A cultura da celulose sob o olhar de um pesquisador. Entrevista especial com Ludwig Buckup

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24 Setembro 2007

As investidas das empresas de celulose no Rio Grande do Sul continuam. Enquanto isso, mais e mais camponeses são expulsos de suas terras. As empresas continuam com seus privilégios, cedidos pelo governo do Estado, ainda quando inúmeros pesquisadores provam os grandes malefícios que essa cultura desenfreada de eucaliptos destrói o solo e o povo rio-grandense. Para alertar sobre esse fato, quase caótico, a IHU On-Line entrevistou, por telefone, Ludwig Buckup, professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Ele fala sobre as previsões para o Estado, caso a produção de árvores para celulose continue aumentando, e, ainda, sobre os riscos ambientais que essa cultura causa e sobre a atuação da Fundação Estadual de Proteção Ambiental (Fepam) neste caso.

Ludwig Buckup é graduado em História Natural pela UFRGS, com especialização em Ecologia de Répteis e Anfíbios. Possui doutorado em Zoologia, pela Universitat Tuebingen, na Alemanha. Atualmente, além de professor, é pesquisador do Inpa – Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia, consultor da Fundação de Amparo à Pesquisa de Santa Catarina – Fapesc, e conselheiro da Fundação Zoobotânica do Rio Grande do Sul.

Eis a entrevista.

IHU On-Line - O que acontecerá com o Rio Grande do Sul se a produção de árvores para celulose aumentar e as políticas públicas em relação à Reforma Agrária diminuírem?

Ludwig Buckup – São dois temas distintos, mas relacionados indiretamente. Digamos assim: a expansão das monoculturas arbóreas, das lavouras de árvores exóticas, visa a um objetivo econômico, ou seja, gerar renda, principalmente por parte das papeleiras, das empresas transnacionais que estão aqui no Estado procurando explorar a produção de madeira e celulose para exportação. No início do processo, havia pelo menos sinais de que talvez se pudesse considerar algum tipo de controle sobre a escala dessas plantações, mas o atual governo do Estado, com meridiana clareza, mostrou que pretende continuar flexibilizando as licenças para o plantio de eucalipto. Ou seja, essas plantações tendem a se espalhar, crescer de uma forma quase que em progressão geométrica. O grande problema decorrente disto tudo está na área ambiental e, portanto, na área social, à medida que qualidade de vida se apóia em qualidade ambiental, obviamente. Trata-se de considerar os custos ambientais e, portanto, sociais que decorrem da expansão das monoculturas de árvores. A questão da reforma agrária se liga a esse tema da seguinte forma, na minha ótica: o governo do Estado escolheu esta opção da agroindústria florestal como uma alternativa, segundo o governo, de resgate da sua sobrevivência econômica “da metade sul do Estado”. Na verdade, este processo expressa uma progressiva concentração de propriedade e de riquezas com forte exclusão social, porque o número de empregos ou formas alternativas de trabalho que são gerados pela plantação de árvores é muito reduzido comparado com outras atividades. Então, é de se esperar que ocorra um forte êxodo rural em função desta atividade com tendência a engrossar o cinturão de pobreza e de exclusão social que observamos em várias metrópoles brasileiras. Na verdade, é de se questionar se o grande objetivo do nosso campesino pampeano é ser empregado da Stora Enso ou da Aracruz. Eu imagino que o seu projeto mais ambicionado seja estar sobre um pedaço de terra seu, onde possa produzir para o sustento de sua família, para alimentar os animais que cria e levar os produtos que cultiva ao mercado próximo, enfim, permanecer vinculado às atividades que já o ligam ao ambiente da estepe sul brasileira há quase 500 anos.

IHU On-Line - Quais são os principais riscos ambientais dessa produção desenfreada de árvores para celulose que vai exigir uma quantidade de chuvas maior no Estado e, por conseqüência, vai tirar água própria para o consumo do povo?

