Um não-lugar para a mulher. Entrevista especial com Carla Rodrigues

Revista ihu on-line

Metaverso. A experiência humana sob outros horizontes

Edição: 550

Leia mais

Caetano Veloso. Arte, política e poética da diversidade

Edição: 549

Leia mais

Mulheres na pandemia. A complexa teia de desigualdades e o desafio de sobreviver ao caos

Edição: 548

Leia mais

Mais Lidos

  • Viagem ao inferno do trabalho em plataformas

    LER MAIS
  • Metaverso? Uma solução em busca de um problema. Entrevista com Luciano Floridi

    LER MAIS
  • A implementação do Concílio no governo do Papa Bergoglio. Artigo de Daniele Menozzi

    LER MAIS

Newsletter IHU

Fique atualizado das Notícias do Dia, inscreva-se na newsletter do IHU


01 Outubro 2008

A mestre em filosofia Carla Rodrigues, juntamente com o doutor Rafael Hadock Lobo, ministra na PUC-Rio um curso que busca refletir sobre os limites do humanismo e a defesa dos direitos reivindicada pela política feminista. Em entrevista concedida por e-mail à IHU On-Line, Carla parte do tema deste debate e analisa aqui a presença da mulher na filosofia ao longo dos tempos. “A passagem para a modernidade, caracterizada pela busca da autonomia e da individualização, foi particularmente difícil para as mulheres, na medida em que esse projeto de configuração de um sujeito autônomo foi um projeto masculino”, afirmou. Ela também falou do espaço que a mulher ocupa no mundo hoje, no discurso feminista presente na política e sobre a visão de filósofos importantes, como Heidegger, da mulher. “Eu diria que a grande contribuição do feminismo ao discurso filosófico contemporâneo é a valorização, sim, da diferença, mas não a diferença como simples oposição binária entre masculino e feminino, mas a diferença como um processo de diferenciação que se dá a cada vez”, enfatizou.

Carla Rodrigues é graduada em Comunicação Social pelas Faculdades Integradas Hélio Afonso, no Rio de Janeiro, e especialista em Arte e Filosofia pela PUC-Rio, onde obteve o título de mestre em filosofia e onde é, atualmente, doutoranda na mesma área. Nesta mesma instituição, Carla é professora no Departamento de Comunicação Social. É autora de Mulheres no ataque (São Paulo: Planeta, 2003), Brasileiras – Guerreiras da paz (São Paulo: Editora Contexto, 2006) e Betinho – Sertanejo, mineiro, brasileiro (São Paulo: Planeta, 2007), que foi tema de uma outra entrevista à IHU On-Line.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Historicamente, as mulheres foram desligadas do pensamento. Eram vistas como paixão, enquanto os homens representavam a razão. Para a senhora, que lugar a mulher ocupa no mundo hoje e qual espaço ela deveria ocupar?

Carla Rodrigues – O ideal seria o momento em que a mulher possa ocupar o lugar que ela quiser, ou ainda, que não haja a preocupação do pensamento em determinar "um lugar para a mulher". Aquilo que o filósofo Jacques Derrida [1] chama de "ilusão topográfica", que consiste em enxergar algum tipo de libertação no processo de determinar um lugar para as mulheres. Isso foi o que a tradição sempre fez. Rousseau [2] queria "educar" Sofia. Kant [3] determinou que as mulheres eram o belo sexo. O não-lugar para as mulheres seria algo de inovador nessa linhagem.

IHU On-Line – De que forma a filosofia política avançou na modernidade com a presença do feminino? Dentro da filosofia moderna, como se dá a teoria feminina?

Carla Rodrigues – A passagem para a modernidade, caracterizada pela busca da autonomia e da individualização, foi particularmente difícil para as mulheres, na medida em que esse projeto de configuração de um sujeito autônomo foi um projeto masculino. Às mulheres era designado o papel de cuidar da família e dos filhos para que essa família servisse como base para o exercício da atividade pública para os homens. Elas foram confinadas ao espaço privado. Ao mesmo tempo, é na passagem da modernidade que crescem os conflitos e emergem os movimentos de reivindicação de direitos para as mulheres, como voto, educação superior etc.

