Lévinas: justiça à sua filosofia e a relação com Heidegger, Husserl e Derrida. Entrevista especial com Rafael Haddock-Lobo

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30 Agosto 2007

Da existência ao infinito: ensaios sobre Emmanuel Lévinas, do professor Rafael Haddock-Lobo, lançado recentemente, foi escrito com o intuito de homenagear o filósofo lituano que, em 2006, completaria cem anos. Lobo apresenta, neste livro, um Lévinas voltado para as questões da Filosofia, algo novo no Brasil, pois grande parte das obras dele publicadas aqui estão focadas na Teologia. “Dever-se-ia, para Lévinas, pensar o direito do outro homem e não mais o direito do homem. Isso é fantástico, bem como o belíssimo papel que Lévinas concede à mulher como figura fundamental para a ética”, relata Lobo em entrevista, realizada por e-mail, à IHU On-Line. Na conversa que segue, Lobo fala da relação entre Lévinas, Heidegger e Husserl e, ainda, da influência de Lévinas sobre a obra de Derrida.

Rafael Haddock-Lobo é graduado em Filosofia, pela UFRJ, e em Letras, pela Universidade Salgado de Oliveira. Seu mestrado em filosofia foi realizado na PUC-Rio e teve como tema Da existência ao infinito: a redução ética no pensamento de Emmanuel Lévinas. No doutorado, também pela PUC-Rio, elaborou a tese Por um pensamento úmido - A Filosofia a partir de Jacques Derrida. É pós-doutor em Filosofia, pela USP. Atualmente, é professor da USP, da Casa do Saber e da PUC-Rio. É também autor de Derrida e o labirinto de inscrições (Porto Alegre: EdiPUCRS, 2007).

Confira a entrevista.

IHU On-Line - Do rompimento com Heidegger ao isolamento provocado pelo campo de trabalho nazista, como podemos analisar o outro Lévinas, ou seja, a sua filosofia antes e depois desses momentos que marcaram sua vida?

Rafael Haddock-Lobo - Lévinas tem, ao menos, dois grandes méritos no que diz respeito ao panorama do pensamento francês contemporâneo: o primeiro é ter sido o grande responsável pela entrada dos pensamentos de Husserl (1) e Heidegger (2) na França. Por isso, até hoje, Lévinas ainda é bastante respeitado como um grande comentador dos mestres alemães. O que acontece é que, após sua experiência pessoal com o absurdo do nazismo, ele começa a pôr em questão certa periculosidade do pensamento, o que ele chamaria de uma conivência da razão com o mal. A partir de então, pode-se ver o pensamento levinasiano voltado mais radicalmente às questões éticas.

Mas não uma ética baseada em códigos morais - pois isso ainda é uma ética fundamentada na mesma razão que se cega ao outro, quando é conivente com o mal -, e sim uma que pensa justamente a “relação com o outro”, ao trazer para a filosofia questões que, antes, não eram consideradas “dignas de serem pensadas”, como a fome, por exemplo. Mas isso não em nome apenas destes outros “próximos”, mas também para se fazer justiça ao princípio de alteridade, que faz com que todo outro seja totalmente outro. Um grande exemplo disso pode ser encontrado em um grande marco de seu pensamento, que é “Da existência ao existente”.

IHU On-Line - A obra de Lévinas, segundo Derrida, ficou restrita ao campo teológico. Por que é tão importante resgatar a filosofia de Lévinas?

Rafael Haddock-Lobo – Derrida (3) aponta certa ausência de referências a Lévinas em textos filosóficos célebres que tratam da ética ou mesmo de pensamentos da diferença. Sempre me pergunto como filósofos como Deleuze (4) e Foucault (5) podem não fazer nenhuma menção a Lévinas. Nesse sentido, Derrida foi certamente o primeiro filósofo a dar o devido destaque ao pensamento levinasiano, e isso já em 1964, quando, em um texto chamado “Violência e metafísica”, Derrida coloca o filósofo lituano ao lado de Husserl e Heidegger. De minha parte, eu acredito realmente na importância de se destacar os aspectos estritamente filosóficos do pensamento de Lévinas. É isso que em meu livro “Da existência ao infinito: ensaios sobre Emmanuel Lévinas” eu tento fazer: apresentar alguns traços importantes que Lévinas traz à filosofia, como a crítica à ontologia, a recontextualização do humanismo, o problema da morte, do amor e da justiça, entre outros. E esses aspectos certamente caracterizam Lévinas como um filósofo que traz algo novo para a experiência de pensamento e, arriscaria eu dizer, que nunca fora devidamente pensado: a alteridade mesma.

