Arenização no RS: um problema que cresce. Entrevista especial com Dirce Suertegaray

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09 Fevereiro 2010

processo de arenização que vem ocorrendo no Rio Grande do Sul, principalmente na região do Pampa Gaúcho é o tema da entrevista com a geógrafa Dirce Suertegaray. “A mudança mais marcante é a transformação de significativas propriedades, antes pastoris, em áreas de plantio de eucalipto, então, adquiridas pela Stora Enso, com apoio político das últimas administrações estaduais e municipais. Essa mudança gera novas influências, ou seja, decorrente disto, ampliam-se os movimentos sociais e ambientais, colocando em discussão a proposta de expansão da silvicultura nessa e em outras regiões do RS”, alertou ela durante a entrevista que concedeu à IHU On-Line por e-mail.

Dirce falou ainda das diferenças entre o processo de arenização que ocorre no RS em relação ao processo de desertificação que acontece no Nordeste brasileiro. “A desertificação, conforme demonstrou Bartolomeu de Souza [2], em sua tese de doutorado, não  está  necessariamente associada à degradação de terras e solo exposto”, apontou

Dirce Maria Antunes Suertegaray é graduada em Geografia pela Universidade Federal de Santa Maria, com mestrado e doutorado na mesma área pela Universidade de São Paulo. Atualmente, é professora na Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Quais as diferenças entre os processos de arenização e os de desertificação?

Dirce Suertegaray – Segundo a Conferência de Nairobi sobre o meio ambiente (1977), a desertificação corresponde aos processos de diminuição do potencial biológico da terra, decorrente das atividades humanas, que poderá desembocar em definitivo em condições de tipo deserto. A desertificação pode ser compreendida também como um processo natural decorrente das mudanças climáticas. Cabe ressaltar que, na Conferência Rio 92 [1], estabeleceu-se que desertificação é um processo de degradação de terras vinculada aos climas áridos, semi-áridos e sub-úmidos decorrentes da pressão das atividades humanas sobre os recursos naturais. No Brasil, o fenômeno da desertificação pode ser visualizado no Nordeste, região que apresenta características climáticas em acordo, com o exposto sobre o entendimento de desertificação desde 1992. Se verificarmos o mapa das áreas em processo de desertificação no Brasil, elaborado pelo Ministério do Meio Ambiente e Recursos Hídricos e da Amazônia Legal, as áreas com ocorrência de desertificação localizam-se no nordeste brasileiro.

Neste mapa também podem ser visualizadas duas áreas não identificadas como em processo de desertificação e, portanto, incluídas nesse mapeamento como Áreas de Atenção Especial: Jalapão (Tocantins) e em porções do pampa rio-grandense. A maior intensidade desses areais está presente nos municípios de Alegrete, São Francisco de Assis, Manoel Viana e Maçambará, entre outros. O processo que dá origem a esses areais foi denominado, em minha tese de doutorado, em 1987, de arenização. Este conceito foi construído para explicar a gênese desse processo e o diferenciar do processo de desertificação. A necessidade de fazer esta diferenciação está vinculada às características climáticas da área, onde domina o clima subtropical úmido (médias anuais de 1400mm), embora possa ocorrer uma variabilidade significativa na distribuição das chuvas durante o ano.

Neste contexto, definiu-se arenização como o processo de retrabalhamento de depósitos arenosos pouco

Cenário resultante do processo de desertificação no nordeste brasileiro

ou não consolidados, que acarreta, nessas áreas, dificuldade de fixação da vegetação da cobertura vegetal devido à intensa mobilidade de sedimentos pela ação das águas e dos ventos. Explicou-se, na tese, que esses depósitos arenosos eram originários de ambientes mais secos de um passado relativamente recente. Constatou-se que esse processo já tinha sido registrado pelos viajantes naturalistas do século XIX, quando essa região iniciava seu processo de ocupação de terras pelos portugueses. Portanto, defendemos a tese de que: a formação de areais era decorrente de processos naturais, podendo, como indicaram na época alguns proprietários rurais, serem estes intensificados pelas atividades humanas, em particular a expansão comercial das lavouras de soja.

IHU On-Line – Quais são os principais agentes destes processos?

