Incêndio no Taim: o fogo, uma ferramenta de manejo? Entrevista especial com Marcelo Dutra da Silva

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05 Abril 2013

A intervenção imposta pela BR-471 modificou a paisagem da Estação Ecológica do Taim. A área coberta por banhados ficou maior e talvez a taxa de produção primária tenha sido alterada. Com uma produção em alta, o sistema pode estar produzindo mais biomassa e acumulando mais matéria seca do que produzia. E nessas condições qualquer fagulha pode acionar o gatilho, formando um grande incêndio", afimar o ecólogo.

Confira a entrevista.


O incêndio que queimou cerca de cinco mil hectares da Estação Ecológica do Taim, no Rio Grande do Sul, na última semana, está atrelado às intervenções impostas pela BR-471, diz o ecólogo Marcelo Dutra à IHU On-Line em entrevista concedida por e-mail. Segundo ele, a área coberta por banhados ficou “maior e talvez a taxa de produção primária tenha sido alterada. Com uma produção em alta, o sistema pode estar produzindo mais biomassa e acumulando mais matéria seca do que produzia. E nessas condições qualquer fagulha pode acionar o gatilho, formando um grande incêndio”.

De acordo com Marcelo Dutra, o fogo nem sempre representa um problema para os ecossistemas e “pode ser utilizado como uma ferramenta de manejo, para evitar o acúmulo permanente de matéria seca, uma vez que nesse sistema a produção de biomassa é abundante e os riscos de incêndio são elevados”. Segundo ele, uma equipe de brigadistas faz rondas periódicas no Taim para combater focos de incêndio, mas o método não é adequado. Ele explica: “Na prática, cada foco evitado é mais matéria acumulada, e o sistema fica mais carregado de energia, pronto para incendiar e com alto poder de combustão. Como o sistema gera muita palha e material seco, o fogo controlado surge como uma alternativa de estabilidade que, aos poucos, vai reduzindo o risco de grandes incêndios”.

Marcelo Dutra da Silva é graduado em Ecologia, mestre e doutor em Ciências, pelo Programa de Pós-Graduação em Agronomia da Universidade Federal de Pelotas. É professor permanente do Programa de Pós-graduação em Gerenciamento Costeiro do Instituto de Oceanografia da Universidade Federal do Rio Grande, onde leciona a disciplina de Ecologia de Paisagem.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Quais são as características da Estação Ecológica do Taim?

Marcelo Dutra da Silva –
A Estação Ecológica do Taim é uma Unidade de Conservação Federal criada em 21 de julho de 1986, pelo Decreto n. 92.963. É administrada pelo Instituto Chico Mendes, uma autarquia federal que surgiu da divisão do Ibama em 2008. O Taim é reconhecido por pesquisadores e organismos internacionais como uma das áreas de conservação mais importantes do planeta, que preserva banhados, lagoas, campos, dunas e matas de restinga. Um sistema de extraordinária beleza, que reúne diferentes espécies da região costeira, com destaque para as aves, que chamam atenção por sua abundância e diversidade. A fauna do Taim é exuberante, e a fácil visualização é um diferencial que a região oferece.

São mais de 230 espécies de aves, entre marrecões, cisne-brancos e cisne-do-pescoço-preto, tarrãs, maçaricos e passeriformes. Reduto típico de répteis e anfíbios. Na área do banhado encontramos, com relativa facilidade, o jacaré-do-papo-amarelo e a tartaruga-tigre. A capivara é extremamente abundante, quase que um símbolo da Estação, e é avistado com facilidade na margem da rodovia BR-471, onde também é visto, logo ao entardecer, o graxaim-do-campo. Os animais ameaçados de extinção, como a lontra e o gavião-cinza, são encontrados em áreas mais remotas, de difícil acesso até para os servidores da Unidade. A flora abundante no Taim é típica da Região Costeira. Desde os juncais e ciperáceas das áreas alagadas, aos capinzais e arbustos dos campos e dunas, até os capões de mata de restinga. Muitas espécies da flora são consideradas medicinais e outras têm seu valor ornamental conhecido, como as orquídeas, por exemplo. A diversidade de ambientes no Taim responde aos fatores climáticos, de solo, presença de água e estresse causado pelo vento e temperatura típica da região. O Taim também é um guardião das fisionomias naturais do Pampa costeiro, mantidas nessa reserva, afastadas das pressões impostas pecuária e uso agrícola.

