Sociedade das possibilidades. Entrevista especial com Celso Candido de Azambuja

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15 Junho 2009

O computador em rede e o celular são as tecnologias que o professor Celso Candido de Azambuja aponta como as que irão moldar e mudar nosso mundo. As duas nos conectam ao mundo, aproximando uns dos outros e permitindo que a produção seja cada vez mais autônoma. Nesse sentido, a TV, para ele, deixará de ser hegemônica e abrirá espaço cada vez maior para a internet. Embora a sociedade, segundo o professor, esteja se movimentando nessa rede, os políticos brasileiros ainda têm uma participação ínfima nesse “mundo”. “A classe política, do meu ponto de vista, não explora o potencial que nós temos nas redes digitais. Se existisse um governante que colocasse sua cabeça para pensar o que pode fazer com uma rede de computadores e celulares, certamente mudaria a vida política de um país de modo extraordinário”, comentou.

Celso Candido de Azambuja é mestre em Filosofia e doutor em Psicologia, e suas pesquisas sempre estiveram voltadas, de certo modo, para a comunicação. Assim, hoje, é professor no curso de Comunicação Digital e coordenador do curso de Filosofia da Unisinos. Nesta entrevista, que nos concedeu pessoalmente, Celso falou sobre como as tecnologias estão influenciando as transformações pelas quais nós e o mundo estamos passando.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Quais seriam hoje as tecnologias que moldam nosso mundo?

Celso Candido de Azambuja – Existem muitas tecnologias no mundo contemporâneo, mas duas são fundamentais. O computador em rede, diferente de apenas o computador. Em rede, ele engrena numa máquina universal, onde se conecta com todas as outras máquinas. A potência dele em rede é “n” vezes maior. O computador em rede está transformando e irá transformar cada vez mais todos os setores da sociedade, desde as relações interpessoais até as relações de produção. A outra tecnologia é o celular, que também é um meio fantástico e está realmente mudando o modo como nos relacionamos com as pessoas. Nossa presença é praticamente ubíqua, ou seja, basta eu ter um celular que estou conectado ao mundo. Dentro disso, poderíamos apontar um fenômeno muito importante: o da molecularização dos equipamentos. Hoje, cada um pode ter sua própria rádio, sua própria câmera, sua própria produção de TV. Ou seja, essa molecularização das tecnologias parece outro aspecto interessante. Vários equipamentos vão passando pela lógica de miniaturização. Esta, certamente, irá transformar as relações que vínhamos estabelecendo até então, principalmente nos aspectos territorial, cultural, laços. Assim, as tecnologias vão mudando os modos como entendemos a nós mesmos, e como participamos do mundo. Há um negócio que está começando agora: a Internet TV. Trata-se de uma conjugação de um grande meio de comunicação de massa com a internet, um grande meio de comunicação da intercriatividade social. Isso já acontece em algumas casas, mas ainda é muito limitado. Um grande novo meio está por vir, o que é extraordinário. Com isso, poderemos ter um movimento cultural muito grande na sociedade brasileira.

IHU On-Line – E o que estamos fazendo com este mundo?

Celso Candido de Azambuja – Tudo o que pudermos imaginar existe no mundo digital das tecnologias de comunicação. Se faz de tudo, portanto. Aquilo que é humano não escapa da rede, que é a expressão do que nós somos enquanto seres humanos. Muitas pessoas já estão se apropriando dessas novas tecnologia; eu diria que para o bem e para o mal. Assim como ouvimos falar em sites de pedofilia, organizações criminosas que se instituem através da internet, há, ao mesmo tempo, um outro lado cultural e acadêmico muito avançado. Estou agora começando a explorar o Twitter, que é uma coisa nova, e começo a ouvir o que está acontecendo ali. Estou seguindo, nele, o Steven Johnson, que publicou uma mensagem falando de uma manifestação que aconteceu agora no Irã contestando a legitimidade do processo eleitoral. Isso foi organizado através do Twitter. É apenas um exemplo do que está acontecendo atualmente. Estou seguindo também, no Twitter, o Barack Obama: ele é um fenômeno e, por isso, temos de ouvir o que ele está falando. No entanto, os políticos são os mais atrasados, principalmente no Brasil. Aqui, a classe política, do meu ponto de vista, é muito atrasada em relação às tecnologias, ou seja, faz um uso muito limitado em relação ao que elas representam. E os cidadãos fazem movimentos. A nossa cidadania, do ponto de vista das redes, é muito mais cultural, menos do ponto de vista político. O que acontece no Brasil é que temos uma classe política pré-digital tentando governar um país que está na sociedade da informação. Então, a classe política, do meu ponto de vista, não explora o potencial que temos nas redes digitais. Se existisse um governante que colocasse sua cabeça para pensar o que pode fazer com uma rede de computadores e celulares, certamente mudaria a vida política de um país de modo extraordinário.

IHU On-Line – A cibercultura está, portanto, criando uma nova sociedade?

