"Muita reza e pouca missa, muito santo e pouco padre": o Catolicismo Plural. Entrevista especial com Faustino Teixeira e Renata Menezes

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13 Janeiro 2010

O antropólogo francês radicado no Brasil Pierre Sanchis afirma que "há religiões demais nessa religião", o catolicismo. Mas o que acontecerá ao catolicismo "nesse processo de deslocamento, que não é apenas geográfico, mas também político e cultural", que vivemos em nível global? E, em nível de Brasil, como entender a "complexidade e plasticidade", a "diversidade e pluralidade" do modo ser católico?

Nesta entrevista conjunta concedida por e-mail à IHU On-Line, Faustino Teixeira e Renata Menezes refletem sobre essas questões a partir do conceito de "catolicismo plural", um catolicismo peculiar ao Brasil, "com malhas bem largas e diversificadas". Ambos organizaram a recente publicação do livro "Catolicismo Plural: Dinâmicas contemporâneas" (Ed. Vozes, 2009), em que, junto a outros dez pesquisadores, buscam compreender as dinâmicas e processos que marcam o universo católico, especialmente no Brasil.

O livro compõe uma trilogia produzida pela Iser Assessoria e pela Editora Vozes, da qual também fazem parte as obras "Sociologia da religião: Enfoques teóricos" (Vozes, 2003) e "As religiões no Brasil: Continuidades e rupturas" (Vozes, 2006).

Faustino Teixeira, parceiro do IHU, é doutor e pós-doutor em teologia pela Pontifícia Universidade Gregoriana, de Roma. É professor-associado e pesquisador do Programa de Pós-Graduação em Ciência da Religião da Universidade Federal de Juiz de Fora (PPCIR-UFJF), em Minas Gerais.

Renata de Castro Menezes, antropóloga e historiadora, é mestra e doutora em antropologia pelo Museu Nacional / UFRJ e professora adjunta II do Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social da mesma instituição.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Por que podemos falar hoje de um catolicismo plural? Como se expressa a sua pluralidade e complexidade?

Faustino Teixeira – Num texto provocativo de Antônio Flávio Pierucci, publicado em livro que organizamos sobre as religiões no Brasil (Vozes, 2006) ["As religiões no Brasil: Continuidades e rupturas"], ele questionava a ideia de uma diversidade religiosa no Brasil. Com base nos dados do censo de 2000, assinalava que o Brasil mantinha-se hegemonicamente cristão, com cerca de 89,2% de declarantes cristãos, sendo que a diversidade religiosa mantinha-se apertada numa estreita faixa de 3,5%. Foi com base nessa provocação que decidimos pesquisar com mais afinco a ideia de um catolicismo plural, ou seja, investigar a complexidade e plasticidade do campo católico no Brasil. Trata-se, na verdade, de um campo marcado por grande diversidade e pluralidade. De certa forma, podemos assinalar que há uma rica pluralidade religiosa envolvendo o nosso modo de ser católico. Como diz com precisão Pierre Sanchis, "há religiões demais nessa religião". O nosso jeito de ser católico é bem peculiar, com malhas bem largas e diversificadas. Há um catolicismo santorial, bem característico de nosso país, possibilitando uma rica ampliação das possibilidades de proteção. É um catolicismo relativamente livre e autônomo, com "muita reza e pouca missa, muito santo e pouco padre". Há também a presença de outras malhas, como o catolicismo institucional, o catolicismo de reafiliados e o crescente catolicismo midiático, com seu substantivo vigor.

IHU On-Line – Como é vivida a fé dentro do catolicismo plural? Que traços e marcas são perceptíveis na vivência e na devoção dos fiéis nesse sentido?

Renata Menezes – Pierucci, em nosso livro atual "Catolicismo Plural", também editado pela Vozes, lança uma provocação, afirmando que é fácil ser católico, pois "trata-se de uma religião que não precisa ser seguida a risca pela maioria dos fiéis" (p.15). Essa afirmativa parece abrir ao infinito as possibilidades de variação da vivência da fé dentro do catolicismo plural. Mas o mesmo autor afirma que "o enunciado mais congenialmente católico talvez seja esse: `creio na comunhão dos santos – expressão que quer dizer justamente que os católicos na terá são da mesma sociedade a que pertencem as almas no purgatório e os santos no céu`" (p. 16).

