“A (re)construção da identidade religiosa inclui dupla ou tripla pertença”. Entrevista especial com Sílvia Fernandes

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07 Julho 2012

“O censo reafirmou uma tendência já vista ao longo das últimas décadas: declínio das religiões tradicionais e crescimento das novas expressões religiosas cristãs, além da presença dos sem-religião”, avalia a socióloga.

Confira a entrevista.


Os dados do último censo são um indicativo para “buscar compreender a modernização da sociedade brasileira, que inclui a mobilidade religiosa dos indivíduos num processo de intensa experimentação e, ao mesmo tempo, reconhecer mudanças no perfil dos atuais católicos”, aponta a socióloga Sílvia Fernandes. Para ela, o censo de 2010 demonstra que “os fiéis buscam elementos mais subjetivos ainda que possam valorizar aspectos da tradição”.

Embora o número de pessoas sem religião – 15 milhões – seja expressivo, a pesquisadora assinala que o percentual ficou abaixo do esperado. Muitos dos jovens que declararam não possuir religião, segundo ela, argumentam que não encontram a verdade em nenhuma delas. “É curioso que em tempos de múltiplos discursos se busque a verdade ao mesmo tempo em que discursos unilaterais são questionados. São tempos de busca de certezas, tanto quanto da negação destas. Os dois aspectos convergem para a autonomia na construção das identidades onde a religião pode estar integrada ou não”, avalia.

Na entrevista a seguir, concedida por e-mail para a IHU On-Line, Sílvia reitera que a experimentação religiosa é uma característica atual de “ser religioso”. Assim, salienta, experimenta-se “a religião do outro por causa de um convite”, ao mesmo tempo em que a “força da oração com o padre ou o pastor na TV; o Reiki, o Shiatsu; o terço ou a Bíblia” são “formas de encontrar a paz interior”. Segundo ela, “esse comportamento está associado às angústias modernas de que alguns sociólogos têm tratado. Então muda também o olhar dos indivíduos sobre a função da religião em suas vidas”.

Os dados referentes ao declínio do número de membros do catolicismo e da Universal do Reino de Deus demonstram o crescimento de novas religiões. Em relação à atuação da Igreja Católica, ela é enfática: “A Igreja abandonou as pesquisas sociológicas sobre o cenário religioso brasileiro para apostar em leituras e interpretações feitas por seus próprios quadros o que a afasta ainda mais da complexidade das mudanças no campo religioso”. Enquanto isso, a Universal “enfrenta agora algo semelhante ao que o catolicismo enfrentou com o seu surgimento, isto é, a criatividade e a agilidade trazida pelas novas igrejas do tipo neopentecostal”, constata.

Sílvia Fernandes foi pesquisadora do Centro de Estatísticas Religiosas e Investigação Social – Ceris durante muitos anos. Atualmente, é professora da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro. Graduada em Ciências Sociais pela Universidade Federal Fluminense, é mestre e doutora em Ciências Sociais pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Dentre outros livros, é autora de Jovens religiosos e o catolicismo – escolhas, desafios e subjetividades (Rio de Janeiro: Quartet/FAPERJ, 2010); Novas Formas de Crer-católicos, evangélicos e sem-religião nas cidades (São Paulo: Promocat, 2009) e organizadora de Mudança de religião no Brasil – desvendando sentidos e motivações (São Paulo: Palavra e Prece, 2006).

Confira a entrevista.

IHU On-Line – O que os dados do censo revelam sobre as religiões tradicionais,
considerando o declínio do catolicismo?

Sílvia Fernandes
– É importante ressaltar que o censo reafirmou uma tendência já vista ao longo das últimas décadas: declínio das religiões tradicionais e crescimento das novas expressões religiosas cristãs, além da presença dos sem-religião. Por outro lado, se há confirmação de tendência, a queda de católicos em números absolutos foi uma novidade, o que pode significar uma mudança no paradigma do catolicismo como uma religião cultural na qual os pais batizam os filhos e ao crescer os filhos decidem se continuarão católicos. Desse modo, os dados sugerem uma diminuição dos “católicos de batismo” e uma intensificação do pluralismo religioso que continua a balançar a hegemonia católica. Não se pode minimizar o declínio do catolicismo, mas buscar compreender a modernização da sociedade brasileira, que inclui a mobilidade religiosa dos indivíduos num processo de intensa experimentação e, ao mesmo tempo, reconhecer mudanças no perfil dos atuais católicos.

Outra questão importante em relação ao catolicismo diz respeito às estratégias institucionais ao longo das últimas décadas. Alguns setores da Igreja passaram a entender que quanto mais reforçassem a formação, a catequese e estimulassem a missão e o carismatismo proposto pela Renovação Carismática, mais sucesso a Igreja teria na permanência dos fiéis. Isso não ocorreu. A mobilidade religiosa entre os carismáticos é maior do que entre membros de comunidades eclesiais de base, por exemplo, segundo as nossas últimas pesquisas.