Dirce Suertegaray – É importante dizer que, no Nordeste, podemos encontrar áreas que são identificadas como em processo de desertificação, mas que também já foram descritas como núcleos de aridez intensa (natural). Portanto, para fazer uma distinção entre os agentes da desertificação no Nordeste e da arenização no Rio Grande do Sul, considero relevante indicar que, no Nordeste, temos núcleos de aridez decorrente dos sucessivos usos da terra, como a cultura do algodão (no passado) e a pecuária extensiva de caprinos (mais recentemente). E mais: a desertificação, conforme demonstrou Bartolomeu de Souza, em sua tese de doutorado, não  está  necessariamente associada à degradação de terras e solo exposto, mas em grande parte dos Cariris Velhos (PB). Essa é a área foco de seus estudos que se expressa pela diminuição progressiva da biodiversidade da caatinga, representando uma diminuição do potencial biológico da terra, decorrente das atividades humanas.

No sudoeste do Rio Grande do Sul, o agente natural que originou esses areais foi inicialmente a presença da água através de processos de escoamento concentrado do tipo ravinas (sulcos provocados pela chuva e ou voçorocas, sulcos de grandes dimensões associados à dinâmica da água das chuvas e o escoamento de subsuperfície). Estes processos são característicos de uma paisagem avaliada como frágil, na medida em que sua umidificação é considerada recente em termos de tempos geológicos. Entretanto, não devemos desconsiderar que, em determinadas regiões, onde ocorre arenização, esta se intensificou em virtude da expansão da lavoura de soja e a diminuição das áreas pastoris. Isso provocou o sobrepastoreio, especialmente no período de 1960 até meados de 1985, quando a cultura da soja, por decorrência dessa mesma “degradação” de terras, foi se reduzindo em área. Mais recentemente, o que se verifica é um retorno ao plantio da soja em áreas sucetíveis à arenização, conforme mapeamento elaborado recentemente (2009) pelo grupo de pesquisa que coordeno. Os agentes que promovem arenização, sejam naturais ou antropogênicos, deixam na paisagem as mesmas feições, ravinas, voçorocas e areais (áreas arenosas sem cobertura vegetal sujeitas à ação, além da água, dos ventos).

IHU On-Line – No nordeste brasileiro há um grande número de terras comprometidas com o processo de desertificação. Como é a situação no RS?

Dirce Suertegaray – No Rio Grande do Sul, o que temos em termos numéricos, resultados do monitoramento por imagens de satélites, elaboradas pelo nosso grupo de pesquisa, é a presença de areais em 10 municípios da região sudoeste: AlegreteCacequi, Itaqui, Maçambará, Manoel Viana, Quaraí, Rosário do Sul, São Borja, São Francisco de Assis e Unistalda. O total de areais registrados é de 36,70 quilômetros quadrados ou 3670 hectares. Esta extensão de areais corresponde a 0,01 % da área total de abrangência desses dez municípios que é de 30872,48 hectares, aproximadamente. Estes números, em termos regionais, são pouco expressivos, no entanto, na escala da propriedade rural, a presença de areais, por vezes superiores a 100 hectares, podem resultar em dificuldades de uso da terra pelo proprietário.

IHU On-Line – De que forma estes processos influenciam na vida humana e no desenvolvimento local?

Dirce Suertegaray – De acordo com minha investigação, até os anos 1970, do século XX, esses areais

Arenização no sudoeste do Rio Grande do Sul
Foto: Atlas da Arenização / UFRS

eram considerados pelos proprietários rurais como decorrentes de causas naturais e, portanto, terras improdutivas pelas suas características de falta de cobertura vegetal, por exemplo, o campo, para o pastoreio, atividade dominante na região. Após os anos de 1970, quando se inicia a discussão ambiental no Rio Grande do Sul, os areais são descobertos pela imprensa e ambientalistas e passam a ser denominados “desertos”. Nesse período, a grande empresa regional é responsável pela construção de um conjunto de matérias que promovem a ideia de desertificação no Pampa. Esta divulgação massiva influencia a vida humana local na medida em que passam a denominar os areais de desertos. Por consequência, a existência desses areais (desertos) deve ser combatida, para que não aumentem e para que não tornem suas terras improdutivas.

Esta discussão se associa à discussão ambiental e ao discurso da degradação de terras, e resulta na  busca de resolução desse problema. Inicialmente, solicitava-se a intervenção do Estado, através de recursos públicos para combater o processo. Estudos experimentais sobre espécies possíveis de estabilizar os areais foram feitos (1975 a 1985), surgindo daí a proposição do plantio do eucalipto como possibilidade de reconstuituição “ambiental” dos areais/desertos. Mais recentemente, o projeto muda o enfoque e deixa de ser reconstituição ambiental e passa ser defesa da mudança na matriz econômica da região.

