Desemprego. A vulnerabilidade da baixa classe média. Entrevista especial com Waldir Quadros

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02 Maio 2009

Mesmo com escassas informações até o momento, o economista e professor da Unicamp Waldir Quadros adianta que podemos esperar que “o desemprego se concentre nas regiões, ocupações e camadas sociais que mais se beneficiaram da expansão do emprego no ciclo de crescimento” brasileiro. Esse fator aponta para “a maior vulnerabilidade social da baixa classe média e da massa trabalhadora das regiões metropolitanas, já comprometidas pela concentração do desemprego”.

Além disso, completa o professor, o maior impacto do desemprego será entre os jovens com segundo grau de escolaridade. Autor de um recente estudo sobre o tema do desemprego no Brasil, Waldir Quadros concedeu a entrevista que segue, por e-mail, para a IHU On-Line, na qual ainda afirma que a nova postura governamental brasileira “deve ter sido positivamente influenciada pelos contatos do presidente com os dirigentes das principais economias mundiais, podendo constatar, pessoalmente, que os dogmas do neoliberalismo se tornaram obsoletos e foram descartados diante dos primeiros impactos da crise, legitimando uma abordagem mais ousada”.

Waldir José de Quadros possui graduação em Economia, pela Universidade de São Paulo (USP), e mestrado e doutorado em Ciência Econômica, pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), onde, atualmente, é professor associado do Instituto de Economia.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Recentemente, discutimos o aumento da classe média brasileira. Como isso influenciou o quadro de empregos no país?

Waldir Quadros – O aumento da classe média no período recente concentrou-se, fundamentalmente, na expansão da “baixa classe média” (ou “classe C”) e foi resultado direto do ciclo de crescimento mais robusto da economia no período 2004-2008. Para termos uma ideia da condição social desta camada, basta dizer que seu padrão de vida é aquele dos professores do ensino fundamental, dos balconistas do comércio, dos auxiliares de escritório etc. Ou seja, são apenas remediados por escaparem da situação de massa trabalhadora pobre. Em relação ao desemprego, em estudo que terminei de divulgar (Texto para discussão TD – 156), constatei, com alguma surpresa, que este ciclo expansivo não foi capaz de reduzir significativamente o estoque de desempregados. Ou seja, o crescimento do emprego foi da mesma magnitude que o aumento da população economicamente ativa. E mais, verificamos que a ascensão social em direção à condição de baixa classe média e massa trabalhadora foi acompanhada de igual deslocamento do desemprego, resultando em 2007 (ano da última PNAD disponível) numa concentração de 67% da massa de desempregados nas famílias destas duas camadas sociais. E isto durante a fase de crescimento que já se encerrou! Assim sendo, este é o preocupante ponto de partida para acompanharmos o agravamento do desemprego provocado pela crise atual.

IHU On-Line – Qual a classe social mais atingida pelo desemprego atualmente, a partir da crise financeira internacional?

Waldir Quadros Os dados mais atualizados não são suficientes para captarmos integralmente o comportamento do mercado de trabalho. O Caged (Cadastro Geral do Emprego e Desemprego), do Ministério do Trabalho, é mensal, mas engloba apenas o emprego formal. E a PME (Pesquisa Mensal do Emprego e Desemprego), do IBGE, que inclui o trabalho informal, abrange apenas seis regiões administrativas. Assim sendo, infelizmente teremos de aguardar a PNAD de 2009, que será realizada na última semana de setembro e divulgada apenas em outubro de 2010, para analisarmos o quadro geral. De qualquer forma, é de se esperar que o desemprego se concentre nas regiões, ocupações e camadas sociais que mais se beneficiaram da expansão do emprego no ciclo de crescimento. O que aponta para a maior vulnerabilidade social da baixa classe média e da massa trabalhadora das regiões metropolitanas, já comprometidas pela concentração do desemprego anteriormente mencionada. E os últimos dados da PME indicam este comportamento, com maior impacto do desemprego entre os jovens com segundo grau de escolaridade.

IHU On-Line – Quais as consequências sociais e econômicas do aumento do desemprego nas camadas C e D da sociedade? Como a população vai reagir diante de um possível retrocesso social novamente?

Waldir Quadros De fato, este cenário de provável retrocesso entre as famílias que mais se beneficiaram recentemente é bastante preocupante, pois certamente provocará descontentamento com inevitáveis repercussões políticas. Agora, o encaminhamento destas inquietações sociais ainda está indefinido e vai depender, em grande medida, da efetividade das medidas governamentais anticíclicas e de proteção social aos atingidos pela crise.

IHU On-Line – Não é o momento de se pensar em formas alternativas de trabalho, que não contemplem apenas o emprego formal? Que políticas públicas e medidas governamentais podem ser pensadas nesse sentido?

Waldir Quadros A melhor forma de proteger o mercado de trabalho e as oportunidades, tanto formais como informais, é a manutenção de um patamar mínimo de atividade econômica. É certo que medidas complementares e emergenciais, do tipo de frentes de trabalho, mantidas com recursos públicos, também contribuiriam para amenizar o problema.

IHU On-Line – De forma geral, como o senhor avalia que o governo Lula tem conduzido a política de empregos a partir do cenário de crise financeira internacional?

