Rio+20 vista desde a Cúpula dos Povos: A montanha pariu um rato. Entrevista especial com Ivo Poletto

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26 Junho 2012

“O governo brasileiro demonstrou, uma vez mais, que tem ciência diplomática para ‘salvar conferências da ONU’”, ironiza assessor do Fórum Mudanças Climáticas e Justiça Social.

Confira a entrevista.


“É tal o assentimento da quase totalidade dos governos à ideia de que não haveria outra forma de promover o desenvolvimento econômico além do capitalismo, e de que, por isso, seria natural a existência e o agravamento das desigualdades sociais, bem como seria inevitável o avanço e ‘consumo produtivo’ sobre os bens naturais, que toda a pressão da Cúpula dos Povos não os atingiu em quase nada de suas convicções e responsabilidades”. A análise é de Ivo Poletto e foi expressa na entrevista a seguir, concedida por e-mail à IHU On-Line.

Educador popular e assessor de pastorais e movimentos sociais, Poletto participou da Cúpula dos Povos e acompanhou através da impressa a realização da Rio+20, a qual, segundo ele, “não significou avanço nem mesmo para o que desejavam as grandes corporações do capitalismo globalizado; para a humanidade, ela piorou um pouco o que já estava ruim há muito tempo”. Para ele, o documento final da Rio+20 é composto de “afirmações gerais simpáticas ao que se tem denominado ‘economia verde’, mas não estabelece nada de concreto”. E dispara: “O governo brasileiro tentou introduzir algo novo nos espaços de diálogo com organizações da sociedade civil. Pelo visto, contudo, isso não produziu frutos novos, já que as ONGs presentes na Rio+20 chegaram a propor, ou exigir, que, frente à fragilidade e falta de compromissos concretos, fosse retirada a referência à sociedade civil no Documento Final da Conferência”.

Diante do fracasso da conferência para o desenvolvimento, Poletto enfatiza que “o Documento Final da Cúpula, mesmo sendo insuficiente em relação à riqueza dos trabalhos dos povos e movimentos da Cúpula, serve de confirmação da contundência crítica e da exigência de novas práticas pelos participantes”.

Ivo Poletto é filósofo e teólogo. Trabalhou durante os dois primeiros anos do governo Lula como assessor do Programa Fome Zero e foi o primeiro secretário-executivo da Comissão Pastoral da Terra – CPT. É autor de, entre outros, Brasil, oportunidades perdidas – Meus dois anos no governo Lula (Rio de Janeiro: Garamond, 2005).

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Que avaliação você faz da Rio+20 e também da Cúpula dos Povos? Quais os avanços e desafios em relação à sustentabilidade?

Ivo Poletto
– Participei somente da Cúpula dos Povos. Por isso minha avaliação da Rio+20 tem como base o que ouvi de pessoas que lá estiveram e do que foi publicado em meios de comunicação eletrônica. Minha avaliação é esta: ela não significou avanço nem mesmo para o que desejavam as grandes corporações do capitalismo globalizado; para a humanidade, ela piorou um pouco o que já estava ruim há muito tempo.

O documento final da Rio+20 contém afirmações gerais simpáticas ao que se tem denominado “economia verde”, mas não estabelece nada de concreto. Nenhum avanço na direção de compromissos e acordos absolutamente necessários para enfrentar as crises sociais e ecológicas em que se encontra a humanidade. Isso faz com que as declarações em relação à superação da pobreza e à busca do desenvolvimento sustentável não passem, mais uma vez, de intenções sem efeito prático, nada mais do que conselhos que serão ou não acolhidos isoladamente por governos que, em sua quase totalidade, chegaram e partiram sem demonstrar vontade de fazer algo qualitativamente novo.