IHU On-Line – Pensadoras como Cristhine de Pisan [4], Mary Wollstonecraft [5], Hidelgarda [6] e Aspásia [7] marcaram presença na escola pitagórica, mas são praticamente inexistentes em manuais de história da filosofia hoje. No entanto, Simone de Beauvoir [8] e Judith Butler [9] são mulheres que ajudaram a desconstruir o gênero dentro da filosofia política. Como a senhora analisa a história da presença da mulher no desenvolvimento da filosofia? Que marcas aquelas mulheres da escola pitagórica deixaram à filosofia atual?

Carla Rodrigues – Na verdade, Beauvoir foi uma pensadora importante na construção do conceito de gênero como uma característica cultural, que se opõe ao sexo como característica natural. Já Butler é uma autora que dá importante contribuição na desconstrução daquilo que ela chama de "distinção entre sexo e gênero". Note um aspecto importante na sua pergunta – as autoras que você cita como sendo da escola pitagórica estavam pensando as grandes questões da filosofia, e provavelmente por isso foram excluídas da história do pensamento. Já Beauvoir e Butler conseguiram espaço no pensamento contemporâneo porque foram classificadas como "teóricas de gênero". Ou seja, o que quero dizer é que mesmo hoje ainda não há mulheres na filosofia, mas pensadoras que conseguiram, no máximo, espaço como teóricas dos temas ligados ao feminino, como se apresentassem um pensamento de segunda categoria em relação às grandes questões filosóficas.

IHU On-Line – Em relação ao discurso sexual hoje dominante, podemos dizer que a filosofia política moderna e seu ideal de liberdade e igualdade universal não se concretizou na teoria nem na prática?

Carla Rodrigues – A mim, parece que os pensadores contemporâneos mais interessantes, hoje, são os que questionam o ideal de universalidade, a serem substituídos pelo de singularidade. É assim, por exemplo, no pensamento da desconstrução, em que Derrida vai apontar para a violência do universismo. Apostar na singularidade, e não num ideal totalizante, parece ser o grande desafio da filosofia hoje.

IHU On-Line – O feminismo surge como pensamento da diferença dentro do discurso político moderno?

Carla Rodrigues – Há uma falsa disputa entre alocar o feminismo como pensamento da diferença ou pensamento da igualdade. De uma forma bastante genérica, há uma classificação das feministas francesas como sendo aquelas que defendem a diferença e as norte-americanas como as que defendem a igualdade. Joan Scott [10] é uma autora que mostra a inutilidade deste debate, argumentando que igualdade não se opõe à diferença, mas à desigualdade. Para ela, seria uma falsa questão ser ou "feminista da diferença" ou "feminista da igualdade", num tipo de proposição em que se deve forçosamente optar por um dos lados.

Eu diria que a grande contribuição do feminismo ao discurso filosófico contemporâneo é a valorização, sim, da diferença, mas não a diferença como simples oposição binária entre masculino e feminino, mas a diferença como um processo de diferenciação que se dá a cada vez.

IHU On-Line – Nietzsche [11], Heidegger [12] e Foucault [13] fizeram críticas ao humanismo. Como esses filósofos viam a presença da mulher na filosofia política?

Carla Rodrigues – Nietzsche foi um crítico importante de um certo tipo de feminismo que pretendia conferir à mulher o lugar da verdade. Heidegger pretendeu ignorar a diferença sexual, como bem demonstra Derrida num texto chamado Différence sexuel, différence ontologique. E Foucault foi um importante autor na identificação de como alguns saberes, sobretudo a medicina, operaram para conformar as mulheres num determinado papel. Tomando esse cenário, me parece que o único autor que não deu uma contribuição relevante para pensar a mulher na política foi Heidegger, mas ainda assim a sua crítica ao humanismo dá uma contribuição indireta à questão do feminismo, que está hoje diante do desafio de se repensar para além da lógica humanista.