A mudança mais marcante é a transformação de significativas propriedades, antes pastoris, em áreas de plantio de eucalipto, então, adquiridas pela Stora- Enso, com apoio político das últimas administrações estaduais e municipais. Essa mudança gera novas influências, ou seja, decorrente disto, ampliam-se os movimentos sociais e ambientais, colocando em discussão a proposta de expansão da silvicultura nessa e em outras regiões do RS. Este embate, presente mais atualmente, influencia as populações locais e, de maneira geral, setores mais amplos da sociedade civil organizada.

IHU On-Line – Existem caminhos para enfrentar o problema da desertificação  e arenização? Que caminhos são esses?

Dirce Suertegaray – No caso da desertificação, existem recursos internacionais que são destinados aos países que se enquadram em áreas áridas, semi-áridas e sub-úmidas e que apresentem processos de desertificação. No Brasil, o nordeste se enquadra nessa categorização. Para serem obtidos esses recursos, os órgãos internacionais envolvidos exigem desses países um Plano de Combate à Desertificação organizado em escala federal e estadual.

No caso da arenização, o debate na sociedade gaúcha, atualmente, revela duas proposições, uma vinculada à compra de terras pelo capital internacional, objetivando a expansão da silvicultura, é o caso da Empresa Stora Enso no sudoeste do RS. Esta adquiriu terras a baixo custo em áreas com presença do processo de arenização e formação de areais para implantar monoculturas de espécies florestais (eucalipto). De outro lado, os movimentos sociais, ao se posicionarem contra a silvicultura, revelam outra proposição, qual sejam a expansão e maior valorização da pequena propriedade agrícola associada à diversificação das atividades e à preservação do bioma pampa.

IHU On-Line – Como as mudanças climáticas influenciam nestes processos?

Dirce Suertegaray – Considerando o caminho metodológico que adoto, ao fazer pesquisa nas áreas de arenização, diria que: as mudanças climáticas ao longo da formação da paisagem Pampeana influenciaram na formação de areais. Já na minha tese, identifiquei que as áreas onde ocorrem os areais constituíram-se dunas originárias de um passado geológico mais seco, não tão distante dos dias atuais. Estas dunas são as feições que hoje, sob clima úmido, estão mobilizando-se através de processos inicialmente hídricos, como expliquei anteriormente, e formando areais.

Portanto, as mudanças climáticas do passado para o presente estão na origem dos areais. Esta interpretação foi corroborada por estudos arqueológicos (em sítios dos habitantes pré-colombianos) que demonstram a origem natural dos areais. Outros estudos das características vegetais da região com ocorrência de areais observaram espécies provenientes de clima seco, adaptadas às condições úmidas atuais graças às condições microclimáticas favoráveis nessas áreas, em parte, constituídas de areia e rocha. Agora, considerando a discussão das mudanças climáticas atuais, nada pode ser comprovado, não temos evidências de alterações nos parâmetros do clima que se possa denominar de mudanças climáticas. Além disso, em termos regionais a presença de areais é relativamente reduzida para afetar o clima atual.

IHU On-Line – A discussão ocorrida sobre desertificação na Convenção do Clima em Copenhague surtiu resultado?

Dirce Suertegaray – A discussão sobre desertificação realiza-se no âmbito da Convenção das Nações Unidas de Luta contra a Desertificação. Na última reunião, que ocorreu em Buenos Aires, o objetivo dos participantes foi, semelhantemente, a Convenção sobre Mudanças Climáticas que se utiliza de indicadores climáticos, ou seja, adotar indicadores relativos à deterioração de solos em nível planetário. Embora tendo vários objetivos, a convenção da desertificação não teve grande sucesso, poucas foram as propostas aprovadas, entre elas cabe destacar a proposta de criação de um órgão científico para monitoramento do fenômeno da desertificação. Esta vem ao encontro do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas que visa à criação de uma rede mundial de controle sobre a degradação ambiental e à reunião de esforços para aprimorar o uso do solo.

Nota:

[1] A ECO-92, Rio-92, Cúpula ou Cimeira da Terra são nomes pelos quais é mais conhecida a Conferência das Nações Unidas para o Meio Ambiente e o Desenvolvimento (CNUMAD), realizada em 1992. A Conferência do Rio consagrou o conceito de desenvolvimento sustentável e contribuiu para a mais ampla conscientização de que os danos ao meio ambiente eram majoritariamente de responsabilidade dos países desenvolvidos.


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