Sem filiação religiosa. "Um contingente significativo e heterogêneo". Entrevista especial com Emerson Alessandro Giumbelli

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22 Novembro 2012

“Os números de afiliação religiosa tendem – como no caso das religiões afro-brasileiras – a ser sempre menores do que a importância social do espiritismo”, constata o sociólogo.

Confira a entrevista.


“A divulgação dos dados do Censo 2010 evidencia uma tensão que permeia mais geralmente nossas percepções acerca da religião no Brasil. Por um lado, a ideia de um país cristão; por outro, a ideia de um país que apresenta diversidade religiosa”, avalia o sociólogo Emerson Alessandro Giumbelli, em entrevista concedida à IHU On-Line por e-mail. Analisando os últimos dados do censo, o pesquisador afirma que “precisamos entender os vários planos em que se inserem as religiões na sociedade, sem deixar de reconhecer as situações em que a ideia de uma ‘maioria cristã’ pode obscurecer a realidade plural”.

Giumbelli comenta os dados referentes aos que se identificaram como sem filiação religiosa. Apesar de o número de pessoas ter aumentado em relação à década anterior, “diminuiu o ritmo de crescimento no período 2000-2010”. Para ele, o contingente de pessoas sem religião é significativo e heterogêneo, mas somente “pesquisas mais precisas podem esclarecer todas as situações que nele se abrigam”. Segundo ele, “este ano o IBGE divulgou pela primeira vez o número de pessoas que se declararam ‘agnósticas’ e ‘ateias’ (cerca de 740 mil indivíduos). Esse número corresponde a cerca de 5% do total das pessoas ‘sem religião’, o que demonstra que ‘sem religião’ não é sinônimo de ‘sem crenças religiosas’”.

Emerson Alessandro Giumbelli é graduado em Ciências Sociais pela Universidade Federal de Santa Catarina – UFSC, mestre e doutor em Antropologia Social pela Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ. É professor adjunto da Universidade Federal do Rio Grande do Sul – UFRGS, onde atua no Departamento de Antropologia e no Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social. É coeditor da revista Religião e Sociedade.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Os dados do Censo 2010 apontaram alguma novidade em relação ao mapa religioso brasileiro e à religiosidade? Que mapa religioso aparece como emergente?

Emerson Alessandro Giumbelli –
As principais tendências anunciadas nos resultados do Censo anterior estão novamente presentes, como já observaram muitos analistas: decréscimo dos católicos, e ascensão de evangélicos e dos declarados “sem religião”. Talvez a principal novidade esteja relacionada com a categoria dos evangélicos “genéricos” (sem denominação indicada, quase 5% do universo total). Uma parte desse contingente corresponde a pessoas que estão pouco vinculadas a igrejas específicas, ou talvez passando por uma situação de trânsito entre denominações. Mas creio ser necessário interpretar o número expressivo tendo em consideração a força que adquiriu, na sociedade, a categoria “evangélico”. Mesmo muitos daqueles que possuem pertencimentos denominacionais, frente à pergunta “qual é sua religião?”, acham suficiente responder “evangélica”. Há dez anos, a chance de isso acontecer era menor. O crescimento evangélico vem acompanhado do reforço dessa categoria genérica de denominação, sem prejuízo necessário aos pertencimentos denominacionais.

IHU On-Line – Aumentou o número de pessoas sem filiação religiosa. Como interpreta esse dado? Há uma tendência no Brasil, do mesmo modo que aconteceu na Europa, de acentuar a desfiliação religiosa?

Emerson Alessandro Giumbelli –
O número de pessoas sem filiação religiosa aumentou, mas diminuiu o ritmo de crescimento no período 2000-2010. De todo modo, trata-se de um contingente muito significativo e heterogêneo. Apenas pesquisas mais precisas podem esclarecer todas as situações que nele se abrigam. Este ano o IBGE divulgou pela primeira vez o número de pessoas que se declararam “agnósticas” e “ateias” (cerca de 740 mil indivíduos). Esse número corresponde a cerca de 5% do total das pessoas “sem religião”, o que demonstra que “sem religião” não é sinônimo de “sem crenças religiosas”. Por outro lado, deve-se considerar que, caso a resposta fosse estimulada, as estatísticas de agnósticos e ateus poderiam ser maiores.

IHU On-Line – O espiritismo teve um crescimento de 1,3 para 2% em relação à pesquisa anterior. Qual é o perfil dos seguidores do espiritismo? Como o senhor avalia e a que atribui essa ascensão?

Emerson Alessandro Giumbelli –
O perfil dos espíritas, em comparação com outras religiões, é de pessoas com escolaridade e renda mais altas. É um dado indicado por muitas pesquisas. O aumento do número de espíritas deve-se, em parte, ao crescimento contínuo e sustentado desse grupo; em parte, ao cenário social mais favorável ao seu reconhecimento: recentemente, filmes de temáticas espíritas aumentaram a projeção de suas referências. De todo, os números de afiliação religiosa tendem – como no caso das religiões afro-brasileiras – a ser sempre menores do que a importância social do espiritismo. Isso tem a ver com características do próprio espiritismo e com traços estruturantes das identidades religiosas no Brasil.

IHU On-Line – Que relações podem ser estabelecidas entre as transformações sociais e culturais de nosso país com sua diversidade religiosa?

Emerson Alessandro Giumbelli –
A divulgação dos dados do Censo 2010 evidencia uma tensão que permeia mais geralmente nossas percepções acerca da religião no Brasil. Por um lado, a ideia de um país cristão; por outro, a ideia de um país que apresenta diversidade religiosa. Em termos analíticos, não são quadros contraditórios. Precisamos entender os vários planos em que se inserem as religiões na sociedade, sem deixar de reconhecer as situações em que a ideia de uma “maioria cristã” pode obscurecer a realidade plural.

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