Médicos do Inferno – O Eco dos Horrores de Experimentos Humanos. Artigo de José Rodrigues Filho

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29 Julho 2021

 

"Se não quisermos continuar na desgraça, temos que destruir mitos e enfrentar demônios, como fez a Alemanha. Com quase 600 mil mortes, não podemos silenciar diante do eco dos horrores de experimentos humanos, traduzido aqui pelo tratamento precoce engendrado pelo governo, empresários e alguns profissionais médicos", escreve José Rodrigues Filho, professor da Universidade Federal da Paraíba, que foi pesquisador nas Universidades de Johns Hopkins e Harvard, e que recentemente foi professor visitante na McMaster University, Canadá, em artigo publicado em seu blog, julho de 2021.

 

Eis o artigo.

 

Doctors from Hell, de Vivien Spitz

O livro da repórter Vivien Spitz, do Tribunal do Juri dos crimes da II Guerra Mundial, em Nuremberg na Alemanha, traz um extenso relato de crimes arrepiantes, chocantes e horrorosos de alguns médicos durante e guerra. Denominado de Médicos do Inferno (Doctors from Hell), o livro escrito há mais de dez anos descreve os horríveis experimentos em humanos, com o propósito de matar, mostrando-nos o nível a que chegou a ética médica e o lado escuro da decadência moral.

O pior, tais médicos não demonstraram nenhum remorso pelo que fizeram. Como profissionais altamente qualificados praticaram experimentos tão chocantes com pessoas? Para Vivien Pitz temos que continuar denunciando demônios, de modo que os outros não esqueçam. Sempre informou aos seus ouvintes tais crueldades, a diferença entre o bem e o mau e o silencio de alguns, insistindo que as lições do passado não sejam esquecidas.

Os ecos em experimentos humanos tornaram-se uma constante desde o ano passado, quando o presidente Bolsonaro intensificou uma campanha orientando o Kit Covid ou tratamento precoce, constituído basicamente por ivermectina, azitromicina e hidroxicloroquina. São diversas as controvérsias sobre o uso destes medicamentos, mas o presidente, longe do código de ética médica e do código de Nuremberg, convenceu muitos a embarcarem numa aventura de falsa cura. O secretário de Justiça, Família e Trabalho do Paraná, Ney Leprevost, que perdeu o pai por conta do tratamento precoce, chegou a afirmar que tanto o seu pai como “outros inúmeros casos de pessoas que acreditaram nesses medicamentos após declarações de Bolsonaro”.

É muito estranho a forma como surgiu o tratamento precoce no Brasil. Sem comprovação científica e criticado por várias entidades médicas, depois de se saber que só através de vacinas seria possível combater o coronavírus. Apesar do incentivo de alguns profissionais médicos em usar este coquetel de medicamentos, são vários os relatos de médicos mostrando o agravamento e as complicações de pacientes que se submeteram ao tratamento precoce.

Por conta disto, o seu uso intensivo no Brasil precisa ser investigado pela Polícia Federal e todos os órgãos de justiça, lembrando que a discussão sobre a ética aplicada à saúde precisa ser intensificada, envolvendo filósofos, teólogos, sociólogos, advogados e a sociedade como um todo, usuária do sistema de saúde. As críticas de renomados profissionais médicos brasileiros ao Conselho Federal de Medicina (CFM) pela inércia e omissão não podem ser silenciadas. Alguns já estão vendo o tratamento precoce como um crime, que não parece ser pequeno.

É preciso investigar as razões pelas quais as compra de vacinas foram negadas, enquanto se incentivava o tratamento precoce. A CPI instalada está dando uma boa contribuição para se desvendar muitas coisas absurdas, mas não pode enveredar pelo caminho de achar que se buscava uma contaminação em massa ou imunidade de rebanho. Nada disto. Estamos diante de algo pior, pois a imunidade de rebanho se dá através do uso de métodos científicos. Nada disto parece ser identificado neste caso. É primordial investigar a relação entre o tratamento precoce e a indústria de saúde, onde já se observa, em alguns casos, crescimento de mais de mil por cento.

Urge, pois, analisar as estratégias deste governo profundamente. Não fossem o STF e a coragem de alguns governadores talvez já estivesse registrado alguns milhões de mortes. É preciso analisar as ações contra o distanciamento social, os ataques a governadores e prefeitos que defendiam algumas restrições, o veto às máscaras e lockdown, o boicote à compra de vacinas e outras imposições à empresa Pfizer e ao Instituto Butantã. Isto não tem nenhuma relação com contaminação em massa ou imunidade de rebanho. Daí a necessidade de aprofundar as investigações orientadas para os efeitos destes experimentos em humanos.

A médica Nise Yamaguchi, grande defensora do tratamento precoce, ao minimizar o sofrimento dos judeus perante a máquina de matar de Hitler, deixou claro que não se deve ter medo do vírus. Daí se conclui, que muito menos do tratamento precoce enquanto experimento em humanos. Lembrar que Hitler usou a Eutanásia como a mais arrepiante, tenebrosa e criminosa máquina de matar judeus, deficientes físicos e doentes mentais. Quando se trata de experimentos em humanos, não podemos esquecer as crueldades do passado, como bem disse Vivien Pitz.

Por fim, a sociedade brasileira tem que enfrentar seus mitos e demônios para sair do estágio em que estamos, a exemplo do que fez a Alemanha, hoje um exemplo para o mundo por ter enfrentado seus demônios. Com sua democracia, é uma nação estável, próspera e decente no mundo. Tem seus problemas, mas soube prestar conta de seus demônios. Quem visitou a Alemanha nos últimos 70 anos, não viu só os museus ou o Holocausto. O país tem mais de 75 mil pontos, mostrando as atrocidades de seus demônios e a confrontação com o horror. Nos Estados Unidos, que adoram seus mitos, vimos o “Make America Great Again” quase levar o país a uma desgraça.

Se não quisermos continuar na desgraça, temos que destruir mitos e enfrentar demônios, como fez a Alemanha. Com quase 600 mil mortes, não podemos silenciar diante do eco dos horrores de experimentos humanos, traduzido aqui pelo tratamento precoce engendrado pelo governo, empresários e alguns profissionais médicos.

 

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