“Um cristianismo sem cruz é mundano e se torna estéril”, afirma o Papa Francisco em Presov, na homilia de uma celebração bizantina

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15 Setembro 2021

 

“Abrir o livro da cruz” e “ser testemunhas que levam a cruz no coração e não apenas no pescoço”, sem aspirar “a um cristianismo triunfador”. Esta foi uma das mensagens que o Papa Francisco quis dar ao mundo desde a praça de Metská sportova, na cidade eslovaca de Presov. Porque a cruz não pode se reduzir a “um objeto de devoção, e muito menos a um símbolo político”.

A reportagem é de José Manuel Vidal, publicada por Religión Digital, 14-09-2021. A tradução é de Wagner Fernandes de Azevedo.

Presov é o epicentro da Igreja Bizantina. Francisco é o primeiro pontífice a celebrar este rito especial bizantino. Entre as línguas utilizadas se encontram também o paleoeslavo e as orações em romani.

A missa realmente colorida em rito bizantino, segundo a Divina Liturgia Bizantina de São João Crisóstomo, com os bispos vestidos com suas vistosas casulas vermelhas e suas tiaras douradas. O altar, com estética totalmente oriental, é adornado por três belos ícones bizantinos, em frente a uma imensa esplanada repleta de fiéis, vestindo as cores do Vaticano e da Eslováquia. E a liturgia cantada integralmente ao longo de seu desenvolvimento, inclusive pelo povo. Uma cerimônia muito longa, que o Papa aguentou bem, apesar da sua recente cirurgia. Ao seu lado, seu mestre de cerimônias, monsenhor Guido Marini, em uma de suas últimas aparições com o Papa, porque acaba de ser nomeado bispo de uma diocese italiana.

 

Eis a homilia.

 

“Nós – declara São Paulo – pregamos Cristo crucificado (...), poder e sabedoria de Deus”. Entretanto o Apóstolo não esconde que a cruz, aos olhos da sabedoria humana, aparece diversa: é “escândalo”, “loucura” (1 Cor 1, 23-24). A cruz era instrumento de morte, e contudo dela veio a vida; era algo que ninguém queria contemplar, e todavia revelou-nos a beleza do amor de Deus. Por isso, o santo povo de Deus a venera; e a Liturgia celebra-a na festa de hoje. O Evangelho de São João toma-nos pela mão e ajuda-nos a entrar neste mistério. Na realidade, o evangelista encontrava-se lá junto da cruz. Contempla Jesus, já morto, suspenso no madeiro, e escreve: “Aquele que viu estas coisas é que dá testemunho delas” (Jo 19, 35). São João vê e dá testemunho.

Em primeiro lugar, temos o ver. Mas, junto da cruz, que viu João? Certamente aquilo que viram os outros: Jesus, inocente e bom, morre brutalmente entre dois malfeitores. Uma de tantas injustiças, um dos inúmeros sacrifícios cruentos que não mudam a história, mais uma prova de que o curso das vicissitudes no mundo não muda: os bons são eliminados, enquanto os malvados vencem e prosperam. Aos olhos do mundo, a cruz é um fracasso. E também nós corremos o risco de nos deter neste primeiro olhar superficial, de não aceitar a lógica da cruz; não aceitar que Deus nos salve, deixando que se desencadeie sobre Ele o mal do mundo. Não aceitar senão em palavras o Deus frágil e crucificado, para depois sonhar com um deus forte e triunfante. É uma grande tentação. Quantas vezes aspiramos a um cristianismo de vencedores, a um cristianismo triunfalista, que tenha relevância e importância, receba glória e honra. Mas um cristianismo sem cruz é mundano, e torna-se estéril.

Ao contrário, São João viu na cruz a obra de Deus. Reconheceu em Cristo crucificado a glória de Deus. Viu que Ele, apesar das aparências, não é um perdedor, mas é Deus que voluntariamente Se oferece por cada homem. Por que motivo o fez? Teria podido poupar a sua vida, teria podido manter-se à distância da nossa história mais miserável e crua. Em vez disso, quis entrar dentro dela, mergulhar nela. Para isso escolheu o caminho mais difícil: a cruz. Para que não houvesse na terra ninguém tão desesperado que não conseguisse encontrá-Lo, até mesmo na angústia, na escuridão, no abandono, no escândalo da sua miséria e dos próprios erros. Até mesmo onde se pensa que Deus não pode estar, Ele chegou. Para salvar quem está desesperado, quis experimentar o desespero, para assumir o nosso desconforto mais amargo, clamou na cruz: “Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?” (Mt 27, 46; Sal 22, 2). Um grito que salva. Salva, porque Deus assumiu até mesmo o nosso abandono. E agora, com Ele, não mais estamos sozinhos, jamais.