É justamente nessa comunhão que combina Céu e Terra que vou recolher alguns exemplos, provenientes das pesquisas que, desde 2001, venho desenvolvendo em torno do culto aos santos, uma das práticas devocionais mais características do catolicismo diante de outras denominações cristãs (ver, por exemplo, minha tese e meu livro "A Dinâmica do Sagrado", ambos de 2004).

Durante muito tempo, as práticas de culto aos santos foram tratadas como "supersticiosas", ou como "comércio da fé", por envolverem promessas, ex-votos, agradecimentos etc., trocas entre homens, mulheres e santos. Mas, observando essas práticas mais de perto, podemos perceber que muitas vezes o que enxergamos são apenas manifestações exteriores de relações mais profundas, que envolvem a totalidade da subjetividade do devoto numa relação com seu santo protetor,  que implica em processos de identificação, auto-entrega, confiança e amizade por parte do devoto. (esses temas são detalhados em meu artigo "Santo Antônio no Rio de Janeiro: dimensões da santidade e da devoção", que também faz parte do livro "Catolicismo Plural").

Por outro lado, ao tentarmos recuperar o sentido que os devotos atribuem a essas relações e às formas pelas quais eles as articulam, chegamos a um bom exemplo da pluralidade na vivência da fé, quando percebemos que aí entram em jogo a "combinação de devoções" e a "experimentação".

A experimentação: ouvir falar do poder de um santo, ou receber um "santinho" divulgando suas capacidades (o que muitas vezes é lido como um sinal divino) e experimentá-lo: pedir a ele algo assim que uma oportunidade surja. A experimentação muitas vezes assume a conotação de teste às capacidades de um santo, e, no caso do pedido atendido, passa-se a reconhecer sua habilidade, seu poder.

A combinação de devoções: do ponto de vista da Igreja Católica, todo ser humano já nasce multi-vinculado, pois todos os lugares têm seu padroeiro, todos os dias do calendário relacionam-se a um santo, e as atividades humanas também contam com seu/sua patrono/a. Muitas vezes, também se herda os protetores da família: santos que, pela devoção preferencial de um parente, zelam pelos demais familiares.

Assim, todas as pessoas nascidas no horizonte católico nascem com protetores em potencial que podem ser acionados em caso de "necessidade", isto é, em momentos em que sentimos que precisamos de um apoio além de nós.

Mas, a esses vínculos que estão, por assim dizer, já constituídos e que precisamos apenas azeitar, podem se somar vínculos construídos a partir da experiência pessoal: as pessoas interessam-se por santos à medida que conhecem suas vidas, ou conhecem seu prestígio, ou "experimentam" seu poder.

Essa incorporação de novas devoções às antigas não implica em um abandono das preferências anteriores, pois a devoção envolve a fidelidade, mas não a exclusividade. Assim, um devoto é capaz de "combinar" devoções, em que uns santos aparecem como mais próximos, ou mais importantes do que outros (nesse caso, a pessoa se identificará como "devoto fervoroso" do santo X ou da santa Y, embora goste também de outros santos).

Mas também é possível pedir a um santo sem necessariamente se tornar seu devoto: isso acontece muito no caso de invocações relacionadas à especialidade do santo em questão. Feito o pedido, paga a promessa, a pessoa está quite com o santo, e pode seguir em frente, até que necessite de seu apoio outra vez.

