Os telejornais. Entre as vozes do público e do privado. Entrevista especial com Adriana Nilo

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15 Abril 2008

“Ao contrário do que se diz no senso comum de que todos dizem a mesma coisa, foi possível verificar que os jornais abordam uma mesma pauta de uma forma bem diferente.” Isto é o que afirma Adriana Nilo, nesta entrevista concedida por telefone à IHU On-Line. A jornalista fala sobre sua investigação acerca da diversidade de vozes para os diferentes posicionamentos relacionados a uma pauta de dois telejornais: o Jornal Nacional, de uma empresa privada, e o Cultura Noite, da TV Cultura. “Pressupondo que uma televisão educativa deve trabalhar com a diversidade cultural, eu esperava que diversos pontos de vista sejam mostrados, mas nem sempre isso acontecia nas matérias da Cultura Noite”, contou-nos.

Adriana Tigre Lacerda Nilo é graduada em Jornalismo, pela Universidade Católica de Pernambuco, mestre em Lingüística, pela Universidade Federal de Pernambuco, e doutora na mesma área, pela Universidade Estadual de Campinas. É professora da Fundação Universidade Federal do Tocantins.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Por que a sua opção por estudar um jornal já extinto de um canal público?

Adriana Nilo – Primeiro, para a investigação acadêmica, o factual não importa, por isso ele é importante também como objeto de pesquisa. Se só o factual importasse, a Bíblia não seria revista. Por outro lado, pegar algo que já esteja em andamento passaria pela pressão do audiovisual, por isso seria preciso gravar e, se perdesse alguma gravação, perderia todo o contexto. Daí eu ter acreditado que valia a pena estudar o Cultura Noite. Depois, eu penso em divulgar esse trabalho para a TV Cultura porque não só a Cultura, mas as TVs públicas, em geral, estão passando por uma redefinição de missão e de visão. Então, eu imagino até que, de certa forma, esse modelo saiu para dar entrada a outro, em função dessa busca de novos parâmetros que a TV pública está enfrentando nesse momento. Nesse aspecto eu não vi problema. Como diz a teoria da enunciação [1], o que importa é o lugar de onde se fala e não necessariamente quem fala. Esse lugar não é o lugar geográfico, mas o lugar da enunciação, ou seja, de qualquer maneira é um telejornal de TV pública que serve como exemplo de uma voz enunciadora desse contexto.

IHU On-Line – Que formatos intertextuais podemos perceber nos telejornais que substituíram o Cultura Noite?

Adriana Nilo – Algumas mudanças foram mais em termos macroestrutural, não necessariamente textual-discursiva. Mudaram o cenário, o estilo de apresentação, fizeram um estilo tipo metrópole e, por último, a dupla que apresentava teve o apresentador substituído pelo Heródoto [2]. Mesmo assim, não tenho tantos dados teóricos e acadêmicos dessa nova versão, porque meu corpus incluía o Cultura Noite e o Jornal Nacional, à medida que eles equivaleriam aos telejornais noturnos em horário nobre. Como o Jornal Nacional é líder de audiência e continua sendo exemplo, não no sentido de juízo de valor, mas como expoente da TV comercial, eu quis pegar, em contrapartida, um que existisse no contexto da TV pública. Como o novo telejornal da TV pública estava numa outra faixa, eu, então, teria que pesquisar o equivalente, que era o Jornal da Noite, um jornal tecnicamente difícil de ser apreendido porque não tem horário fixo, devido ao futebol, à novela, aos seriados etc. Ao contrário do Jornal Nacional, que é veiculado impreterivelmente às 20h15min.

IHU On-Line – Quais são os principais pontos intertextuais e polifônicos que você encontrou, em sua pesquisa, no Jornal Nacional e no Cultura Noite?

