Rûmî: a mística reconhecida pela alta literatura. Entrevista especial com Faustino Teixeira

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24 Outubro 2008

No próximo dia 31 de outubro, a União Brasileira de Escritores (UBE) irá realizar a entrega do Prêmio Mário Barata de melhor livro de crítica e interpretação de 2008 à obra O Canto da Unidade – Em torno da poética de Rûmî (Rio de Janeiro: Editora Fissus, 2007). O livro, de autoria do escritor Marco Lucchesi e do teólogo Faustino Teixeira, também ficou entre os 10 finalistas na categoria Melhor Tradução do Prêmio Jabuti, da Câmara Brasileira do Livro.

A premiação da UBE, que irá ocorrer na Academia Brasileira de Letras, reconhece o trabalho de tradução e de análise da riqueza poético-reflexiva de Rûmî, ou Mawlānā Jalāl ad-Dīn Muhammad Rûmî, grande místico persa, nascido em 1207. Em comemoração aos 800 anos de seu nascimento, a Unesco consagrou a Rûmî o ano de 2007.

O livro reúne poemas traduzidos por Marco Lucchesi e Rafi Moussavi, que expressam a grande riqueza da obra lírica de Rûmî. São 30 Rubayats, ou quadras, versos, que expressam a forma mais curta da literatura persa, marcados pela musicalidade e pela concisão. Lucchesi também relata a experiência do trabalho de tradução no capítulo “Diário de um tradutor”, descrevendo as “madrugadas insones”, no trabalho de desenhar “mil vezes a tradução dos versos em português”. Estudando profundamente “três línguas abissais” (o turco, o árabe e o persa), Lucchesi conclui que, “na confluência desses mares, a poesia de Rûmî cria uma língua porosa, dúctil, cheia de vigor e profundeza”.

O livro traz ainda comentários de diversos autores sobre a obra de Rûmî, como Leonardo Boff, Mário Werneck Filho, Heliane Miscali, Pablo Beneito e Pilar Garrido.

Já o teólogo Faustino Teixeira, que co-assina o livro, analisa a obra de Rûmî a partir do tema do amor, que, segundo ele, encontra um lugar central nos escritos do místico. Segundo Teixeira, “entre as mais ricas mensagens deixadas por Rûmî, e que permanecem atuais, estão a cortesia inter-religiosa e a delicadeza espiritual. É um místico marcado por grande liberdade, otimismo e ousadia. Não convida ninguém a romper com o caminho de sua tradição, mas insiste com vigor na necessidade de avançar para dentro da tradição, naquele núcleo mais íntimo onde brota a água vida da Realidade”.

Nesta entrevista, concedida por e-mail, Teixeira comenta a importância do prêmio conquistado e indica também o que espera que a obra suscite em seus leitores.

Grande parceiro do IHU, Faustino Teixeira é doutor e pós-doutor em teologia pela Pontifícia Universidade Gregoriana, de Roma. É professor e pesquisador do Programa de Pós-Graduação em Ciência da Religião da Universidade Federal de Juiz de Fora (PPCIR-UFJF), em Minas Gerais. Além de O Canto da Unidade, Teixeira já publicou vários livros sobre a teologia do diálogo inter-religioso. Entre suas obras, citamos Nas teias da delicadeza (São Paulo: Paulinas, 2006) e As religiões no Brasil: continuidades e rupturas (Petrópolis: Vozes, 2006, em parceria com Renata Menezes).

Confira a entrevista.

IHU On-line – Qual a importância que o senhor atribui ao prêmio conquistado pelo livro e que significado ele tem para a nossa cultura e literatura?

Faustino Teixeira – Esse prêmio, Mário Barata, concedido pela União Brasileira de Escritores (UBE-RJ), ao melhor livro de crítica e interpretação em 2008, foi acolhido com grande alegria. Em primeiro lugar, pelo fato de ser um livro gestado com muito carinho. Eu e Marco Lucchesi já sonhávamos com um tal empreendimento. A obra foi sendo curtida nos últimos anos, pensada e sonhada com delicadeza. A idéia inicial foi traduzir para o português alguns Rubâi´yat de Rûmî: são poemas maravilhosos, que traduzem o canto de amor apaixonado e embriagado desse grande místico do século XIII, contemporâneo de São Francisco. Essa tradução coube a Marco Lucchesi e Rafi Moussavi. Esse belo trabalho realizado pelos dois foi reconhecido pela crítica, tendo ficado entre os dez finalistas do prêmio Jabuti de 2008. Além dos Rubâi´yat, cuja tradução é inédita no Brasil, o livro traz uma série de artigos de reflexão sobre a obra de Rûmî: “Diário de um tradutor” (Marco Lucchesi); “A flama do coração: perspectivas dialogais em Rûmî” (Faustino Teixeira); “O eixo do amor: Rûmî e São Francisco” (Leonardo Boff); “Amor: universo em verso e O homem inspirado é fonte da vida: breve biografia de Rûmî” (Mário Werneck Filho) e “Filho do silêncio, mestre das palavras: a linguagem mística do silêncio em Rûmî” (Heliane Miscali). Em segundo lugar, pelo fato do prêmio ser concedido a um livro sobre mística. Num tempo marcado pelo “desgaste da compaixão” e pela afirmação crescente do individualismo e do secularismo, o reconhecimento de uma obra que trata da mística significa um passo novo, uma abertura de horizontes, um alargamento de olhar.