Mudou ainda o perfil do episcopado investindo-se em um quadro mais jovem, mais alinhado às diretrizes romanas e eventualmente menos aberto às transformações da sociedade brasileira. A Igreja abandonou as pesquisas sociológicas sobre o cenário religioso brasileiro para apostar em leituras e interpretações feitas por seus próprios quadros o que a afasta ainda mais da complexidade das mudanças no campo religioso. A maior perda foi entre os jovens e não é à toa que haverá a Jornada Mundial da Juventude no Brasil no próximo ano e que a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil CNBB vem se esforçando por promover documentos e materiais didáticos que atraiam a juventude.

IHU On-Line – Qual o desafio posto às religiões tradicionais?

Sílvia Fernandes
– Estamos falando de (re) construção de identidade religiosa que inclui dupla ou tripla pertença. As religiões tradicionais são desafiadas ao diálogo e abertura diante dos fiéis que estão nesse processo. A lógica do adepto é muito diferente da lógica institucional de pureza e vínculo e, por isso, enquanto a Igreja católica e as denominações históricas do protestantismo adotam o reforço da doutrina como meio para o fortalecimento da identidade institucional em contexto de pluralismo religioso, os fiéis buscam elementos mais subjetivos ainda que possam valorizar aspectos da tradição. O desafio é conciliar tradição com outros elementos que são próprios àqueles que vivem a experiência religiosa: novos símbolos; novas composições de crenças; novas práticas e experimentações etc.

Em meados da nossa década fizemos um estudo qualitativo com cerca de 400 pessoas que moram nas metrópoles brasileiras e que estavam vinculadas ao catolicismo (Comunidades e Eclesiais de Base e Renovação Carismática Católica). Ficou muito claro esse aspecto da experimentação como uma forma legítima de ser religioso. Assim, experimentava-se a religião do outro por causa de um convite; a força da oração com o padre ou o pastor na TV; o Reiki, o Shiatsu; o terço ou a Bíblia como formas de encontrar a paz interior. Esse comportamento está associado às angústias modernas de que alguns sociólogos têm tratado. Então muda também o olhar dos indivíduos sobre a função da religião em suas vidas.

IHU On-Line – Por que o Nordeste e o Sul do Brasil ainda concentram o maior número
de católicos?

Sílvia Fernandes
– Em 2005 fizemos uma pesquisa em todo o estado do Piauí a pedido de bispos de um dos regionais da CNBB. À época ainda havia setores da Igreja que buscavam compreender as transformações do campo religioso por uma ótica que não fosse exclusivamente a institucional. Constatamos que a religiosidade popular naquele estado é muito forte e a população valoriza as romarias, as procissões e as festas religiosas enormemente. Outros colegas têm pesquisado essa religiosidade no Nordeste e conferido a força da religiosidade popular que faz surgir os chamados santos não canônicos como o padre Ibiapina, na Paraíba; Dom Vital, dentre outros. É importante, entretanto, estar atento às diferenças entre os vários estados do Nordeste e à própria heterogeneidade da pertença católica dentro dos estados. No caso do Piauí, nós vimos, por exemplo, que entre os sete municípios investigados, a presença de evangélicos era maior na capital Teresina. Isso mostra a relevância do desenvolvimento de mais pesquisas para entender melhor as possíveis correlações entre urbanização e mobilidade religiosa.

IHU On-Line – O que significa o aumento do número de pessoas que se dizem sem
religião?

Sílvia Fernandes
– Nós identificamos em nossas pesquisas cinco tipos de pessoas sem religião: os de “religiosidade própria” são os que pertenceram a uma religião tradicional e se desvincularam mantendo suas crenças originais e, muitas vezes, rearranjando essas crenças com elementos do universo new age e práticas milenares, tais como pedras da sorte, cromoterapia etc.; há os sem-religião desvinculados, que não fazem composição religiosa, mas mantêm a crença em Deus. Esse tipo inclui ainda os agnósticos. Há os sem-religião críticos das religiões encarando-as como um modo de alienação do homem; outro tipo é o sem-religião ateu e, por fim, identificamos os sem-religião tradicionalizados simplesmente pela falta de tempo de frequentar Igrejas. Esse tipo faz uma autoavaliação que não permite que ele se enquadre em nenhuma religião por não frequentá-la. Eles veem incoerência em se denominarem de uma religião determinada uma vez que não a praticam, mas acreditam em uma dada religião e em seus valores.

Assim, o aumento dos sem-religião – menor do que o esperado – representa a existência de pessoas em redefinição de identidade. Lembramos que essa condição não se apresenta de modo definitivo e, provavelmente, muitos dos que se declararam ser sem religião no censo de 2000 hoje já mudaram sua identidade religiosa, pois identificamos em uma de nossas pesquisas uma reafirmação de vínculo também entre os sem-religião.