Contraste

Em contraste com esse marasmo governamental, os participantes da Cúpula dos Povos manifestaram, de muitas formas, que estão convencidos que o futuro da humanidade e da Terra não é nada azul se continuar sendo determinado pelo capitalismo neoliberal globalizado. Deixaram claro também que os Estados e as instituições internacionais submetidas ao capitalismo não são e não serão mediações capazes de implementar as transformações estruturais e civilizatórias necessárias para enfrentar as crises que afetam todas as formas de vida no planeta. Frente a isso, insistiram que cabe aos povos e movimentos sociais a missão de mobilizar consciência e vontade da maioria dos seres humanos, tornando o exercício de sua cidadania a força capaz de exigir novas formas de produção, de consumo, de governo e de convivência entre as pessoas e os povos, junto com novas formas de convivência com a Terra.

IHU On-Line – É possível perceber alguma novidade nos dois encontros?

Ivo Poletto
– O governo brasileiro tentou introduzir algo novo nos espaços de diálogo com organizações da sociedade civil. Pelo visto, contudo, isso não produziu frutos novos, já que as ONGs presentes na Rio+20 chegaram a propor, ou exigir, que, frente à fragilidade e falta de compromissos concretos, fosse retirada a referência à sociedade civil no Documento Final da Conferência. No mais, apenas atividades ainda mais explícitas e quase despudoradas de marketing e de lobby das grandes empresas, especialmente as mais poluidoras, como as do complexo responsável pela quase “civilização do petróleo” – já todas “sustentáveis” e “verdes”, e com direito de exigir avanços na direção da “economia verde”.

Na Cúpula dos Povos, vale destacar a presença e protagonismo dos povos indígenas, dos camponeses e das mulheres, certamente os movimentos portadores de propostas mais definidas e arrojadas. E a presença de novos movimentos, como o Movimento Nacional de Afetados por Desastres Socioambientais – Monades, trazendo para a Cúpula a voz dos que sofrem na pele e pagam com a vida de familiares, parentes, vizinhos, os efeitos das mudanças climáticas, agravadas pelo aquecimento provocado pela emissão de gases de efeito estufa justamente pelas empresas responsáveis pela manutenção do sistema capitalista, que buscam o crescimento econômico sem fim a qualquer custo.

Vale ainda destacar a arrojada decisão de realizar Assembleias dos Povos, que faz da Cúpula dos Povos um espaço de articulação global da sociedade civil diferente do Fórum Social Mundial.

IHU On-Line – Apesar de toda a mobilização da sociedade civil, concentrada na Cúpula dos Povos, os chefes de Estado receberam críticas por produzir um texto final sem metas. Qual é a intervenção política das manifestações sociais na tomada de decisão? Tais manifestações têm qual impacto político?

Ivo Poletto
– É tal o assentimento da quase totalidade dos governos à ideia de que não haveria outra forma de promover o desenvolvimento econômico além do capitalismo, e de que, por isso, seria natural a existência e o agravamento das desigualdades sociais, bem como seria inevitável o avanço e “consumo produtivo” sobre os bens naturais, que toda a pressão da Cúpula dos Povos não os atingiu em quase nada de suas convicções e responsabilidades. Preferem, por motivos óbvios, ouvir e acatar as propostas dos empresários e seus assessores técnicos.

Essa percepção não teve uma resposta adequada na Cúpula dos Povos. A insensibilidade de tudo que é estatal – incluída a ONU – deveria ter como contraponto uma busca mais generosa de unidade entre as forças sociopolíticas que querem e exigem práticas e transformações estruturais, caminhando na direção de constituir-se como Cúpula ou Assembleia Permanente dos Povos – uma mediação permanente de articulação mundial de iniciativas alternativas ao mercado capitalista, de elaboração de propostas globais também alternativas e de viabilização de mobilizações mundiais capazes de exigir as mudanças necessárias em todos os níveis da vida humana e da convivência com a Terra. Mas, por diferentes motivos, que deverão ser objeto de reflexão crítica, as entidades responsáveis pela organização da Cúpula evitaram sequer propor à Assembleia dos Povos essa possibilidade. E a humanidade caminhará ainda sem a realização deste sonho, ampliando articulações setoriais, sem uma mediação democraticamente constituída para interligar e dar sentido unitário a elas.

