não eram esses os temas, mas sim o tema da paternidade e o da amizade. No longa, eu contei essa história e na TV eu fiz episódios extremamente violentos, mais do que no cinema. Na TV, eu fiz episódios da polícia recebendo grana e isso passou na TV. Por isso, não tive nenhum tipo de superação a fazer, à medida que a TV esteve sempre muito aberta para o que nós propomos ao longo dessas quatro anos, em termos de temática, de problemas sensíveis à sociedade. Ou seja, nunca encontramos nenhum impedimento e tivemos liberdade total estética. Eu só tenho a elogiar os parceiros e a ótima relação.

IHU On-Line - Qual é a importância para a sociedade brasileira em assistir ao filme?

Paulo Morelli - Pessoalmente, teve uma importância imensa. Para mim, ter feito Cidade dos homens, tanto na TV quanto no cinema, foi uma mudança de paradigmas na minha carreira. É muito importante porque existe uma grande diferença do que vivenciei. Tudo o que eu fiz, nos quatro episódios que dirigi, foi feito a partir de histórias que ouvi, e com isso eu criei uma dramaturgia. As cinco ficções que criei nasceram de muita pesquisa, de histórias verdadeiras, das emoções que eu senti a partir dos relatos, e isso é uma grande mudança, que irei adotar para o resto da minha carreira.

IHU On-Line - Qual é a diferença de Cidade dos Homens para os outros filmes que você dirigiu?

Paulo Morelli - Eu dirigi dois longas, além de Cidade dos homens: Viva voz (7) e um outro longa que nunca foi lançado para valer. E ainda dirigi um curta-metragem, chamado Lápide (8). Eu achei esse totalmente diferente, por causa dessa coisa da pesquisa que é distinto dos outros trabalhos que fiz. Os outros trabalhos são frutos de uma introspecção, principalmente o Viva voz. E Cidade dos homens não: ele vai numa realidade exterior a mim. Eu, por exemplo, nunca tinha entrado numa favela antes de fazer Cidade dos homens. Isso me colocou de frente a um universo desconhecido do qual eu tive que aprender a apreender e traduzir. Isso é uma grande mudança e eu achei muito bom, pois adorei fazer deste jeito.

IHU On-Line - Para você, como a favela pode ser entendida como uma identidade?

Paulo Morelli – Boa parte da nossa nação vive em zonas de periferia e de favela, onde o tráfico domina. Por isso, Cidade de Deus e Cidade dos homens fizeram tanto sucesso no cinema e na TV, pois as pessoas se viram retratadas. Isso é próprio da identidade, pois você se vê e se reconhece. Eu acho importante por isso, pelo grande motor por trás dessa história toda de Cidade de Deus e Cidade dos homens, à medida que eles se aproximam dessa parte da identidade nacional que estava sem luz, sem ser vista, sem ser retratada, iluminada. Essa é a importância do nosso trabalho.

IHU On-Line - O que as inquietações políticas da década de 1970 durante sua faculdade, as reportagens metafísicas e filosóficas dos tempos da Olhar Eletrônico trouxeram para teu trabalho atualmente?

Paulo Morelli - Eu acho que está tudo presente ainda. Eu tento manter tudo isso presente na minha vida e nos meus trabalhos. A inquietação política é um tema que é difícil de superar no Brasil. Não se pode falar que está tudo ou que é melhor mudar de assunto. É uma questão repleta de ilusões, desilusões, raiva, desespero, e nós vamos vivendo e passando esses sentimentos de década a década. Eu acho que esse olhar sobre a favela, no fundo, tem um viés político não diretamente, mas é uma visão política da nossa sociedade. Afinal, o que acontece com esse povo? Quem são essas pessoas que não são vistas e por quê? Isso não está diretamente no filme, mas está num plano de fundo das escolhas que são feitas.

IHU On-Line - E o futuro? Quais são os planos para depois de Cidade dos homens?

Paulo Morelli - Muitos planos. O Viva voz ganhou um prêmio de bilheteira da Ancine – Agência Nacional do Cinema, e com ele estou desenvolvendo um novo projeto. Eu estou desenvolvendo sete roteiros de longa-metragem e montando um grupo de desenvolvimento desses sete roteiros. Óbvio que eu não vou dirigir sete roteiros. Eu vou dirigir um, no máximo dois, e produzir os outros filmes aqui na O2 (9), convidando cineastas para dirigi-los. Esse é o meu projeto para os próximos anos.