IHU On-Line - Lévinas percebeu o quanto o pensamento de Heidegger, e não apenas o ser humano Heidegger, podia ser perigoso, pois foi conivente com a expulsão dos professores judeus da Universidade de Freiburg. O pensamento de Lévinas é uma resposta à filosofia de Heidegger?

Rafael Haddock-Lobo - Certamente que sim. Creio que, por ser a grande referência nos textos levinasianos, Heidegger é sempre uma inspiração para Lévinas, seja de modo positivo, seja de modo negativo. Lévinas sempre soube o quão devedor de Heidegger ele e toda a filosofia contemporânea são. A crítica ao sujeito, à filosofia subjetiva, que Heidegger empreende, é fundamental para o pensamento levinasiano. E, com sua decepção com o “ser humano” de Heidegger, Lévinas dedica-se a pensar a própria filosofia ocidental como um problema. É nesse sentido que podemos ver uma constante referência crítica à Heidegger, mesmo que de modo implícito: ao abraçar o existente, ao invés da existência; a ética em detrimento da ontologia; ao ver o Outro em vez de o Ser etc.

IHU On-Line - Você afirma que Lévinas ficou muito preso ao humanismo. Como vê a maneira com que Lévinas pensou sobre a relação do homem com outro homem, com a mulher e com o filho? Quais são as suas observações sobre as teorias de Lévinas?

Rafael Haddock-Lobo - Nessa sua tentativa de insistir no perigo que a cegueira do pensamento ocidental vem cristalizando desde a Grécia até Heidegger, Lévinas - ainda que absorva as críticas que Heidegger faz ao Humanismo, que seria sempre metafísico - tenta repensar o modelo humanista, sempre voltado ao Homem, mas agora segundo o chamado do Outro Homem. Isso, certamente, é um rumo bem interessante que se dá ao humanismo, mas ainda é excessivamente humanista. Como entender isso? Lévinas critica, por exemplo, o estatuto dos direitos humanos, no sentido de que esse é sempre uma instituição feita pelo “mesmo” (isto é, o homem ocidental, do sexo masculino, branco, do hemisfério norte, heterossexual etc.) em favor do “outro”. O que significa que o modelo de pensamento ainda é o mesmo.

Dever-se-ia, para Lévinas, pensar o direito do outro homem e não mais o direito do homem. Isso é fantástico, bem como o belíssimo papel que Lévinas concede à mulher como figura fundamental para a ética, por se tratar do elemento acolhedor por excelência e, por isso, a abertura ao outro. Com isso, Lévinas traz a figura do filho como aprendizado ético por excelência. Ele traz o imperativo do desinteresse da bondade e do amor.

Todas essas imagens que Lévinas traz são importantíssimas para o pensamento, mas ainda deixam a desejar porque se prendem exclusivamente ao homem como alteridade: a figura do “rosto do outro”. Para ele, o chamado ético é sempre um rosto humano, bem como a própria ética, estampada no "face-a-face". Penso, por exemplo, no lugar dos animais, ou mesmo dos vegetais e minerais (se pensarmos aqui no meio ambiente: nas florestas, na água etc.). Esses outros “outros” também representam, a meu ver, um “rosto”, no sentido de um chamado ético à responsabilidade. Lévinas, em seu tempo, teve uma tarefa muito dura para trazer o outro homem para o pensamento, o existente à filosofia, mas creio ser nossa tarefa radicalizar essa tarefa e pensarmos em todas as possibilidades de alteridade, inclusive nas impensáveis...

IHU On-Line - O senhor pode nos explicar melhor o que chama, a partir do pensamento de Lévinas, de "redução ética"?