Isso porque há uma diferença fundamental entre fazer um pedido e ser um devoto: ser um devoto implica em uma relação duradoura que de alguma forma vincule a pessoa e o santo; que passa por processos de identificação, processos que colocam a vida de um em relação à vida de outro. Um devoto não precisa pedir, pois o santo sabe, e sua presença constante na vida daquele que protege faz com que graças sejam alcançadas sem mesmo terem sido enunciadas. Ou que graças não sejam concedidas, pois não seriam para o bem do devoto, e o santo, mais do que ele, sabe que elas não seriam para o seu bem. Portanto, creio que a experimentação e a combinação de devoções seriam bons exemplos da forma de vivência da fé no catolicismo plural.

IHU On-Line – Como podemos compreender o catolicismo brasileiro hoje dentro de uma religiosidade tão diversificada e marcada por um amplo e abrangente "mercado religioso" e um forte sincretismo religioso?

Faustino Teixeira – O modo de ser católico no Brasil é singular e novidadeiro. Não dá para encerrar a sua dinâmica no modelo belarminiano das notas de visibilidade precisas: fé explícita, adesão formal aos sacramentos e obediência à hierarquia. A coisa é muito mais maleável e inusitada. Roberto DaMatta diz com acerto que "o que para um norte-americano calvinista, um inglês puritano ou um francês católico seria sinal de superstição e até mesmo de cinismo ou ignorância, para nós é modo de ampliar as nossas possibilidades de proteção".

"Os católicos são provocados a viver e amar sua identidade nesse campo aberto da disponibilidade ao outro. Não há outra possibilidade"

Aliás, a religião tem esse singular papel de conferir significado a uma vida ameaçada pela anomia; ela ajuda a "localizar" o sofrimento e a dor. Não evita o sofrimento, mas fornece o apoio para que ele seja tolerável e suportável. A imagem de um "dossel sagrado" encaixa-se aqui com perfeição. O nosso catolicismo não faz oposição à complementaridade inter-religiosa. É uma complementaridade que conjuga, a seu modo, a religião popular com a religião oficial ou erudita, mas também com outras formas de expressão religiosa. Vigora aqui a "lógica" tão bem expressa por Guimarães Rosa em seu clássico livro, "Grande Sertão: Veredas". Numa das passagens do livro, um dos personagens diz: "Isso é que é a salvação-da-alma… Muita religião, seu moço! Eu cá, não perco ocasião de religião. Aproveito de todas. Bebo água de todo rio… Uma só, para mim é pouca, talvez não me chegue (…). Tudo me quieta, me suspende. Qualquer sombrinha me refresca".

Um dos artigos da obra "Catolicismo Plural", de autoria de Ariana Rumstain e Ronaldo de Almeida, trata dessa complexa questão dos católicos no trânsito religioso. Os autores abordam esse provocante tema da circulação pelas alternativas religiosas, envolvendo também nessa questão a prática simultânea de duas ou mais tradições religiosas. Isso é muito palpável quando se privilegia as trajetórias individuais e não o enfoque institucional. Firma-se uma maneira peculiar de ser religioso no Brasil, de ser católico no Brasil, num tempo marcado pela "pouca fidelidade institucional", pelos "meio-pertencimentos", pela livre "circulação entre as alternativas" e a "fluidez dos símbolos religiosos".  Coisas interessantes acontecem mesmo entre os membros do catolicismo de reafiliados, marcado por "regime forte de intensidade religiosa". Também ali acontecem experiências de "trânsito religioso" e apropriação de fragmentos de outras tradições religiosas na composição do repertório de crenças. Veja a respeito os interessantes estudos elaborados por Carlos Steil e Eliane Martins de Oliveira ("Religião e Sociedade", vol. 24, nº. 1, 2004).

IHU On-Line – Quais são as principais dinâmicas que perpassam o catolicismo no Brasil hoje?

