Ação Popular e a esquerda católica: um resgate. Entrevista especial com Fábio Pires Gavião

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27 Setembro 2007

"A esquerda católica e a Ação Popular (AP) na luta pelas reformas sociais (1960-1965)" foi o tema da dissertação de Fábio Pires Gavião. O movimento que formou a Ação Popular surgiu em 1962, após um congresso da esquerda católica. Lutava pelo socialismo humanista e foi composto, principalmente, de lideranças estudantis da época, tais como Betinho, Jair Ferreira de Sá, José Serra, Vinícius Caldeira Brant, Aldo Arantes, Haroldo Lima, Duarte Lago Pacheco e outros, contando ainda com a participação de lideranças camponesas e operárias. Ele fez seu trabalho sobre esse movimento em prol das reformas sociais até um ano após a instituição da ditadura militar, a qual jogou na clandestinidade seus líderes. Por isso, a IHU On-Line conversou, por e-mail, sobre este tema com o mestre em História.

Fábio Pires Gavião é graduado em História, pela Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho. Na Unicamp, obteve o título de mestre em História. Atua, principalmente, com os temas da religião, esquerda, movimento estudantil, Governo João Goulart, golpe de 1964, política e ideologia.

Eis a entrevista.

IHU On-Line – Qual é a importância para o movimento Ação Popular ter nascido dentro da Igreja Católica?

Fábio Pires Gavião - O cristianismo é uma cosmogonia religiosa, tal como o judaísmo, o budismo etc. Evidentemente, como um sistema filosófico ou um conjunto de representações do mundo social, o cristianismo contém implícita ou explicitamente uma dimensão política. A Ação Popular foi uma organização política que em sua origem (1962-1963) recebeu inúmeros aderentes oriundos dos espaços de militância católica, tais como o Movimento de Educação de Base (1), o Movimento de Cultura Popular (2), os Sindicatos Rurais Católicos, a própria Ação Católica (3), e até mesmo as Congregações Marianas (4). Entretanto, majoritariamente, os militantes da Ação Popular vieram dos quadros da Juventude Universitária Católica (JUC). No período enfocado em meu trabalho, a atuação da Ação Popular se dá com maior veemência no movimento estudantil. Os movimentos sociais de inspiração religiosa, como estes que confluíram para a Ação Popular, demonstram historicamente que a religião pode ser um fator de engajamento social a partir do momento em que, diferentemente do que se observa hoje com muita força, o discurso religioso se direcionava para o combate às injustiças sociais, e não apenas para suprir as demandas existenciais ou de prosperidade material dos indivíduos.

IHU On-Line - A partir do ideal que se imaginava (Revolução Brasileira), como a Igreja Católica foi da Ação Católica para a Ação Popular?

Fábio Pires Gavião - A Ação Católica não “virou” Ação Popular. Um grupo de militantes da JUC percebeu que não seria adequado valer-se dos movimentos de apostolado da Igreja Católica para desenvolver um trabalho eminentemente político, de conquista do poder mesmo. Com efeito, criaram uma organização não confessional, isto é, sem vínculos oficiais com a Igreja Católica, a Ação Popular. Na ocasião, a maior parte da hierarquia católica se opôs ao engajamento à esquerda dos militantes católicos. Mas a JUC continuou a existir como movimento de apostolado até 1966, e se desmobilizou completamente em 1968. Os cristãos que defendiam as reformas sociais e acreditavam estar em coerência com sua fé foram alvos privilegiados da máquina publicitária que legitimou o golpe civil-militar de 1964. Recebiam constantes acusações de serem traidores do cristianismo, criptocomunistas, neolaicistas etc. Ao cabo, o grupo hegemônico na hierarquia católica e amplos contingentes de católicos, principalmente dos setores médios urbanos, apoiaram o movimento golpista, o que ficou evidente em março 1964 com as “Marchas da Família com Deus pela Liberdade”.

IHU On-Line - Como se deu a influência guevarista e maoísta dentro da Ação Popular?