Adriana Nilo – Primeiro, eu gostaria de esclarecer melhor o que é polifonia e intertextualidade. A intertextualidade é estudada tanto no campo da análise do discurso quanto no campo da lingüística textual e, por isso, alguns conceitos mudam seu significado, dependendo da linha de pesquisa que for a referência. O meu trabalho foi centrado em lingüística textual. Então, eu trabalhei com um dos conceitos de intertextualidade, que é o da temática, embora existam outros. Eu escolhi a temática porque ela analisa a inter-relação que há, no caso do telejornal, entre notícias e reportagens, não necessariamente ao tema abordado. Aqui está a diferença desse conceito para o que seria, na teoria do agendamento [3], a incidência de coberturas semelhantes. O que a intertextualidade analisa é o processo de centração tópica. Para exemplificar, vou usar um dos casos que apareceu na pesquisa: a Virada Cultural [4]. A grosso modo, se eu fosse analisar pela retranca, os dois telejornais abordaram a Virada Cultural. Mas o Jornal Nacional focou a centração tópica na questão do tumulto que ocorreu durante o show dos Racionais [5]. Esse tumulto foi apenas uma parte de todo o evento da Virada Cultural. Nesse telejornal, apenas o tumulto ganhou destaque, como se representasse completamente tal evento. Ou seja, o jornal se referiu rapidamente ao conjunto de eventos e dedicou tempo maior da reportagem ao incidente. Bem, o que aconteceu, por sua vez, no Cultura Noite? A Virada Cultural foi vista como uma junção de duas notas cobertas. A primeira comentou sobre a totalidade do evento, mostrando-as parte a parte. Na segunda nota coberta, quando se abre a matéria, é chamada a atenção para o fato de que nem tudo no evento foram “flores”, que aconteceu um tumulto, surgindo outra nota coberta apenas sobre o tumulto. Então, não podemos dizer que haja uma coincidência de pautas, como diz a teoria do agendamento, mas que existiu intertextualidade temática no tema abordado. Se eu analisar via centração tópica, o foco foi diferente. Então, esses telejornais dialogam menos do que imaginamos. A grosso modo, podermos dizer que os dois abordaram a mesma questão, mas, se você for analisar pela intertextualidade temática, especificamente a centração tópica, eles trataram do assunto de forma distinta.

Com relação à polifonia, alguns autores da semiótica, por exemplo, o Arlindo Machado [6], trabalham com esse conceito de polifonia. Embora ele mencione o Bakthin [7], ele não trabalha com releituras desse autor. Eu trabalhei com Ducrot [8], que segue a perspectiva do Bakthin e explica a pluralidade de vozes que há num enunciado. Então, entendendo enunciação como um enunciado que é posto em cena por uma pessoa a partir de um determinado lugar e que coloca outros para falar, como acontece no telejornal, visto que o discurso do jornalismo é reportado através do pensamento de terceiros que ele divulga. Então, por exemplo, durante a semana em que aconteceu a visita do Papa, analisei que um dos temas mais recorrentes foi o da legalização do aborto. Em ambos os telejornais, os apresentadores, como enunciadores, se reportaram ao que o porta-voz disse, ao que o Papa teria dito a respeito do que os bispos disseram. Então, existe um "efeito cascata" de diversos enunciadores dentro do sujeito falante que é o profissional da imprensa, pois é ele quem fala. Entretanto, do ponto de vista polifônico, há diversos outros enunciadores para falar. A minha expectativa é que o modo de fazer telejornal estivesse mais relacionado com o modelo de televisão. Ou seja, haveria, por um lado, uma televisão sem uma missão específica, e, por outro, uma televisão educativa. Então, pressupondo que uma televisão educativa deva trabalhar com a diversidade cultural, eu esperava que diversos pontos de vista sejam mostrados, mas nem sempre isso acontecia nas matérias do Cultura Noite. Por exemplo, na matéria sobre o aumento do salário dos parlamentares, o Cultura Noite mencionou que havia uma oposição a esse aumento, mas só entrevistou líderes da Câmara e do Senado, ou seja, da situação. Foram essas vozes que entraram em cena e não aquelas que que foram anunciadas, mas que não se enunciaram. Em contrapartida, a TV comercial, que trabalha dentro do contexto de empresa privada, que já está falando de modo geral como enunciadora da perspectiva privada, no entanto, em várias reportagens contemplou mais a diversidade de vozes. Em relação ao aborto, por exemplo, o Cultura Noite veiculou várias notas cobertas em que o locutor não anunciava vozes discordantes, assim como o Jornal Nacional anunciou, com pontos de vista diferentes.