Como podemos aprender a ver a glória na cruz? Alguns santos ensinaram que a cruz é como um livro que, para o conhecer, é preciso abri-lo e ler. Não basta comprar um livro, dar-lhe uma vista de olhos e expô-lo em casa. O mesmo vale para a cruz: está pintada ou esculpida em cada canto das nossas igrejas. Incontáveis são os crucifixos: ao pescoço, em casa, no carro, no bolso. Mas isso de nada nos aproveita, se não nos detivermos a olhar o Crucificado e não Lhe abrirmos o coração, se não nos deixarmos impressionar pelas suas chagas abertas por nós, se o coração não se comover e chorarmos diante de Deus ferido de amor por nós. Se não fizermos assim, a cruz permanece um livro não lido, cujo título e autor são bem conhecidos, mas que não influencia a vida. Não reduzamos a cruz a um objeto de devoção, e menos ainda a um símbolo político, a um sinal de relevância religiosa e social.

Da contemplação do Crucifixo, provém o segundo passo: dar testemunho. Se mergulharmos o olhar em Jesus, o seu rosto começa a refletir-se no nosso: os seus traços tornam-se os nossos, o amor de Cristo conquista-nos e transforma-nos. Penso nos mártires que deram testemunho do amor de Cristo nesta nação em tempos muito difíceis, quando tudo aconselhava a ficar calado, pôr-se a seguro, não professar a fé. Mas não podiam, não podiam deixar de testemunhar. Quantas pessoas generosas sofreram e morreram aqui, na Eslováquia, por causa do nome de Jesus! Um testemunho prestado por amor Àquele que tinham contemplado longamente, até ao ponto de se assemelharem a Ele, inclusive na morte.

Mas penso também nos nossos tempos, em que não faltam ocasiões para dar testemunho. Graças a Deus, aqui não há quem persiga os cristãos como em tantas outras partes do mundo. Mas o testemunho pode ser contaminado pelo mundanismo e a mediocridade; ao passo que a cruz exige um testemunho claro. Pois a cruz não quer ser uma bandeira elevada ao alto, mas a fonte pura duma maneira nova de viver. Qual? A do Evangelho, a das Bem-aventuranças. A testemunha que tem a cruz no coração, e não apenas ao pescoço, não vê ninguém como inimigo, mas vê a todos como irmãos e irmãs por quem Jesus deu a vida. A testemunha da cruz não recorda as injustiças do passado nem se lamenta do presente. A testemunha da cruz não usa as vias do engano e do poder mundano: não quer impor-se a si mesmo e os seus, mas dar a sua vida pelos outros. Não busca o próprio proveito, e logo se mostra piedoso: seria uma religião da duplicidade, não o testemunho do Deus crucificado. A testemunha da cruz segue uma única estratégia que é a do Mestre: o amor humilde. Não espera triunfos aqui na terra, porque sabe que o amor de Cristo é fecundo na vida quotidiana, fazendo novas todas as coisas a partir de dentro, como uma semente caída na terra, que morre e dá fruto.

Queridos irmãos e irmãs, vós vistes testemunhas. Conservai grata memória das pessoas que vos amamentaram e fizeram crescer na fé: pessoas humildes, simples, que deram a vida amando até ao fim. São os nossos heróis, os heróis da vida quotidiana; e são as suas vidas que mudam a história. As testemunhas geram outras testemunhas, porque são dadoras de vida. É assim que a fé se espalha: com a sabedoria da cruz e não com o poder do mundo; com o testemunho e não com as estruturas. E hoje, a partir do silêncio vibrante da cruz, o Senhor pergunta a todos nós, pergunta também a ti, a cada um de vós e a mim: “Queres ser minha testemunha?”.

Com João, no Calvário, estava a Santa Mãe de Deus. Ninguém como Ela viu o livro da cruz aberto e o testemunhou como amor humilde. Por sua intercessão, peçamos a graça de converter o olhar do coração ao Crucificado. Então a nossa fé poderá florescer em plenitude, então amadurecerão os frutos do nosso testemunho.

 

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