O esverdeamento da economia: discussão em pauta na Rio+20. Entrevista especial com Fabio Scarano

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09 Maio 2012

“O problema é que hoje a economia tradicional não atribui valor às coisas ambientais e as assume como dadas”, afirma o engenheiro florestal.

Confira a entrevista.


“O ‘esverdeamento’ da economia é um pré-requisito para o desenvolvimento sustentável e pode vir a erradicar a pobreza sem degradar ainda mais os recursos naturais do planeta”. Com essa visão otimista Fabio Scarano tem a expectativa de que o governo brasileiro “perceba a oportunidade histórica de o Brasil assumir a liderança” em relação às questões ambientais postas em pauta na Rio+20, que acontece no próximo mês no Rio de Janeiro.

Por ser um dos países mais ricos em recursos naturais, o Brasil tem a “obrigação de liderar o tema”, disse ele à IHU On-Line, em entrevista concedida por e-mail. “Se aqui não conseguirmos criar uma economia verde, tenho dificuldade de imaginar como os outros países poderão fazê-lo”, reitera. Para Scarano, o Brasil, como anfitrião da Rio+20, não pode esperar por acordo, “mas pode assumir compromissos estratégicos e financeiros para, ao menos em território nacional, exercitar o que vem defendendo teoricamente nas convenções”.

Fabio Scarano (foto) é graduado em Engenharia Florestal pela Universidade de Brasília – UnB e doutor em Ecologia pela Universidade de St. Andrews, na Escócia. É professor associado da Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Em que consiste o manifesto ambiental Declaração do Estado do Planeta, lançado em Londres? Quais são as principais reivindicações do movimento ambientalista?

Fabio Scarano –
A conferência Planet Under Pressure foi uma reunião científica que, ao final, apontou uma série de recomendações que foram encaminhadas aos organizadores da Rio+20. Os cientistas alertaram, ainda esta vez, para o risco que a espécie humana corre com a velocidade das mudanças climáticas e a degradação dos recursos naturais renováveis. Portanto, não se tratou de uma ação do movimento ambientalista, mas sim de mais um entre os vários alertas feitos pela comunidade científica.

IHU On-Line – Como você avalia o rascunho zero, texto-base da Rio+20? Ele aponta alguma novidade? E, por outro lado, quais os principais impasses desse texto?

Fabio Scarano –
O texto-base joga para o futuro soluções que precisaríamos ter posto em prática há 20 anos. Espero que o evento Rio+20 não se torne um Rio+30 ou +40.

IHU On-Line – Quais as razões deste adiamento das questões ambientais?

Fabio Scarano –
Algumas iniciativas foram postas em prática: surgiram órgãos na ONU para tratar do tema; as convenções nascidas na Rio+20 (biodiversidade, clima e desertificação) se fortaleceram; houve um aumento expressivo nas áreas protegidas do planeta; surgiram instâncias de avaliação científica como o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas - IPCC e agora o Intergovernmental Science-Policy Platform on Biodiversity and Ecosystem Service - IPBES. Porém, o resumo da opera é que hoje temos a maior taxa de emissão de CO2 da história, uma taxa de perda de espécies na ordem de 1.000 a 10.000 vezes mais do que seria de se esperar sem a ação humana no planeta, e uma perda financeira estimada ao PIB do Japão por ano, só em degradação de habitats, e quase 1 bilhão de pessoas com fome. Enfim, ainda há muito que fazer e o tempo urge.

IHU On-Line – Como fica a posição do Brasil na Rio+20, uma vez que os parlamentares tentam aprovar o novo Código Florestal e o governo já prevê a construção de diversas hidrelétricas nos próximos anos? Há contradições na agenda ambiental brasileira? Qual sua expectativa para sair das mesas de negociações e encontrar soluções práticas para resolver os problemas ambientais do planeta?

Fabio Scarano –
Há uma tendência da posição do governo brasileiro de ser igual ao que se vê nas convenções: propor metas futuras e cobrar financiamento dos países desenvolvidos. A minha expectativa otimista é de que o governo perceba a oportunidade histórica de o Brasil assumir a liderança no tema, que é o tema do século. Para isso, o Brasil precisa, até mesmo como anfitrião do evento, não esperar por acordo, mas desde o início assumir compromissos estratégicos e financeiros para, ao menos em território nacional, exercitar o que vem defendendo teoricamente nas convenções. Imagino um fundo, pelo menos três vezes maior que o Fundo Amazônia, que possa fomentar iniciativas locais de desenvolvimento verde que, em tempo, possam ser amplificáveis para o resto do país. Recursos de compensação ambiental poderiam ser o início desse fundo. Naturalmente, a atual tendência do código florestal e da expansão das grandes hidrelétricas na Amazônia não está em harmonia com uma iniciativa desse tipo. No entanto, um compromisso político e financeiro de tratar de maneira integrada a agenda de desenvolvimento e a ambiental já poderia ser um começo.

IHU On-Line – Um dos temas a ser debatido na Rio+20 é a economia verde como alternativa para erradicar a pobreza. Como você vê esse debate e a postura dos governos de serem favoráveis a essa proposta? Pode-se dizer que, novamente, o mercado tenta mercantilizar as questões ambientais com propostas como REED, venda de carbono, economia verde, etc?

Fabio Scarano –
O “esverdeamento” da economia é um pré-requisito para o desenvolvimento sustentável e pode vir a erradicar a pobreza sem degradar ainda mais os recursos naturais do planeta. O Brasil, sendo o país que mais significativamente abriga esses recursos (20% da biodiversidade está aqui, além de 15% da água doce, o maior estoque de carbono, e grande produção de alimentos), tem a obrigação de liderar o tema. Se aqui não conseguirmos criar uma economia verde, tenho dificuldade de imaginar como os outros países poderão fazê-lo.

Não concordo que esse conceito signifique mercantilizar o ambiente. O problema é que, hoje, a economia tradicional não atribui valor às coisas ambientais e as assume como dadas. Por exemplo, cerca de 90% da energia gerada no Brasil provém de hidrelétricas. 80% das águas que abastecem os reservatórios nascem em unidades de conservação. As empresas que geram, vendem ou usam energia repassam algum de seus lucros para a gestão de Unidades de Conservação?

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