Waldir Quadros Num primeiro momento, a crise parece ter surpreendido o governo, e o diagnóstico inicial subestimou sua gravidade e os possíveis impactos sobre a economia e sociedade brasileiras. Com a divulgação dos resultados do último trimestre de 2008 e as repercussões iniciais na avaliação da opinião pública, parece que o governo acordou e começou a enfrentar a situação com mais determinação. É muito positivo o programa de construção de moradias populares, bem como a ação dos bancos públicos na expansão do crédito, por exemplo. Nestas últimas semanas, esta nova abordagem do problema avançou bastante, ao se afastar o dogma da manutenção a qualquer custo do superávit fiscal para pagar juros. Isso possibilita libertar a criatividade das autoridades competentes e técnicos governamentais. Obviamente, ainda falta a redução mais significativa da taxa básica de juros pelo Banco Central, que irá liberar mais recursos para a ação anticíclica do governo. A nova postura governamental deve ter sido positivamente influenciada pelos contatos do presidente com os dirigentes das principais economias mundiais, podendo constatar, pessoalmente, que os dogmas do neoliberalismo se tornaram obsoletos e foram descartados diante dos primeiros impactos da crise, legitimando uma abordagem mais ousada.

IHU On-Line – Qual a importância do seguro-desemprego neste momento de crise? A seguridade social ainda é válida considerando a imensidão de trabalhadores não contemplados pelo sistema formal de empregos?

Waldir Quadros O seguro-desemprego é um importante mecanismo de proteção social e diante do agravamento da situação deveria ter ampliado seu âmbito de atuação, aumentando o número de parcelas e o valor da cobertura. Algumas iniciativas foram tomadas neste sentido pelo Ministério do Trabalho, mas ainda um tanto timidamente. Uma ação mais efetiva, sem dúvida, irá requerer injeção de recursos do Tesouro, evitando descapitalizar o Fundo de Amparo do Trabalhador – FAT -, o que recoloca a questão do superávit fiscal. É verdade que uma parcela importante dos trabalhadores não está contemplada no formato vigente do seguro desemprego, sendo necessárias medidas complementares. Entretanto, se os recursos para seu financiamento forem disponibilizados, com certeza as autoridades e técnicos governamentais, bem como o próprio movimento sindical, serão capazes de oferecer propostas para enfrentar o problema.

IHU On-Line – Como entender que são os trabalhadores qualificados que estão perdendo mais empregos?

Waldir Quadros Como dito anteriormente, as ocupações que mais cresceram durante o ciclo expansivo são aquelas que deverão ser mais afetadas pela crise. E os dados da PME apontam para o maior agravamento do desemprego entre os trabalhadores com segundo grau de escolaridade.

IHU On-Line – Se o país não conseguiu reduzir o índice de desemprego em um período de crescimento econômico, quais as alternativas para que mais pessoas possam ter trabalho, considerando que hoje vivemos um momento de crise internacional?

Waldir Quadros Este cenário é que torna extremamente preocupante a situação atual, reforçando a urgência de arrojadas medidas governamentais anticíclicas e de proteção social, igualmente justificando a adoção de uma postura ousada nas ações emergenciais.

IHU On-Line – Passado o maior turbilhão da crise internacional, como o senhor imagina que estará constituído o cenário do emprego/trabalho no mundo? Que tipo de profissional e de estrutura será mais comum? O que pode vir a desaparecer?

Waldir Quadros Neste momento dos acontecimentos é verdadeiramente impossível traçar qualquer cenário futuro com um mínimo de segurança. Sem dúvida, a profundidade desta crise deverá alterar substancialmente o funcionamento do capitalismo. Ou seja, tal como outras crises da mesma natureza, a atual irá periodizar o desenvolvimento capitalista, provocando uma ruptura na sua estruturação e dinâmica. Uma das dimensões desta crise, com implicação direta sobre o mercado de trabalho e a estrutura ocupacional, diz respeito ao fato de que ela torna evidente a profunda inadequação do padrão americano de produção e consumo. De fato, é simplesmente impensável a reprodução e generalização deste padrão na China e Índia, por exemplo. O planeta Terra não suportaria. Por outro lado, avança em amplas parcelas da humanidade o questionamento sobre a insanidade do consumo compulsivo levado às últimas consequências. Assim, tanto por razões ambientais como sociais, a crise da “bolha financeira” abre a possibilidade histórica para a redefinição das bases do padrão capitalista de desenvolvimento. É claro que a orientação que irá presidir esta redefinição depende do grau de envolvimento político das forças sociais.

De qualquer forma, está presente a possibilidade de um encaminhamento progressista que imponha a sustentabilidade ambiental e social, implementando um welfare state de novo tipo, que harmonize o desenvolvimento econômico com o respeito ao meio ambiente e a redução das desigualdades sociais, ou seja, buscando a melhoria da qualidade de vida num sentido amplo. Nestas condições mais favoráveis, as ocupações criadas pelo novo estilo de crescimento, notadamente nas áreas sociais, poderiam compensar, ao menos em parte, a redução do emprego provocado pelo avanço do progresso técnico e da produtividade. O que poderia ser complementado pela redução das jornadas e pela redistribuição do trabalho na sociedade. Mas aqui já ingressamos no terreno das utopias “realistas”, ou seja, factíveis. E elas são necessárias, não só para dar sentido às nossas vidas, mas também por servirem como critério para acompanharmos o desenrolar dos acontecimentos.

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