"O Brizola é um mito nacional". Entrevista especial com Tabajara Ruas

Revista ihu on-line

Renúncia suprema. O suicídio em debate

Edição: 515

Leia mais

Lutero e a Reforma – 500 anos depois. Um debate

Edição: 514

Leia mais

Bioética e o contexto hermenêutico da Biopolítica

Edição: 513

Leia mais

Mais Lidos

  • Por que 60% dos eleitores de Bolsonaro são jovens?

    LER MAIS
  • Francisco denuncia a “negação, indiferença e resignação” dos governos diante da destruição do meio ambiente

    LER MAIS
  • Ação inédita no país, Rio Doce entra na Justiça contra desastre de Mariana

    LER MAIS

Newsletter IHU

Fique atualizado das Notícias do Dia, inscreva-se na newsletter do IHU


close

FECHAR

Enviar o link deste por e-mail a um(a) amigo(a).

Enviar

19 Dezembro 2007

Refletir sobre o homem que foi Leonel Brizola é ainda bastante importante para que possamos entender a política e a história do Brasil. Ele tinha uma grande relevância política, tendo sua vida marcada pela história política brasileira, como a Revolução de 1923, que vitimou seu pai, até a eleição do presidente Lula, em 2003. Nascido no interior do Rio Grande do Sul, foi governador do Estado e do Rio de Janeiro. Ficou preso durante a ditadura militar por liderar o movimento da Legalidade, um movimento de resistência à inserção dos militares no governo do país. “O Brizola não deixou uma concepção teórica da ação política. Ele deixou a memória da sua ação política, do seu modo de governar, do seu jeito de tratar política, da sua integridade e da sua luta”, contou-nos Tabajara Ruas, co-autor do livro “Um brasileiro chamado Brizola” (Porto Alegre: Edição do autor, 2007), escrito com Sérgio Gonzalez, em entrevista concedida por telefone à IHU On-Line.

Tabajara Ruas é escritor e cineasta. Formou-se em Arquitetura, pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Entre 1971 e 1981 exilou-se no Uruguai, Chile, Argentina, Dinamarca, em São Tomé e Príncipe e em Portugal. Em 1999, co-redigiu com Beto Souza, roteirizou e produziu o longa-metragem Netto perde sua alma, baseado em seu livro homônimo. Entre 2002 e 2003, foi consultor especial da produção da minissérie A casa das sete mulheres. É autor de A Guerra dos Farrapos (Porto Alegre: L&PM Quadrinhos, 1985), A cabeça de Gumercindo Saraiva (Rio de Janeiro: Record, 1997) e Netto perde sua alma (Rio de Janeiro: Record, 2001).

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Brizola é o perfil do verdadeiro brasileiro?

Tabajara Ruas - Eu não sei se do verdadeiro, mas é o perfil de um brasileiro muito importante para o país. O Brasil é muito diverso e tem muitos perfis e maneiras de ser. Brizola tem um tipo, na verdade, que foi conformado dentro da tradição política e cultural do Rio Grande do Sul, que não é a mesma do Rio de Janeiro, do Nordeste, do Norte. Uma das belezas que faz o Brasil grande e rico é a sua diversidade. Então, o Brizola não é um paradigma de brasileiro, mas ele foi, sem dúvida, um brasileiro muito especial.

IHU On-Line – A infância e a juventude de Brizola já apontavam para o significativo personagem político que se transformou?

Tabajara Ruas – Eu acredito que sim, porque a infância dele foi formada e se desenvolveu em uma série de fatos políticos, de turbulências políticas. Inclusive, na verdade, a mais antiga infância dele, de quando tinha dois, três anos de idade, foi marcada por uma tragédia política e pessoal, que foi a morte do pai. Seu pai foi assassinado, em função das suas atividades políticas na Revolução de 1923. Ele estava voltando para casa, a guerra já tinha terminado, e ele foi morto em uma emboscada, que tinha muito a ver com assuntos pessoais e assuntos políticos. Logo depois, a mãe perdeu a posse da pequena terra que tinha, e a família dele se tornou sem-terra. Ele foi obrigado a trabalhar desde muito pequeno, e conseguiu, a muito esforço, com 13, 14 anos, ir para Porto Alegre, para estudar em uma escola melhor. Então, eu acredito que a experiência da sua infância e da sua adolescência formaram o político.

