Ombudsman e as mediações jornalísticas. Entrevista especial com Euclides Santos Mendes

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08 Julho 2007

Ombudsman é aquele jornalista responsável, dentro de uma instituição, por receber as críticas, sugestões e reclamações e age em defesa da comunidade. No Brasil, empresas como a Folha de S. Paulo e a TV Cultura foram pioneiras ao abrirem espaço nas redações para este profissional. Mas qual é o papel do ombudsman hoje no Brasil e no mundo? Esta questão foi estudada por Euclides Santos Mendes na dissertação “Mediações Jornalísticas na Era da Comunicação de Massa: o ombudsman na imprensa do Brasil e de Portugal”. Na entrevista cedida à IHU On-Line, por e-mail, Euclides relata os principais pontos do trabalho do ombudsman, da valorização dada a este profissional e também das questões de recepção e evolução que envolvem seu trabalho. .

Confira a entrevista.

IHU On-Line - Você pesquisou o papel do ombudsman no jornalismo do Brasil e de Portugal. Quais foram as principais diferenças e semelhanças que encontrastes nestes profissionais dos dois países?

Euclides Santos Mendes - A pesquisa que fiz é dedicada a uma análise das práticas jornalísticas no Brasil e em Portugal através do estudo comparado das colunas críticas semanais do ombudsman ou provedor dos leitores em dois jornais diários, a Folha de S. Paulo (Brasil) e o Diário de Notícias (Portugal). Usei como amostra para a pesquisa todas as colunas publicadas pelo ombudsman da Folha de S. Paulo, Marcelo Beraba, e pelo provedor dos leitores do Diário de Notícias, José Carlos Abrantes, no decorrer do ano de 2005. A escolha da amostra se deve às seguintes circunstâncias: o número de colunas publicadas pelo ombudsman de cada um dos dois jornais é exatamente o mesmo (43 colunas); os temas são, em parte, convergentes (sobretudo quando tratam da cobertura internacional, da crise de credibilidade da imprensa e de outras experiências relacionadas à ouvidoria dos leitores de mídia impressa). Além disso, escolhemos dois jornais que, se não bastasse o fato de terem sido os primeiros a adotarem o ombudsman na imprensa do Brasil e na de Portugal, são equivalentes no sentido de assumirem posição referencial no jornalismo brasileiro e português, bem como no jornalismo em língua portuguesa. Vale ainda ressaltar que o ombudsman da Folha de S. Paulo - instituído em 1989 - serviu de modelo para a implantação do provedor dos leitores do Diário de Notícias - criado em 1997.

As principais semelhanças que pude identificar dizem respeito, fundamentalmente, à relação do ombudsman/provedor com os leitores, jornalistas e demais fontes, bem como em relação ao conteúdo crítico da coluna semanal. Nos dois jornais, o leitor é a fonte mais utilizada pelo ombudsman/provedor dos leitores, o que não quer dizer, necessariamente, que os leitores sejam devidamente representados. No que diz respeito ao conteúdo da coluna, na Folha de S. Paulo o ombudsman se atém mais à crítica generalizada da imprensa, citando, freqüentemente, outros veículos de comunicação, principalmente os concorrentes diretos do jornal. No Diário de Notícias, a situação é praticamente idêntica, com a diferença de que o provedor dos leitores assume uma postura menos mercadológica, ao citar e criticar outros meios de comunicação.

Quanto às principais diferenças, elas dizem respeito, principalmente, à quantidade de temas abordados na mesma coluna, o uso de dados iconográficos etc. Ao passo que o ombudsman da Folha de S. Paulo faz uso do didatismo apregoado pela manual da redação do jornal, usando, por exemplo, infográficos que resumem informações, o provedor do Diário de Notícias procura ser didático, ao explicar os mecanismos e fatores que condicionam o processo jornalístico. O ombudsman brasileiro também o faz, porém de maneira menos discursiva e mais direta.

IHU On-Line - Mundialmente falando, o ombudsman no Brasil é valorizado como é em outros países, como nos Estados Unidos, por exemplo?

Euclides Santos Mendes - Não. Poucos meios de comunicação brasileiros adotaram a função. O ex-ombudsman da Folha de S. Paulo, Marcelo Beraba, acredita que, no caso brasileiro, são várias as razões para isso, porém três se destacam: a arrogância de jornalistas e de empresas jornalísticas que acham que estão acima das críticas, não suportam pressões e não admitem o reconhecimento do erro; as dificuldades que as empresas têm, por conta de seus interesses políticos e econômicos, de garantir autonomia e independência aos ombudsman; e a descrença de muitos na eficácia da função. A função seria mais valorizada se o ombudsman fosse totalmente independente do jornal, e visasse, sobretudo, ao diálogo criativo e plural entre os diversos grupos que interagem na sociedade.

