O milagre da partilha

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28 Julho 2012

Se o pão que partimos e que comemos não nos diz nada do que nós temos a oferecer e a partilhar, mesmo que esse pão esteja consagrado, ele não consegue nos alimentar e nos transformar, nem nos fazer nascer como Igreja, como novo Povo de Deus, como discípulos do Ressuscitado. Talvez esteja aí uma das razões pelas quais muitos cristãos abandonam os nossos encontros eucarísticos...

A reflexão a seguir é de Raymond Gravel, padre da arquidiocese de Quebec, Canadá, publicada no sítio Réflexions de Raymond Gravel, comentando as leituras do 17° Domingo de Páscoa - Ciclo B. A tradução é de Susana Rocca.

Eis o texto.

Referências bíblicas:
1ª leitura: 2 Re 4,42-44
2ª leitura: Ef 4,1-6
Evangelho: Jo 6,1-15

Domingo passado, São Marcos nos deixava no limiar da história da multiplicação dos pães. Contudo, a liturgia do ano B prefere a versão de São João, porque a sua narrativa nos prepara para o discurso sobre o Pão da Vida que nos oferece o evangelista João nos quatro próximos domingos. Todos os evangelhos mencionam a multiplicação dos pães de Jesus, com duas versões diferentes em Marcos e em Mateus. Isso mostra a grande importância desse gesto de Jesus Ressuscitado para a Igreja primitiva. Para São João é o sinal por excelência que serve como ponto de partida do ensinamento de Cristo sobre o Pão de Vida. Podemos perceber uma conotação eucarística. Mas quais são as características da narrativa de João? Quais são as mensagens para a Igreja na atualidade?

1. Um sinal para os pagãos. Em São João, esse trecho da multiplicação dos pães, ou melhor, essa narrativa do dom e da partilha do pão não tem como primeiro objetivo alimentar as multidões, mas sim revelar o Cristo aos pagãos. Jesus está no primeiro plano; é ele que distribui os pães e os peixes, contrariamente aos outros evangelistas, onde os que distribuem o pão são os discípulos. A missão de Jesus Ressuscitado consiste em alimentar as pessoas com um pão duplo: o pão da Palavra e o pão da Eucaristia. Não diz em nenhuma parte que a multidão tinha fome. É Jesus, ele próprio, que decide alimentá-la, pois isso faz parte da sua missão e da missão cristã de ensinar a Palavra e de celebrar a Eucaristia.

A cena acontece em território pagão: “Jesus foi para a outra margem do mar da Galileia, também chamado Tiberíades” (Jo 6,1). Também João é o único que faz intervir Filipe e André, considerados como os próximos dos Gregos (Jo 12,22), e ele salienta, como se se dirigisse aos estrangeiros: “Estava próxima a Páscoa, festa dos judeus” (Jo 6,4). Isso mostra que ele se dirige aos cristãos da sua Igreja que saíram do paganismo. De fato, trata-se claramente de uma narrativa da Eucaristia, de um vocabulário tipicamente grego, e não de uma bênção judaica: eucharistein (agradecer) (Jo 6,11), diadidonai (distribuir) (Jo 6,11), sunagei (recolher), klasmata (pedaços) (Jo 6,12). Trata-se verdadeiramente de uma linguagem eucarística.

2. O milagre da partilha. Partilhar é multiplicar. É o que conta o segundo livro dos Reis, neste quarto milagre de uma série de dez legendas referentes ao profeta Eliseu, o herdeiro do grande profeta Elias (2R 4,1-8,15). Esse recinto serviu de esquema aos evangelistas para contar a multiplicação dos pães feita por Cristo Ressuscitado. Mas atenção! Não se trata de um gesto mágico de um profeta ou de um taumaturgo. Trata-se simplesmente de demonstrar que o dom de si e a partilha do que nós temos acabam com todas as fomes e as sedes do mundo. Quando decidimos doar o pouco que nós temos para partilhar com os outros, o milagre se produz. Imaginem agora se os extremamente ricos decidissem doar milhões e milhões para organismos de caridade, quantas fomes seriam saciadas e quantas sedes seriam apagadas... (Exemplo: 40 milhões que Guy Laliberté, o fundador do Cirque du Soleil pagou aos russos para passar doze dias no espaço... e Celine Dion que comprou uma casa de 30 milhões... Parece-me que todo esse dinheiro poderia ter servido para outra coisa.)

