As desigualdades entre homens e mulheres na disputa do poder. Entrevista especial com Ligia Mendonça

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07 Março 2008

“No Legislativo, elas são 12% no Senado e 9% na Câmara. No Executivo, representam 15% dos governadores e apenas 7,5% dos prefeitos. No poder Judiciário, chegam a 18% no Superior Tribunal de Justiça (STJ), mas ficam em 6% em outros tribunais federais”, relata a socióloga e sanitarista Ligia Mendonça. Nesta entrevista, realizada por e-mail, ela reconhece que no Brasil ainda é pequena a participação das mulheres nas instâncias de poder e acrescenta que “as trabalhadoras rurais e do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) cresceram em organização e mantiveram presença em grandes manifestações”.

Ligia Mendonça é participante ativa de movimentos populares, em especial de saúde e de mulheres.

Confira a entrevista.

IHU On-Line - Na política, como a mulher está conquistando o seu espaço?

Ligia Mendonça - A participação das mulheres nos espaços de poder vem crescendo lentamente nos últimos 20 anos. Os exemplos estão bem perto de nós, com mulheres na presidência do Chile e da Argentina, embora estejamos longe do patamar alcançado pela Noruega. No Brasil, ainda é pequena a participação delas nas instâncias de poder. No Legislativo, elas são 12% no Senado e 9% na Câmara. No Executivo, representam 15% dos governadores e apenas 7,5% dos prefeitos. No poder Judiciário, chegam a 18% no Superior Tribunal de Justiça (STJ), mas ficam em 6% em outros tribunais federais. A lei que estabelece que todos os partidos reservem cotas de 30% para candidaturas de mulheres não foi suficiente para alavancar a participação feminina em disputas eleitorais. Ainda há medo e desconhecimento das manhas desses assuntos por parte das mulheres, além da falta de suporte financeiro para campanhas que são cada vez mais caras.

Repare que parte das que são bem-sucedidas estão ligadas a alguma família que já tem tradição na política do seu estado. Por outro lado, seria preciso acompanhar a trajetória delas em outras entidades e ver quantas estão em cargos de direção em sindicatos e ONGs. O histórico de muitas entidades de grande concentração de mulheres, como os sindicatos de professores e bancários, mostra que raramente elas ocupam a presidência. Sabe-se, por outro lado, que a presença das mulheres é predominante nas associações de moradores e grupos comunitários, onde o trabalho é voluntário e é pequeno o poder financeiro. Embora promissor, quero ressaltar que não basta um aumento quantitativo das mulheres nos espaços de poder. Se buscarmos uma efetiva mudança na forma de exercício do poder e a superação das profundas desigualdades do país, inclusive as de gênero, será preciso verificar que compromisso têm essas mulheres poderosas com a democratização do poder, a prioridade no uso de verbas públicas e o enfrentamento do machismo.

IHU On-Line - A senhora acredita que os movimentos femininos estão organizados? São eles fundamentais para a conquista de políticas públicas que favoreçam as mulheres, tanto na conquista de seus direitos na saúde quanto no combate à violência doméstica e às desigualdades sociais no nosso país?

Ligia Mendonça - Não sei dizer com relação ao país como um todo. Pelo que acompanhei de perto no Paraná, minha impressão é de que houve um descenso na organização dos movimentos de mulheres nos anos 1990, comparando-se às décadas anteriores. Talvez seja apenas questão de visibilidade. Percebo que as trabalhadoras rurais e do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) cresceram em organização e mantiveram presença em grandes manifestações. Também cresce a presença das mulheres negras que recentemente se organizaram no Paraná em uma Rede. Creio que está ocorrendo uma “especialização” dos movimentos: os grupos são menores e concentram-se em temáticas específicas, como é o caso da Rede Feminista de Saúde, à qual pertenço. Além disso, ocorreu um deslocamento da militância: um número considerável de mulheres, antes nos movimentos, hoje ocupa postos dentro do governo e contribuem para a execução de políticas que antes reivindicavam de fora.

Ainda há importantes grupos organizados, como a Marcha de Mulheres, e todos são fundamentais para exigir e acompanhar as políticas públicas destinadas a alavancar a igualdade de gênero e a diminuir as desigualdades no acesso a outros direitos fundamentais da classe trabalhadora e populações vulneráveis. Mas é preciso continuar ampliando, chamando mais e mais mulheres para refletir e agir sobre questões que afetam sua saúde, integridade física e cidadania. A maior parte delas ainda desconhece seus direitos ou onde buscar ajuda, e pouco sabe sobre a história do feminismo e as lutas de tantas companheiras no século XX, que possibilitaram a conquista de um patamar mais favorável para as que viverão suas vidas neste século.

IHU On-Line - Qual é a sua opinião sobre a atuação da mulher negra no mercado de trabalho? Ela já consegue usufruir da tecnologia? Como vencer a barreira da desigualdade no mercado de trabalho quando entra em jogo a questão racial?

Ligia Mendonça - Os dados de salário e inserção no mercado de trabalho mostram que as mulheres em geral têm situação desfavorável em relação aos homens, com salários inferiores e maior dificuldade de ascensão nas carreiras. Esse quadro é pior para a população negra e ainda mais negativo para as mulheres desse grupo. Segundo dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios 2005 (PNAD), entre a parcela dos mais pobres do país 73,5% são negros, e a taxa de analfabetismo entre eles (15%) é o dobro daquela encontrada entre os brancos. A enorme quantidade de mulheres que trabalham como empregadas domésticas revelam um problema estrutural de nossa economia. A herança escravista nos legou um preconceito contra o trabalho manual. Junte-se a isso o fato de ser “trabalho de mulher” e se tem um desvalor associado ao trabalho doméstico, que se reflete nos baixíssimos salários desse contingente de trabalhadoras com alta presença de mulheres negras.