IHU On-Line - Entre Brasil e Portugal, qual é o tipo de receptor atingido pelo ombudsman que realiza essas mediações jornalísticas?

Euclides Santos Mendes - O ombudsman expressa sua opinião através de uma crítica interna encaminhada diariamente à redação e uma coluna crítica semanal publicada pelo jornal onde trabalha. A crítica interna é endereçada aos jornalistas e a coluna é endereçada aos leitores. Em tese, portanto, jornalistas e leitores são os receptores mais visados pelo ombudsman, mas não são, evidentemente, os únicos.

IHU On-Line - A massa brasileira tem sido atingida da forma como se idealizava quando o espaço do ombudsman foi aberto?

Euclides Santos Mendes - O termo “massa” deve ser usado com cautela, pois não expressa, no seu conceito, os aspectos complexos que contextualizam as relações sociais. Além disso, não devemos nos esquecer que, no Brasil, é uma minoria que lê jornais diariamente e, dentro deste grupo, é uma minoria que escreve ao ombudsman. Daí podemos considerar que o ombudsman, tal como existe hoje no Brasil, tem pouca influência na formação do que podemos chamar “opinião pública”.

IHU On-Line - Como é a evolução profissional de um ombudsman brasileiro e um português?

Euclides Santos Mendes - No quadro geral de evolução do ombudsman/provedor dos leitores nos dois jornais pesquisados, acreditamos que há certa influência do ombudsman brasileiro sobre o modelo português. Porém, o provedor dos leitores é mais difundido em Portugal do que no Brasil. No Brasil, de fato, poucas empresas jornalísticas possuem ombudsman: além da Folha de S. Paulo, somente dois outros jornais (O Povo, de Fortaleza, e o Jornal da Cidade, de Bauru), a rádio Bandeirantes, a Radiobrás e a TV Cultura de São Paulo criaram ouvidorias do leitor. Vale ressaltar que, no caso da imprensa portuguesa, os jornais que possuem provedor dos leitores estão entre os mais prestigiados e populares do país: Diário de Notícias, Público e Jornal de Notícias. Também possuem provedores, em Portugal, os jornais Record e Setúbal na Rede, bem como a Rádio e Televisão de Portugal (RTP) - que adotou, ao mesmo tempo, dois provedores: um para o ouvinte, outro para o telespectador. Além disso, vale lembrar que o jornalista e pesquisador português Manuel Carlos Chaparro, radicado no Brasil desde 1961, mantém, sem assumir a condição de provedor dos leitores, uma coluna semanal de reflexão e crítica jornalística nos periódicos regionais O Ribatejo e GrandAmadora.

IHU On-Line - Faltam profissionais "ombudsman" qualificados no mercado de trabalho?

Euclides Santos Mendes - Ainda não há um consenso sobre que tipo de formação específica deveria ter um ombudsman. Na Suécia, onde surgiu a função, o ombudsman tem uma formação jurídica. No Brasil, os poucos meios de comunicação que adotaram o cargo exigem formação jornalística dos seus ombudsman. Porém, o que devemos considerar é que a qualificação de um ombudsman deveria estar pautada sobretudo por sua capacidade de mediar, na esfera pública, discursos e interesses diversos tendo sempre como ponto de referência o leitor de jornal. Na medida em que isto não acontece, o ombudsman perde sua legitimidade enquanto representante dos leitores e crítico do jornal no qual exerce suas funções. Uma das considerações finais do meu trabalho de pesquisa diz respeito a isso. Instância de reflexão e crítica dos jornais em relação aos leitores, mas também em relação ao mercado, o ombudsman situa-se na “roda viva” em que princípios éticos se chocam com interesses econômicos. Seu trabalho busca, em certa medida, ser polifônico - ao ouvir leitores, jornalistas, especialistas, outros ombudsman -, baseado numa estratégia que faz com que o jornal pareça ser mais pluralista. O ombudsman, enquanto “mediador” deste espaço polifônico, assume o “papel nada modesto” de tentar distinguir o verdadeiro do falso, o joio do trigo, a fim de “julgar” os casos postos em questão na sua crítica interna ao jornal e na coluna crítica semanal. Considero que o ombudsman de imprensa é aquele que, no labirinto das vaidades, ilusões, domínios e responsabilidades da comunicação jornalística, tem nas mãos o “fio de Ariadne”, isto é, a possibilidade de mediar “saídas”, no âmbito da crítica jornalística, para os conflitos e contradições da (pós) modernidade “líquida”. Porém, aquele que o elege é o mesmo que assusta aos que tentam guiar-se pelo fio: o minotauro assume as feições do Deus-mercado.

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