Marcha do MST pelo Rio Grande do Sul. Entrevista especial com Mauro Cibulski, Frei Zanatta e Nilton Lima

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25 Setembro 2007

Desde o dia 12 de setembro, cerca de 1.500 famílias sem-terra dividiram-se em três grandes marchas e seguem pelo Rio Grande do Sul promovendo debates acerca da Reforma Agrária. O Movimento dos Sem Terra (MST) pretende que até a segunda quinzena de outubro as três marchas se encontrem na cidade de Coqueiros do Sul. O movimento luta pela desapropriação da Fazenda Guerra, que abrange quase 30% do município de Coqueiros do Sul, mas gera apenas 6% de impostos à cidade. Numa área de nove mil hectares, a família Guerra emprega apenas duas pessoas de forma fixa e, em época de safra, gera cerca de 20 empregos temporários. As marchas pretendem assentar no local cerca de 500 famílias, o que geraria 1.500 empregos diretos.

Em maio de 2006, 23 prefeitos encaminharam ao presidente Lula uma carta pedindo a desapropriação da Fazenda Guerra. O documento também foi assinado por Nelson José Grasselli, presidente do Conselho Regional de Desenvolvimento da Região da Produção. No entanto, até agora, nada foi feito para a desapropriação da área. Os manifestantes pretendem ainda denunciar o descaso com que a governadora Yeda Crusius tem tratado o caso, ao fazer um verdadeiro desmonte das políticas sociais, favorecendo o agronegócio e, principalmente, à produção desenfreada de eucaliptos que tem destruído nosso meio ambiente.

Sobre o assunto, a IHU On-Line conversou, por telefone, com três líderes das marchas: Mauro Cibulski, da marcha que saiu da Região Metropolitana de Porto Alegre; Frei Zanatta, que acompanha a marcha provinda de Pelotas; e Nilton Lima, que está com os sem-terra vindos de Bossoroca.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – O que está acontecendo nas três marchas?

Mauro Cibulski – São três marchas que estão numa jornada de luta pela Reforma Agrária. Uma saiu de Eldorado do Sul e faz ações de protesto ao plantio e a monocultura do eucalipto, porque é o que está inviabilizando a Reforma Agrária hoje. A outra saiu da região sul, de Pelotas e de um município próximo, onde também há uma luta contra o plantio do eucalipto. A governadora Yeda liberou o zoneamento sem ouvir os técnicos das universidades e da Fepam, o que gerou uma disputa direta, pois nas terras onde poderia ser feita a Reforma Agrária, liberou-se o plantio de eucaliptos. É contra isso que esse segundo grupo luta contra. A terceira marcha saiu da região das Missões, passou por São Luiz Gonzaga e hoje está em Ijuí, debatendo o grande agronegócio na região que também inviabiliza a Reforma Agrária.

Então, as três marchas saíram com 500 famílias de cada coluna. Hoje, a marcha da Região de Porto Alegre está em Sapiranga. A marcha que saiu da região sul foi atacada por fazendeiros em Bagé. Eles atacaram o ginásio municipal, onde o pessoal da marcha estava acampado descansando. Os fazendeiros depredaram o ginásio municipal para tentar inviabilizar a marcha, mas não conseguiram. Hoje, essa marcha está a caminho de Caçapava. O pessoal que saiu da região das Missões está chegando em Ijuí.

O objetivo geral da marcha é discutir com o governo, com a sociedade e com as prefeituras alguns assentamentos onde hoje são os grandes latifúndios e, obviamente, fazer o debate sobre a Reforma Agrária. Qualquer assentamento que nós pretendemos pode ser comparado com qualquer latifúndio que produz alimento ou planta eucalipto ou soja. Essas três marchas estão seguindo rumo à Fazenda Guerra, que é um latifúndio de mais de nove mil hectares, onde 500 famílias podem ser assentadas. Essa fazenda gera, hoje, apenas dois empregos diretos e 20 indiretos em época da safra. Nós queremos discutir esse modelo que pode ser comparado com uma fazenda que fica logo ao lado. É por isso que estamos marchando. Há uma grande intervenção dos fazendeiros donos dos grandes latifúndios falidos, que estão entregando suas terras para Stora Enzo, Aracruz e outras empresas plantarem eucalipto, e nós queremos dizer que é possível assentar famílias nessas áreas. Nessas marchas, nós estamos dialogando com a sociedade e queremos chegar lá e ver se o Governo Lula terá coragem de fazer essa desapropriação, pois está nas mãos dele a história da Fazenda Guerra, da Fazenda Southall e tantas áreas grandes que estão sendo compradas por essas empresas que vão plantar eucalipto. É por isso que nós estamos marchando.