Fábio Pires Gavião - O ideário da Revolução Cubana (5) influenciou a cultura de toda a esquerda latino-americana no início dos anos de 1960. Com a Ação Popular não foi diferente. Entretanto, a opção dela pela luta armada, em moldes mais ou menos foquistas, foi considerada com mais efetividade após o Golpe de 1964. A convivência de lideranças de Ação Popular com Brizola (6) no exílio uruguaio em 1964 e 1965, segundo depoimentos dos próprios militantes, a exemplo do então Coordenador Nacional de Ação Popular Herbert José de Souza (7), parece ter sido muito importante para a adesão dela à estratégia da luta armada para combater a ditadura que se instalava no Brasil. No pós-golpe, a Ação Popular envia militantes para Cuba e para a China da “revolução cultural proletária”. Esses militantes estudam o processo revolucionário e recebem treinamento nos respectivos países. Desse modo, esboçava-se a disputa interna na Ação Popular entre seus dirigentes nacionais, para impor à organização a estratégia revolucionária mais adequada para a realização da propalada “revolução brasileira”: a da “guerra popular prolongada”, de inspiração maoísta e defendida pela chamada Corrente 1, liderada por Jair Ferreira de Sá (8); ou, como queria a Corrente 2, liderada por Vinícius Caldeira Brant (9) e Altino Dantas (10), os focos guerrilheiros. Essa disputa entre os dirigentes da Ação Popular resultou na expulsão dos adeptos da Corrente 2 em 1968, e também na definição da organização como marxista-leninista-maoísta. Esse momento também marca com mais evidência a aproximação entre Ação Popular e o PC do B, este último igualmente adepto do maoísmo. Em 1971, a Ação Popular muda seu nome para Ação Popular Marxista-Leninista (APML) e inicia o processo de fusão com o PC do B. Embora eu não tenha trabalhado com este período em minha dissertação, penso que os autores que se dedicaram ao estudo e análise deste período da trajetória da Ação Popular não consideraram a contento, em suas interpretações, a profunda alteração estrutural do campo político brasileiro após o golpe e as novas condições de possibilidade de uma prática política de oposição, ou seja, a clandestinidade. Esses trabalhos centraram suas atenções na chamada “luta interna” da Ação Popular e no debate teórico sobre os caminhos possíveis da “revolução brasileira”.

IHU On-Line - O romantismo revolucionário da Ação Popular pode ser entendido como uma crítica da modernidade em nome de valores e ideais do passado?

Fábio Pires Gavião - Essa é parte da definição do conceito utilizado pelo sociólogo Marcelo Ridenti (11) para pensar a cultura de esquerda no Brasil dos anos 1960 e 1970. Eu tenho dificuldades para pensar o discurso político da esquerda católica e da Ação Popular no pré-golpe como uma variação deste romantismo revolucionário. Penso que a Ação Popular, juntamente com as demais organizações de esquerda atuantes no contexto anterior ao golpe, foi bastante pragmática e buscou pressionar o presidente João Goulart a realizar as chamadas reformas de base, que tinham um caráter nacional-estatista. Essas reformas, para muitos na época, seriam necessárias para preparar a instauração de um regime socialista no Brasil. Tenho dúvidas se podemos identificar o nacionalismo que transpassava a cultura de esquerda naquele momento, e a busca do desenvolvimento e valorização de uma “cultura popular”, como uma nostalgia pré-capitalista ou uma “reação antimoderna”. Tendo a pensar do ponto de vista da luta pelo poder, das demandas práticas do jogo político.

IHU On-Line - Como  Mounier teve influência no pensamento da JUC na década de 1960?