Rafael Haddock-Lobo - O termo “redução”, de papel central no pensamento de Husserl, pode ser visto como a atitude típica da fenomenologia: isto é, a suspensão (épochê) ou, como ficou mais conhecida, a colocação entre parênteses. No caso de Husserl, a “redução eidética” buscava apontar a necessidade de olharmos exclusivamente aos fenômenos, ou, como dizia Husserl, às “coisas mesmas”. Seguindo essa linha, podemos pensar como Heidegger, como fenomenólogo, empreenderia uma “redução ontológica”, isto é, uma colocação entre parênteses de todo aspecto ôntico (o que quer dizer dos entes) para se pensar radicalmente o “Ser”. Minha tentativa em “Da existência ao infinito: ensaios sobre Emmanuel Lévinas” foi pensar Lévinas como um terceiro momento da fenomenologia: assim, ele empreenderia uma “redução ética”, a suspensão de todo elemento ontológico do pensamento, a fim de que se olhe fundamentalmente o “outro”.

IHU On-Line - Como, no livro, o senhor relaciona as linhas de pensamento e os textos de Heidegger, Lévinas e Derrida?

Rafael Haddock-Lobo - Derrida acabou, ao longo da escrita, ocupando um lugar importante, ao lado dos dois nomes que deveriam ocupar os dois “pólos” da fenomenologia que eu pretendia analisar: de um lado, a ontologia de Heidegger e, de outro, a ética levinasiana. No entanto, posso dizer que fui, desde o início, motivado pela leitura de “Violência e metafísica”, de Derrida e, ao longo da escrita, de textos como “Adeus a Lévinas”, “A palavra de acolhimento” e outros como “Força de Lei” e “Da hospitalidade”. A leitura de Derrida pretende seguir o movimento que eu acreditava necessário - e mesmo justo - ao pensamento de Lévinas: ele, em seus termos, dissemina o outro levinasiano, estendendo-o a todo e qualquer outro. Acabei me identificando muito com as leituras de Derrida, e até hoje ainda arriscaria a dizer que acredito que elas sejam mais justas com o próprio Lévinas do que as empreendidas pelos especialistas em Lévinas, pois elas dedicam-se a dar continuidade ao movimento inaugurado por Lévinas. Assim, ao tentar compreender e analisar a quiasmática relação entre Heidegger e Lévinas, acabava pensando numa terceira margem, apontada pela desconstrução de Derrida.

IHU On-Line - O pensamento de Nietzsche influenciou de que maneira o pensamento de Lévinas?

Rafael Haddock-Lobo - São dois pensamentos extremamente radicais, cada um a seu modo e com seu objetivo. Em certos aspectos, como no que diz respeito ao outro, Lévinas é certamente muito mais radical que Nietzsche (6). Em outro, como podemos pensar quando se trata da arte, Nietzsche dispara à frente. São tradições e experiências de pensamento bem distintas, mas que podem ser pensadas lado a lado sim: penso, para tentar algumas aproximações aqui, no modo de escrita de ambos os filósofos, enigmáticas, não lineares, imagéticas... Ou seja, há uma crítica à escrita filosófica em ambos os autores. Além disso, posso ver claramente Lévinas como um herdeiro - ainda que via Heidegger - das críticas que Nietzsche dedica ao humanismo. Outro aspecto interessante a se pensar é na figura do feminino em ambos os autores e, ainda, no encontro entre ética e estética que ambos possibilitam pensar.

Notas:

(1) Edmund Husserl é um filósofo alemão, co-fundador da Femenologia. Estudou, inicialmente, matemática nas universidades de Leipzig e Berlim. Em 1884, começou a atender as lições de Franz Brentano em filosofía na Universidade de Viena e em 1886 foi para a Universidade de Halle. Sob a direção de Carl Stumpf, Husserl escreveu “Sobre o conceito do número”, cujos arquivos fornecerão as bases de sua primeira obra importante, “Filosofia da aritmética”. Em um período posterior, Husserl começou a se debater com as complicadas questões da intersubjetividade e experimenta novos métodos para fazer entender a importância da Fenomenologia para a investigação científica e o que significa “pôr entre parênteses” a atitude natural. Como resultado da legislação antisemita aprovada pelos nazistas em abril de 1933, foi-lhe negado o acesso à biblioteca de Freiburg.

 

(2) O filósofo alemão Martin Heidegger foi assistente de Edmund Husserl na Universidade de Freiburg, em 1929. Professor por alguns anos na Universidade de Harburgo, em 1929 Heidegger sucedeu Husserl na cátedra de filosofia em Friburgo. Em 1927, publicou a sua obra fundamental Ser e tempo, que é dedicada a Husserl: Heidegger afirma que trabalha com o método fenomenológico. Heidegger increveu-se no partido Nazi em 1 de Maio de 1933, tendo posteriormente sido nomeado reitor da Universidade de Freiburg, pronunciando o discurso A auto-afirmação da universidade alemã. Mas pouco depois se demitiu do cargo de reitor.