IHU On-Line – O senhor pode explicar a formação desse sistema?

Marcelo Dutra da Silva –
Os ambientes e paisagens que compõem a região do Taim, no extremo sul gaúcho, resultaram dos processos que levaram a formação do sistema costeiro do Rio Grande do Sul. A Estação Ecológica do Taim contempla fisionomias que podem ser facilmente encontradas em outras regiões da Planície Costeira, porém com maior integridade e livre das pressões. No entanto, apesar da presença de ambientes úmidos ser muito abundante nessa região, a mão do homem pode ter sido determinante na formação de novas áreas alagadas ou sujeitas a inundação, recriando esse belo espaço ecológico que observamos hoje. Isso porque, talvez, as mudanças impostas pela construção da BR-471 (na década de 1970) sejam maiores do que normalmente é considerado. A barreira imposta pela BR-471 aos poucos mudou o padrão hídrico regional, redistribuindo o volume de água, formando, de um lado, um espaço seco e bastante utilizado para o cultivo de arroz e criação de gado e, de outro, um espaço encharcado que, aos poucos, foi assumindo novas características e formando um belo cenário, de explosão de vida e produtividade. Um lugar especial que representa, muito bem, a profunda relação do homem com a natureza, onde a decisão de alterar o espaço propaga-se no tempo, às vezes de forma positiva.

IHU On-Line – Quais as razões dos incêndios na Estação?

Marcelo Dutra da Silva –
A intervenção imposta pela BR-471 modificou a paisagem. A área coberta por banhados ficou maior e talvez a taxa de produção primária tenha sido alterada. Com uma produção em alta, o sistema pode estar produzindo mais biomassa e acumulando mais matéria seca do que produzia. E nessas condições qualquer fagulha pode acionar o gatilho, formando um grande incêndio. O incêndio desse ano queimou cerca de cinco mil hectares, uma área relativamente grande, mas sem grandes prejuízos. Claro que vamos perder alguns indivíduos, sobretudo os organismos de menor porte, que se deslocam de forma mais lenta (pequenos répteis, por exemplo). Na verdade, é muito difícil dimensionar todos os danos, mas esse é um processo reversível e que pode ser evitado com o manejo correto.

IHU On-Line – Quais são as limitações diante de um incêndio como o que ocorreu na última semana?

Marcelo Dutra da Silva –
Diante de um grande incêndio como esse, as limitações são muito grandes. Não temos estrutura de combate para o pronto emprego. Na verdade, não estamos preparados para isso. Pior, não conhecemos o comportamento do incêndio e sob que condições ele acontece e/ou se propaga. Tudo indica que esse incêndio iniciou a partir de um raio, mas poderia ter sido provocado, e como não estamos preparados, independente da origem, a nossa capacidade de reagir diante de grandes incêndios é muito limitada.

IHU On-Line – O senhor aponta a necessidade de tratar o fogo como um aliado e empregá-lo no manejo controlado. Em que consiste essa proposta?

