"Brasil não deve investir em energia nuclear". Entrevista especial com Dom Jayme Chemello

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02 Junho 2012

“Seria oportuno que o Papa Bento XVI pudesse enviar um representante para a Ucrânia, para participar da celebração em memória dos mortos de Chernobyl”, declara bispo emérito de Pelotas.

Confira a entrevista.


Mais de duas décadas depois do acidente nuclear de Chernobyl, ainda é impossível contabilizar os prejuízos dessa tragédia, que deixou mais de 250 mil mortos e feridos e que destruiu famílias e contaminou o meio ambiente de forma irreversível. Embora os efeitos da radiação em humanos tenham diminuído nos últimos anos, ainda é preciso ter cuidado ao visitar algumas cidades que foram amplamente contaminadas, diz o bispo emérito de Pelotas-RS, Dom Jayme Chemello, que recentemente esteve na Ucrânia a convite a ONG Green Cross Internacional, coordenada pelo ex-presidente da União Soviética, Mikhail Gorbachev. “Visitei Lokotkiv. Fomos de ônibus até onde foi possível, e depois tivemos de seguir a pé por uma estradinha, que devia ter uns quatro metros de largura. Caminhamos uns cinco quilômetros e não podíamos pisar fora de uma faixinha, porque naquele espaço a radiação era três vezes maior”, relata.

Depois de voltar da Ucrânia, Dom Jayme Chemello recebeu a equipe da IHU On-Line em sua residência, em Pelotas, RS, onde contou novos fatos, que aos poucos são revelados na tentativa de explicar o aconteceu em 1986. Segundo ele, na época “mais ou menos quinhentas mil pessoas” foram convocadas pelo governo para combater a expansão da radiação para outras regiões. “Dessas, cem mil eram recrutas militares e quatrocentos mil eram civis”. "Relata-se que os encarregados dos voos, aqueles que voavam cima de 800 metros para lançar os sacos de areia e chumbo para baixo, chegavam ao hospital satisfeitos, mas quando iam comer, não tinham apetite e logo depois morriam", informa.

De acordo com ex-presidente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil CNBB, a Ucrânia inaugurou recentemente um novo sarcófago para armazenar o lixo radiativo, pois o anterior foi corroído pela radiação. “Eles enterram o lixo radiativo, mas não se sabe até quando aquele lixo vai poder ficar enterrado. Ninguém sabe o que fazer”. E recomenda: “O Brasil não deve investir em energia nuclear. Se existem alternativas energéticas, para que pensar em uma energia nuclear tão perigosa?”

Dom Jayme Chemello (foto abaixo) cursou Filosofia no Seminário Pontifício de Buenos Aires, e Teologia na Pontifícia Faculdade de Teologia, também em Buenos Aires. Foi ordenado Sacerdote em 1958 na Igreja Matriz de São Marcos. Em 1969, foi nomeado bispo-auxiliar de Pelotas pelo Papa Paulo VI. Ele também foi vice-presidente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil – CNBB, em 1994, e presidente por dois mandatos, entre 1998 e 2002. De 2005 a 2011 foi presidente da Comissão Episcopal para a Amazônia, no Projeto de Evangelização da Amazônia, da CNBB. Em breve publicaremos uma entrevista sobre a trajetória de Dom Jayme na Igreja do Brasil.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – O senhor viajou recentemente para a Ucrânia, onde visitou cidades que foram atingidas pelo desastre de Chernobyl. Quem promoveu a viagem? Pode nos relatar como foi essa visita à Ucrânia? Foto de Natália Scholz

Dom Jayme Chemello –
Quem promoveu essa viagem foi a Green Cross, uma organização que se dedica ao meio ambiente e que analisa os impactos das usinas nucleares. O atual presidente da Green Cross Internacional, Alexander Likhotal, era conselheiro de Mikhail Gorbachev [1], quando este era presidente da União Soviética. Ele é um russo e esteve presente nessa comitiva.

Nós visitamos o museu de Chernobyl, onde retrataram tudo o que aconteceu através de fotos de pessoas, fotos de como era a cidade antigamente e de como ela ficou após o desastre nuclear. Ele é enorme; possui vários andares e é muito bem construído.

