''A Igreja será sinal pelo que falar e pelo modo de viver''. Entrevista especial com Mário França Miranda

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06 Outubro 2012

“Sem ampliar a participação do laicato, a Igreja não tem futuro”, declara o teólogo.

Confira a entrevista.


“A Igreja tem que ser sinal, ou seja, tornar visível o Deus invisível”. É assim que Mário França Miranda resume qual deve ser o papel da Igreja no século XXI, diante das novas gramáticas da civilização tecnocientífica. Antes de ministrar a conferência A semântica do Ministério da Igreja no contexto das gramáticas contemporâneas. Uma nova configuração eclesial para hoje?, o teólogo conversou com a equipe da IHU On-Line, e reiterou a urgência de a Igreja, se “atualizar” diante das transformações da sociedade atual. “Quando essa palavra não está sendo entendida, quando as pessoas não sabem qual é o sentido do sacramento, quando a comunidade se esfacelou, porque quando se fala em Igreja se pensa em padre e bispo, a Igreja precisa encontrar outras linguagens e outras estruturas para atuar”, sugere. E dispara: “Igreja deveria ser um local para o qual as pessoas pudessem olhar e dizer: ‘O jeito que eles vivem é melhor, eles são mais felizes, mais humanos’”.

Para ele, a “única maneira de tocar as pessoas, e mostrar que a fé cristã é significativa, é fazer aquilo que Jesus fez: ele não estava procurando enunciar uma doutrina, e nunca escreveu um livro”. E esclarece: “A Igreja tem de ser uma entidade de humanização”.

Na avaliação do teólogo, a Igreja só conseguirá avançar se permitir a participação ativa do laicato. O Vaticano II, menciona, possibilitou esta participação, mas o “Código do Direito Canônico”, apesar de reconhecer que eles podem ser consultados, não lhes dá direito a voto. “O leigo quer que sua voz seja reconhecida. Se o pároco somente escuta, mas não aceita a opinião do leigo, essa participação fica reduzida a pó. Por isso, tem de haver mudanças estruturais na Igreja, para que ela possa voltar a seguir a proposta de Paulo. Não tem sentido o papa nomear um bispo para um estado como Roraima, por exemplo; ele nem sabe onde fica a região. Durante o primeiro milênio essa relação era diferente. Tem de rever essa centralização”.

Mário França Miranda é professor no Departamento de Teologia da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio). Graduado em Filosofia, também é mestre em Teologia pela Faculdade de Teologia da Universidade de Innsbruck, da Áustria, e doutor em Teologia pela Universidade Gregoriana, da Itália, com a tese intitulada A autocomunicação de Deus em Karl Rahner. É autor de vários livros, entre os quais citamos Existência cristã hoje (São Paulo: Loyola, 2005).

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Como percebe a relação da Igreja com o atual contexto histórico e cultural?

Mário França Miranda –
É uma relação muito difícil. Parece que os tempos mudaram, a sociedade sofreu transformações, e a Igreja não conseguiu acompanhar. Eu não aplico essa afirmação somente à Igreja, mas a todas as instituições da sociedade, inclusive à universidade, à política, à medicina.

As instituições não conseguem se adequar às transformações porque elas são muito rápidas, sucessivas. Sabemos que é preciso mudar, mas como? Há um desafio muito grande, e a Igreja também está sentindo esse choque.

Entretanto, o que é mais característico na sociedade, hoje, são as conquistas da modernidade, como a liberdade da pessoa humana, o direito de participação nas diversas esferas da vida social e política. Nesse sentido, a Igreja deveria ter de rever sua concepção, porque sua estrutura ainda é muito medieval, ou seja, uma organização em que quem dá nota em tudo são as autoridades civis ou religiosas.

No Brasil colonial essa era uma característica marcante, e contestar a Igreja era um risco, porque o Estado estava amparado a ela. Nessa estrutura medieval, a participação era zero. Muitos costumam dizer que o laicato brasileiro deveria se manifestar mais nos dias de hoje. Ocorre que o laicato ficou em silêncio durante quase 500 anos, porque, caso falasse, estaria “perdido”. Isso criou uma passividade muito grande tanto do ponto de vista civil – o brasileiro ainda não sabe votar, não sabe participar – como do ponto de vista religioso, porque as pessoas também têm medo de se manifestar e cometer heresia. Essas são consequências de causas históricas do colonialismo. Foi somente a partir da instituição da República que a Igreja passou a ter mais liberdade. O laicato, porém, não estava preparado para discutir e participar. Esse é o grande problema atual do Brasil.

