Com o sínodo, a Igreja se despede do clericalismo

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09 Setembro 2021

 

O documento preparatório da XVI Assembleia Geral Ordinária do Sínodo dos Bispos, que será realizada em outubro que vem, foi apresentado nessa terça-feira, 7. O sínodo, palavra grega que significa “caminhar juntos”, torna-se uma verdadeira assembleia eclesial, isto é, uma assembleia de todo o povo de Deus, consagrados e leigos. Adeus ao clericalismo: essa terça-feira foi um dia realmente importante para a compreensão da palavra “Igreja”.

O comentário é de Riccardo Cristiano, jornalista italiano, publicado em Formiche, 09-07-2021. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Depois de mais de 50 anos, as verdadeiras intenções de Paulo VI ao instituir o Sínodo dos Bispos finalmente encontram a sua implementação.

A leitura do documento preparatório da XVI Assembleia Geral Ordinária do Sínodo dos Bispos, apresentado nessa terça-feira, explicita isso todos. As resistências do verticalismo, do centralismo e do clericalismo foram superadas. O sínodo, palavra grega que significa “caminhar juntos”, torna-se uma verdadeira assembleia eclesial, isto é, uma assembleia de todo o povo de Deus, consagrados e leigos. Adeus ao clericalismo.

O documento ilustra os parâmetros que definem “a sinodalidade como forma, como estilo e como estrutura da Igreja”. Basta ler para se dar conta do que isso significa: “A sinodalidade representa a via mestra para a Igreja, chamada a se renovar sob a ação do Espírito e graças à escuta da Palavra. A capacidade de imaginar um futuro diferente para a Igreja e para as suas instituições, à altura da missão recebida, depende em grande medida da escolha de iniciar processos de escuta, diálogo e discernimento comunitário, em que todos e cada um possam participar e contribuir”.

O texto esclarece bem para quem não entendeu: “A sinodalidade não é uma questão de simples administração interna da Igreja; ela indica o específico modus vivendi et operandi da Igreja, o Povo de Deus, que manifesta e realiza concretamente o ser comunhão no caminhar juntos, no reunir-se em assembleia e no participar ativamente de todos os seus membros na sua missão evangelizadora”.

Bergoglio disse claramente no 50º aniversário da instituição do Sínodo dos Bispos: “O que o Senhor nos pede, em certo sentido, já está totalmente contido na palavra Sínodo. Caminhar juntos – leigos, pastores, bispo de Roma – é um conceito fácil de expressar em palavras, mas nem tão fácil de pôr em prática”.

Aquele discurso falou ao mundo nesta perspectiva: “Uma Igreja sinodal é como uma bandeira erguida entre as nações de um mundo que – embora invocando participação, solidariedade e transparência na administração da coisa pública – muitas vezes entrega o destino de populações inteiras à mãos ávidas de grupos restritos de poder. Como Igreja que ‘caminha junto’ dos homens e mulheres, partícipe das angústias da história, cultivamos o sonho de que a redescoberta da dignidade inviolável dos povos e da função de serviço da autoridade poderão ajudar também a sociedade civil a se edificar na justiça e na fraternidade, gerando um mundo mais belo e mais digno do ser humano para as gerações que virão depois de nós”.

Era o dia 17 de outubro de 2015 e, no dia 17 de outubro de 2021, o caminho sinodal começará em todas as Igrejas do mundo. Primeiro, nos dias 9 e 10 de outubro, a solene abertura em Roma. Portanto, Roma dará início a um caminho que se articulará em cada Igreja, ao qual se seguirá o Sínodo dos Bispos propriamente dito, em outubro de 2023, que será seguido pela fase de implementação, novamente em cada Igreja.

Uma breve apresentação de alguns dos pontos mais importantes do documento preparatório só pode partir daqui: o que significa dizer que a sinodalidade é a estrutura da Igreja? Significa:

“Fazer memória do modo como o Espírito orientou o caminho da Igreja ao longo da história e como hoje nos chama a ser, juntos, testemunhas do amor de Deus; viver um processo eclesial participativo e inclusivo, que ofereça a cada um – de maneira particular àqueles que, por vários motivos, se encontram à margem – a oportunidade de se expressar e de ser ouvido, a fim de contribuir para a construção do Povo de Deus; reconhecer e apreciar a riqueza e a variedade dos dons e dos carismas que o Espírito concede em liberdade, pelo bem da comunidade e em benefício de toda a família humana; experimentar formas participativas de exercer a responsabilidade no anúncio do Evangelho e no compromisso para construir um mundo mais belo e mais habitável; examinar como são vividos na Igreja a responsabilidade e o poder, e as estruturas mediante as quais são geridos, destacando e procurando converter preconceitos e práticas distorcidas que não estão enraizadas no Evangelho; credenciar a comunidade cristã como sujeito credível e parceiro fiável em percursos de diálogo social, cura, reconciliação, inclusão e participação, reconstrução da democracia, promoção da fraternidade e da amizade social; regenerar as relações entre os membros das comunidades cristãs, assim como entre as comunidades e os demais grupos sociais, por exemplo, comunidades de fiéis de outras confissões e religiões, organizações da sociedade civil, movimentos populares etc.; favorecer a valorização e a apropriação dos frutos das recentes experiências sinodais nos planos universal, regional, nacional e local.”

Parece difícil não captar o porte dessas indicações, a partir do mais puro e simples ponto de vista eclesial, isto é, do que e de quem a Igreja é. Mas isso não basta. Há referências importantes para a atualidade, aquela concreta, factual. “A pandemia, apesar das grandes diferenças, une toda a família humana, desafia a capacidade da Igreja de acompanhar as pessoas e as comunidades a relerem experiências de luto e sofrimento, que desmascararam muitas falsas seguranças, e a cultivarem a esperança e a fé na bondade do Criador e da sua criação. Porém, não podemos esconder o fato de que a própria Igreja deve enfrentar a falta de fé e a corrupção também em seu interior. Em particular, não podemos esquecer o sofrimento vivido por menores e pessoas vulneráveis: por muito tempo, o grito das vítimas foi um grito que a Igreja não soube escutar o suficiente. Trata-se de feridas profundas, que são difíceis de curar, pelas quais nunca se pedirá perdão o suficiente e que constituem obstáculos, às vezes imponentes, para prosseguir na direção do caminhar juntos. Toda a Igreja é chamada a fazer as contas com o peso de uma cultura impregnada de clericalismo, que herda da sua história, e de formas de exercício da autoridade sobre o qual se enxertam os diversos tipos de abuso. Juntos, peçamos ao Senhor a graça da conversão e a unção interior para podermos expressar, diante desses crimes de abuso, o nosso arrependimento e a nossa decisão de lutar com coragem”. Isso é imprescindível.

E, se isso é imprescindível, também é imprescindível aquilo que lemos na parte dedicada aos bispos: “Os bispos tenham o cuidado de alcançar todos. (...) O sentido do caminho ao qual todos somos chamados consiste, antes de mais nada, em descobrir o rosto e a forma de uma Igreja sinodal, em que cada um tem algo a aprender. Povo fiel, Colégio episcopal, bispo de Roma: cada um à escuta dos outros; e todos à escuta do Espírito Santo (...). O bispo de Roma (...) pede que todos os bispos e todas as Igrejas particulares, nas quais e a partir das quais existe a Igreja católica una e única, entrem com confiança e coragem no caminho da sinodalidade”.

Essa terça-feira é um dia realmente importante para a compreensão de uma palavra, “Igreja”. A verdadeira reforma, da qual tanto se fala ao se esperar pela unificação de escritórios ou pela criação de escritórios novos, é esta.

 

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