IHU On-Line – Os tempos de luta de Leonel Brizola chegaram ao fim com sua morte?

Tabajara Ruas – Eu creio que a luta do Brizola não era uma luta pessoal e não começou com ele. Portanto, também não vai terminar com ele, que era um lutador de causas sociais. As causas sociais vêm desde que o homem começou a se organizar socialmente. E a luta pela organização da sociedade e por justiça social começou quando o homem fez sua primeira organização social. O Brizola foi uma pessoa que se destacou, se jogando profundamente na luta social e utilizando sua experiência, seu talento, seu dom natural para agregar pessoas, conduzir pessoas. E utilizou isso nas lutas que eram características da época em que ele viveu, os anos 1950, 1960 e 1970. Então, se acreditava muito na revolução, em transformações sociais. O mundo vivia um período revolucionário, de idéias libertárias, de transformação. E o Brizola acompanhou esses movimentos todos, dentro da sua característica bem pessoal, de uma pessoa criada no Rio Grande do Sul, informada pelos mitos daqui, da sociedade local. Ele sempre teve uma liderança nas lutas pela terra, pela nacionalização das nossas riquezas, por mais igualdade para todos e pela educação, principalmente. Não é porque começou com ele que vai terminar com ele. São lutas perenes, lutas dos povos. Então, o Brizola foi um líder, um expoente dessa luta.

IHU On-Line – O populismo é um conceito que marca fundamentalmente Brizola?

Tabajara Ruas – O populismo marca mais o PTB, que foi o partido original do Brizola, e depois o próprio PDT. Mas não tanto o Brizola. O populismo tem na palavra um certo mal-estar, parece uma coisa um tanto pejorativa. O Brizola não era do populismo, pois nunca foi de fazer promessas demagógicas. O populismo engana o povo, tenta criar falsas ilusões. Eu tenho a impressão, se observarmos bem, de que, na atividade prática, tudo o que o Brizola falava ele cumpriu ou tentou cumprir. Nunca houve na história do Brasil um governador que fizesse 6 000 escolas. Nunca houve um governador, qualquer cargo político, que desapropriasse empresas estrangeiras, no caso, do poderoso Estados Unidos. Nunca houve, em qualquer posição do governo, um governante que de fato começasse a Reforma Agrária, o que o Brizola fez no Rio Grande do Sul. Eu não acredito que ele fosse um populista. Tratava-se de um homem que seguia rigorosamente seu discurso e aquilo que ele dizia, ele fazia ou tentava fazer.

IHU On-Line – A personalidade de Brizola jovem é a mesma de depois que ele volta da anistia?

Tabajara Ruas – Ele mesmo diz em uma entrevista que ele mudou. “Amadureci”, conforme ele diz em um documentário. As mudanças do Brizola foram mudanças humanas, que acontecem com todos nós. Na infância somos um, na adolescência somos outro, e na juventude outro. Ele viveu plenamente de acordo com cada momento da sua vida e mudou constantemente. Mas a coerência dele foi da necessidade dos povos. Ele sempre esteve à frente dos clamores populares. E penso que isso não mudou.

IHU On-Line – Para você, o que vem a ser o brizolismo? Como vê a influência que Brizola exerce ainda hoje sobre a política brasileira?

Tabajara Ruas – O brizolismo é como se fosse o getulismo, o lulismo, o janguismo. Ele traz seguidores do Brizola. O que o Brizola deixou para os políticos das novas gerações foi o exemplo da sua ação como governante e como político. Ele nunca foi acusado de corrupção. E, como eu disse, tudo o que falava no palanque ele fazia ou tentava fazer, tanto no governo do Rio Grande do Sul quanto no do Rio de Janeiro. Então, o brizolismo representa mais a memória e as ações de Brizola, porque ele não deixou documentos teóricos que formem o brizolismo, nem tratados políticos explicando o que esse seria. Na verdade, Brizola seguia a velha cartilha do Getúlio, do trabalhismo. Até hoje, as principais leis trabalhistas do Brasil são do Getúlio Vargas, da época que ele foi presidente e ditador. Então, reitero que o Brizola não deixou uma concepção teórica da ação política, mas sim a memória da sua ação política, do seu modo de governar, do seu jeito de tratar política, da sua integridade e da sua luta. O brizolismo é isso, e não é como o leninismo ou como o trotskismo, que são documentos escritos sobre a maneira de transformar o mundo. O Brizola não deixou nada disso. Ele viveu a vida e deixou o exemplo da sua ação na vida.