Transformações

Ao viver a sua fé, você está vivendo a fé de uma pessoa católica do século XXI, ou seja, trata-se de uma vivência de fé diferente da vivida pela sua avó. Portanto, o que acontece em nível pessoal também acontece em nível institucional. Costumo dizer que a maneira de a Igreja se organizar não “cai do céu”. Portanto, ela tem de ser capaz de criar uma comunidade de fé, saber passar a palavra de Jesus Cristo para as outras gerações, viver a caridade etc. Essas são as questões principais. Agora, a discussão é: como fazer isso? “Usem a cabeça”. A Igreja foi sempre buscar, na sociedade na qual estava inserida, modelos de instituição, a começar pelo Colégio dos Cardeais. Quando a Igreja “bateu” com o Império, o papa se tornou imperador, e os bispos viraram quase senadores. Por que um bispo tem mitra? Porque as autoridades tinham mitra. Por que os bispos usam um anel no dedo? Porque todas as autoridades usavam um anel no dedo. A Igreja tomou vários elementos da sociedade civil para mostrar que também é importante, ou seja, buscou o institucional na sociedade. Isso faz com que ela, de um lado, seja captada por essa sociedade, mas, por outro, se ela não avança com desenvolvimento da sociedade, fica para trás. Este é o problema de hoje: a Igreja não avançou à velocidade que deveria.

IHU On-Line – Essa é a principal diferença em relação à crise anterior pela qual passou a Igreja no passado? O que diferencia a crise atual de crises anteriores?

Mário França Miranda –
A crise atual começou antes dos nossos dias. Para mim, o Concílio Vaticano II foi a percepção, de João XXIII, de que ela – a Igreja – estava de costas para a sociedade. Quer dizer, tudo que vinha da sociedade era considerado ruim. Muitas das coisas condenadas por Pio IX foram assumidas pelo Vaticano II. Aquele católico que falasse em liberdade religiosa estava fora da Igreja. O Vaticano II mudou isso. A questão do evolucionismo também era criticada pelos católicos, e quem era evolucionista não poderia ser católico, mas hoje todo o Vaticano é evolucionista e ninguém mais se choca com isso.

A sociedade avançou em muitas coisas positivas, como a questão da pessoa humana, da liberdade, dos direitos humanos, da participação na República. No passado, a Igreja era contra a democracia, porque estava aliada à monarquia. Demorou-se para que a Igreja aceitasse a ideia de democracia, até que aos poucos alguns papas foram aceitando esse novo regime. Então, as mudanças são lentas.

Concílio Vaticano II

Para mim, duas palavras são centrais no Concílio Vaticano II: atualização, ou seja, estar próximo à sociedade para buscar nela os modelos de vida; e diálogo, no sentido de dialogar com a sociedade. Aliás, essas duas palavras foram referidas por Dom Aloísio Lorscheider, que participou do Concílio. Para poder se atualizar, a Igreja precisa conhecer a sociedade, e a Igreja não conhece a sociedade. Ela precisa ouvir os outros, os que não são cristãos; ela precisa ouvir os protestantes, ouvir quais são as ideologias da sociedade. Será que só a Igreja tem as verdades?

Certa vez, numa reunião com o cardeal Ratzinger – hoje Bento XVI –, ele nos dizia que os pós-concílios foram agitados, porque alguns bispos nunca aceitaram algumas posições. Então, o que vemos hoje é um esforço delicado para pôr as questões do Concílio Vaticano II em prática. Isso porque a Igreja anda a passos lentos, e com razão, porque dentro da Igreja existem várias gerações. Como costumo dizer, uma paróquia não pode fazer uma procissão somente para jovens porque, do contrário, os velhos ficarão para trás, nem somente para os velhos, porque os jovens não irão aguentar. Quer dizer, é preciso uma velocidade média para manter o pessoal compacto. De certa forma, a Igreja tem uma preocupação nesse sentido.

O Papa Bento XVI percebe essas questões e os problemas melhor do que João Paulo II percebia. Por outro lado, ele corta questões que eram quase sagradas no passado. Colocar a missa de latim para vernáculo é a coisa mais simples que tem, e a Igreja usou o vernáculo durante mil anos, e cada bispo tinha a liberdade de decidir em que língua ela seria celebrada, e ninguém estranhava essa questão. Depois de um tempo é que se uniformizou todas as missas em latim, e quando decidiu-se abandonar esse modelo muitas pessoas acharam que era “o fim do mundo”, e que as missas não seriam mais como no tempo de seus avós. O caso é que, bem antes do tempo de seus avós, a missa já era diferente.