IHU On-Line – Como os temas centrais da Rio+20: economia verde, governança global e redução da pobreza foram discutidos na Cúpula dos Povos?

Ivo Poletto
– Em milhares de oficinas e seminários autogestionados, bem como nas Plenárias de Convergência e nas Assembleias dos Povos, estes três temas foram certamente os mais contundentemente analisados e criticados. E foram elaboradas muitas propostas de ação alternativa, fundadas nas práticas já existentes. O Documento Final da Cúpula, mesmo sendo insuficiente em relação à riqueza dos trabalhos dos povos e movimentos da Cúpula, serve de confirmação da contundência crítica e da exigência de novas práticas pelos participantes.

Por outro lado, com outras formas de expressão – palavras de ordem, faixas, bandeiras, balões, músicas, danças, dramatizações etc. –, na Marcha realizada no dia 20 de junho, em que mais de 50 mil pessoas se manifestaram no centro do Rio de Janeiro e foi expressão da mobilização mundial convocada pela Cúpula dos Povos, foram feitas denúncias da irresponsabilidade e irracionalidade da teimosia em seguir adiante com um modo de vida, de produção e de consumo que agride todas as formas de vida e a própria vida da Terra. E foram tornadas públicas as alternativas já produzidas pelos povos, junto com a convocação geral em favor da construção do novo mundo necessário.

IHU On-Line – Qual foi a mensagem da sociedade civil em relação à temática ambiental e à sustentabilidade?

Ivo Poletto
– Ficou mais claro do que nunca que o social e o ambiental são faces da mesma realidade – e isso vai aprofundando a proximidade entre movimentos indígenas e movimentos ambientalistas, movimentos sociais, movimentos feministas e outros. Por isso a Cúpula aprofundou a perspectiva de que o cuidado com o ambiente da vida deve andar junto com o cuidado da própria vida. E só é sustentável o que garante que a Terra possa continuar oferecendo um ambiente equilibrado e saudável para a vida e que os seres humanos disponham do necessário para levar uma vida digna.

Outro ponto forte da mensagem da sociedade civil livre das grandes empresas e dos governos é este: não há possibilidade de equilíbrio ambiental e muito menos sustentabilidade verdadeira se a humanidade continuar submetida e dominada pelo capitalismo. Há contradição direta entre a busca e imposição de um crescimento econômico sem limites e sem fim e a finitude e limites do meio ambiente criado pela Terra. Por isso é impossível a existência de uma sociedade com justiça social e ambiental enquanto for mantida como natural e intocável a quase absurda concentração da riqueza em poucas mãos, e enquanto alguns povos, que não são sequer 20% da população terrestre, continuarem exigindo como algo natural que consumam mais de 80% de todas as formas de energia e dos bens produzidos no planeta. A proposta ideológica de que cada pessoa se torne rica e capitalista e de cada país procure alcançar os níveis de consumo dos que são ricos atualmente é algo absolutamente impossível, por dois motivos principais:

(1) porque o capitalismo tem em seu DNA a necessidade da existência de quem concentra riqueza na forma de capital, aumentando seu poder para explorar trabalhadores, que ele deseja que sobrevivam custando-lhe o menos possível, para que seu lucro seja maior;

(2) porque, de toda forma, se isso acontecesse, a Terra se desequilibraria a tal ponto que o aquecimento e as mudanças climáticas tornariam impossível a continuidade da vida humana neste planeta.

Por tudo isso, a mensagem central da Cúpula dos Povos tem sido a consciência e a autoconvocação dos povos e movimentos para assumirem a responsabilidade de multiplicar o que já é feito por eles na direção da construção de formas não ou pós-capitalistas de produzir, de consumir, de pensar, de organizar-se politicamente, de conviver com a Terra como um ser vivo de que os próprios seres humanos são parte. Em outras palavras, assumir a missão de fazer avançar a prática de outra forma de civilização, tanto como busca concreta de nova maneira de viver quanto como soma de forças sociopolíticas capazes de exigir que toda a humanidade e seus governos abandonem o capitalismo e apoiem a construção de sociedades verdadeiramente humanas, assentadas na justiça social e ambiental, em formas de socialização cada vez mais profundas e radicais.