Ludwig Buckup – Se nós observarmos a natureza e verificarmos quais são os perfis ambientais do pampa gaúcho, perceberemos que lá existe uma paisagem campestre, ou seja, são plantas herbáceas de baixo porte, com raízes quase superficiais, com escassa biomassa acima do solo, embora com grande variedade de espécies, ou seja, uma variedade biológica muito alta e que é a expressão perfeita das atuais condições de solo, de clima, de regime hídrico e assim por diante. E você substitui uma paisagem dessas por uma plantação de árvores que nunca existiu naquela região, excetuando algumas pequenas faixas de mata ciliar ao longo dos rios. Então, se percebe que se trata de uma profunda alteração da paisagem com inevitáveis conseqüências dos recursos bióticos e abióticos daquele espaço natural do Estado. Entre eles, se destaca, em primeiro lugar, a questão da água. O eucalipto é uma planta conhecida pela sua elevada taxa evapo-transpiratória. Ele realmente absorve e elimina grande quantidade de água em pouco espaço de tempo. Isto é relacionado a uma biomassa área muito volumosa em pouco espaço de tempo. Pelos cálculos existentes, a quantidade de água que o eucalipto elimina em função de sua fisiologia normal não é compensado pelos índices pluviométricos da metade sul do Estado. Estima-se que chova na região três vezes menos do que aquilo que as árvores do eucaliptal evapo-transpiram para a atmosfera. Aliás, não é preciso nem iniciar investigações aqui sobre este aspecto da fisiologia da planta, pois em outras partes do mundo já existem extensas investigações com resultados publicados em revistas de renome internacional, que já mostraram que o eucalipto já plantado tende a retirar água em excesso do lençol freático e quando essa água se esgota o eucalipto vai buscar nos arroios, nos riachos e nos rios. No sul da África, por exemplo, onde há extensas plantações, os rios tiveram decréscimo de 52% no seu volume de água. Observações idênticas foram feitas aqui no pampa argentino. Desse modo, esta seria uma das importantes conseqüências da expansão da lavoura de eucalipto no pampa gaúcho.

IHU On-Line - Qual é sua opinião sobre a última marcha dos sem-terra que lutam contra as empresas de celulose?

Ludwig Buckup – Eu não conheço as motivações precisas desse movimento nesta marcha. No entanto, eu acho que a inquietação de vários grupos sociais do Estado, especialmente os que têm sido menos favorecidos até aqui pelo perfil e modelo econômico do Rio Grande do Sul, é com a exclusão. Essas pessoas são excluídas do processo de produção do pampa com a expansão das atividades silviculturais. É preciso, por outro lado, também deixar bem claro o seguinte: ninguém deveria ser, e acredito que ninguém seja, de forma preconceituosa, contrário à possibilidade de se praticar a silvicultura do eucalipto como atividade alternativa ou complementar nas nossas praticas agrícolas. Afinal, a civilização contemporânea consome, por exemplo, uma grande quantidade de papel ainda. Até se poderia discutir o assunto. Quem sabe, a Unisinos abre um seminário sobre isto, sobre formas de se diminuir o consumo de papel e papelão. Mas precisamos de celulose ainda, tanto no Brasil quanto, principalmente, nos países de Primeiro Mundo. Aí o eucalipto é uma árvore adequada, pois tem fibras de dimensão adequada, crescimento rápido e promete renda, sem dúvida. Então, se trata muito mais de uma questão de escala. É perfeitamente possível se plantar eucalipto de uma forma controlada, evitando usar espaços demasiadamente grandes, invadir áreas que são impróprias por escassez de recursos hídricos, colocar em lugares onde existem altos índices e espécies raras ou ameaçadas de extinção e de ocorrência espacial limitada ou outras áreas, cuja vocação é outra até para a produção de alimentos, que é, ao que me parece, realmente mais importante. 95% da celulose produzida no Rio Grande do Sul é destinada à exportação, e o dinheiro que as empresas vão auferir desta atividade seguramente não compra alimentos para ninguém.

IHU On-Line - O Rio Grande do Sul é adequado para a indústria de celulose? Comporta a demanda que tem se instalado aqui?

