As classes médias brasileiras. Entrevista especial com Waldir Quadros

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11 Setembro 2007

“Podemos (...) identificar a classe média como aquela camada social que se encontra entre os empresários capitalistas e os trabalhadores, ou mesmo entre ricos e pobres. Na verdade, é mais apropriado falar em classes médias, uma vez que existe significativa heterogeneidade no seu interior”, relata o economista Waldir Quadros, na entrevista a seguir concedida com exclusividade, por e-mail, à IHU On-Line. Nela, você confere o que o professor da Unicamp pesquisa sobre a Classe Média brasileira e sobre a estagnação econômica brasileira que perdura desde a década de 1970. Durante a conversa, Waldir fala também sobre como os benefícios sociais do governo contribuem para a heterogeneidade da classe média.

Waldir José de Quadros é economista formado pela Universidade de São Paulo com mestrado e doutorado em Ciências Econômicas pela Unicamp, onde obteve, também, Livre-Docência. Desde 1992, é professor da Universidade Estadual de Campinas.

Eis a entrevista.

IHU On-Line - Como o senhor define a classe média brasileira, hoje?

Waldir Quadros - Existem várias maneiras de definir a classe média, refletindo distintas posturas teóricas e políticas a respeito da sociedade capitalista. Sem pretender aqui uma abordagem exaustiva, podemos, de forma simplificada, identificar a classe média como aquela camada social que se encontra entre os empresários capitalistas e os trabalhadores, ou mesmo entre ricos e pobres. Na verdade, é mais apropriado falar em classes médias, uma vez que existe significativa heterogeneidade no seu interior. Minha principal referência analítica é o trabalho de Wright Mills (1). Entretanto, a metodologia que adoto para a estratificação social brasileira foi sendo construída ao longo do tempo em função dos desafios práticos para a correta utilização dos dados facultados pelos inquéritos domiciliares do IBGE (Censo demográfico e PNAD – Pesquisa nacional por amostra de domicílios).

Na construção dos estratos sociais, articulo duas dimensões: a ocupação e situação ocupacional e os rendimentos declarados aos inquéritos. Nos trabalhos recentes que estão disponíveis na página do Instituto de Economia da Unicamp, utilizo como critério de estratificação cinco faixas de rendimentos declarados associando-as de forma impressionista a distintos “padrões de vida”, tal como se apresenta a seguir.


Por fim, um alerta sempre oportuno: como já afirmamos no artigo “A dinâmica da classe média” (2), freqüentemente nas apresentações da metodologia somos indagados sobre onde estão os ricos nesta estrutura social. A resposta é que os ricos não estão incluídos. Como sabem os pesquisadores do IBGE e estudiosos mais avisados, é algo extremamente raro conseguir-se aplicar o questionário em domicílios de ricos. E mesmo nos casos estatisticamente irrelevantes de sucesso, o mais provável é que o entrevistado dissimule sua condição social, transmitindo um perfil de (alta) classe média.

Assim sendo, quem estiver interessado em pesquisar esta diminuta fração da nossa sociedade deve recorrer a outras fontes de dados quantitativos ou qualitativos. De nossa parte, entendemos que devido às suas dimensões esta omissão não macula a imagem da sociedade brasileira que pode ser obtida dos inquéritos domiciliares, desde que conscientes da mesma. Em outras palavras, a estratificação social não é comprometida significativamente.

Porém, do ponto de vista da distribuição de renda as implicações são muito mais sérias. Em particular, é decisivo levar em conta que, entre várias omissões, a mais relevante é que não estão contemplados os rendimentos e benefícios oriundos da posse e gestão da riqueza (juros, dividendos, participações, ganhos imobiliários, benefícios indiretos etc.).

E, como sabemos, são justamente estes ganhos que tem sido preservados e mesmo expandidos nesta longa fase de estagnação produtiva. Desta forma, a renda captada pela PNAD (e Censo Demográfico) refere-se ao que “sobra” após a apropriação pelos detentores da riqueza nacional. Tal circunstância, no mínimo, deveria levar a uma explícita relativização do significado dos estudos correntes sobre concentração e desigualdade que utilizam estas fontes de dados primários.

IHU On-Line - Quais são os principais impactos sociais da estagnação econômica que se iniciou na década de 1970 e perdura até hoje?

Waldir Quadros - Em nosso entendimento, esta é a questão central para entendermos nossa crise social contemporânea e seu contínuo agravamento. Indo direto ao ponto, a estagnação econômica traz como um de seus resultados mais perversos a insuficiente geração de oportunidades para obtenção de rendimentos. Em termos imediatos, esta anomalia pode ser percebida tanto na imensa e persistente massa de desempregados como nos amplos contingentes de ocupações precárias e mal remuneradas no trabalho assalariado, na atividade autônoma e mesmo no pequeno negócio.

IHU On-Line - A classe média brasileira é ainda mais prejudicada do que as classes mais baixas nas situações de crise econômica? E o que está acontecendo com as classes C, D e E? Há algum tipo de migração dessas classes para a B, por exemplo?

Waldir Quadros - Como procuramos demonstrar em nossos estudos, esta ausência de dinamismo econômico e social tem provocado uma séria deterioração na estrutura social. Os três segmentos de classe média tendem a encolher ou revelar preocupante letargia, e os dois segmentos de pobres e miseráveis aumentam ou se mantém em níveis socialmente intoleráveis. Desta forma, a sociedade, como um todo, é impactada, pois o estreitamento dos canais de ascensão social, com o encolhimento da classe média, acentua enormemente a concorrência pelas oportunidades em geral e também por aquelas disputadas pela massa trabalhadora.

