''O feminismo transformou o mundo''. Entrevista especial com Rose Marie Muraro

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07 Março 2013

“O feminismo é maior movimento social do século XXI”, avalia a escritora.

Aos 82 anos, depois de décadas dedicando-se ao estudo do feminismo, a escritora e física Rose Marie Muraro (foto abaixo) avalia que o movimento “mudou a consciência” do mundo, porque transformou as mulheres. “A mulher muda a consciência dos filhos e mudando a consciência dos filhos, ela muda a consciência das gerações. O homem não tem a mesma relação com a criança, ele se dedica mais às coisas práticas, enquanto a mulher se dedica mais às pessoas. Então, se você muda uma mulher, você muda o correr das gerações. Eu tenho a honra de ter ajudado, com a minha obra, a mudar a cabeça das gerações”, declara.

Na entrevista a seguir, concedida à IHU On-Line por telefone em ocasião do Dia Internacional da Mulher, Rose Marie assinala que, após terem conquistado espaço em diversas áreas, as mulheres devem se inserir no debate econômico e repensar a economia. Diante da conjuntura atual, sugere, a mulher deve se preocupar em “reinventar a economia, inclusive o dinheiro, que é o mal maior de todos. Reinventa-se como? Fazendo um dinheiro que não seja como o dinheiro americano, que é o dinheiro que conta, mas um dinheiro que seja medido com valores de todos os países e que seja tirada uma mediana disso tudo. Essa é hoje a grande finalidade do feminismo”.

Formada em Física e em Economia, Rose Marie Muraro publicou diversos livros, entre eles, sua biografia Memórias de uma mulher impossível (Rio de Janeiro: Rosa dos Tempos, 1999). Nos anos 1970, foi uma das pioneiras do movimento feminista no Brasil.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Fazendo um balanço da influência do feminismo ao longo da história, o que é possível dizer acerca das transformações do movimento? O que as mulheres devem ao feminismo?

Rose Marie Muraro –
O feminismo transformou o mundo. Como feminismo ele acabou, ele é agora o maior movimento social do século XXI. Quem me disse isso foi Michel Foucault. Hoje existem muitas mulheres em cargos de alta confiança, várias presidentes da república, e há um estudo da ONU que diz que quanto mais mulheres tiverem em altos cargos, menor será a corrupção. Essa é a coisa mais importante que o feminismo fez: diminuir a corrupção no mundo. Na questão política, basta ver o caso do Brasil, em que se fez mais pela mulher do que nos outros países do mundo. Também se faz mais pelos pobres. A presidente está acabando com a miséria, porque a mulher se dedica mais às pessoas, enquanto os homens se dedicam mais aos monumentos, estradas.

IHU On-Line – Como os papéis de feminino e masculino foram se reconfigurando ao longo da história do feminismo? O que mudou em relação ao imaginário e as expectativas em relação às mulheres como objeto de cama, mesa e banho?

Rose Marie Muraro –
Mudou a consciência. A mulher muda a consciência dos filhos e mudando a consciência dos filhos, ela muda a consciência das gerações. O homem não tem a mesma relação com a criança; ele se dedica mais às coisas práticas, enquanto a mulher se dedica mais às pessoas. Então, se você muda uma mulher, você muda o correr das gerações. Eu tenho a honra de ter ajudado com a minha obra a mudar a cabeça das gerações.

IHU On-Line – Ainda é possível falar em movimento feminista hoje? Quais são as demandas e as tendências deste e como elas se desdobram na sociedade atual?

Rose Marie Muraro –
Sim. Ele está mais ativo do que nunca. No caso do Brasil, veja que a secretária das políticas para mulheres é uma grande feminista. A presidente Dilma Rousseff é feminista, aprendeu comigo, Gleisi Hoffmann, Marta Suplicy foram todas minhas alunas. Então, elas estão fazendo esse trabalho de humanizar o mundo e não desumanizar, como estão fazendo os homens.

IHU On-Line – Como elas têm feito isso?