IHU On-Line – Sobrevive ainda o legado de Brizola e o conceito de trabalhismo?

Tabajara Ruas – Com certeza. Tem o PDT, que é um partido forte. Eles trabalham com a idéia do trabalhismo, que vem desde o PTB, do Getúlio Vargas. E o conceito do Brizola, do qual vive o PDT, quando estive fazendo o documentário, percebi conversando com os militantes. Existe, sim, o seu legado, que abrange as suas atitudes, o exemplo da sua vida. E o trabalhismo é uma doutrina que está toda documentada, escrita. Ela criou um partido político que trabalha em torno dessa idéia. O trabalhismo, com certeza, existe e está bem vivo no Brasil.

IHU On-Line – Em sua opinião, há influência do legado de Brizola na política atual?

Tabajara Ruas – Olha, eu não sei se tem influência, mas, com certeza, existe uma espécie de sombra observando o que está acontecendo no Brasil hoje. Eu vejo muita gente dizendo: “Ahhh, se o Brizola estivesse vivo”! Eu acredito que neste momento da vida brasileira, tão fraca de atitudes, de compromissos com a palavra, a influência do Brizola é a sua atitude em vida. É o que ele fez pela profissão de político. Ele era um político profissional, como hoje têm tantos por aí. Mas ele foi um dos poucos que, de fato, dignificaram os cargos recebidos da população.

IHU On-Line – A figura de Brizola simboliza, de alguma forma, o imaginário do gaúcho forte, coerente, incorruptível e, desta forma, é tão admirado no Rio Grande do Sul?

Tabajara Ruas – Eu acredito que sim. Ele criou essa aura em torno dele, ao longo da vida. Todos sabemos que seu final de vida foi melancólico, quando ele teve menos votos que o Enéas. Ele já estava muito idoso e não tinha forças. Mas, na sua vida toda, criou um mito, a partir das ações dele como governador do Rio Grande do Sul, da sua ação na legalidade, quando impediu um golpe de Estado no Brasil, chamando o povo gaúcho às armas. Ele tem uma imagem que tem muito a ver com o fato de ser aqui do Sul, ter nascido aqui, e seus grandes momentos da vida política terem sido no Rio Grande do Sul, na cidade de Porto Alegre. Ele tomou todas aquelas atitudes da Reforma Agrária, da Legalidade, das empresas do estrangeiro. O Brizola é um mito nacional. As pessoas olham para a sua figura, e a tendência é mitificá-lo, ao longo do tempo. Como qualquer ser humano, ele teve muitos defeitos, quedas, altos e baixos. Mas, como as grandes personalidades geram mitos, a tendência é esquecer as debilidades, as quedas, e lembrar dos grandes feitos, das características que os fez criar esta imagem mítica. Eu acredito  que com o Brizola aconteceu isso.

IHU On-Line – Brizola era, de fato, herdeiro de Vargas?

Tabajara Ruas – Sim, acredito que sim. Depois do Getúlio Vargas, dentro do PTB e do próprio PDT não houve um líder carismático. Dentro desses partidos, até hoje não tem, e pelo que se vê no momento, no futuro não existirá um líder tão carismático quando o Brizola e o Getúlio, que criou o trabalhismo. O herdeiro do getulismo, das idéias do trabalhismo foi o Brizola. E eu penso que o terceiro, na sucessão, ainda não apareceu.

IHU On-Line – O que Brizola diria do governo Lula em relação à forma como está tratando as normas trabalhistas e a reforma agrária?

Tabajara Ruas - O Brizola já fazia oposição ao Lula, logo no começo do seu governo. E, com certeza, ele estaria criticando uma série de coisas. Mas o Brizola não criticava só por criticar. Com certeza, ele também estaria aplaudindo as coisas boas que o governo Lula faz.

Comunicar erro

close

FECHAR

Comunicar erro.

Comunique à redação erros de português, de informação ou técnicos encontrados nesta página:

"O Brizola é um mito nacional". Entrevista especial com Tabajara Ruas - Instituto Humanitas Unisinos - IHU

##CHILD
picture
ASAV