Ludwig Buckup – Se você fala só da indústria da celulose e se admite essa atividade, posso dizer que a indústria de celulose pode ser colocada em qualquer lugar. Apenas é preciso ver, em primeiro lugar, se o espaço para a implantação das indústrias, por exemplo, dispõe de reservas hídricas suficientes para abastecer uma planta de celulose que consome muita água. Em segundo lugar, se o espaço tem condições de receber o volumoso influente tóxico produzido pelas plantas de celulose. E, de resto, se nós temos, por exemplo, uma malha viária qualificada suficientemente capaz de suportar o pesado trânsito da madeira e das toras de eucalipto para a planta de celulose e o posterior transporte para os portos de embarque para o exterior. Então, por aí é preciso realmente examinar a capacidade de receber. Eu fiquei, por exemplo, muito preocupado de verificar que a Stora Enso pretende edificar uma planta de celulose junto ao Rio Santa Maria, que já é uma região que já tem fortíssimas pressões da rizicultura e quem passa por ali, em qualquer parte, do ano, percebe que o rio ficou reduzido a uma fração daquilo do que era há 30 anos. E é sempre com forte impacto sobre as reservas hídricas do Estado.

IHU On-Line – E existe algum lugar no Brasil que seria mais próprio do que o Rio Grande do Sul para a cultura do eucalipto?

Ludwig Buckup – Esse dado eu desconheço. Este tipo de estudo deve ter sido feito e possivelmente as empresas vieram ao Rio Grande do Sul em primeiro lugar porque nosso clima parece favorecer o crescimento rápido do eucalipto e, em segundo lugar, porque as empresas tiveram uma sinalização clara de que o governo do Estado, este e o anterior, está disposto a flexibilizar todos os mecanismos de controle sobre a expansão desordenada do plantio de eucalipto.

IHU On-Line - Como o senhor avalia a atuação da Fundação Estadual de Proteção Ambiental (Fepam) na liberação das licenças para o plantio desse tipo de cultura?

Ludwig Buckup – A Fepam tem sido transformada, pelo governo do Estado, em um órgão inteiramente omisso. Teve as suas mãos amarradas e praticamente os técnicos foram afrontados pela iniciativa do governo de desconstruir o zoneamento que eles produziram. Eu tenho sobra de razões para depor publicamente sobre a excelente qualidade do trabalho realizado pelos técnicos da Fepam ao proporem o zoneamento que contemplaria todas as preocupações socioambientais que temos com relação à expansão dos eucaliptos. Acontece que esse zoneamento, como era de se esperar, impôs alguns limites para a livre expansão dos eucaliptais, e as empresas chantagearam o governo dizendo que se fosse daquela maneira eles iriam embora. Assim, o governo resolveu aceitar a chantagem das empresas que chegaram a promover diversas modificações na direção dos órgãos de proteção ambiental do Estado, desde o Secretário do Meio Ambiente até a direção da Fepam, que já teve três presidentes neste ano. Qual é o objetivo? É, através de uma legislação transitória extremamente questionável, representada pelos tais Termos de Ajustes de Conduta, flexibilizar o licenciamento e, portanto, o zoneamento e a plantação do eucalipto. Digo mais: todas as pessoas que estão aí realmente comprometidas, sem viés político, partidário, ou seja, de qual natureza for, tem percebido que o atual governo está empenhado de forma concentrada na total desconstrução de todos os sistemas de controle ambiental no Estado. Hoje se faz no Estado o que bem se entende na área ambiental.

IHU On-Line - Diversos movimentos sociais estão na luta contra o cultivo da celulose. Qual é o papel das universidades e dos pesquisadores nessa luta?

Ludwig Buckup – Neste caso, é preciso fazer uma diferença entre uma e outra universidade. Por exemplo, Santa Maria possui um setor muito forte no campo da engenharia florestal, através do trabalho de alguns docentes, que resolveu aderir às empresas e aceitou remuneração das empresas para produzir saber acadêmico para expansão da silvicultura. Aqui na UFRGS, já houve duas tentativas da Aracruz de se associar à universidade, mas esta iniciativa foi prontamente rechaçada pela comunidade, pelo menos por hora, porque nós entendemos que nós não podemos usar recursos públicos (laboratórios, pessoal, equipamentos e material de pesquisa) para favorecer uma atividade privada, no caso as indústrias de celulose, que visam a um lucro sobre os recursos naturais e que propõe uma atividade econômica que tem de tudo, menos a propriedade de serem sustentáveis. Porque sustentabilidade, isso se sabe desde a Conferência das Nações Unidas de 1972 em Estocolmo, é desenvolver-se, mas de tal forma que o uso de recursos naturais não afete a capacidade de produção das gerações subseqüentes.

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