IHU On-Line – A senhora mencionou que a religião passa a ser um aspecto da vida social no qual é permitido experimentar. Qual é o significado religioso desta experimentação e
qual a implicação disso para as instituições religiosas?

Sílvia Fernandes
– Nós temos analisado o fenômeno religioso nos tempos atuais tendo a experimentação como uma de suas principais características. Isso não significa dizer que as pessoas não mais se vinculam ou passam a pertencer a uma dada religião, mas antes demonstra que a escolha é menos definitiva e problematiza o antigo significado de conversão.

Se você observar, cada vez menos ouvimos a expressão “fulano se converteu”, mas é mais comum ouvirmos “fulano agora é de tal religião”. Assim, a transitoriedade da adesão religiosa é uma marca desses tempos. Há um tempo agorístico delimitado por uma subjetividade difícil de ser mensurada uma vez que muitos fatores podem catalisar ou desestimular o vínculo religioso: a perda de um ente querido, uma doença na família, um filho que faz uso de drogas. A religião é buscada como refúgio no presente para se viver o aqui e o agora. Deus não pode ser uma figura do passado ou um ser longínquo. Os fiéis falam que o buscam e o querem encontrar no dia a dia. Esse é o desafio das narrativas religiosas encampadas pelas instituições tradicionais.

IHU On-Line – A Igreja Universal também perdeu 10% dos fiéis na última década. Isso
está relacionado com que fatores?

Sílvia Fernandes
– A Universal enfrenta agora algo semelhante ao que o catolicismo enfrentou com o seu surgimento, isto é, a criatividade e a agilidade trazida pelas novas igrejas do tipo neopentecostal. Acessar o YouTube permite ter uma ideia dessa versatilidade: é a pastora cantando reggae com duas ou três palavras; é o ex-funkeiro promovendo “o passinho abençoado”. Nós temos observado, portanto, algo que não é exatamente novo porque relacionado à diversificação ou pluralização da sociedade brasileira, o que muda é a intensidade e a velocidade desse movimento. Nossa hipótese é de que as novas tecnologias de informação têm contribuído de forma importante para isso. A oferta religiosa é mais visível, mais acessível intensificando a possibilidade de acesso aos novos movimentos religiosos ou Igrejas.

IHU On-Line – Outro dado significativo do censo é o número de pessoas que não têm
filiação religiosa. Quais são as razões dessa mudança? Por que cresce o
número de pessoas sem vinculação institucional?

Sílvia Fernandes
– A desfiliação institucional está relacionada ao que mencionei acima. Se é possível falar em escolha numa sociedade de muitas ofertas, é possível também falar em não escolha ou ainda na escolha por não ter vínculo institucional com nenhuma religião. Esse comportamento tanto pode denotar autenticidade ou busca dessa autenticidade por parte dos indivíduos como uma imprecisão sobre que caminho seguir. Eu me recordo de um estudo que fiz com jovens sem religião na Baixada Fluminense, em que alguns deles se autodeclaravam não possuir religião por não encontrarem a verdade em nenhuma delas. É curioso que em tempos de múltiplos discursos se busque a verdade ao mesmo tempo em que discursos unilaterais são questionados. São tempos de busca de certezas, tanto quanto da negação destas. Os dois aspectos convergem para a autonomia na construção das identidades onde a religião pode estar integrada ou não.

IHU On-Line – O que o censo revela em relação à postura dos jovens diante da religião? Qual é a tendência religiosa a ser seguida pelas novas gerações?

Sílvia Fernandes
– O desdobramento de um modelo de Igreja com ênfase na evangelização, na mídia, e na diversificação por meio de comunidades religiosas de natureza carismática visa atingir a um público por excelência: a juventude. Mas não tem surtido o efeito esperado, uma vez que houve declínio na última década de 3 % no número de jovens católicos na faixa dos 15 aos 29 anos, conforme o censo 2010. Assim, eles totalizam atualmente 17,6%. Entre os jovens católicos adultos (18 a 29 anos) a queda se apresenta na mesma proporção passando de 16% em 2010 para 13,6%.

Várias estratégias têm sido implantadas pela Igreja com o objetivo de alterar esse quadro e atrair o segmento juvenil. A Jornada Mundial da Juventude – JMJ que ocorrerá no Rio de Janeiro em 2013 com a presença de Bento XVI é uma delas. Documentos eclesiásticos orientam para que os jovens assumam um papel ativo na evangelização de outros jovens e na missão, fato que nega a recorrente afirmação da hierarquia católica de que à Igreja importaria a qualidade de católicos e não a quantidade de membros. Na verdade, a atração da juventude é fator de fortalecimento do catolicismo e, como mencionei acima, a JMJ se apresenta como um esforço institucional nessa direção.

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