No dia 26 de abril de 2012, o presidente da Ucrânia anunciou a instalação do novo sarcófago, o qual foi construído para substituir o antigo. Ele custou 1 bilhão e 500 mil euros, e a previsão é de que dure 100 anos. A estimativa era de que o sarcófago anterior, construído após o desastre, durasse 30 anos, mas ele não aguentou nem 25. As medidas do novo sarcófago são de 108 metros de altura, 162 metros de comprimento, e 257 metros de largura. A estrutura de metal pesa 23 mil toneladas.

Visitei algumas cidades próximas de Chernobyl e percebi que em Kiev [2], que fica a mais ou menos 180 quilômetros de Chernobyl, quase não existem plantações por conta da radiação. Também fui a Slavutych [3], onde participamos de uma comemoração em função dos 25 anos de jubileu de prata de todos que morreram em Chernobyl.

IHU On-Line – Como foi essa cerimônia?

Dom Jayme Chemello –
Foi uma cerimônia muito interessante e aconteceu na praça de Slavutych. Havia aproximadamente 50 mil pessoas. A cidade em si tem esse número de habitantes; essas 50 mil pessoas vieram não só de Slavutych, mas também de outras cidades vizinhas.

Jovens com lâmpadas formaram duas filas como se fosse um corredor. Caminhamos por entre elas e depositamos duas rosas em um altar. Havia um silêncio total, porque todos estavam doloridos por terem perdido o pai, a mãe, ou algum parente ou conhecido no acidente de Chernobyl. Rezei para que Deus entendesse a situação daquele povo.

IHU On-Line – A Igreja Ortodoxa participa dessa celebração ou não?

Dom Jayme –
Padres passaram por lá; não houve uma cerimônia especial por parte dos ortodoxos, porque eles são muito ligados ao governo. As igrejas deles são bonitas, têm torres douradas, são pomposas, luxuosas. Uma coisa curiosa é que em lugares estratégicos há sempre uma pessoa sentada, que fica observando tudo que acontece para evitar que alguém roube ou quebre alguma coisa. Não pude ver a catedral católica que existe lá, mas visitei uma igreja ortodoxa. Os ortodoxos me disseram que perto da Polônia têm mais católicos.

IHU On-Line – Que novidades em relação a Chernobyl são conhecidas hoje, 26 anos depois do acidente? Que relatos o senhor ouviu na sua viagem à Ucrânia?

Dom Jayme Chemello –
A explosão na usina nuclear de Chernobyl aconteceu em 25 de abril de 1986, na Ucrânia (mapa ao lado). No começo achavam que não era uma explosão, tanto que o presidente na época, Gorbachev, só foi informado do incêndio dois dias depois da explosão, às 5 horas da manhã. Eles tentaram combater o incêndio com água, mas isso piorou ainda mais a situação.

A fumaça oriunda da explosão subiu mil metros e as partículas radiativas foram levadas para outros países pelo vento. Todas as pessoas que tiveram conhecimento do que foi o desastre de Chernobyl tinham medo de falar, tanto que levaram 20 anos para dizer tudo o que aconteceu e quais foram os impactos dessa explosão.

Próximo da usina de Chernobyl estava a cidade de Pripyat [4], que na época tinha uns 43 mil habitantes. A primeira coisa que precisava ser feita era retirar essas pessoas de lá, mas os próprios técnicos que estavam na cidade não sabiam que a situação era tão grave. Como as partículas radiativas começaram a chegar na Suécia, os moradores de lá ficaram intrigados com a fumaça e começaram a questionar a sua origem. Aviões começaram a fiscalizar a região e foram os americanos que descobriram que se tratava de Chernobyl, pois fiscalizaram tudo via satélite. O governo Russo já sabia o que tinha ocorrido, mas estava ocultando os fatos, porque não tinha como dizer para o povo sobre o que ocorrera. Seria terrível.

De toda forma, ninguém sabia que a situação era tão grave, porque, quando as partículas radiativas penetram no ser humano, ele não sente nada. Dez ou doze dias depois é que começam a aparecer os sintomas.

IHU On-Line – Como essas partículas afetam os seres humanos?

