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07 Outubro 2011

No século XVI, a Dieta de Augsburg se encerrou com um fracasso que, no entanto, Lutero exaltava como um triunfo, revelando assim o seu substancial distanciamento da obra conduzida por Melâncton: era "a última trombeta antes do último dia", o fim do engano do "papistas que haviam tentado fazer com que o imperador acreditasse que a nossa doutrina era insensata". Cumpria-se, assim, de forma definitiva, aquela ruptura na Igreja do Ocidente que perdura até os nossos dias.

A análise é de Gianfranco Ravasi, cardeal presidente do Pontifício Conselho da Cultura, em artigo publicado no jornal Il Sole 24 Ore, 02-10-2011. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o artigo.

Aquele gesto simbólico da fixação das 95 Teses em Wittenberg no dia 31 de outubro de 1517, considerado como o ato de nascimento da Reforma Protestante, já estava longe. Lutero já tinha o apoio de príncipes como Frederico, o Sábio, e de cidades, mas também estava envolvido em uma densa teia de tensões e de polêmicas: com a Roma papal, com a ala radical dos anabatistas, com Erasmo de Roterdã sobre o livre-arbítrio, com Müntzer e os camponeses em revolta, com Zwingli de Zurique sobre a interpretação da Ceia do Senhor, com a Dieta de Worms, que queria lhe impor a sua retratação.

Nessa confusão de poder imperial, na pessoa de Carlos V, ele havia decidido pôr ordem através de uma Dieta convocada em 1530 em Augsburg iludindo-se – como se declarava na carta de convocação – de fazer com que fossem depostas "as discórdias... e reconduzir todos a uma única verdade cristã... porque todos estamos e combatemos sob um único Cristo, assim como vivemos em uma única comunhão, Igreja e concórdia".

Propósito nobre, mas não totalmente desinteressado, não só pela necessidade de uma unidade nacional diante do pesadelo turco, mas também para afirmar uma autonomia própria de regime, com relação ao papa, mesmo no âmbito religioso. Os seguidores de Lutero, nessa assembleia, apresentaram um documento redigido pelo seu melhor teólogo que havia grecizado o seu sobrenome alemão Schwarzerd ("terra preta") para Melancthon/Melâncton (1497-1560).

Na coleção que a editora Claudiana dedicou a esse reformador, aparece agora – organizado pelo nosso maior teólogo protestante atual, Paolo Ricca – a Confissão de Augsburg, o texto latino apresentado precisamente "ao invicto imperador Carlos V, César Augusto, na Dieta Augsburg no ano de 1530", em nome da comunidade luterana. Ler esses 28 artigos quer dizer penetrar no coração do protestantismo e descobrir o rosto da Igreja Reformada. Uma Igreja assemblear não hierárquica, regida pela pregação do Evangelho e pelos dois sacramentos do batismo e da ceia do Senhor, cujo Credo está baseado nas Escrituras e nos primeiros grandes Concílios da Igreja antiga, dotada de ministério ordenado, formado por pastores e bispos também conjugados que só têm a missão de pregar o Evangelho e de administrar os sacramentos.

Se quisermos ir mais fundo, brilha nesses artigos o primado do Evangelho, cujo conteúdo é, por excelência, dom e perdão, graça e fé: "Mediante Cristo, temos a graça, a justiça, a remissão dos perdão" (nº 20). A Igreja é a assembleia dos fiéis cujo eixo de unidade não é uma autoridade central, mas sim o Evangelho, fonte de liberdade, em nítida distinção do poder civil.

Interessante, na introdução preparada por Ricca, é a análise da relação entre Melâncton, que era uma espécie de plenipotenciário da Dieta, e Lutero, que, nessa assembleia, esteve apenas "espiritualmente presente". A correspondência entre os dois, referente à Confissão que Melâncton já havia redigido, revela, substancialmente, um julgamento positivo, mas com uma ressalva: "Segundo Lutero, ela não diz muito claramente que Cristo não é mais a pedra angular sobre a qual está edificada a Igreja de Roma". Na prática, mesmo celebrando uma "confissão de fé verdadeiramente muito bela", Lutero gostaria que ela fosse temperada com uma polêmica papal mais saborosa.

Essa reserva se tornou mais forte durante as negociações com a contraparte católica representado por uma equipe de teólogos dirigidos por Johann Eck (1486-1543), uma figura intelectualmente qualificada e muito mais aberta do que o julgamento histórico pôde considerar depois. A disputa se arrastou por dois meses, e Melâncton buscou com fervor um compromisso, suspeitando de Lutero que, no entanto, continuava a estimá-lo como um verdadeiro "Cristóforo", isto é, portador de Cristo.

Carlos V, impaciente com essa lentidão incompreensível para ele, apontou para a aceitação por parte dos Reformados da Responsio cattolica de Eck e, diante da óbvia rejeição, declarou "ter feito refutar e fundadamente rejeitar, com o Evangelho e a Sagrada Escritura, a Confissão de Augsburg depois de uma discussão aprofundada de excelentes teólogos provenientes de muitas nações".

Ele concedia ainda uma postergação de quatro meses aos luteranos para optar ou não em favor de uma pacificação com a Igreja Católica, remetendo as eventuais controvérsias a um futuro Concílio e distribuindo normas aos príncipes eleitores para a restauração da autoridade episcopal nas suas cidades.

A Dieta de Augsburg se encerrava, assim, com um fracasso que, no entanto, Lutero exaltava como um triunfo, revelando assim o seu substancial distanciamento da obra conduzida por Melâncton: era "a última trombeta antes do último dia", o fim do engano do "papistas que haviam tentado fazer com que o imperador acreditasse que a nossa doutrina era insensata... Os nossos, de fato, confessaram livremente o Evangelho diante do Imperador e de todo o império".

Cumpria-se, assim, de forma definitiva, aquela ruptura na Igreja do Ocidente que perdura até os nossos dias, em torno da qual teólogos qualificados ainda trabalham, herdeiros de Melâncton e de Eck e as respectivas comunidades eclesiais, através de um diálogo ecumênico cansativo mas necessário, felizmente sem que nenhum estandarte imperial tremule sobre eles.

  • Melantone, La Confessione augustana (1530), organizado por Paolo Ricca. Turim: Ed. Claudiana, 326 páginas.

 

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