Na narrativa de hoje, Filipe fala da compra: “Estava próxima a Páscoa, festa dos judeus” (Jo 6,7), à qual André vai opor o dom: “Aqui há um rapaz que tem cinco pães de cevada e dois peixes. Mas, o que é isso para tanta gente?” (Jo 6,9). É, portanto, suficiente para alimentar o mundo e até mais ainda, pois fica sobrando: “Eles recolheram os pedaços e encheram doze cestos com as sobras dos cinco pães que haviam comido” (Jo 6,13). Doze cestos que correspondem às doze tribos de Israel. O que significa que a comida eucarística oferece o Pão da Vida, já não mais para 100 pessoas como na primeira leitura de hoje, nem somente para os 5.000 homens do evangelho, mas para todo o mundo: para todas e todos que aceitam alimentar-se da Palavra de Deus e do Pão da Vida, oferecido pelo Cristo da Páscoa. É suficiente para alimentar toda a Igreja.

3. O nascimento de um povo novo. Na segunda leitura de hoje, em sua carta aos Efésios, São Paulo convida todos os cristãos à unidade. Não à uniformidade, mas sim à unidade. Para ele, o batismo cristão transcende todas as nossas clivagens culturais, sociais e étnicas: “Há um só corpo e um só Espírito, assim como a vocação de vocês os chamou a uma só esperança: há um só Senhor, uma só fé, um só batismo. Há um só Deus e Pai de todos, que está acima de todos, que age por meio de todos e está presente em todos” (Ef 4,4-6). Sobretudo não devemos confundir unidade e uniformidade. Pois, se for verdade que não há mais que um só Corpo (Cristo), também é verdade que esse corpo é composto de uma multidão de membros, todos diferentes uns dos outros. O que faz a sua unidade não é a sua semelhança; mas a harmonia dentro de suas diferenças, e o que traz a riqueza para o corpo é a diversidade dos seus membros. Mas para chegar à unidade, precisa-se de algumas qualidades: “Sejam humildes, amáveis, pacientes e suportem-se uns aos outros no amor” (Ef 4,2).

Para São João, a sua narrativa da multiplicação dos pães revela Cristo aos pagãos a fim de fazê-los nascer como povo novo, como discípulos de Cristo, como Igreja. O exegeta francês Jean Debruynne escreve: “O verdadeiro milagre não é a multiplicação dos pães, mas o nascimento de um Povo. As palavras dizem-no. No início do texto, trata-se de uma multidão numerosa e, no final, eram cinco mil homens. No início, a reação dos apóstolos estava presa ao sistema do dinheiro e ao comércio, onde os ricos se tornam mais ricos e os pobres mais pobres: O salário de duzentas jornadas não bastaria!... Felizmente, há um menino que tem cinco pães e dois peixes. Não é um economista. É o coração de uma criança que faz entrar na partilha”.

Para concluir, em que se transformaram as nossas eucaristias atuais? Um ato de devoção onde escutamos distraidamente uma Palavra e onde comemos um pedaço de pão? Ou melhor, uma ocasião para nos reunirmos a fim de nos reencontrarmos e para doar o que nós somos, para partilhar com os outros? Uma coisa é certa: na missa, se o pão que partimos e que comemos não nos diz nada do que nós temos a oferecer e a partilhar, mesmo que esse pão esteja consagrado, ele não consegue nos alimentar e nos transformar, nem nos fazer nascer como Igreja, como novo Povo de Deus, como discípulos do Ressuscitado. Talvez esteja aí uma das razões pelas quais muitos cristãos abandonam os nossos encontros eucarísticos... É que isso já não lhes diz mais nada, de tanto que se esvaziaram dos seus significados tão profundos. Devemos fazer a pergunta se queremos respondê-la... Trata-se de um milagre, mas não de um milagre qualquer: é o milagre do dom do que nós somos e da partilha do que nós temos...

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