Contraditoriamente, é a presença delas que permite que milhões de outras mulheres possam se profissionalizar e participar da vida pública. Nos países socialistas, e alguns de capitalismo avançado, isso não ocorreu e as mulheres conseguiram que os governos implantassem creches e outros serviços coletivos. Assim, o trabalho de faxineiras e outros a domicílio ocorre em menor escala e tem uma remuneração bem mais alta. No caso das mulheres negras, é preciso aumentar a participação em movimentos, redes, associações, para denunciar situações de discriminação e continuar exigindo políticas afirmativas, como a garantia de cotas em universidades para alunos de escola pública e afrodescendentes e medidas para garantir a permanência e sucesso desses alunos ao longo da vida escolar. Insistir também na discussão sobre o racismo ainda mascarado e negado na sociedade brasileira, sendo um importante avanço a lei 10.639/2003, que prevê a inclusão de temas étnico-raciais nos currículos escolares, assim como o decreto 4.886 do mesmo ano que prevê a construção de uma Política Nacional de Promoção da Igualdade Racial, e a tramitação do Estatuto da Igualdade Racial, em proposta do senador Paulo Paim (PT/RS).

IHU On-Line - Nas conquistas femininas, é possível dizer que ela deixou de ocupar papel de sombra do homem ao longo da história? Como vencer o patriarcado, escola de dominação que destinou ao homem o lugar mais alto nas esferas públicas, bem como o controle da sexualidade feminina, entre outros, através das religiões?

Ligia Mendonça - Estamos melhorando, mas a luta é longa. Foram milênios de patriarcado, de aprendizado da submissão e não se altera isso em cem anos. Mas o século XX pode ser considerado o grande marco da virada. O tema da desigualdade de gênero deve integrar os currículos escolares e de todos os espaços educativos de sindicatos, associações e partidos que desejam superar a exploração de classe e de gênero para construir um mundo mais justo.

A questão da sexualidade precisa ser retomada com insistência nas escolas, com participação de pais e professores. Devido a um conjunto de mudanças sociais, as mulheres se tornaram muito mais livres para transar e a gravidez fora do casamento já não pesa tanto sobre a mulher. Mas novas questões surgiram: as meninas e adolescentes de fato conhecem seu corpo, têm prazer e decidem como e com quem fazem sexo ou continuam sendo objeto do desejo e da disputa masculina? Por que elas ainda são vistas pejorativamente como “galinhas”, enquanto eles se afirmam como “galo” ou “ garanhão”? O crescimento da gravidez entre as adolescentes e a contaminação pelo HIV são um indício de que muitas não exigem o uso da camisinha e deixam de cuidar de sua saúde e de sua autonomia. Para superar a dicotomia entre sexualidade e afetividade, meninos e meninas precisam ser educados de forma mais igualitária, permitindo-se e valorizando-se para os meninos a expressão do afeto, do toque, das emoções e não só a força e a capacidade de ereção sexual. Para os homens já adultos, talvez o caminho mais promissor seja permitir e insistir para que cuidem de seus bebês, como sugere Elisabeth Badinter em seu livro XY: sobre a identidade masculina (Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1993). Há que perguntar se isso é possível sob o regime capitalista que exige, para realizar o lucro, a competição, a prevalência da força, a persistência da guerra, a depredação de recursos naturais. O modelo masculino de dominação tem sido adequado para esse fim.

IHU On-Line - Como têm se dado as relações de trabalho com a evolução das questões de gênero?

Ligia Mendonça - As mulheres já são maioria nas escolas e mesmo nas universidades, mas se inserem ainda de forma subordinada no mercado de trabalho, em ocupações de menor qualificação e salários inferiores. A dupla jornada e o cuidado com os filhos impedem que muitas se dediquem à carreira profissional da mesma forma que os homens. A igualdade tende a ser maior quando são solteiras e/ou não tem filhos, pois há falta de creches e também permanece a pressão cultural e familiar para que elas sejam “boas mães e boas donas de casa”. A divisão de trabalho doméstico está longe de ser eqüitativa no casal. Um ponto de luta comum deveria ser a redução da jornada de trabalho para homens e mulheres, com o aumento do compartilhamento das tarefas domésticas. Outras questões ainda relevantes são o assédio sexual sobre as mulheres em situações de trabalho, as demissões em caso de gravidez ou a dificuldade de admitir mulheres em idade fértil. Mas desconheço dados estatísticos sobre isso.

IHU On-Line - O que é preciso ainda para a mulher conquistar a sua verdadeira emancipação?

Ligia Mendonça - Continuar a agir contra as desigualdades de gênero, pequenas ou grandes, e refletir para entender como foi possível tantos séculos de patriarcado. Uma poderosa articulação de interesses econômicos, sociais e culturais ocorreu e persistiu em tão diferentes sociedades sobre a face da terra, nas quais o patriarcado prevaleceu e foi sendo enfraquecido. Essa questão está longe de se esgotar. Como feminista e socialista, considero que a verdadeira emancipação de homens e mulheres só poderá ocorrer quando um novo modo de produção superar o capitalismo, e as riquezas e bens culturais produzidos por todos possam ser desfrutados de forma eqüitativa. Até lá, não desanimemos. Em cada espaço onde aqui e agora se discutem e aplicam formas mais igualitárias de produção, consumo e poder se pode antever e preparar um outro jeito de se estar no mundo.

 

 

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