Dom Jayme Chemello –
Elas decompõem o sangue e, em função disso, começam a surgir câncer, feridas, ossos quebrados etc. Os moradores de Pripyat pensavam que a radiação iria desaparecer, mas até hoje ela é uma cidade morta, uma cidade fantasma. Nos primeiros dias após a catástrofe, morreram cerca de 30 pessoas. Quando souberam da dimensão do problema, convocaram mais ou menos 500 mil pessoas para ajudar a conter a proliferação da radiação. Dessas, cem mil eram recrutas militares e quatrocentos mil eram civis. Essas pessoas largaram centenas de sacos de areia e uma quantidade enorme de chumbo para evitar que a radiação se espalhasse para outros locais, mas os destroços de Chernobyl continuavam lançando partículas radiativas para cima.

Foi aí que tiveram a ideia de construir um sarcófago, um túmulo especial feito de chumbo e aço, para abafar as partículas. A previsão era de que o sarcófago durasse trinta anos, mas após 20 anos ele já estava arrebentado por conta da radiação. Vinte anos depois divulgaram que mais de 250 mil pessoas morreram na tentativa de conter a expansão da radiação.

Relata-se que que os encarregados dos voos, aqueles que voavam cima de 800 metros para lançar os sacos de areia e chumbo para baixo, chegavam ao hospital satisfeitos, mas quando iam comer, não tinham apetite e logo depois morriam.

Depois desse desastre, aconteceram coisas positivas. Por exemplo, o próprio Gorbachev conseguiu que cada República, que pertencia à antiga União Soviética, fizesse uma obra na Ucrânia. De fato, visitei uma cidade chamada Slavutych, que tem aproximadamente 50 mil habitantes, e hoje as pessoas vivem bem. Também visitei Pakul, uma cidadezinha que foi contaminada pela radiação e que hoje está completamente destruída.

IHU On-Line – A radiação se espalhou para quantas cidades e países?

Dom Jayme Chemello –
A radiação se espalhou para a Suécia e para a Europa toda. Esse mapa mostra o nível de radiação, quanto mais vermelho, maior o nível de radiação (foto ao lado). Na Ucrânia, as cidades Slavutych e Lokotkiv foram bastante atingidas. Visitei Lokotkiv. Fomos de ônibus até onde foi possível, e depois tivemos de seguir a pé por uma estradinha, que devia ter uns quatro metros de largura. Caminhamos uns cinco quilômetros e não podíamos pisar fora de uma faixinha, porque naquele espaço a radiação era três vezes maior.

Encontramos três senhoras que nos explicaram o que foi o desastre de Chernobyl, e foi aí que eu comecei a descobrir o que era essa tal de radiação. Também encontrei um padre ortodoxo, até muito disposto, muito enfeitado – porque eles se enfeitam bastante. Tentei conversar com ele do jeito que dava, porque ele não sabia falar outro idioma. Também visitei um cemitério. É curioso que, sob cada túmulo, havia um prato de comida arrumado para o morto.

IHU On-Line – E por que será?

Dom Jayme Chemello –
Não sei, talvez porque eles pensam que a vida é eterna. Fazem muita comida para mortos.

IHU On-Line – Muitas pessoas ainda moram em Lokotkiv?

Dom Jayme Chemello –
Na região que visitei, só encontrei aquelas três senhoras. Os maridos e os filhos delas morreram. As pessoas visitam essa região, mas costumam ficar por pouco tempo.

IHU On-Line – E onde é Chernobyl? O que existe lá hoje?

Dom Jayme Chemello –
Chernobyl fica no norte da Ucrânia (foto ao lado). Não podemos visitá-la. Lá só tem a cratera. Os reatores que explodiram acabaram com tudo. Por isso Gorbachev não aceita a construção de novas usinas nucleares.

IHU On-Line – Qual a comparação que eles fazem com Fukushima?

Dom Jayme Chemello
– Eles dizem que a experiência de Chernobyl é única, porque eles não sabiam nada sobre a questão radiativa. Depois de anos de investigação foram descobrindo que a radiação entrava pelo corpo e que causava muitos problemas à saúde, apesar de as pessoas não sentirem nada.