Sagrado

Sobre as mudanças, a minha opinião é a seguinte: tudo que toca no Sagrado não pode mudar. Quer dizer, tudo pode mudar, menos a feição do Sagrado, porque tem algo de eterno nisso. Por isso é difícil para a Igreja ampliar a participação, que é um dos pontos centrais nesse contexto de transformações. Quer dizer, sem ampliar a participação do laicato, a Igreja não tem futuro.

IHU On-Line – Qual foi a maior importância do Concílio Vaticano II, e a mudança mais significativa da Igreja pós-conciliar?

Mário França Miranda –
As mudanças ocorreram em muitas áreas. Por exemplo, na abertura da Igreja em relação às outras religiões, porque antigamente as outras eram consideradas falsas. A seguir, pode-se ressalta o ingresso da Igreja no ecumenismo – ela foi a última a aderir a este movimento. Depois, a Igreja se preocupou em trazer para dentro de si a realidade da sociedade. Isso teve um peso muito grande no sentido de retratar a ação política do católico, por exemplo.

As primeiras semanas após o Vaticano II foram duríssimas: os episcopados holandês, alemão e francês, por um lado, e os episcopados italiano e espanhol, por outro, não queriam deixar tocar no esquema papa, bispo, padres e leigos. O Vaticano II colocou abaixo esse esquema, porque julgava que todos eram iguais diante de Deus, todos foram batizados e tinham dignidade. Eles alegavam que todos tinham o direito de falar dentro da Igreja, porque todos foram chamados para o apostolado. Quer dizer, o papa tem, do ponto de vista cristão, a mesma dignidade que o último dos católicos, porque todos foram batizados e salvos por Cristo. A palavra “todos” era sublinhada constantemente. Esse foi um dado recuperado da patrística, porque Santo Agostinho sempre dizia: “Com vocês eu me alegro, porque sou cristão como vocês, e isso é motivo de alegria. Mas para vocês eu sou bispo, e isso só me dá preocupação”.

IHU On-Line – Considerando a conjuntura de crise atual, quais são os desafios e as possibilidades dentro da própria Igreja?

Mário França Miranda –
Os desafios estão aí, postos pela sociedade. Depois do Concílio Vaticano II, já surgiram novos desafios, os quais não foram previstos à época, como a questão da ecologia. Como se sabe, não foi dentro da Igreja que nasceu o movimento ecológico, mas fora dela. A Igreja “entrou no bonde” depois.

A Igreja, hoje, tem que ser sinal, ou seja, precisa tornar visível o Deus invisível; tornar visível o transcendente. Como ela faz isso? Através de sinais visíveis: da comunidade cristã; da celebração do sacramento; da proclamação da palavra etc. Agora, quando essa palavra não está sendo entendida, quando as pessoas não sabem qual é o sentido do sacramento, quando a comunidade se esfacelou – porque, quando se fala em Igreja, pensa-se em padre e bispo –, a Igreja precisa encontrar outras linguagens e outras estruturas para atuar. A Igreja será sinal através do que falar e do que está vivendo. Os primeiros cristãos eram um sinal sem ter doutrina, sem ter Igreja, sem ter livros de teologia. Os romanos chamavam-nos de ateus e desconsideravam o fato de que eles se amavam e viviam de outra maneira. Então, o problema é como a Igreja pode falar para a sociedade, e como ela pode testemunhar, ou seja, apontar para uma realidade que não se vê.

Sinais

Veja a história de Madre Teresa de Calcutá: ela mexeu com a consciência do planeta, porque foi sinal, e esse sinal foi entendido. A Igreja tem de buscar sinais e mudar toda a sua doutrina e a sua linguagem. Quem entende a liturgia hoje? Eu sou padre, estudei teologia e, às vezes, fico pensando que as traduções do latim para o português são difíceis de serem compreendidas: o que é redenção, pecado? Será que é essa a mensagem de Jesus? As expressões têm de ser buscadas, mas também as práticas. Quem vai encontrar as expressões e as práticas? É o laicato, porque a sociedade hoje é supercomplexa. Antigamente a sociedade era uniforme, e todas as pessoas numa cidade pensavam do mesmo jeito. Hoje, existem subculturas enormes. Então, cada um tem as suas linguagens.