Eu estou na marcha que saiu de Pelotas e Capão do Leão, passamos por Bagé e agora chegamos agora em Caçapava do Sul (24 de setembro de 2007). A minha presença na marcha significa a presença da igreja no Movimento dos Sem Terra. Nós, em Pelotas, visitamos igrejas, bairros, escolas, rádios. Cedemos entrevistas a muitas rádios, explicando os objetivos da marcha. Nosso objetivo é chegar em Coqueiros do Sul, onde existe uma área de nove mil hectares de terra. O movimento quer a desapropriação dessa área, por ser uma terra que está nas mãos de apenas uma família. É uma área onde cerca de 500 famílias poderiam ser assentadas, proporcionando mais ou menos 1.500 empregos. Além dessa fazenda em Coqueiros do Sul, nós estamos reivindicando a desapropriação da área da Fazenda Southall, em São Gabriel, que abrange uma área de 13 mil hectares e cujo dono deve 50 milhões para o Banco do Brasil, Banrisul e INSS. Nosso objetivo é justamente fazer com que a Reforma Agrária possa avançar no Estado. Em cinco anos de Governo Lula, somente 700 famílias foram assentadas aqui no Rio Grande do Sul. Então, a Reforma Agrária no Estado está andando a passos de tartaruga.

IHU On-Line – De que forma o governo do Rio Grande do Sul tem dialogado com essa marcha?

Mauro Cibulski – O Governo do Estado mostrou que não quer apoiar a Reforma Agrária, à medida que ele acabou com o Departamento da Reforma Agrária, um instituto que seria o responsável por ela. No momento em que o Governo fechou o instituto, mostrou que não tem políticas em prol da Reforma Agrária e sempre foi muito contundente no sentido de dizer que o governo está do outro lado deste projeto.

Nós, na região de Região de Porto Alegre e Missões, enquanto estamos dentro da cidade, não estamos sofrendo muita repressão da polícia, apenas a vigia 24 horas por dia. Agora, em Bagé, os fazendeiros destruíram todo um patrimônio que é público, que é um ginásio onde os companheiros dormiram quatro dias. Os fazendeiros quebraram vidros, destruíram telhados, com bombas, foguetes, tiros. A Brigada Militar apenas ficou olhando. Isso demonstra que o Estado não tem política que está a nosso favor, mas sim mostra-se a favor do agronegócio. Até porque houve uma liberação do zoneamento para que se plante um milhão de hectares de eucalipto até os próximos dez anos. Nesse um milhão de hectares daria para assentar 43 mil famílias. Os eucaliptos plantados vão destruir a natureza e a biodiversidade. Além disso, vão acabar com a água, já que a região sul tem seca todo ano, por natureza, pela questão do clima. E a governadora Yeda tomou essa atitude independente da posição dos técnicos da Fepam.