IHU On-Line – Como avalia a cobertura feita pela mídia brasileira da Cúpula dos Povos?

Ivo Poletto
– É evidente o boicote da grande mídia, identificada com as propostas e as tentativas das grandes empresas de apresentarem-se com a “solução verde” dos estragos e crises geradas por elas e pelo modo de vida necessariamente consumista promovido também por elas. De toda forma, contudo, as manifestações, especialmente a marcha realizada nas avenidas centrais da cidade do Rio de Janeiro, serviram para forçar algum espaço nestas empresas privadas de notícias.

Mesmo com alguns limites, a comissão de comunicação da Cúpula dos Povos conseguiu presença marcante nos meios eletrônicos de comunicação. E nisso ela foi reforçada pelas iniciativas de comunicação dos próprios movimentos sociais. Pelo que tenho percebido e foi justificado publicamente na primeira Assembleia dos Povos, não funcionou a transmissão direta das atividades da Cúpula através da TVCúpula – e isso foi realmente uma perda. Já a RádioCúpula, embora ameaçada em diversos momentos, conseguiu realizar sua tarefa de comunicação.

Por ter estado envolvido nas atividades da Cúpula, não tenho elementos para avaliar a cobertura da mídia internacional.

IHU On-Line – Como avalia a elaboração do Rascunho Zero e a condução do governo brasileiro na conferência?

Ivo Poletto
– Pode-se dizer que, mais uma vez, “a montanha pariu um rato”. É incrível que se tente justificar um documento tão sem nada de sério e efetivo, sabendo que é fruto de inúmeras reuniões internacionais, em que foram gastos milhões de dólares. Para a humanidade, teria sido bem melhor a confissão simples de que os governos não chegaram a nenhum acordo, e de que isso se deve ao fato de que há governos de países ricos que não querem assumir suas responsabilidades, especialmente agora que estão envolvidos no salvamento dos bancos e dos países enterrados em dívidas – e querem continuar fazendo, ao aumentar a dívida dos bancos em relação aos recursos públicos e ao aumentar a dívida dos Estados em relação aos bancos!

O governo brasileiro demonstrou, uma vez mais, que tem ciência diplomática para “salvar conferências da ONU”. Como em outras oportunidades, diante do impasse, que revelaria o fracasso, os diplomatas e a própria presidente Dilma entraram em campo para redigir e aprovar um documento que todos podiam aprovar por não exigir nada, por não significar compromisso concreto nenhum. É por isso que o governo federal e a grande mídia se esforçam para dizer que o valor do documento aprovado é manter em aberto até 2014 a possibilidade de que os governos cheguem aos acordos necessários para enfrentar a crise social e ambiental que se aprofunda no planeta. Acredite quem quiser.

IHU On-Line – O que é possível esperar após a Rio+20?

Ivo Poletto
– Sendo realista, mas admitindo sempre ser questionado, devo deixar claro que não vejo possibilidades de avanços enquanto as decisões ficarem restritas aos governos encantados e identificados com o capitalismo, e aos governos que servem ao capitalismo por não acreditarem em nenhuma alternativa de promoção da vida humana. Essa é a razão porque, em outro artigo, tenho sugerido que as pessoas – e de preferência todas – torcessem pela Cúpula dos Povos: só com o avanço das práticas alternativas ao capitalismo, em todos os campos da vida, na perspectiva do Bem Viver dos povos indígenas, será possível ir avançando na construção do novo mundo, e isso será, ao mesmo tempo, a possibilidade de força política capaz de colocar os governos a serviço dos direitos de todas as pessoas e do meio ambiente da vida, libertando-os da dominação capitalista.