A polifonia, dentro da enunciação, se verifica quando outras vozes são postas em cena e não estão alinhadas na mesma perspectiva, ou seja, quando elas configuram pontos de vista diferentes. Eu não assumi na conclusão que existe uma contradição, ou seja, uma TV comercial, cujo objetivo é lucrar, respeita mais a diversidade, e uma TV educativa, que deveria educar com consciência crítica, não conseguindo ser tão democrática na enunciação das diversas vozes. Eu não assumi isso porque achei que seria muito forte e  meu corpus era o contraponto de uma semana de um telejornal para o outro. De qualquer forma, eu pude dizer que eles são diferentes, mas suas diferenças se encontram mais num nível macro-estrutural, na forma como se estruturam.

IHU On-Line – Intertextualidade e polifonia, muitas vezes, são conceitos que se confundem, pois os dois dizem respeito à presença de outras vozes no texto. No caso dos jornais de canais privados e canais púbicos, quais são as principais diferenças entre essas “outras vozes” dentro do telejornal?

Adriana Nilo – O que eu percebi é que no Cultura Noite o fato de eles utilizarem muito a nota de bancada e não fazerem reportagens com entrevistas influencia (e não determina!) esse discurso reportado. O fato de a reportagem conceder espaço para o entrevistado falar não quer dizer que está trazendo as vozes. Se todas as vozes falarem da mesma perspectiva, não estará havendo polifonia. A própria Cultura fez entrevista ouvindo dois parlamentares que falaram sob o mesmo ângulo. Então, não houve realmente a enunciação de vozes sociais que configurassem a heterogeneidade de pontos de vistas. Já no Jornal Nacional eu observei essa enunciação de vozes sociais que representam segmentos distintos com pontos de vista diferentes.

IHU On-Line – Entre os telejornais privados e públicos é possível perceber nos discursos uma função social e a ideologia da emissora?

Adriana Nilo – Essa questão é muito complexa porque, a rigor, na nossa radiodifusão brasileira três modelos são vigentes: o privado, o público e o estatal. De alguma forma, o estatal é público também, mas acontece que ele é gerido por órgãos governamentais, enquanto que a TV pública tem uma função cultural e educativa e, até certo ponto, é autônoma. Esse conceito de público é muito complexo e, a rigor, os três modelos precisam prestar um serviço público, ficando, portanto, difícil distinguir a missão de uma TV privada, que afirma realizar um serviço público, e uma TV pública, que se diz realizar jornalismo público. Às vezes, chegamos a pensar se isso é uma questão apenas semântica, se há distinção de fato. É claro que há, se soubermos que uma TV privada trabalha sobre a égide da lógica de mercado. Assim, a sua programação informativa é minoritária e a produção de entretenimento, majoritária, inclusive importada, trabalhando com larga publicidade, que é o que a sustenta.

IHU On-Line – Qual é a posição do sujeito das diversas vozes no texto do Jornal Nacional e do Cultura Noite?

Adriana Nilo – Fugindo um pouco do meu corpus, posso utilizar um exemplo recente: o caso Isabella [9]. A gente nota que o Jornal Nacional, no início do caso, falou tanto que deixou a população numa expectativa tão grande, sobre um caso ainda não esclarecido, que se começou a fazer juízo de valor antecipado. Quando o jornal sentiu que esse juízo estava se formando, que as próprias autoridades chamam a atenção para não se fazer esse pré-juízo, aí ele foi ouvir outras vozes. Entrevistaram, então, até o avô da menininha fazendo o mesmo apelo de que não se antecipem no mesmo julgamento. Mas, antes, os jornalistas colocaram outras vozes com as quais eles próprios, sujeitos falantes jornalistas, se afinaram, se identificaram.