Renata Menezes – Por um lado, notamos o crescimento do movimento carismático, tanto perpassando movimentos e associações ligados à vida paroquial, como reinventando-se muitas vezes sob a forma de novas comunidades de vida e aliança, como a Toca de Assis e a Canção Nova. Por outro lado, se as CEBs [Comunidades Eclesiais de Base] saíram da linha de frente da visibilidade midiática, elas continuam atuando de forma dinâmica e capilar em muitas dioceses do país, reinventando inclusive uma pauta em que a questão ecológica ganha força a cada dia, como uma dimensão internacional de luta social. Nota-se ainda um aumento do uso de sinais diacríticos, marcas públicas do pertencimento ao catolicismo: camisetas, adesivos de carro, pulseiras etc. que assinalam claramente o fato de que o portador de tais objetos é católico. Isso pode ser lido à luz de um processo de disputa dentro do campo das religiões, isto é, de tentativas de conversão, por um lado, e tentativas de desqualificação da religião alheia, por outro. Nessas situações conflitivas, uma das respostas é o reforço público da identidade católica.

"A Igreja não pode entender-se como uma `minoria` privilegiada, mas como uma força viva portadora da memória perigosa e acolhedora de Jesus"

Com base num processo histórico mais amplo, seria preciso pensar se, a nível de Brasil, poderíamos falar de uma "pentecostalização das classes populares", saindo do catolicismo e entrando em denominações evangélicas, paralela a uma "classimedização/elitização" do catolicismo. Se esse processo realmente estiver se efetivando, seria uma inversão interessante do perfil religioso brasileiro do início do século XX, em que as elites e a classe média eram influenciadas pelo positivismo e/ou pelo Kardecismo, e o catolicismo era visto como característico das classes populares.

IHU On-Line – Bento XVI referiu-se à Igreja com relação a seu futuro como uma "minoria criativa". Como a noção de catolicismo plural se coloca nessa interface entre a Igreja e a sociedade contemporânea?

Faustino Teixeira – O desafio essencial que se coloca para a igreja no século XXI é o de recuperar o conteúdo fundamental da mensagem evangélica. Na visão de um dos maiores teólogos do século XX, recentemente falecido, Edward Schillebeeckx, o núcleo da mensagem cristã é o critério pelo qual toda eclesiologia deve medir-se. No ciclo final de sua trilogia cristológica, dedicada ao tema da humanidade como história de Deus, Schillebeeckx buscou refletir sobre esse núcleo com o seguinte argumento: "Era melhor buscar o cerne do evangelho e da religião cristã, o que é autêntico e singular em ambos, do que ocupar-me, em época de polarização eclesial, com problemas intra-eclesiásticos, no fundo problemas de segundo plano relativos a conteúdos da fé cristã e à questão referente à tarefa que também os cristãos têm no mundo".

É interessante constatar que no núcleo da mensagem evangélica há sinais substantivos de uma perspectiva que envolve a abertura, o cuidado, a delicadeza e a hospitalidade. O voltar-se com radicalidade para a figura e o significado de Jesus de Nazaré provoca, necessariamente, uma mudança de perspectiva. Estar diante de alguem que desestabiliza e suscita um novo modo de ser.

Isso vem apontado por José Antonio Pagola em sua extraordinária obra sobre Jesus, em vias de publicação no Brasil pela editora Vozes ("Jesús, aproximación histórica", Madrid: PPC, 2007).Trata-se da rica tarefa de resgatar o Jesus "curador da vida", "poeta da compaixão", "defensor dos últimos", "mestre da vida", "buscador de Deus" e "profeta do reino de Deus". A igreja não pode entender-se como uma "minoria" privilegiada, mas como uma força viva portadora da memória perigosa e acolhedora de Jesus. Mas Jesus mesmo nos convoca a uma radicalização ainda maior, no sentido da abertura de horizontes, de forma a favorecer a percepção da ação de Deus através de outras mediações.

"É preciso pensar se podemos falar de uma `pentecostalização das classes populares` paralela a uma `classimedização/elitização` do catolicismo

Isso tem implicações vivas na vida e ação da igreja. Esta não pode ficar encerrada em sua própria tradição, mas estar no mundo como fermento renovador. Como assinala outro grande teólogo contemporâneo, Adolphe Gesché ("O sentido", São Paulo: Paulinas, 2005), a fé cristã necessita de interfaces alternativas, de "ausência cristã", de laicidade, de paganidade. Não basta o sensus fidelium, mas também o sensus infidelium, ou seja, a provocação vinda dos não crentes e do exercício de seus valores. Gesché tem razão quando sublinha que "o Evangelho não é suficiente para tudo, não diz tudo sobre o ser humano (…). A esperança cristã não pode dispensar-se dessa louca sabedoria, de saber que deve resistir a uma fé que se julgaria toda acabada nela e toda dada por ela".