Fábio Pires Gavião - Assim como tantos outros autores, entre eles Maritain (12), Lebret (13) e Chardin (14), Mounier (15) também compunha o rol de filósofos responsáveis pelo desenvolvimento do humanismo cristão francês da primeira metade do século XX. O humanismo cristão, do qual o personalismo de Mounier seria uma variante, se caracterizaria por uma filosofia política de Terceira Via, que buscava resistir às classificações “de direita” ou “de esquerda”. Esse ideário sofreu uma reperformance no discurso dos jucistas e apistas que se engajavam no movimento estudantil e na problemática política brasileira na virada da década de 1950 para 1960, ou seja, no debate sobre as estratégias para o desenvolvimento econômico brasileiro; ele foi utilizado para a construção de uma identidade político-religiosa distinta, que se queria mais à esquerda das gerações de militantes católicos anteriores (integralistas, conservadores e democrata-cristãos). A esquerda católica também buscou diferenciar-se dos concorrentes/aliados marxistas (PCB, Polop, trotskistas e independentes), enfatizando os elementos anticapitalistas da doutrina social da Igreja e do humanismo cristão, negando o comunismo soviético, o materialismo histórico, a ditadura do proletariado, o ateísmo e a abolição da propriedade privada dos meios de produção. Em nome de uma perspectiva filosófica chamada de realismo, o humanismo cristão também foi utilizado pelos militantes para creditar com o capital simbólico cristão/católico as reformas sociais reclamadas pelos setores mais à esquerda do campo político então vigente. Para além, tanto Maritain quanto Mounier foram pertinentes aos jucistas engajados no movimento estudantil, já que estes filósofos católicos promoviam uma espécie de ecumenismo político, defendendo a idéia de que os cristãos, que deveriam ser combatentes das injustiças sociais, em momentos estratégicos, poderiam e deveriam cerrar fileiras com os marxistas.

IHU On-Line - Como o pensamento da JUC contribuiu para a construção do pensamento acerca da Teologia da Libertação?

Fábio Pires Gavião - Penso que um engajamento político dos católicos à esquerda no campo político brasileiro, por meio de uma prática de alianças ou composições de frentes com as organizações e partidos marxistas, é algo em que o chamado “setor político” da JUC de 1960 foi pioneiro, o que certamente inspirou as formulações e práticas da Teologia da Libertação.

Notas:

(1) O Movimento de Educação de Base é um organismo vinculado à Conferência Nacional dos Bispos do Brasil - CNBB, criado em 1961. Seu objetivo é desenvolver programas de Educação Popular na perspectiva de formação e qualificação das camadas populares e promoção da cidadania, buscando trilhar os caminhos de superação em relação à exclusão social.

(2) Criado em 1960, na gestão de Miguel Arraes na Prefeitura do Recife, o Movimento de Cultura Popular (MCP) foi constituído por estudantes universitários, artistas e intelectuais visando a uma ação comunitário para a alfabetização de adultos. Seu objetivo era formar uma consciência política e social nas massas trabalhadoras no intuito de prepará-las para uma efetiva participação na vida política do País. O MCP criou, nos bairros periféricos, parques para a prática de esportes e para a apreciação crítica de filmes, de peças teatrais e de músicas, e praças de cultura, como centros de recreação e de educação. Um dos principais articuladores do Movimento foi o professor Paulo Freire. O MCP foi extinto com o movimento militar de 1964.

(3) A Ação Católica nasceu na década de 1930. Os leigos, sob orientação dos bispos, levavam a influência cristã para seus locais de vida e trabalho. Frutos da Ação Católica foram a Juventude Universitária Católica (JUC), Operária (JOC), Agrária (JAC) e Estudantil (JEC).

(4) Congregação Mariana é uma associação pública de leigos católicos. Constitui-se de grupos de cristãos católicos que buscam seguir a Jesus Cristo e têm uma devoção especial a Nossa Senhora.  Teve início em 1563, quando o jesuíta Pe. Jean Leunis começou, entre os alunos do Colégio Romano, em Roma, um sodalício cujos membros se distinguiam por uma vida cristã e mariana fervorosa e pela prática de diversas formas de apostolado. Enquanto as Congregações Marianas se espalhavam rapidamente pelo mundo, sobretudo nos Colégios da Companhia de Jesus, a Congregação Mariana do Colégio Romano foi erigida canonicamente, em 1584, pela Bula "Omnipotentis Dei" do Papa Gregório XIII, com o título de Prima Primaria. A ela passaram a ser agregadas, até 1967, as diversas Congregações de todas as partes do mundo, as quais podiam participar dos mesmos benefícios espirituais que lhe haviam sido concedidos pela Sé Apostólica.