IHU On-Line – Como acontece a discussão sobre a energia nuclear na Ucrânia atualmente? Eles ainda dependem de energia nuclear. Pretendem continuar investindo nesse modelo?

Dom Jayme Chemello –
Eles são contra a energia nuclear, e utilizam bastante petróleo. Da mesma forma, o Brasil não deve investir em energia nuclear. Se existem alternativas energéticas, para que pensar em uma energia nuclear tão perigosa?

IHU On-Line – Representantes de quais países participaram dessa visita a Chernobyl?

Dom Jayme Chemello –
Representantes de muitos países. Fui o único brasileiro a participar. Lembro-me de pessoas da Itália, do Japão, da Rússia, além de alemães e norte-americanos. No Brasil, eles convidaram jornalistas, deputados e queriam um bispo da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil – CNBB. Então o secretário e o presidente da CNBB disseram que teriam de escolher um bispo emérito, e me escolheram.

IHU On-Line – Quanto a Ucrânia e os países atingidos já gastaram com tratamentos ambientais e de saúde?

Dom Jayme Chemello –
Soube que somente a construção do novo sarcófago custou 1 bilhão e meio de euros. Devem ter gasto uma fortuna durante esses 25 anos.

IHU On-Line – Que destino eles deram para o lixo radiativo, ou ainda não sabem o que fazer com ele?

Dom Jayme Chemello –
Eles enterram o lixo radiativo, mas não se sabe até quando aquele lixo vai poder ficar enterrado. Ninguém sabe o que fazer. Como o custo do sarcófago que armazena o lixo é muito caro, a Ucrânia espera que outros países também colaborem no sentido de tentar encontrar alguma alternativa.

IHU On-Line – Percebe-se o comunismo na Ucrânia?

Dom Jayme Chemello –
O Estado manda em tudo, embora seja democrático. Já tem uma democracia. Porém, até onde é ele democrático é algo difícil de se saber. Posso dizer que nos trataram muito bem.

IHU On-Line – Qual a situação econômica e social da Ucrânia?

Dom Jayme Chemello –
É mais ou menos como no Brasil. Em algumas cidades não existe uma multidão de habitantes como aqui. Eles têm umas casinhas muito pobres. De modo geral, eles estão relativamente melhor do que nós.

IHU On-Line – As pessoas ainda têm problemas de saúde por conta da radiação?

Dom Jayme Chemello –
Sim. Visitei algumas creches em Slavutych, e a médica pediatra disse que atualmente não têm mais casos tão graves. Mas antes as consequências da radiação eram terríveis. Os impactos da radiação começaram a diminuir nos últimos anos.

Seria oportuno que o Papa Bento XVI pudesse enviar um representante para a Ucrânia, para participar da celebração em memória dos mortos de Chernobyl.

NOTAS:

[1] Mikhail Gorbachev (1931): foi secretário-geral do Comitê Central do Partido Comunista da União Soviética de 1985 a 1991. Com a morte de Konstantin Chernenko, Mikhail Gorbachev, com 54 anos de idade, foi eleito secretário geral do Partido Comunista, tornando-se líder da União Soviética. As suas tentativas de reforma conduziram ao final da Guerra Fria e, ainda que não tivesse esse objetivo, terminou com o poderio do Partido Comunista no país, levando até mesmo à dissolução da União Soviética. Criou a Fundação Gorbachev em 1992. Em 1993, fundou também a Cruz Verde Internacional. Foi um dos principais promotores da Carta da Terra, em 1994.

[2] Kiev: é a maior cidade e capital da Ucrânia, localizada na região centro-norte do país, às margens do rio Dniepre. É uma das maiores e mais antigas cidades da Europa. O censo de 2001 registrou 2.611.300 habitantes na cidade. Kiev possui governo e estatuto especial determinado por lei e está diretamente subordinada ao governo central da Ucrânia.

[3] Slavutych: é uma cidade localizada ao norte da Ucrânia, com 24.549 habitantes.

[4] Pripyat: é uma cidade-fantasma no norte da Ucrânia, perto da fronteira com a Bielorrússia. Próximo à cidade fica a central nuclear de Chernobyl, onde ocorreu o maior acidente nuclear da história, em abril de 1986.

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