IHU On-line – O senhor sugere, no livro, que entre as mais ricas mensagens deixadas por Rûmî estão a cortesia inter-religiosa e a delicadeza espiritual. Em que consistem e como elas podem ser retraduzidas para a nossa época?

Faustino Teixeira – Vale registrar que um dos nomes atribuídos a Deus no islã está envolvido pela delicadeza: Al-Latîf. Trata-se de um nome atestado em sete versetos do Corão. O termo “delicadeza” vem, assim, inserido nas malhas que envolvem o significado do mistério maior. A mística islâmica como tal, o sufismo, traz as marcas da cortesia inter-religiosa e da delicadeza espiritual. Um dos maiores místicos dessa tradição, Al-Hallaj (858-922), foi pioneiro de um “ecumenismo místico”. Numa clássica passagem de seu "Diwan", sublinha o tema da unidade essencial das diversas expressões de fé. Diz que as religiões são os “muitos ramos de uma única Fonte”. Para ele, fixar-se exclusivamente numa única ramificação seria afastar-se do Fundamento divino maior. Daí a necessidade permanente do diálogo e da comunicação. Nessa mesma linha vai a reflexão de Rûmî, que é herdeiro de Al-Hallaj. Em seu "Livro do Interior" (Fihi-ma-fihi), Rûmî assinala que “se os caminhos são diferentes, o objetivo é um só”. Para ele, a religião verdadeira é aquela que traduz a dinâmica de um coração compassivo, pois no fundo do coração há um “ponto luminoso” que traduz o centro nevrálgico da unidade. O mistério de Deus, que é o “senhor das coisas ocultas”, ultrapassa infinitamente o mundo das aparências, revelando-se misteriosamente em caminhos diversificados. O fundamental para Rûmî é o calor do coração. Em bela passagem de seu "Mathnawî", Rûmî aborda a história de Moisés e o pastor, que trata justamente disso. A mensagem que ali apresenta é muito clara: “Aqueles que amam os belos ritos são de uma classe, aqueles cujos corações e alma ardem de amor são de outra (…). Não é preciso virar-se para a Caaba quando se está nela, e mergulhadores não precisam de sapatos”. Num tempo que vem perdendo esse senso da delicadeza e do cuidado com os outros, Rûmî apresenta pistas que são inusitadas, que traduzem um convite singular em favor da abertura inter-religiosa.

IHU On-line – O místico afirma que venceu o Dois e uniu-se ao Um, e, no livro, o senhor afirma que Rûmî não convida ninguém a romper com o caminho de sua tradição (religiosa), mas a avançar para dentro dela, do "núcleo mais íntimo onde brota a água viva da Realidade". Qual a dimensão dessa expressão para os fiéis atuais, independentemente de seu credo, e o atual diálogo ecumênico e inter-religioso?

Faustino Teixeira – É um tema que Rûmî aborda num de seus mais belos livros de poema: "Diwan de Shams de Tabriz", que revela a força e o vigor de um dos mais ricos encontros amorosos de toda a história da mística. Num desses poemas, canta Rûmî: “O que fazer, se não me reconheço? Não sou cristão, judeu ou muçulmano (…). O meu lugar é sempre o não lugar, não sou do corpo, da alma, sou do Amado. O mundo é apenas Um, venci o Dois. Sigo a cantar e a buscar sempre o Um”. Rûmî traduz aqui a sede de todo místico: desocultar o “sol-estrela que se eleva além da realidade das formas”; adentrar-se no outro mundo que habita esse mundo, mas que é “impermeável às palavras”; abrir os olhos “que sabem contemplar o invisível”. O caminho para esse desvelamento é uma viagem para dentro de si mesmo, em busca da “fonte da doçura”. O Amado não está distante, mas bem próximo: “Vós que saístes a peregrinar! Voltai, voltai, que o Amado não partiu! O Amado é vosso vizinho de porta, porque vagar no deserto da Arábia? (…). De casa em casa buscastes resposta. Mas não ousastes subir ao telhado”. De fato, Rûmî não desacredita a importância do vínculo religioso e do amor à própria tradição. Porém, o desafio que nos coloca é bem preciso: é necessário avançar para além da espuma que aparece para se poder atingir o vigor das águas. Isso significa avançar para dentro da própria tradição, aproximando-se de seu ponto (nuqta) virginal, do núcleo da luz original, de onde transbordam as teofanias incessantes do Mistério de Deus. Essa abordagem mística de Rûmî revela-se muito atual para o diálogo inter-religioso. Indica que o caminho do diálogo não se dá pela superfície, mas pela profundidade. Para ilustrar essa perspectiva, gosto sempre de citar uma passagem do teólogo Paul Tillich, em importante reflexão sobre o cristianismo e as religiões: “Na profundidade de toda religião viva, há um ponto onde a religião como tal perde sua importância, e o horizonte para o qual ela se dirige provoca a quebra de sua particularidade, elevando-a a uma liberdade espiritual que possibilita um novo olhar sobre a presença do divino em todas as expressões do sentido último da vida humana”.