IHU On-Line – Os católicos, em geral e especificamente no Brasil, estão preparados para viver um tempo incerto como o atual, marcado por categorias como "líquido" e pós- (contemporâneo, histórico, metafísico, secular, religioso etc.)?

Faustino Teixeira – Uma rica e sintética reflexão sobre a cultura intelectual "pós-moderna" ou "pós-metafísica" foi desenvolvida por Roger Haight em sua obra sobre "Jesus, símbolo de Deus" (1999, com tradução portuguesa pelas Paulinas, em 2003). Sua preocupação é desvendar as formas como a pós-modernidade, entendida como cultura, permeia o universo dos cristãos nesse tempo atual e que desafios ela apresenta para a reflexão teológica.

Entre os traços dessa pós-modernidade, Haight elenca a perda da confiança no progresso e a afirmação de uma consciência histórica radical e social crítica, bem como uma nova consciência cósmica e pluralista. Sinaliza que "em nenhuma outra época as pessoas tiveram tanto senso da diferença dos outros, do pluralismo das sociedades, das culturas e das religiões, bem como da relatividade que isso implica. Já não é possível postular a centralidade da cultura ocidental, a supremacia de sua perspectiva, ou o cristianismo como a religião superior, ou Cristo como o centro absoluto em relação ao qual todas as demais mediações históricas são relativas".

Em semelhante linha de reflexão, Gianni Vattimo argumenta que essa nova época interdita pensamentos rígidos que definem a realidade como uma "estrutura fortemente ancorada num único fundamento". O mundo revela agora, de forma nítida, sua faceta pluralista, que não se deixa interpretar por pensamentos unificadores ou verdades definitivas. O novo tempo provoca a viva consciência da "historicidade contingente do existir", abrindo espaço para um núcleo kenótico, que envolve o risco permanente da criação e da reinterpretação. Os católicos são provocados a viver sua identidade, a amar sua identidade, nesse campo aberto da disponibilidade ao outro, da provocação hermenêutica e da abertura plural. Não há outra possibilidade de viver a identidade hoje senão nesse processo criativo.

IHU On-Line – A pluralidade do catolicismo se estende também à sua relação com as demais religiões? Como entender o ecumenismo e o diálogo inter-religioso a partir do conceito de catolicismo plural?

Faustino Teixeira – Não há duvida sobre isso. Um dos mais importantes desafios para o catolicismo no tempo atual é abraçar o pluralismo religioso como um valor. Há algo de irredutível e irrevogável nas outras tradições religiosas. As religiões são portadores de um patrimônio espiritual que não pode ser abarcado por nenhuma outra tradição religiosa. Não há como romper na história essa dinâmica de coexistência e reciprocidade entre as diversas tradições religiosas. Há virtualidades que animam a relação do ser humano com o mistério maior que não podem ser esgotadas numa única religião e que em casos concretos escapam mesmo da visada religiosa.

"Em `Grande Sertão: Veredas`, um dos personagens diz: `Isso é que é a salvação-da-alma… Muita religião, seu moço! Uma só, para mim é pouca"

Estamos diante do desafio essencial de enfrentar intelectualmente o enigma do pluralismo religioso, sem buscar apressadamente enquadrar a dinâmica ampla desse mistério no âmbito de uma específica tradição religiosa. Como indica Claude Geffré, "a pluralidade dos caminhos que levam a Deus continua sendo um mistério que nos escapa". Não nos podemos, entretanto, iludir quanto às resistências que uma tal perspectiva vai implicar, sobretudo no campo religioso brasileiro, onde firmam-se com vigor certas perspectivas religiosas marcadas por forte tendência exclusivista.

