Internet x jornal impresso. Impasses e inflexões. Entrevista especial com Sabine Righetti

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06 Junho 2008

Para muitos especialistas, a internet é uma grande conversora de mídias, ou seja, a partir dela é possível acessar e produzir todos os tipos de mídia. A grande questão é: ela irá acabar com as outras mídias? Sabine Righetti investigou como a internet mudou o jornalismo impresso. “No começo da minha pesquisa, eu percebi que as empresas que investiguei tendiam a fazer uma mera reprodução do jornal impresso na versão on-line. Aos poucos, elas foram percebendo que não era dessa forma que poderiam explorar a internet, que a rede poderia ser explorada de várias maneiras”, afirmou ela, nesta entrevista concedida por telefone à IHU On-Line.

Para Riguetti, “a revolução provocada pela internet é realmente muito mais rápida dos que as evoluções que aconteceram antes” e, por isso, “se as empresas de jornalismo impresso continuarem segundo as estratégias de hoje, o jornal impresso tende a acabar sim”.

Sabine Righetti é formada em Jornalismo, pela Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (Unesp), com especialização em Jornalismo Científico, pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). O estudo que deu origem a esta entrevista é fruto de seu mestrado em Política Científica e Tecnológica, realizado na Unicamp. Nesta mesma instituição, Sabine desempenha a função de jornalista.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – A internet foi disseminada há pouco mais de dez anos e em tão pouco tempo, comparada a outras evoluções tecnológicas, já provocou inúmeras transformações sociológicas, antropológicas, tecnológicas e nos fez repensar ética, valores, modos de produção, relação com receptor... Alguns chegaram a dizer que o jornalismo impresso morreria com a evolução da produção da rede. Depois desse trabalho, como você vê a forma como a internet mudou o jornalismo impresso?

Sabine Righetti – A revolução provocada pela internet é realmente muito mais rápida dos que as evoluções que aconteceram antes. Aliás, todas as revoluções que aconteceram no final do século XX e no início do século XXI são mais rápidas do que as anteriores. Existem especialistas, como o Philipe Meyer [1], que colocam um prazo de 25 anos para o jornal impresso acabar totalmente. Eu não consigo chegar numa resposta certa de que o jornalismo irá ou não acabar totalmente agora, isso porque os jornais podem tomar um novo rumo. Se as empresas de jornalismo impresso continuarem segundo as estratégias de hoje, o jornal impresso tende a acabar sim, mas, a meu ver, essas empresas podem redefinir o seu papel, que, então, assumiria outra função. Atualmente, o jornal impresso está meio sem função, pois a internet ocupou o espaço do jornal impresso. Mas, se ele se reencontrar, eu acredito que ele possa se manter de uma maneira diferente e não acabar totalmente.

IHU On-Line – E como você vê a forma como as empresas e setores de comunicação têm utilizado a internet?

Sabine Righetti – No começo da minha pesquisa, eu percebi que as empresas que investiguei tendiam a fazer uma mera reprodução do jornal impresso na versão on-line. Aos poucos, elas foram percebendo que não era dessa forma que poderiam explorar a internet, que a rede poderia ser explorada de várias maneiras. A maioria dos jornais agora tem podcast [2], gravam som das reportagens, ou seja, eles estão explorando outros recursos que são próprios da internet, que converge vários veículos. Essas empresas começaram aos poucos a perceber esses recursos e a casar o impresso com a internet. Assim, eles começaram a entender a internet.

Estão começando a pensar, agora, num modelo de texto para a internet. Antes, havia excesso de hiperlinks. No entanto, não precisa ser assim, ou seja, ser tão curto ou possuir tantos links. No entanto, ainda não há, a meu ver, uma identidade de texto. Ainda estamos vivendo a construção dessa identidade.

IHU On-Line – Você afirma que a crise do jornal impresso é de longa data. Essa data é de antes da internet?

Sabine Righetti – É de antes do surgimento da internet. A crise de que falo se restringe à queda do número de leitores, tanto nas vendas em banca quanto em assinatura, e à queda de publicidade. Essa crise começou na década de 1970, mas a internet acelerou essa crise que já estava se manifestando, intensificando-a muito.

De 1995 a 2005, os investimentos publicitários no jornal caíram de 21% para 16%. Isso é culpa da internet? Não, porque a internet hoje tem 2% do total de investimentos publicitários. A internet é um intensificador. Ela pode fazer com que as pessoas deixem de assinar jornal, mas não é a única culpada. Outros meios fizeram com que essa queda acontecesse, tais como a TV a cabo, cinema. Ou seja, é um conjunto de fatores que levou a essa crise.

IHU On-Line – O que você chama de novo jornalismo on-line?

Sabine Righetti – É essa identidade que estamos participando da construção. Alguns teóricos da comunicação já definem algumas características, como o texto mais quente e rápido, textos mais longos, recursos além da leitura. É uma convergência de recursos que caracterizam a identidade do texto.

IHU On-Line – E, quanto à qualidade da informação, como você analisou essa questão ao pensar o jornalismo impresso transformado pela internet?

Sabine Righetti – Eu queria muito trabalhar com a questão da qualidade, porque empiricamente eu achava que os jornais perderam a qualidade. Mas, em primeiro lugar, foi muito difícil achar uma teoria, um conceito do que vem a ser jornalismo de qualidade. O que eu consegui foi encontrar um teórico que faz um ligação entre a qualidade do jornalismo, a credibilidade da marca do jornal e o lucro. Ele diz que as empresas de jornalismo estão em crise e começam a cortar custo e sair da crise. Diminuir os custos significou fazer demissões em massa e cortar os melhores jornalistas que tinham os melhores salários, enfim. Com isso, os jornalistas que ficam na redação são sobrecarregados e isso prejudica o produto, ou seja, o jornal. Quando acontece essa crise, há, também, uma perda da credibilidade tanto por parte do leitor quanto por parte do anunciante. As empresas que estudei estão nesse ciclo vicioso. Se prosseguir esse modelo estratégico de empresa, a tendência é que o jornal acabe. Não há como sobreviver seguindo esse modelo.

IHU On-Line – O mercado da comunicação pode ser democratizado a partir da internet?

Sabine Righetti – Eu não sou muito otimista para falar da democratização com a internet, porque num cenário como o Brasil pouquíssimas pessoas têm acesso a ela, o que dificulta a democratização. A maioria dessas pessoas está nos estados ricos, das regiões Sul e Sudeste. Portanto, ainda falta muito para chegarmos a uma democratização da informação. Estamos longe de uma sociedade da informação porque a maioria das pessoas não tem acesso à internet, que ainda é um meio muito elitista.

Notas:

[1] Philippe Meyer é um jornalista, escritor e apresentador de TV na França.

[2] Podcast é uma forma de publicação de programas de áudio, vídeo e/ou fotos pela Internet que permite aos utilizadores acompanhar a sua atualização. A palavra "podcast" é uma junção de iPod - um aparelho que toca arquivos digitais em MP3/MP4 - e broadcast (transmissão de rádio ou tevê).

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