Outro dia um padre, que trabalha na favela da Rocinha, estava dizendo que a ética na favela não tem nada a ver com a ética dos livros e manuais de moral. Mas tem uma ética lá dentro, porque nenhum favelado rouba de favelado. Ele dizia que o laicato vai encontrar as expressões e práticas, e haverá uma pluralidade de expressões. Nós ainda estamos muito acostumados a confundir unidade com uniformidade. Uma coisa é a unidade: a Igreja durante mil anos foi una e diversa, com o mesmo Jesus Cristo e a mesma fé, adaptando-se a cada povo. Aceitar uma unidade na diversidade é o problema, e aí está toda a questão da enculturação da fé. Uma vez eu disse na Conferência Nacional dos Bispos do Brasil – CNBB que propor um diretório litúrgico, que valha desde Manaus até Porto Alegre, é passar por cima de todas as características regionais. Por que tem de ser tudo igual?

IHU On-Line – Como, nessa sociedade fragmentada, a Igreja pode ter um diálogo constitutivo com o mundo contemporâneo?

Mário França Miranda –
Só existe um diálogo com pessoas que pensam e, a meu ver, a Igreja já teve quadros relevantes em todo o mundo, mas depois do pontificado de João Paulo II isso caiu um pouco. Quer dizer, as pessoas mais inteligentes nem sempre eram as escolhidas. Basta comparar a CNBB no tempo de Dom Ivo Lorscheiter, Dom Luciano Mendes de Almeida. Eles não tinham medo, dialogavam com o governo, de igual para igual. Hoje, que representante da Igreja dialoga com o governo? Não vejo ninguém. Esse fenômeno acontece no mundo todo: não existem mais lideranças que dialogam. Então, a Igreja precisa de pessoas que pensem e tenham a “cabeça grande” para perceber que os outros estão falando coisas novas. Isso possibilitaria uma participação maior do laicato. A cultura dos jovens, por exemplo, a cada cinco anos é diferente. Então, a Igreja precisa aceitar essa diversidade e procurar perceber o que une a todos.

IHU On-Line – Como pensar a fé cristã dentro dessa pluralidade religiosa, e como propor a fé como um sentido de vida para as pessoas?

Mário França Miranda –
A única maneira de tocar as pessoas, e mostrar que a fé cristã é significativa, é fazer aquilo que Jesus fez: ele não estava procurando enunciar uma doutrina, e nunca escreveu um livro. Ele disse para os discípulos: “Ide, por toda parte, curai os enfermos e expulsai os demônios”, ou seja, mandou-lhes sair pelo mundo a diminuir o sofrimento e expulsar as doenças psíquicas daquele tempo e, se possível, tornar as pessoas mais humanas. Então, a Igreja tem de entrar nessa linha e ser uma entidade de humanização. Eu não vejo outra maneira. É claro que o ser humano tem necessidade de saber por que ele morre, por que ele nasceu. Faz perguntas a que o cristianismo responde. Mas o que toca as pessoas é fazer o bem, fazer algo pelos outros.

Superação

A Igreja não pode ser uma mera entidade filantrópica. Ela tem uma identidade, tem de remeter ao transcendente desse mistério que nos envolve. Mas como humanizar sem ser considerada imanente? Muitos valores cristãos já estão dentro da sociedade secularizada: ajudar o outro, lutar pela justiça, respeitar a liberdade. Tudo isso saiu do cristianismo. No Império Romano, essas questões não existiam, e, entre os gregos, também não. Na república dos gregos, os escravos estavam no porão trabalhando. A concepção de que somos iguais diante de Deus e de que somos iguais como irmãos aponta uma evolução tremenda na história da humanidade.

As revoluções Russa e Francesa são cristãs. Elas apenas secularizaram o reino de Deus e chamaram de ditadura do proletariado. Mas no fundo é uma humanidade onde todos têm tudo e partilham. Mas não era esse o programa do Reino de Deus. A Igreja, para Jesus, era uma sociedade alternativa, e o reino de Deus é isso. A humanidade toda é uma família e nós somos filhos do mesmo pai. Diante dessa compreensão, a Igreja deveria ser um local para o qual as pessoas pudessem olhar e dizer: “O jeito que eles vivem é melhor, eles são mais felizes, mais humanos”.

IHU On-Line – E qual é o papel da Igreja?

Mário França Miranda –
Alertar as pessoas para o que está errado na sociedade. E isso ela faz. Condena tanto o capitalismo selvagem como o comunismo, o fanatismo, a restrição de liberdade, o fundamentalismo. Por outro lado, a Igreja tem de trazer algo que diga que o que Deus quer é que sejamos felizes. Ao fazer isso, parece que estaremos perdendo algo, mas como disse Jesus: “É melhor dar do que receber”.