(5) A Revolucão Cubana é um movimento popular que consistiu na derrubada do governo de Fulgencio Batista pelo movimento de 26 de Julho e o estabelecimento de um novo governo, liderado por Fidel Castro, no início de 1959.

(6) Leonel de Moura Brizola foi um influente político brasileiro, lançado na vida pública por Getúlio Vargas. Brizola foi o único político eleito pelo povo para governar dois estados diferentes (Rio Grande do Sul e Rio de Janeiro) em toda História do Brasil. Sua influência política no Brasil durou aproximadamente cinqüenta anos, inclusive enquanto exilado pelo Golpe de 1964, contra o qual foi um dos líderes da resistência. Por duas vezes, foi candidato a presidente do Brasil pelo PDT, partido que fundou em 1980, não conseguindo se eleger. Morreu aos 82 anos de idade, vitimado por problemas cardíacos.

(7) A formação do sociólogo e ativista dos direitos humanos Betinho teve grande influência dos padres dominicanos. Integrou a JEC (Juventude Estudantil Católica), a JUC (Juventude Universitária Católica) e, em 1962, fundou a AP (Ação Popular), da qual foi o primeiro coordenador. Durante o governo de João Goulart assessorou o MEC e defendeu as "reformas de base", sobretudo a reforma agrária. Com o golpe militar, em 1964, mobilizou-se contra a ditadura, mas, com o aumento da repressão, foi obrigado a se exilar no Chile, onde assessorou Salvador Allende, até sua deposição, em 1973. Escapou do golpe de Pinochet, refugiando-se na embaixada panamenha. Em 1981, junto com os economistas Carlos Afonso e Marcos Arruda, fundou o IBASE - Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas. Betinho também integrou as forças que resultaram no impeachment do ex-presidente Fernando Collor. Mas o projeto pelo qual se imortalizou foi, provavelmente, a Ação da Cidadania contra a Miséria e Pela Vida, movimento em favor dos pobres e excluídos.

(8) Jair Ferreira de Sá é um ex-militante da Ação Popular. Durante a ditadura militar exilou-se no Uruguai. Morreu depois de retornar do exílio.

(9) Vinícius Caldeira Brant é considerado um dos maiores sociólogos do Brasil. Em 1962, ele foi presidente da União Nacional dos Estudantes, UNE, e pertencia ao grupo cristão de esquerda Ação Popular. Com a ditadura militar, em 1964, Brant exilou-se em Paris, onde iniciou mestrado em sociologia. Voltou para o Brasil em 1968. Passou três anos na clandestinidade e acabou preso. Ficou na cadeia entre 1971 e 1974. Um ano depois, Brant foi convidado por Fernando Henrique Cardoso a integrar a equipe de pesquisadores do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento, Cebrap. Em 1980, ajudou a fundar o Partido dos Trabalhadores. Faleceu em 1999.

(10) Altino Dantas foi presidente da UNE de 1965 a 1966. No movimento estudantil a maior liderança do PSB. Depois, durante a ditadura militar, quando os partidos políticos foram extintos, Dantas filiou-se na Aliança Nacional Libertadora, uma organização comunista brasileira de resistência ao regime militar de 1964.

(11) Marcelo Ridenti é professor de sociologia na Unicamp. É autor de Em Busca do Povo Brasileiro - Artistas da Revolução (Rio de Janeiro: Record, 2000), entre outros livros.

(12) Jacques Maritain foi um filósofo francês de orientação católica. As obras deste filósofo influenciaram a ideologia da "Democracia cristã".

(13) Louis-Joseph Lebret foi uma frei dominicano francês com formação em Economia e Humanismo. Foi uma das pessoas que introduziu a preocupação com o povo para o desenvolvimento global.

(14) Pierre Teilhard de Chardin foi um padre jesuíta, teólogo, filósofo e paleontólogo francês. Como escritor, a sua obra-prima é O fenômeno humano. Como paleontólogo, esteve presente na descoberta do Homem de Pequim.

(15) Emmanuel Mounier foi um filósofo francês, fundador da revista Esprit e raiz do personalismo.