Para o MST, há uma política que indica que a governadora Yeda vai apoiar essas empresas. Da produção dessas empresas, 98% são destinados à exportação. Essa exportação é apenas do produto que já está branqueado, ou seja, já utilizou muito cloro no processo. Além dos eucaliptos consumirem 30 litros de água por dia, o branqueamento desse material, que depois vai se transformar em papel, deixa todos os resíduos químicos no Rio Grande do Sul, na nossa natureza. Aos países importadores, fica apenas o trabalho de industrialização do material. A cada 185 hectares de eucaliptos plantados só se gera um emprego. Já na Reforma Agrária, teríamos cinco empregos gerados a cada 185 hectares. Cada família assentada gera três empregos diretos. Esse é o debate que nós estamos fazendo e esperamos que o Governo Lula volte às raízes, olhe para este problema, saia daquele patamar que está junto com a bancada ruralista que historicamente “mamou nas tetas” do Governo Público. Sabemos que a Governadora Yeda foi subsidiada pela Stora Enzo em sua campanha eleitoral e, assim, está destruindo o meio ambiente do Rio Grande do Sul, pois dá prioridade à produção dessas empresas. Nossas marchas também estão denunciando isso, e esperamos chegar com grande apoio da sociedade para afirmar que é possível produzir alimentos no lugar do eucalipto que, no Rio Grande do Sul, vai prejudicar o conjunto da sociedade e não apenas as famílias que poderiam ser assentadas.

Frei Zanatta – O Governo do Estado fez a opção bem clara a favor dos fazendeiros, e a Brigada Militar recebeu a nossa marcha muito mal em todos os lugares.

Nilton Lima – O Governo não está a nosso favor. Fizeram uma promessa de que iriam nos assentar no dia cinco de setembro e não fez nada até agora. Por isso, iniciamos a marcha. Estamos fazendo o nosso papel que é o de pressionar caso eles não desapropriem a Fazenda Guerra e Southall. Se não fizeram a desapropriação dessas, que façam de outros latifúndios.

IHU On-Line – Como está a relação com os ruralistas durante a marcha?

Frei Zanatta – Em Bagé, a relação foi muito tensa. Lá, os fazendeiros jogaram bombas, pedras, fizeram ronda, furaram os pneus do meu carro. Eles foram bastante estúpidos, porque a sociedade se voltou contra eles diante dessas atitudes. Os fazendeiros largaram foguetes durante todas as noites, sem deixar ninguém dormir durante quatro noites.

IHU On-Line – E como a sociedade tem recebido a marcha?

Mauro Cibulski – O debate com a sociedade está muito bom. As marchas não conseguem cumprir toda a agenda e estamos fazendo debates nos colégios, nas igrejas, nas associações dos bairros, enfim, o debate está muito bom! Na região sul, está mais complicado, pois os fazendeiros estão ameaçando os companheiros. Na saída da marcha da cidade de Bagé, a sociedade veio às ruas para dizer que está apoiando o projeto da Reforma Agrária. Então, há uma antipatia por esse projeto, pois, além de não assentar essas famílias, a monocultura do eucalipto está destruindo o meio ambiente. E nós queremos que o povo vá às ruas dizer que isso é ruim para a sociedade. Nós do MST estamos denunciando este projeto, estamos denunciando a ausência da Reforma Agrária e a concentração de terras. Essa marcha propõe não apenas a Reforma Agrária, mas pretende salvar um projeto que não gera morte como o eucalipto, e sim alimentos para a sociedade.

Frei Zanatta – O debate em Bagé não foi muito intenso por causa do tumulto que os fazendeiros causaram. Como não podíamos dormir à noite, descansávamos durante o dia. Não visitamos escolas, visitamos poucos bairros, mas conseguimos fazer um debate bastante bom nas rádios da cidade. E nós percebemos que, depois da nossa saída de Bagé, a sociedade deu continuidade ao debate da Reforma Agrária e da nossa presença por lá, que foi um escândalo por causa de tudo o que os fazendeiros nos fizeram, jogando bombas e foguetes sob o ginásio onde estávamos. A sociedade se colocou contra esses fazendeiros.

Nilton Lima – Tem ocorrido uma boa aceitação. O pessoal está aceitando as nossas colocações e concorda com nossas reivindicações.

IHU On-Line – Além da marcha, o MST tem planejado algum outro tipo de manifestação contra a plantação de eucaliptos no Rio Grande do Sul?