Rose Marie Muraro –
Através dos programas atuais. Veja o Brasil contra a miséria absoluta, o Brasil Carinhoso, todas essas ações que se fizeram de feministas.

IHU On-Line – Como avalia o movimento feminista Femen, que utiliza o corpo como instrumento de protesto político?

Rose Marie Muraro –
Estão elas muito bem. É preciso desmistificar o corpo, que é hipócrita essa pontificação 5-40 do corpo, ou que ela não é real.

IHU On-Line – Como o feminismo se posiciona em relação às mudanças no mundo do trabalho e aos impasses que ainda persistem nesse campo?

Rose Marie Muraro –
Eu estou arrepiada, porque as operárias domésticas irão ganhar do mesmo jeito que os operários de fábrica. Então, eu já não vou mais poder ter operárias domésticas, por exemplo. Esse é um avanço enorme. Agora irá mudar a nova classe média. Ficaremos como nos Estados Unidos, onde ter empregada doméstica é um luxo.

IHU On-Line – Quais causas o movimento feminismo deve propor atualmente?

Rose Marie Muraro –
A causa maior é a econômica. O feminismo já abrangeu todas as causas. As coisas convencionais foram a atuação da mulher no mercado de trabalho, a luta para que o salário feminino fosse igual ao salário masculino, todas essas coisas que já foram ditas exaustivamente.

Do ponto de vista da mulher, ela deve preocupar-se em reinventar a economia, inclusive o dinheiro, que é o mal maior de todos. Reinventa-se como? Fazendo um dinheiro que não seja como o dinheiro americano, que é o dinheiro que conta, mas um dinheiro que seja medido com valores de todos os países e que seja tirada uma mediana disso tudo. Essa é hoje a grande finalidade do feminismo. É preciso pensar a mudança do capital dinheiro, a mudança da tecnologia, a mudança da relação econômica.

IHU On-Line – Isso está acontecendo de alguma maneira?

Rose Marie Muraro –
Sim! Veja o Brasil: hoje é um país de ponta. Uma vez escrevi ao Lula um artigo chamado “Recado ao Lula”, logo no começo do primeiro governo, dando-lhe um esporro monumental, porque não tinha mulheres no seu ministério. Ele ficou tão assustado com a consequência que imediatamente começou a pôr mulheres aí e foi assim que mudou o Brasil. A crise exterior causada por motivos de manipulação do dinheiro pelos mais ricos não chegou ao Brasil, porque, em vez de trabalhar pelos mais ricos, a economia brasileira trabalha pelos mais pobres.

IHU On-Line – Quem são os ícones do feminismo de ontem e de hoje?

Rose Marie Muraro –
Bertha Lutz, Nísia Floresta, no século XIX que batalhavam pela liberdade da mulher. Tem muitos nomes. A Dilma está fazendo um trabalho feminista muito importante. Só o fato de querer trabalhar primeiro com os miseráveis, depois com os muito miseráveis e depois com o povo inteiro, já é um exemplo da diferença entre as crises europeia e americana que consistem em tirar dinheiro dos pobres e dar para os ricos. Você sabe que a crise, no sentido capitalista, significa realmente tirar o dinheiro dos pobres, quer dizer, cortar os subsídios sociais, cortar os impostos dos ricos e aumentar os impostos dos pobres.

IHU On-Line – É possível uma definição de quem são as mulheres do século XXI, seus valores e medos?

Rose Marie Muraro –
As mulheres do século XXI são muito mais notórias do que as mulheres do século XX. Eu falo sempre da perspectiva brasileira: olha a Gleisi Hoffmann, a Dilma, a Marta Suplicy, a Eleonora Menicucci. Elas trabalham como nunca ninguém trabalhou. E nós somos todas de um grupo só.

Sobre os desafios do feminismo, estão todos vencidos. Hoje nós já conseguimos tirar a miséria do Brasil. Esse é o principal desafio para o feminismo. Não é um desafio masculino, é um desafio da mulher.

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