Quando os bispos negam a comunhão a Biden

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13 Mai 2021

 

"Negar a comunhão a Biden por parte dos bispos estadunidenses, mais que surpresa, suscita muita tristeza e diversas perplexidades", escreve Rocco D'Ambrosio, presbítero da diocese de Bari, professor titular de Filosofia Política na Faculdade de Filosofia da Pontifícia Universidade Gregoriana, em Roma, em artigo publicado por Formiche, 11-05-2021. A tradução é de Luisa Rabolini.

 

Eis o artigo. 

 

A intenção de negar a comunhão a Biden por parte dos bispos dos EUA, mais que surpresa suscita muita tristeza e diversas perplexidades. O fato: uma porta-voz da Conferência Episcopal dos EUA anunciou que o encontro de junho examinará "o tema da comunhão" e se autorizar os bispos, em data posterior, a elaborar um documento sobre o tema. Um alto prelado citado pela mídia estadunidense explicou que o objetivo do futuro documento será "esclarecer a posição da Conferência de que Biden e outros políticos católicos não se deveriam apresentar ao altar para receber a comunhão" (Ansa). Nesta situação, o prefeito Ladaria achou por bem escrever uma carta ao presidente da Conferência Episcopal dos Estados Unidos, José Gomez, colocando um freio ao projeto, nascido em implícita polêmica com o presidente norte-americano Joe Biden (Askanews).

Pelo que se sabe, a carta de Ladaria iria colocar freios quanto à providência que se quer adotar. A proibição de participação na Eucaristia, de fato, é uma providência muito grave, que precisa ser motivada: o Direito Canônico a prevê como consequência da excomunhão. Mas pode ser infligida apenas para crimes punidos com pena justa, dada "a especial gravidade da violação [...] e a necessidade de prevenir ou reparar os escândalos" e de acordo com um procedimento processual preciso (cân. 1399).

Então, seria excomungado um político por que motivo? Por ser de esquerda? Por acaso, ele distanciou-se publicamente da doutrina católica (de fide vel moribus) ou cometeu crimes graves? Compreende-se o absurdo da proposta, o que nos leva a pensar que talvez a posição contra Biden, de vários bispos EUA, não tenha motivações doutrinais, mas talvez muito práticas: privilégios econômicos e de poder, que a direita católico-política parece garantir para algumas Igrejas locais. Não por acaso os bispos dos Estados Unidos foram bastante silenciosos durante o período da presidência de Trump sobre as questões de imigração, do respeito da Constituição, da luta contra a corrupção, do racismo e da homofobia. Ou, em nossos dias, o são sobre a exploração dos pobres, sobre o enriquecimento com as vacinas, sobre a negação da assistência sanitária, principalmente aos últimos e assim por diante. Essa história de ensurdecedores silêncios sobre as questões sociais não é de forma alguma nova: basta pensar nos silêncios de muitos bispos italianos durante o período da presidência de Ruini e, hoje, à oposição à reforma do Papa Francisco; bem como aqueles países do mundo onde ocorreram alianças questionáveis entre a direita política e a hierarquia católica.

Em termos gerais, no entanto, deve-se lembrar que se bispos e padres desejam fazer um chamamento (certamente não excomungar) aos políticos católicos devem fazê-lo lembrando que o magistério nunca contém uma indicação de alinhamento e/ou partido, mas apenas indica as exigências éticas fundamentais e irrenunciáveis na ação política dos católicos: a recusa do aborto e da eutanásia, a proteção dos direitos do embrião humano, a proteção e promoção da família, o empenho pela liberdade de educação, pela tutela social dos menores, pela libertação das vítimas das formas modernas de escravidão e pelo direito à liberdade religiosa, o desenvolvimento de uma economia que esteja ao serviço da pessoa e do bem comum, no respeito da justiça social, do princípio da solidariedade humana e da subsidiariedade e para o promoção da paz. Esses princípios morais - continua um documento do Vaticano - “não admitem derrogações, exceções ou compromissos, segue-se que o empenho dos católicos se torna mais evidente e carregado de responsabilidade” (Nota sobre os políticos da Congregação para a Doutrina da Fé, 2002, texto promulgado pelo então Card. Ratzinger).

Tanto os católicos empenhados com a centro-esquerda como aqueles comprometidos com a centro-direita são obrigados a seguir fielmente todas - nenhuma excluída, nenhuma em substituição ou antes de outra - essas indicações éticas, às quais devem ser adicionadas as indicações éticas da Laudato Si' sobre as questões ambientais. Mas isso não vale apenas para os políticos católicos, vale para todos os católicos, incluindo a hierarquia, como o Papa Francisco nunca se cansa de repetir. E quando se pertence a grupos políticos que lutam por algo que é contrário à fé, o apelo à coerência deve traduzir-se em objeção de consciência. Deve-se lembrar o apóstolo Pedro que responde no Sinédrio: "antes devemos obedecer a Deus do que aos homens" (Atos 5,29). Ou seja, deve-se obedecer e seguir o próprio lado político quando o mandamento não entra em conflito com a própria consciência, ou seja, a vontade de Deus. Na medida em que o partido e/ou o alinhamento propõem ou obrigam uma atitude contrária ao que se acredita, se está isento de qualquer vínculo com ela e se tem o dever de se opor por meios lícitos. “É possível ser cristão e salvar a alma militando em qualquer regime político, desde que isso não ofenda a lei natural e a lei de Deus”, escreveu Maritain. Afinal, o Vaticano II e Paulo VI esclareceram claramente várias questões. “Uma mesma fé cristã pode levar a empenhos distintos”, escreveu Paulo VI em 1971 (OA, 52; GS, 76).

Existe uma grande necessidade de bispos e padres acompanharem os católicos na política, dando o exemplo de consistência evangélica; formando-os seriamente; respeitando sua autonomia de juízo e ação, dada a complexidade e particularidade da ação política; sustentando-os, com cuidado e solicitude, na promoção e na encarnação das indicações do Evangelho. A lição conciliar põe fim a qualquer colateralismo entre comunidade cristã e partidos políticos precisamente porque apresenta claramente a autonomia da esfera temporal em relação à religiosa, devolvendo à comunidade cristã o seu próprio papel de profecia e consciência crítica, o seu evangélico serviço em relação aos detentores do poder e de toda a comunidade cristã.

 

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