Mauro Cibulski – A idéia é chegar com as três marchas em Coqueiro do Sul e queremos que o Governo Federal tenha a sensibilidade de desapropriar a Fazenda Guerra, onde 500 famílias podem ser assentadas e gerar 1.500 empregos. Nós estamos caminhando com muito sacrifício, com muitas crianças, mulheres e homens dispostos a debater este projeto, e é por isso que estamos marchando. Esperamos chegar lá com apoio da sociedade para que possamos fazer grandes ações que impeçam o projeto da morte que é o deserto verde no Rio Grande do Sul, apoiando, assim, a questão da Reforma Agrária. As ações feitas durante a marcha dependem da conjuntura. Historicamente, o MST fez muitas ações, como ocupações de terra, ocupações de órgãos públicos que não funcionam e que são contra a Reforma Agrária, com o intuito de pressionar. Agora, nós esperamos que o Governo Federal e o Estadual caminhem juntos e observem essas questões para que nós não tenhamos a necessidade de fazer grandes ações, mas avançar num projeto que contribui para o desenvolvimento de toda a sociedade do Rio Grande do Sul.

Nilton Lima – Nós estamos passando por 50 cidades e pedimos que as pessoas que nos apóiam - prefeitos, vereadores, sindicalistas, etc. – sigam até o Incra e peçam a desapropriação dos latifúndios de sua região também.

IHU On-Line – O que está planejado para quando as três marchas se encontrarem em Coqueiros do Sul?

Mauro Cibulski – Isso ainda não está definido. Nós esperamos ser bem recebidos pela sociedade e pelo Governo e que, pelo menos, 500 famílias sejam assentadas. Se isso não ocorrer, as famílias deverão discutir o que fazer durante a chegada das três marchas.

Frei Zanatta – Nós vamos sentar e discutir o que podemos fazer. A conjuntura é quem vai determinar nosso encontro em Coqueiros do Sul.

Nilton Lima – Nós queremos que o Governo solucione este caso. Caso contrário, vamos tentar entrar naquela fazenda. A forma como faremos isso ainda é algo que não discutimos, mas vamos pressionar, com certeza.

IHU On-Line – Quando vocês pretendem chegar à Coqueiros do Sul?

Mauro Cibulski – Depende muito da conjuntura onde os fazendeiros estão atrasando. Em Bagé, por exemplo, a marcha deveria ter chegado na sexta-feira, mas os fazendeiros estão atirando, impedindo que a marcha chegue. E isso nos preocupa muito, pois temos muitas crianças, e a Brigada Militar não fez nada para impedir que os fazendeiros fizessem isso. A previsão de chegar lá é na primeira semana de outubro, mas é provável que a gente não chegue antes do dia 15 por todos esses imprevistos.

IHU On-Line – E qual é a situação atual da Fazenda Guerra hoje?

Mauro Cibulski – A Fazenda Guerra tem registrado sete mil hectares, mas na prática ocupa nove mil hectares. Faz quatro anos que o MST denuncia isto, e os Governos Estadual e Federal não tomam posição. É uma área que ocupa 28% do município de Coqueiros do Sul, o que é um absurdo, e gera apenas 6% de impostos do município. O projeto de desapropriação da Fazenda Coqueiros tem o apoio de 25 prefeitos da região que querem a Reforma Agrária. A Fazenda Guerra é vizinha da Fazenda Anonni, que mostra a viabilidade da Reforma Agrária. E é por isso que nós estamos marchando para lá. Não é porque o MST acha bonita a Fazenda Guerra. Nós queremos que esse lugar seja desapropriado porque vai gerar 1500 empregos diretos.

IHU On-Line – E, agora, as marchas seguem para onde?

Frei Zanatta – De Caçapava do Sul seguiremos para São Sepé, Santa Maria, Julio de Castilhos, Cruz Alta, Não-me-Toque, Carazinho e, por fim, Coqueiros do Sul, onde está a Fazenda Guerra. As marchas que saíram de Porto Alegre e Bossoroca devem chegar junto conosco.

Nilton Lima – Nossa marcha saiu de Bossoroca e estamos em Ijuí. Agora, seguimos para Panambi, Condor, Palmeira das Missões, Sarandi, até chegarmos a Coqueiros dos Sul.

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