 

(3) Jacques Derrida é um filósofo francês, criador do método filosófico chamado desconstrução. O seu trabalho é frequentemente associado com o pós-estruturalismo e o pós-modernismo. Foi um dos ícones da Abordagem Pós-Modernista na Teoria das Organizações. Para ele, a teoria da desconstrução consiste em desfazer o texto, a partir do modo como este foi organizado originalmente para que, assim, sejam revelados seus significados ocultos. Para alguns, a desconstrução pode sugerir uma destruição, mas trata-se do oposto, pois ela busca encorajar a pluralidade de discursos, legitimando a não existência de uma única verdade ou interpretação, com um caráter de disseminação de possíveis e novas verdades.

(4) O filósofo francês Gilles Deleuze considerava que “a filosofia é a arte de formar, inventar, fabricar conceitos” (O que é a filosofia?). A sua filosofia vai de encontro à psicanálise, nomeadamente a freudiana, que aos seus olhos reduz o desejo ao complexo de édipo e é considerada como uma filosofia da vitalidade e o desejo

(5) Michel Foucault, filósofo francês, foi professor da cátedra de História dos Sistemas de Pensamento no Collège de France, de 1970 a 1984. Trata principalmente do tema do poder, rompendo com as concepções clássicas deste termo. Para ele, o poder não pode ser localizado em uma instituição ou no Estado, o que tornaria impossível a "tomada de poder" proposta pelos marxistas. Para Foucault, o poder não somente reprime, mas também produz efeitos de verdade e saber, constituindo verdades, práticas e subjetividades.

(6) Friedrich Nietzsche é um filósofo alemão, conhecido por seus conceitos além-do-homem, transvaloração dos valores, niilismo, vontade de poder e eterno retorno. Entre suas obras figuram como as mais importantes Assim falou Zaratustra (9. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1998); O anticristo (Lisboa: Guimarães, 1916); e A genealogia da moral (5. ed. São Paulo: Centauro, 2004). Escreveu até 1888, quando foi acometido por um colapso nervoso que nunca o abandonou, até o dia de sua morte. A Nietzsche foi dedicado o tema de capa da edição número 127 da IHU On-Line, de 13-12-2004. Sobre o filósofo alemão, conferir ainda a entrevista exclusiva realizada pela IHU On-Line edição 175, de 10 de abril de 2006, com o jesuíta cubano Emilio Brito, docente na Universidade de Louvain-La-Neuve, intitulada Nietzsche e Paulo. A edição 15 do Cadernos IHU Em Formação é intitulada O pensamento de Friedrich Nietzsche.

Breve biografia de Lévinas
Em 1906, nascia na Lituânia o filósofo Emmanuel Lévinas. Em 1923, na França, começou a estudar Filosofia. Cinco anos mais tarde, foi para Universidade de Friburgo e tornou-se aluno de Edmund Husserl e Martin Heidegger, dos quais seria um dos primeiros a introduzir o pensamento na França. Durante a Segunda Guerra Mundial, foi preso pelos alemães. Durante o exílio, que durou cinco anos, não esqueceu a marca do ódio do homem contra o outro homem deixada pela violência nazista. No cativeiro, escreveu grande parte de sua obra De l’existence à l’existant (1947), publicada dois anos após o fim da guerra. Faleceu em Paris, em dezembro de 1995.
Em sua obra, está impressa a memória dos seis milhões de judeus assassinados pelo nacional-socialismo durante o Holocausto. Traz consigo, portanto, a inquietação de um século marcado pela dominação do homem sobre o outro homem. Nas palavras dele, “século que, em trinta anos, conheceu duas guerras mundiais, os totalitarismos de direita e de esquerda, hitlerismo e stalinismo, Hiroshima, o goulag, os genocídios de Auschwitz e do Cambodja”.
Filosoficamente, Lévinas percebe que o pensamento ocidental, a partir da filosofia grega, desenvolveu-se como discurso de dominação. O Ser dominou a Antigüidade e a Idade Média, sendo depois substituído pelo eu desde a época moderna até os nossos dias, porém sempre sob o mesmo sinal: a unidade unificadora e totalizante que exclui o confronto e a valorização da diversidade, entendida como abertura para o Outro.

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