Marcelo Dutra da Silva –
O emprego do fogo como prevenção de incêndio é uma prática bem antiga. O efeito do fogo pode ser catastrófico para alguns sistemas, porém benéfico até certa medida. Alguns sistemas dependem do fogo, enquanto outros se tornam suscetíveis ao incêndio. Então, o fogo não é necessariamente ruim e o seu papel ecológico precisa ser mais bem compreendido. O fogo é ruim quando é mau empregado ou quando se alastra sem controle, queimando o que encontra pela frente. Pode parecer estranho utilizar fogo em Unidades de Conservação, mas seu emprego como ferramenta de manejo é uma prática comum e bastante
utilizada pelo ICMBIO, como no Cerrado, por exemplo. Queimas controladas podem evitar o desespero de ver um grande incêndio de difícil controle. O fogo controlado pode ser utilizado como uma ferramenta de manejo, para evitar o acúmulo permanente de matéria seca, uma vez que nesse sistema a produção de biomassa é abundante e os riscos de incêndio são elevados. O emprego do fogo deveria ser mais bem discutido e, quem sabe, incorporado no novo plano de manejo da ESEC Taim. Aliás, essa discussão se fez quando o Taim incendiou pela última vez, em 2008. Mas nada foi feito ou desenvolvido nesse sentido e aqui estamos, vivendo mais um incêndio.

IHU On-Line – É possível evitar os focos de incêndio na ESEC Taim e reconhecer as áreas com maior vulnerabilidade em função do acumulo de matéria seca, as quais são suscetíveis a incêndios?

Marcelo Dutra da Silva –
O Taim já trabalha com a ideia de combater focos de incêndio. O grande incêndio de 2008 levantou essa discussão. Hoje, a Estação conta com uma equipe de brigadistas, os quais trabalham durante os seis meses mais quentes do ano, época de maior probabilidade de haver fogo. A equipe faz rondas periódicas, detecta e combate os focos de incêndio que são mais frequentes entre novembro e abril, quando diminui o volume de água e a palha do banhado está seca e suscetível ao fogo. Porém, tenho dúvidas quanto à eficácia desse método. Na prática, cada foco evitado é mais matéria acumulada, e o sistema fica mais carregado de energia, pronto para incendiar e com alto poder de combustão. Como o sistema gera muita palha e material seco, o fogo controlado surge como uma alternativa de estabilidade, que, aos poucos, vai reduzindo o risco de grandes incêndios. E ficar esperando acontecer para combater é uma posição pouco racional e não está sendo eficiente. Está na hora de investir em prevenção e talvez o fogo possa ser um aliado importante. Para tanto, precisamos construir modelos de previsão capazes de relacionar a vulnerabilidade das áreas às condições certas, de modo a evitar a formação de novos incêndios.

IHU On-Line – Deseja acrescentar algo?

Marcelo Dutra da Silva –
A resiliência do sistema nos favorece, mas não podemos continuar tendo incêndios de grande proporção. A recuperação do banhado é rápida, mas estamos correndo o risco de o fogo chegar às áreas de refúgio, onde as espécies buscam abrigo, o que promoveria um dano irreparável. Precisamos investir em novas tecnologias e estudar o comportamento espacial do sistema, numa perspectiva de paisagem, sem ficar preso a questões pontuais. O Taim está inserido num contexto, compreendido por usos diversos. É uma enorme mancha de conservação, cercada por ameaças constantes. Entre as quais podemos citar o cultivo do arroz, a pecuária predatória e a permanência do pinus. O gado invade, o pinus dispersa, mas o cultivo do arroz representa um problema bem mais sério. A cultura do arroz é uma atividade de grande importância econômica no sul do RS, e os municípios de Rio Grande e Santa Vitória do Palmar figuram entre os maiores produtores. O cultivo de arroz irrigado consome grandes quantidades de água num período que coincide com os meses mais quentes do ano. A demanda por água, imposta pela atividade do arroz, é muito importante nessa região do Taim e merece uma atenção especial. Se o consumo de água não for controlado, poderá faltar água no Taim assim como baixos níveis de água, justamente num período seco, poderão favorecer a ocorrência dos incêndios. Por fim, espero que os administradores da Unidade considerem a possibilidade de manejar a área com fogo. Espero poder contribuir na discussão do novo plano de manejo e dar início aos primeiros trabalhos de pesquisa, voltados a entender o comportamento da regeneração das áreas perturbadas pelo incêndio.

(Fonte das fotos: zerohora.clicrbs.com.br)

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