Em termos práticos, é cada vez mais comum observarmos filhos da classe média conformando-se com ocupações tradicionalmente ocupadas pelos trabalhadores mais simples, com destaque para o comércio e serviços. E sua maior qualificação relativa, ao lado da própria origem social, favorece sua maior “empregabilidade” frente aos filhos dos trabalhadores. Ainda que a remuneração obtida dificilmente assegure um “padrão de classe média”. Ou seja, estamos diante de autêntica e perversa crise de reprodução social.

IHU On-Line - De que forma os benefícios concedidos pelo Governo Federal, tais como o Bolsa Família, contribuem para essa migração?

Waldir Quadros - Diante deste quadro extremamente sério e preocupante, as políticas sociais focalizadas recomendadas pelo Banco Mundial e adotadas pelos últimos governos têm logrado apenas evitar a explosão da massa de miseráveis e afastar o risco da convulsão social. O que não é pouco diante da profundidade e duração da crise, mas claramente incapaz de solucionar efetivamente o problema. Com isso, não queremos diminuir seu significado para os beneficiários destas políticas. Apenas chamar atenção para seus limites estruturais. São relevantes e bem documentados seus impactos, particularmente aqueles advindos da aposentadoria rural e dos Benefícios de Prestação Continuada (BPC) para deficientes e idosos urbanos carentes, potencializados pelo aumento real do salário mínimo.

IHU On-Line - Como nós podemos interpretar os dados do Ipea que dizem que a distribuição de renda está progredindo, quando sabemos que concentração de renda está crescendo também?

Waldir Quadros - Os trabalhos que se utilizam da PNAD para evidenciar a redução da desigualdade não levam em conta aquele aspecto crucial já mencionado inicialmente de que os ricos e os ganhos da riqueza não são captados. De fato, os dados oficiais relativos à distribuição funcional da renda apontam para o agravamento da concentração: contínua redução da participação da renda do trabalho na renda nacional, com a correspondente ampliação relativa dos lucros e ganhos financeiros.

Assim sendo, entendemos que a redução dos índices de Gini (3) exprimem, sobretudo, o impacto da crise nos rendimentos da classe média, ao lado do assistencialismo para os miseráveis. O que, convenhamos, está muito longe de um cenário de melhoria social como é recorrentemente apregoado. Na verdade, entendemos que tais análises – de um modo geral sintonizadas com as recomendações e metodologia do Banco Mundial -, e outras semelhantes oriundas do mercado financeiro cumprem a função ideológica de tentar ocultar o caráter eminentemente anti-social da política econômica ortodoxa ou neoliberal. Não deve ser casual sua ampla acolhida nos meios de comunicação mais identificados com a situação vigente no país.

IHU On-Line - Segundo o Ipea, a classe média brasileira está em vias de extinção. Para o senhor, como podemos recuperar o Estado para o desenvolvimento do país?

Waldir Quadros - De fato, entendemos que a redefinição dos rumos do desenvolvimento, num sentido autenticamente nacional e social, requer a efetiva reconstrução do Estado, libertando-o dos interesses particularistas e rentistas que o dilapidam (e à sociedade) já faz mais de três décadas. Pois, não podemos esquecer que a ciranda financeira tem sua origem ainda no Governo Geisel (4). Entretanto, a experiência histórica recente indica que tal empreitada não pode ser levada a contento sem a combinação de estadistas e forte coesão social, que infelizmente não se verifica no atual cenário nacional.

Notas:
(1) Conforme A nova classe média [(tradução) Rio de Janeiro: Zahar editores, 1969], de Charles Wright Mills, sociólogo estadunidense. Mills acreditava que a racionalidade do mundo ocidental da atualidade não produziu a indispensável libertação do ser humano, já que as principais idelogias desenvolvidas - capitalismo e socialismo - não se mostraram aptas a prever e controlar intensos processos de mudança social. Faleceu em 1962. Suas principais obras são A elite do poder (1956), A imaginação sociológica (1959), Listen Yankee-the revolution in Cuba (1960) e Marxistas (1962).

(2) Publicado no livro Espaços para o crescimento sustentado da economia brasileira (São Paulo: IEEI – Instituto de estudos econômicos e internacionais, Editora da Unesp, 2007), organizado por Gilberto Dupas.

(3) O Coeficiente de Gini é uma medida de desigualdade desenvolvida pelo estatístico italiano Corrado Gini, e publicada no documento “Variabilità e mutabilità” (variabilidade e mutabilidade), em 1912. É comumente utilizada para calcular a desigualdade de distribuição de renda, mas pode ser usada para qualquer distribuição. Ele consiste em um número entre 0 e 1, onde 0 corresponde à completa igualdade de renda (onde todos têm a mesma renda) e 1 corresponde à completa desigualdade (onde uma pessoa tem toda a renda, e as demais nada têm). O índice de Gini é o coeficiente expresso em pontos percentuais, e é igual ao coeficiente multiplicado por 100. Enquanto o coeficiente de Gini é majoritariamente usado para mensurar a desigualdade de renda, pode ser também usado para mensurar a desigualdade de riqueza. Esse uso requer que ninguém tenha uma riqueza líquida negativa.

(4) Ernesto Geisel foi o quarto presidente do regime militar instaurado pelo golpe militar de 1964. Como ex-presidente, manteve grande influência sobre o exército ao longo dos anos 1980 e hipotecou, em 1985, seu apoio à candidatura vitoriosa de Tancredo Neves, nas eleições indiretas daquele ano, derrotando Paulo Maluf. Também foi presidente da Norquisa, empresa ligada ao setor petroquímico.

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