Hoje, a sociedade não é só pluralista, ela está dominada pela economia, e quem manda na sociedade hoje é o dinheiro. Se continuarmos assim, será impossível a convivência humana. Está se sacrificando cada vez mais a pessoa humana à produção de capital. Na crise da Europa, o Estado está socorrendo os bancos e não as pessoas.

IHU On-Line – Como o pluralismo e o sistema econômico desafiam o cristianismo?

Mário França Miranda –
O problema é que o sistema econômico transforma tudo em mercadoria, e tudo é válido pelo valor de mercadoria, e não pelo valor substancial. Tudo virou mercadoria: futebol, carnaval, religião, música. Aquela espontaneidade acabou. Esse é um desafio para a Igreja na medida em que ela diz que o importante é o ser humano. Quer dizer, a economia está a serviço do ser humano, e não o ser humano a serviço da economia, como acontece hoje.

Além da sociedade pluralista, essa pressão da questão econômica é muito difícil, porque parece que a Igreja está sem rumo. Ainda bem que na sociedade já têm muitas vozes gritando, dizendo que não é possível essa submissão à economia. É ótimo que estejam ocorrendo manifestações na França, na Espanha, nos EUA.

O setor petroleiro não deixa que outras energias cheguem ao mercado; o setor armamentista defende a fabricação das armas, e depois se tem um discurso bonito sobre a paz na ONU. É hipocrisia. A pessoa humana é a menos considerada. O individualismo de hoje é exatamente o contrário da mensagem cristã, que é amar teu próximo.

IHU On-Line – O senhor usa o conceito de maturidade eclesial. Como esse conceito se aplica hoje?

Mário França Miranda
– O laicato tem que ser melhor formado. No Brasil, os leigos têm bastante interesse pela teologia. Então, um laico mais bem formado e mais consciente é fundamental. Tem de mudar muito a estrutura dos padres e dos bispos, e disponibilizar mais espaço para os leigos participar. O Vaticano II diz, no Decreto dos Leigos, que todo leigo tem direito e dever de exercer o seu carisma. Essa frase foi cortada do novo Código do Direito Canônico, porque os que elaboraram o Código ficaram com medo.

Mas não se pode, como diz Paulo, extinguir o Espírito Santo. Então, essas pessoas têm de ter uma estrutura onde possam se manifestar. O Vaticano II possibilitou a participação do leigo, tanto que hoje ele ajuda na liturgia, pode pregar, lecionar para futuros bispos. Entretanto, faltou permitir a participação dos leigos no governo da Igreja. Tem muito leigo que é qualificado e poderia estar dando uma contribuição grande. Então, o Código do Direito Canônico reconhece que eles podem ser consultados, não tendo, porém, direito a voto. O leigo quer que sua voz seja reconhecida. Se o pároco somente escuta, mas não aceita a opinião do leigo, essa participação fica reduzida a pó. Por isso, tem de haver mudanças estruturais na Igreja, para ela voltar a seguir a proposta de Paulo. Não tem sentido o papa nomear um bispo para um estado como Roraima, por exemplo; ele nem sabe onde fica a região. Durante o primeiro milênio essa relação era diferente. Tem de rever essa centralização.

Manter a unidade sem centralização

Por outro lado, a Igreja é uma entidade canônica, uma “multinacional” de um bilhão de pessoas, apesar de tudo que já fizeram para acabar com ela. Governar essa instituição não é fácil, e tem de ter um governo com uma certa autoridade, para que a Igreja não fique fragmentada. O importante é aceitar a multiplicidade, a diversidade, mas manter a unidade sem centralização. É possível? Sim, é possível fazer um mecanismo de certo controle que de a possibilidade de as pessoas agirem com iniciativa, para se reinventar a si próprias. A Igreja é a única entidade que aguentou dois mil anos; então isso é algo de se pensar. É claro que, pela fé, sabemos que o Espírito Santo está presente.

IHU On-Line – Qual a importância do diálogo do cristianismo com as outras religiões?

Mário França Miranda –
É importante porque o planeta ficou pequeno e as religiões estão presentes. Se elas estão perto, então, há um desafio de entender por que somos diferentes. Surge assim uma série de questões que não existiam antes. Temos de conhecer as demais religiões, porque tem muita coisa boa nelas, e toda religião tem uma dimensão cultural, humana, mantendo a própria identidade.

Para que haja paz no mundo, a paz precisa passar pela diversidade religiosa. Depois, é importante que haja um ethos que possa ser abarcado por todas as religiões. Como não fazer o mal para o outro, por exemplo. O que ainda chama a atenção do ser humano? A única força capaz de relativizar o que está acontecendo é a religião, que diz que existem outros valores que não são somente os de ordem econômica.

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