Celso Candido de Azambuja – Penso que sim. É difícil dizer que sociedade é essa, mas claramente estamos na sociedade da informação e numa sociedade globalizada. E o que alavanca essa sociedade é o computador em rede. Ele já está mudando o mundo, mudando nossos hábitos. Eu sou de uma geração que viveu a pré-internet. Quando eu era estudante, no movimento estudantil, nós fazíamos rádios livres, panfletos. E hoje, 20 anos depois, percebemos que esse cenário é muito diferente: existe liberdade de expressão. A juventude de hoje tem uma liberdade de se comunicar que nem sonhávamos há 20 anos, o que traz uma mudança grande. A questão é como vamos começar a entender essa mudança. Temos o perfil de uma juventude muito mais ativa, participativa, em razão dessa mídia intercriativa. Eu já vejo mudanças muito claras, por exemplo, com a educação a distância. Ela sempre existiu, desde que existem os manuais, mas nunca foi do modo como está se projetando. A educação a distância será uma grande solução, se tirarmos as iniciativas meramente comerciais, em termos de direcionamento social e em termos de mercado de trabalho. Se nós começarmos a mexer, vamos longe. Outro exemplo são os blogs, que têm uma participação muito importante na sociedade. Nós tínhamos uma hegemonia da televisão, como acontece nos Estados Unidos, e diferente dos europeus. Ela determinou certos tipos de atitudes, padronizou horários, comportamentos, além de ter determinado uma subjetividade comunicativa. Com as redes digitais, há uma outra construção discursiva, uma outra formação da subjetividade: eu preciso percorrer os caminhos na rede, construir meu perfil no Orkut, criar minhas mensagens no Twitter, mandar meus e-mails...

IHU On-Line – O fluxo de comunicação é mais autônomo?

Celso Candido de Azambuja – Sim, claro. Então, se a televisão hegemonizou durante tantos anos, hoje ela já não faz mais isso com tanta força. Eu acredito que brevemente quem irá pautar a televisão é a internet. Quando houver essa conjunção, as coisas mudarão muito. Estamos mudando e precisamos fazer o desenho do que está acontecendo. A questão é saber quando a internet será mais importante do que a televisão em países como o Brasil e os Estados Unidos, onde a TV tem uma penetração muito forte.

IHU On-Line – Certa vez, o senhor nos disse que os indivíduos estão cada vez mais fascinados pelas tecnologias contemporâneas. Essa cultura ciber fascina o homem por torná-lo um “super-homem”, ou seja, nesta nova cultura ele pode voar e diminuir grandes distâncias em pouco tempo?

Celso Candido de Azambuja – Eu não sei se é fascínio pela tecnologia. Algumas pessoas são fascinadas pela tecnologia. O que acontece, na verdade, é que a tecnologia nos compõe. O conceito de super-homem parece muito forte, mas é interessante quando você fala isso, porque a tecnologia nos dá um poder muito grande realmente. É como o automóvel, por exemplo, que nos dá um poder impressionante. É sempre interessante fazer o exercício de voltar no tempo. Imagina o que significava para um guerreiro antigo a velocidade de um cavalo: lhe dava um poder muito grande. E hoje nós temos a tecnologia, que nos empodera, porque o conhecimento dá poder às pessoas. Imagina o que a pessoa sente ao ter acesso à biblioteca universal. Se você quer saber uma coisa, vai à Wikipédia, ao Google, procurar e encontrar referências, o que traz muito poder. E se você não souber lidar com o computador, com o celular hoje, ficará de fora, porque a tecnologia se impõe. Isso também tem seu lado ruim, porque nos condiciona. Vivemos um processo de aceleração do tempo também. Com a aceleração dos processos de comunicação, temos nossa estrutura psíquica, emocional, afetada. Estamos muito mais acelerados e, se você não entrar nesse processo, está fora do mundo. É uma questão de sobrevivência. Assim, precisamos adaptar o computador para ele ser, além disso, um meio de diversão, de estudo, de comunicação.

IHU On-Line – O que o senhor pensa do conceito de pós-humano?

Celso Candido de Azambuja – Acho um conceito muito interessante. Eu prefiro trabalhar com o conceito de transumano que me permite pensar em mais coisas, mas também poderia fazer um paralelo entre esses dois conceitos. O transumano me permite pensar na humanidade que transita em diferentes culturas, etnias. O pós-humano talvez não nos permite tanto isso. Não adianta sermos supertecnologizados se nossa relação com a natureza não está legal. O transumano permite que eu pense o intraumano, a internatureza e a relação com a máquina. O pós-humano remete a uma ideia de ser humano mais turbinado, ou seja, de que agora podemos superar os limites impostos pela natureza. Temos limites biológicos e toda essa tecnologia está nos colocando num estágio de pós-humano, porque estamos transcendendo nossos limites biológicos. Quando é que o Aristóteles teria imaginado, por exemplo, a televisão? Imagina ele, lá na Grécia, pensando que agora está acontecendo um jogo de futebol na África do Sul e as pessoas que estão do outro lado do oceano estão assistindo a esse jogo. Esse conceito de pós-humano nos permite pensar coisas muito interessantes.

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