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10 Setembro 2021

 

"O crime de Bolsonaro, além do negacionismo e do rompimento com o tecido social hoje tão esgarçado, é o de sobrecarregar os ombros dos trabalhadores e trabalhadoras", escreve o Pe. Alfredo J. Gonçalves, cs, vice-presidente do Serviço Pastoral dos Migrantes - SPM / São Paulo.

 

Eis o artigo.

 

Essa oposição figurada marcou as manifestações do 7 de setembro. A comida estava no lema do 27º Grito dos Excluídos, o qual alertava também para uma série de outros direitos básicos que estão sendo pisoteados sistematicamente, seja pelas reformas ligadas ao mundo do trabalho, seja pelo desmonte das políticas públicas do governo Bolsonaro. A arma integra do rol de obsessões bolsonaristas para driblar as instituições democráticas e se manter no poder a qualquer custo. O que se viu neste Dia Da Independência, às vésperas de seu bicentenário, foram as ruas tomadas por uma polarização que se agrava a cada dia que passa.

Enquanto a turma do fuzil (para não falar do boi, da bala e da Bíblia) segue o bombardeio aos demais poderes da República, aos meios de comunicação convencionais, à ciência e à pesquisa, ao bom senso e verdade histórica, a turma do feijão desfila à luz do dia os rostos desfigurados da multidão dos “sem”: sem-terra, sem-teto, sem-trabalho, sem-pátria, e boa parte agora também sem-casa, sem-alimento, sem-futuro. O governo lavou as mãos em relação aos problemas reais do país, tais como desemprego, trabalho informal e desalento; inflação ascendente, em especial para os produtos de primeira necessidade; combate à pandemia da Covid-19, com imunização que segue a passos de tartaruga; déficit habitacional; precarização dos sistemas de educação e de transporte; possibilidade de aprovação do “marco temporal”, o que jogará na rua não poucos indígenas; o abandono dos artistas e da arte; a indiferença diante das populações quilombolas, ribeirinhas, periféricas, em situação de rua, negras!...

Lavou as mãos e, fuzil a tiracolo, partiu para a trincheira. O fuzil traduz os ataques, ameaças e difamações, não somente às bases da democracia, mas também aos juízes do STF em pessoa, na sua função de proteger a Constituição; a defesa incondicional, contra tudo e contra todos, da família e corporação à qual o chefe diz fazer parte; o famigerado “gabinete do ódio”, que fabrica e dispara informações falsas via redes sociais; a incitação e o levantamento da população (para não falar de boiada, mais uma vez) contra o estado de direito; o uso da máquina pública, com o fim de engrossar o exército rancoroso de quem, no cúmulo do desespero, parece partir para o “tudo ou nada”; a desconfiança bizarra e sem fundamento às urnas eletrônicas, que nunca deram margem a manipulações; a campanha em favor de facilitar o armamento, iniciada no processo eleitoral e continuada sem tréguas durante o exercício do mandato.

Daí o caráter mais marcado do Grito dos Excluídos neste 7 de setembro. As consequências da opção política adotada – deixar o terreno da governabilidade em favor do bem-estar, vitimando ainda mais a população vulnerável, em troca de um estado de guerra permanente com vistas à vitória em 2022 – as consequências dessa escolha, repetimos, agravaram os gritos que sobem dos porões e chegam das periferias mais longínquas. O desleixo no ato de governar, associado ao desmonte dos mecanismos de proteção às famílias de baixa renda, no contexto conturbado da pandemia fizeram a iniciativa do Grito se debruçar sobre os direitos básicos elementares: saúde, comida, moradia, trabalho, renda – além do direito à participação popular.

Evidencia-se que, desde seu início, nos idos de 1995, durante o processo de debates da 2ª SSB (Segunda Semana Social Brasileira), o Grito dos Excluídos nunca teve tantos motivos para sair às ruas, levantando as bandeiras daqueles que o Papa Francisco chamaria de “descartáveis”, e a que outras se referem como diversamente incluídos, e ainda perversamente incluídos. De resto, vai na mesma direção a 6ª SSB, 2020-2023, com o lema Mutirão pela vida: por terra, teto e trabalho, os três “T” propostos pelo pontífice no encontro com os movimentos sociais. O crime de Bolsonaro, além do negacionismo e do rompimento com o tecido social hoje tão esgarçado, é o de sobrecarregar os ombros dos trabalhadores e trabalhadoras – boa fatia sem trabalho – com uma conta que já se faz sentir no preço do aluguel, do combustível, do gás, da água, da energia, da carne e de todo alimento de modo geral.

 

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