IHU On-Line – Em outras partes do mundo, o catolicismo também é marcado pela sua pluralidade? Como o catolicismo vem se manifestando nos países em que ele historicamente encontra suas raízes?

Renata Menezes – Creio que o catolicismo, ao sair da Europa e dirigir-se a outras regiões do mundo, sempre teve que lidar com o problema do "sincretismo", isto é, de como relacionar-se com as culturas e religiões "nativas" existentes nas novas regiões em que tentava se implantar. E nesse sentido, o momento histórico dessa implantação tem um peso muito importante na maneira em que a relação com o outro vai se dar.

Por exemplo, nos séculos XVI e XVII, a colonização das Américas por Portugal e Espanha, a "descoberta" dos nativos americanos colocou em cheque a própria noção de Humanidade: o que eram aqueles "seres novos", difíceis de classificar nos padrões existentes? Eram humanos ou não? Ou seja, eram ou não filhos de Deus?

Nos séculos subsequentes, a difusão do catolicismo demonstrou-se marcada por outras concepções de humanidade, isto é, por diferentes relações de alteridade, que juntamente com diferentes concepções teológicas são fundamentais para entender se o catolicismo adotará uma postura mais aberta ou mais fechada com relação à diferença – ou seja, se será mais ou menos plural.

"Nosso catolicismo não faz oposição à complementaridade inter-religiosa, que conjuga a religião popular com a religião oficial ou erudita"

Por outro lado, é preciso considerar que essa "pluralidade" na maioria das vezes não é doutrinariamente planejada, isto é, não é premeditada pelas instâncias religiosas, mas "acontece" nas relações cotidianas que se estabelecem entre clérigos e leigos, católicos e não católicos, homens e mulheres. Ou seja, muitas vezes a pluralidade é fruto de um processo de interação social, e para compreendê-la é preciso se aproximar do catolicismo como vivido concretamente em determinado contexto social.

IHU On-Line – Em termos mundiais, temos visto grandes mudanças no cenário católico mundial, especialmente no que se refere ao esvaziamento das Igrejas na Europa e um maior fortalecimento do catolicismo especialmente na América Latina. Nos quadros clericais, a África e a Ásia despontam como fontes de novos sacerdotes. Que rumos o catolicismo está tomando diante do futuro?

Renata Menezes – Uma resposta unívoca a essa questão seria na verdade mais uma aposta do que como uma certeza, pois trata-se de um processo ainda recente dentro de uma instituição milenar. Talvez a saída seja atentar para os sinais, sem adivinhar qual será o desfecho. Prestar atenção no crescimento rápido e massivo do pentecostalismo na América Latina, onde estavam concentradas as maiores densidades populacionais de católicos no século XX, e no grande investimento missionário das ordens religiosas católicas na África e na Ásia, situações em que o catolicismo entra na condição subordinada de religião das minorias locais (embora num volume expressivo em relação ao total mundial de católicos).

O que acontecerá ao catolicismo nesse processo de deslocamento, que não é apenas geográfico, mas também político e cultural? Como a Igreja Católica irá se relacionar, na condição minoritária, com Estados Nacionais cujo modelo não é o do contrato social ocidental, nem da separação Igreja/Estado européia? Como se dará a tradução dessa tradição ocidental, judaico-cristã, para os demais povos – e aqui penso em tradução não apenas da palavra, do texto, mas da experiência religiosa e dos valores cristãos? Esse processo será marcado pela abertura às diferentes concepções existentes em várias partes do mundo, ou será marcado pelo autoritarismo?

É por isto que os cientistas sociais – notadamente os antropólogos – têm se interessado nos últimos anos pela literatura sobre missões: para tentar compreender melhor como o processo de conversão, que é também um processo de encontro entre pessoas e povos de matriz cultural distinta, efetivamente acontece, e como se dá a transformação nesse processo.

(Reportagem de Moisés Sbardelotto)

 

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