Preservar a Fraternidade na Terra. Artigo do Papa Francisco

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13 Setembro 2021

 

“A autêntica resposta religiosa ao fratricídio é a busca do irmão. Vamos cuidar juntos da memória comum dos irmãos e das irmãs que sofreram violência, ajudemo-nos com palavras e gestos concretos para combater o ódio que quer dividir a família humana! Os crentes não podem combatê-la com a violência das armas, que só gera mais violência, em uma espiral de retaliações e vinganças sem fim”, escreve o Papa Francisco, em artigo publicado por Repubblica, 12-09-2021. A tradução é de Luisa Rabolini.

 

Eis o artigo.

 

Dirijo uma cordial saudação aos Participantes do G20 Interfaith Forum, que este ano se realiza em Bolonha. Guardo vívida a memória da minha passagem pela cidade, caracterizada, entre outras coisas, pela antiga Universidade, “que sempre a tornou aberta, educando os cidadãos do mundo e lembrando que a identidade a que se pertence é aquela da casa comum, da universitas" (Encontro com os estudantes e o mundo acadêmico, 1 de outubro de 2017). É bom que vocês tenham se reunido precisamente com o objetivo de superar os particularismos e compartilhar ideias e esperanças: juntos, autoridades religiosas, líderes políticos e representantes do mundo da cultura, vocês estão dialogando para promover o acesso aos direitos fundamentais, sobretudo à liberdade religiosa, e a cultivar fermentos de unidade e de reconciliação onde a guerra e os ódios semearam morte e mentiras.

 

Nisto, o papel das religiões é realmente essencial. Gostaria de reiterar que, se queremos preservar a fraternidade na Terra, ‘não podemos perder de vista o Céu’. No entanto, devemos ajudar a limpar o horizonte do sagrado das nuvens obscuras da violência e do fundamentalismo, fortalecendo-nos na convicção de que ‘o Além de Deus nos remete ao outro do irmão’ (Discurso por ocasião do Encontro Interreligioso, Ur, 6 de março de 2021). Sim, a verdadeira religiosidade consiste em adorar a Deus e amar o próximo. E nós, crentes, não podemos nos eximir destas escolhas religiosas essenciais: mais do que demonstrar algo, somos chamados a mostrar a presença paternal do Deus do céu através da nossa harmonia na terra.

 

 

Hoje, porém, isso infelizmente parece um sonho distante. No âmbito religioso parece estar em andamento mais uma deletéria ‘mudança climática’: às alterações nocivas que afetam a saúde da Terra, nossa casa comum, há outras que ‘ameaçam o Céu’. É como se a ‘temperatura’ da religiosidade estivesse aumentando. Basta pensar no recrudescimento da violência que explora o sagrado: nos últimos 40 anos houve quase 3.000 atentados e cerca de 5.000 assassinatos em vários locais de culto, naqueles espaços que deveriam ser protegidos como oásis de sacralidade e de fraternidade.

 

Muito facilmente, além disso, aqueles que blasfemam o santo nome de Deus perseguindo seus irmãos encontram financiamento. Mais ainda, a pregação incendiária daqueles que, em nome de um falso deus, incitam o ódio, está se espalhando de forma muitas vezes descontrolada. O que podemos fazer diante de tudo isso?

 

Como responsáveis religiosos, creio que primeiramente seja necessário servir a verdade e declarar sem medo e fingimentos o mal quando é mal, mesmo e sobretudo quando é cometido por aqueles que professam seguir o nosso próprio credo. Devemos também nos ajudar, todos juntos, a combater o analfabetismo religioso que permeia todas as culturas: é uma ignorância generalizada, que reduz a experiência de fé a dimensões rudimentares do humano e seduz almas vulneráveis a aderir a slogans fundamentalistas. Mas não basta combater: é preciso sobretudo educar, promovendo um desenvolvimento justo, solidário e integral que aumente as oportunidades de escolarização e educação, porque onde reinam incontestados a pobreza e a ignorância, a violência fundamentalista se enraíza com mais facilidade.

 

 

Certamente deve ser encorajada a proposta de instituir uma memória comum daqueles que foram mortos em todo lugar de oração. Na Bíblia, em resposta ao ódio de Caim, que acreditava em Deus e ainda assim matou seu irmão, fazendo a voz de seu sangue subir da terra, veio do Céu a pergunta: ‘Onde está seu irmão?’ (Gênesis 4,9).

 

A autêntica resposta religiosa ao fratricídio é a busca do irmão.

 

Vamos cuidar juntos da memória comum dos irmãos e das irmãs que sofreram violência, ajudemo-nos com palavras e gestos concretos para combater o ódio que quer dividir a família humana!

 

Os crentes não podem combatê-la com a violência das armas, que só gera mais violência, em uma espiral de retaliações e vinganças sem fim. Por outro lado, é profícuo o que vocês querem afirmar nestes dias: "Não nos mataremos, nos ajudaremos, nos perdoaremos". São empenhos que exigem condições não fáceis - não há desarmamento sem coragem, não há ajuda sem gratuidade, não há perdão sem verdade - mas que constituem o único caminho possível para a paz. Sim, porque o caminho para a paz não se encontra nas armas, mas sim na justiça. E nós, líderes religiosos, somos os primeiros a ter que defender tais processos, testemunhando que a capacidade de combater o mal não está nas proclamações, mas em oração; não na vingança, mas a harmonia; não nos atalhos ditados pelo uso da força, mas na força paciente e construtiva da solidariedade.

 

 

Porque só isso é verdadeiramente digno do homem. E porque Deus não é o Deus da guerra, mas da paz.

 

Paz, uma palavra-chave no atual cenário internacional. Uma palavra diante da qual ‘não podemos ser indiferentes ou neutros’. Repito: ‘Não neutros, mas alinhados pela paz!

 

Por isso invocamos o ius pacis, como direito de todos a resolver os conflitos sem violência. É por isso que repetimos: nunca mais a guerra, nunca mais uns contra os outros, nunca mais sem os outros! Que venham à tona os interesses e as tramas muitas vezes obscuros, daqueles que fabricam violência, alimentam a corrida armamentista e pisoteando a paz com os negócios’ (Encontro, cit.). Paz: um ‘quarto p’ que deve ser agregado a pessoas, a planeta e prosperidade, na esperança de que a agenda do próximo G20 o leve conta em uma perspectiva que seja a mais ampla e compartilhada possível, pois só juntos se podem enfrentar os problemas que, na interconexão atual, já não dizem mais respeito a alguém, mas a todos.

 

 

Também estou pensando no clima e nas migrações.

 

Realmente, não é mais o momento de alianças de uns contra os outros, mas da busca comum de soluções para os problemas de todos. Os jovens e a história nos julgarão sobre isso. E vocês, caros amigos do G20 Interfaith Forum, estão se reunindo para isso. Por isso, agradeço e encorajo-vos de coração, acompanhando-vos com as minhas orações e invocando a bênção do Altíssimo sobre cada um de vós.

 

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