Notas:

[1] Jacques Derrida foi um importante filósofo francês de origem argelina, conhecido principalmente como criador da desconstrução. Seu trabalho (freqüentemente associado com o pós-estruturalismo e o pós-modernismo), teve um profundo impacto sobre a teoria da literatura e a filosofia continental.

[2] Jean-Jacques Rousseau foi um filósofo suíço, escritor, teórico político e um compositor musical autodidata. É também um precursor do romantismo. Suas idéias políticas tiveram grande influência nas inspirações ideológicas da Revolução Francesa, onde as concepções liberais se difundiram e guiaram ideologicamente a Revolução.

[3] Emanuel Kant foi um filósofo alemão, geralmente considerado como o último grande filósofo dos princípios da era moderna, indiscutivelmente um dos seus pensadores mais influentes.  É também conhecido pela sua filosofia moral e pela sua proposta, a primeira moderna, de uma teoria da formação do sistema solar. A revista IHU On-Line nº 93  teve como tema de capa o autor.

[4] Christine de Pisan foi a única mulher medieval, pelo que se sabe, a ganhar a vida escrevendo. Teve de transformar seu saber em profissão. Foi reconhecida como autora brilhante já em vida e compôs inclusive uma biografia do rei Carlos V, além de obras educativas para mulheres e textos de caráter memorialístico e biográfico.

[5] Mary Wollstonecraft foi uma escritora britânica, considerada como pioneira do moderno feminismo. Via a educação como um caminho para as mulheres conquistarem um melhor "status" econômico, político e social e defendia o direito à igualdade na formação.

[6] Hildegarda de Bingen foi uma mística, filósofa, compositora e escritora alemã, abadessa de Rupertsberg em Bingen.

[7] Aspásia de Mileto foi amante de Péricles, com quem teve um filho. Muito influente no círculo filosófico e político de Atenas, promovia reuniões literárias em sua casa e participava do debate político da época. Após a morte de Péricles, Lísicles o sucedeu à testa do partido democrático, e também no leito de Aspásia.

[8] Simone de Beauvoir foi uma escritora, filósofa existencialista e feminista francesa. Escreveu romances, monografias sobre filosofia, política, sociedade, ensaios, biografias e uma autobiografia. Foi companheira de Sartre.

[9] Judith Butler é uma filósofa pós-estruturalista estadunidense, que contribuiu para os campos do feminismo, Teoria Queer, filosofia política e ética. Confira a entrevista que Butler concedeu ao nº 199 da revista IHU On-Line.

[10] Joan Wallach Scott é uma historiadora estadunidense.

[11] Friedrich Wilhelm Nietzsche foi um influente filósofo alemão do século XIX. Crítico da cultura ocidental e suas religiões e, conseqüentemente, da moral judaico-cristã. Associado por alguns ao niilismo e ao nazismo - uma visão que estudiosos como Foucault e Deleuze procuraram desfazer. O nº 127 da revista IHU On-Line foi dedicado ao filósofo.

[12] Martin Heidegger foi um filósofo alemão. É seguramente um dos pensadores fundamentais século XX. quer pela recolocação do problema do ser e pela refundação da Ontologia, quer pela importância que atribui ao conhecimento da tradição filosófica e cultural. Os nº 185 e 187 da revista IHU On-Line foi dedicado ao filósofo.

[13] Michel Foucault foi um filósofo e professor francês. As teorias sobre o saber, o poder e o sujeito romperam com as concepções modernas destes termos, motivo pelo qual é considerado por certos autores, contrariando a própria opinião de si mesmo, um pós-moderno. O nº 119 da revista IHU On-Line foi dedicado ao filósofo.

 

 

 

 

 

Comunicar erro

close

FECHAR

Comunicar erro.

Comunique à redação erros de português, de informação ou técnicos encontrados nesta página:

Um não-lugar para a mulher. Entrevista especial com Carla Rodrigues - Instituto Humanitas Unisinos - IHU

##CHILD
picture
ASAV
Fechar

Deixe seu Comentário

profile picture
ASAV