IHU On-line – Em sua contribuição ao livro, o senhor afirma que Rûmî é tanto místico quanto profeta. Nesse sentido, quais são as principais inspirações que ele vivencia como místico e quais denúncias eles faz como profeta?

Faustino Teixeira – Enquanto místico, Rûmî nos convoca à percepção do mistério da gratuidade de Deus: da rica dialética que envolve a sua infinita transcendência (tanzih) e a proximidade de sua Presença (tashbih). E também do reconhecimento de sua graça transbordante, que a cada segundo, e de forma inusitada, enriquece e dilata o coração do ser humano. Para Rûmî, Deus está presente no íntimo do coração: é o sempre-já-aí. O Deus transparente que é mais diafania que epifania. A profecia de Rûmî está na forma original como entende a religião do amor. São inúmeras as críticas que ele tece contra a hipocrisia de uma religião não habitada pelo Amado. O que propõe é uma religião do amor, que vem sempre acompanhada pelas boas ações. A seu ver, as más ações constituem expressão de um coração corrompido, produzindo um hálito negativo junto às narinas de Deus. Invoca-se melhor a Deus mediante a língua dos atos. Não há, segundo Rûmî, melhor companheiro do que as obras para atravessar a existência. Nem os amigos, nem todas as riquezas da terra conseguem acompanhar o ser humano para além da tumba, mas sim a excelência de suas ações. Na avaliação derradeira, o que vai contar é o amor: “No dia da Ressurreição, homens e mulheres comparecerão pálidos e trêmulos de medo para o julgamento final. Eu apresentarei o teu amor em minhas mãos e te direi: interrogue-o, ele te responderá”.

IHU On-line – Se fosse possível definir em algumas palavras, qual seria a ética que Rûmî inspira aos homens e mulheres do nosso tempo?

Faustino Teixeira – Diria em poucas palavras, a ética da cortesia, da delicadeza e do exercício do amor transparente.

IHU On-line – Considerado um "mestre das palavras", é possível traçar uma relação entre a poética de Rûmî com a poesia brasileira em geral? Como Rûmî dialoga com a nossa cultura?

Faustino Teixeira – Em verdade, a condição de “mestre das palavras” advém de sua situação de “filho do silêncio”. As palavras de Rûmî são tecidas numa experiência de “solidão sonora”, habitada pela grande riqueza dos seres humanos e de toda a criação. Sua mística não traduz nenhum solipsismo, mas vem penetrada até a medula pela presença de todos. É difícil e complexo estabelecer relações da poética de Rûmî com a poesia brasileira, mas sinto uma proximidade quando leio os poemas de autores contemporâneos como Marco Lucchesi e Mariana Ianelli. Marco é habitado por semelhante paixão do infinito, pela presença de um Deus que ampara e atormenta. Sua sede maior não é de um Deus encerrado em conceitos, mas de um Deus que possa ser abocanhado em seus frutos, que possa ser apreendido em seu hálito. Seus poemas trazem a marca de um “rosto” que o acompanha por toda parte: de um rosto que acende os sonhos, mas que também confunde e arrebata. Em tudo o que vê, presencia e vive, capta o reclame de algo “mais fundo e impronunciável”. É a presença do Todo, “faminto de profundas harmonias”, que reclama a comunhão das partes. Em Mariana Ianelli, percebe-se algo análogo: a presença de um “céu absoluto” que inspira os mais profundos enigmas. E também a busca de um Deus palpável: “Para estar em Deus, há que se provar pelo tato o rancor dos temporais, a calma gentil dos regatos, o segredo das grutas e das ribanceiras”. O diálogo de Rûmî com a nossa cultura soa mais como uma profunda provocação, no sentido de uma mudança de rota, ou, melhor ainda, de mudança de ritmo e de percepção do real. Sua mensagem é bem clara: há que abrir os olhos e o coração para poder perceber o canto das coisas.

IHU On-line – Como co-autor do livro, qual seria o principal objetivo que o senhor espera alcançar junto ao público a partir da leitura da obra, agora reconhecida também pela alta crítica?

Faustino Teixeira – O objetivo maior está em suscitar nos corações e mentes a sensibilidade mística e espiritual. Como mostrou de forma sábia e perspicaz o nosso grande filósofo brasileiro, Henrique Cláudio de Lima Vaz, em sua obra sobre a mística na tradição ocidental, um dos resultados mais funestos de nossa “modernidade moderna” foi a dissolução da “inteligência espiritual”, decorrente de uma revolução antropocêntrica que situou o sujeito como “vetor ontológico do espírito”. Ao sinalizar o valor dos grandes místicos e de suas narrativas, estamos abrindo novos horizontes e resgatando a essencial “reserva escatológica” de Deus sobre o mundo e sobre as religiões. E também suscitando uma nova sensibilidade humana e criatural.

 

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