Notas:
(1) Fernando Meirelles um cineasta brasileiro que ganhou notoriedade internacional pela direção do longa-metragem Cidade de Deus, em 2002. Também é reconhecido pela direção de O jardineiro fiel, de 2005, e da futura versão cinematográfica do romance Ensaio sobre a cegueira, de José Saramago, a ser intitulada Blindness. É um dos poucos brasileiros com direito de votar para o Oscar. Junto com quatro amigos (Paulo Morelli, Marcelo Machado, Dário Vizeu e Beto Salatini), Meirelles iniciou sua carreira com filmes experimentais. Com o tempo, fundaram uma produtora independente, Olhar Eletrônico. Depois, novos amigos se uniram ao grupo: Renato Barbiere, Agilson Araújo, Toniko e Marcelo Tas. Nos fins da década de 1980, o grupo foi se interessando cada vez mais pelo mercado publicitário. Em 1990, a Olhar Eletrônico foi fechado e se abriu a empresa de propaganda O2 filmes.

(2) Os personagens Laranjinha e Acerola apareceram pela 1ª vez no curta-metragem Palace II (2002). Posteriormente, estrelaram a série de TV Cidade dos Homens, exibida entre 2003 e 2005.

 

(3) 16 mm é um formato ou bitola cinematográfica. O filme 16 mm foi introduzido pela Kodak em 1923 para o mercado de cinema amador, doméstico. Terminou sendo, durante décadas, a bitola mais utilizada em documentários, filmes experimentais, filmes de treinamento e por cineastas independentes. O formato em 16 mm contribuiria de um modo decisivo para o futuro do cinema direto.

(4) Darlan Cunha, conhecido como Laranjinha, por ter sido um dos atores principais do Cidade dos homens e ficou conhecido pela mídia devido à sua atuação no filme Cidade de Deus. Iniciou carreira sendo selecionado para o curta-metragem Palace II, juntamente com Douglas Silva, que originou a dupla Acerola & Laranjinha que veio a ser protagonista da série de TV Cidade dos homens.

 

(5) Douglas Silva ficou famoso ao interpretar a infância do bandido Dadinho no filme Cidade de Deus, em 2002. Também ganhou notoriedade ao interpretar o Acerola na série Cidade dos homens.

 

 

(6) Tropa de elite é um filme brasileiro de 2007, do gênero drama, dirigido por José Padilha, sobre o Batalhão de Operações Policiais Especiais, tropa de elite da Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro. Este filme retrata o dia-a-dia do grupo de policiais e de um capitão do BOPE no ano de 1997 que quer sair da corporação e tentará encontrar um substituto para seu posto. Paralelamente a isso, há a história de dois amigos de infância que se tornam policiais e que se destacam por sua honestidade e honra. Eles ficam indignados com a corrupção no batalhão em que atuam e decidem entrar para o BOPE para lutar contra isto.

(7) Viva voz é o segundo filme dirigido por Paulo Morelli, mas foi o primeiro a ser lançado no circuito comercial. O outro filme já rodado pelo diretor é O preço da paz. Viva voz conta a história de um empresário que está prestes a receber uma grande quantia de dinheiro que mudará sua vida e neste dia ele tenta separar-se da amante, mas, por acidente, ela o abraça e, com isso, aperta o botão “send” do celular dele, acionando o número de sua esposa, que estava na memória. Ela, então, passa a escutar tudo que o marido e a amante conversam.

(8) É um curta-metragem produzido em 1997, sobre um casal que discute sobre o amor, a morte e a compra de um túmulo. Recebeu os prêmios de melhor curta metragem no Festival de Los Angeles, no Festival Rio Cine e no Festival Internacional de Curtas de São Paulo e de melhor diretor no Vitória Cine Vídeo.

(9) Fernando Meirelles e Paulo Morelli se formaram em arquitetura. Ainda estudantes, realizaram seus primeiros vídeos experimentais e se destacaram no meio. No início dos anos 1980, junto com alguns amigos, formaram a produtora Olhar Eletrônico, que ajudou a arejar, de forma criativa, a TV no Brasil durante os anos 1980. O grupo passou 10 anos produzindo uma série de programas para várias emissoras, como Antenas, 23ª Hora, Crig Rá!, O Mundo No Ar, entre outros, com destaque para o TV Mix, que lançou uma nova geração de apresentadores e diretores de TV no Brasil. Da televisão migrou para o cinema publicitário e, com a saída de alguns sócios, a produtora independente se tornou a O2 Filmes.

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