Ao contrário do que se diz no senso comum de que todos dizem a mesma coisa, foi possível verificar que os jornais abordam uma mesma pauta de uma forma bem diferente. Essa intertextualidade temática mostra isso. O jornal da TV Cultura foi muito irônico com o ministro Temporão [10] a respeito da legalização do aborto, e a mesma ironia não apareceu no Jornal Nacional.

Notas:

[1] A teoria da enunciação teve como precursor Bakthin e ganhou um impulso na França com a obra do lingüista Benveniste, que propôs estudar a subjetividade na língua.


[2] Heródoto Barbeiro é formado em História e, por muito tempo, foi professor da Universidade de São Paulo. Também é graduado em Direito. Depois, graduou-se em Jornalismo. É gerente de jornalismo da rádio CBN. Heródoto trabalha na TV Cultura e é apresentador do Jornal da Cultura.

 

[3] A Teoria do Agendamento ou Agenda-setting é uma teoria de Comunicação formulada por Maxwell McCombs e Donald Shaw na década de 1970. De acordo com este pensamento, a mídia determina a pauta para a opinião pública ao destacar determinados temas e preterir, ofuscar ou ignorar outros tantos.

[4] A Virada Cultural é um evento que acontece anualmente na cidade de São Paulo.


[5] Racionais MC`s é um grupo de rap e hip-hop formado em 1988 na cidade de São Paulo. As letras do grupo fazem um discurso contra a opressão à população marginalizada na periferia de São Paulo e procuram passar uma postura contra a submissão e a miséria. Apesar de atuar essencialmente na periferia paulistana e de não fazer uso de grandes mídias como TVs abertas e mesmo de se recusar a participar de grandes festivais pelo Brasil, o grupo vendeu durante a carreira cerca de 1 milhão de cópias de seus álbuns.


[6] Arlindo Machado é doutor em comunicações e professor do programa de pós-graduação em comunicação e semiótica da PUC/SP e do Departamento de Cinema, Rádio e Televisão da ECA/USP. Seu campo de pesquisas abrange o universo das chamadas "imagens técnicas", ou seja, daquelas imagens produzidas por meio de mediações tecnológicas diversas, tais como a fotografia, o cinema, o vídeo e as atuais mídias digitais e telemáticas.

 

[7] Mikhail Mikhailovich Bakhtin foi um lingüista russo. Seu trabalho é considerado influente na área de teoria literária, crítica literária, sociolingüística, análise do discurso e semiótica. Bakhtin é, na verdade, um filósofo da linguagem e sua lingüística é considerada uma "trans-lingüística" porque ela ultrapassa a visão de língua como sistema. Isso porque, para Bakhtin, não se pode entender a língua isoladamente, mas qualquer análise lingüística deve incluir fatores extra-lingüisticos como contexto de fala, a relação do falante com o ouvinte, momento histórico etc. Bakhtin professa uma abordagem que transcende a abordagem marxista da língua e da lingüística, combinando-o com o freudismo, o estruturalismo, o evolucionismo, a física relativista e a biologia. Para ele, “a palavra é o signo ideológico por excelência” e também "uma ponte entre mim e o outro".

[8] Oswald Ducrot é um lingüista francês.

[9] O caso Isabella de Oliveira Nardoni refere-se à morte da menina de 5 anos que teria sido jogada do apartamento de seu pai, localizado no sexto andar de um edifício na zona norte de São Paulo, na madrugada do dia 30 de março de 2008.

 

 

[10] José Gomes Temporão um médico sanitarista luso-brasileiro, atual ministro da Saúde. Durante sua gestão de Ministro da Saúde, Temporão defendeu a posição de que o aborto é uma questão de saúde pública, o que causou indignação de setores mais conservadores da sociedade brasileira, como a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil. Também lançou uma campanha de conscientização do elevado risco de contágio do vírus HIV entre os membros da comunidade LGBT.

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