Yunus: tirem as patentes das vacinas, o egoísmo de poucos ameaça o planeta

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31 Março 2021

 

As vacinas existem, mas não são e não serão para todos. É sobre isso que está ocorrendo uma batalha global e violenta, destinada a nos testar. Na verdade, sair da pandemia parece ser uma corrida de obstáculos onde, embora o perigo do Covid-19 continue a fazer vítimas, não parece ser suficiente para conseguir convergir para uma solidariedade global com um único e elevado propósito : erradicá-lo onde quer que se aninhe e a qualquer preço. Essa porta se fechou para os países mais pobres com a decisão da OMC de não aceitar a dispensa de patente, destacou que os interesses individuais e econômicos estão ganhando o jogo junto com o vírus. O vencedor do Prêmio Nobel da Paz, Mohammad Yunus, acompanhado por personalidades de renome, promoveu uma iniciativa global para a liberalização de patentes.

A entrevista é de Karima Moual, publicada por La Stampa, 30-03-2021. A tradução é de Luisa Rabolini.

 

Eis a entrevista.

 

Professor Yunus, que repercussões essa escolha da OMC pode ter?

Não vejo muito apoio de líderes políticos para tornar a vacina um produto sem patente.

A iniciativa da Índia e da África do Sul durante a reunião da OMC foi uma grande esperança. Mas não conseguiu gerar apoio dos países ricos. Muitos países que receberam seu primeiro suprimento de vacina poderiam não receber suprimentos subsequentes ou em prazos próximos se a capacidade de produção global for mantida vinculada à capacidade das empresas farmacêuticas que possuem patentes. Enquanto isso, as frustrações ao redor do mundo só podem ser expressas como "apartheid vacinal", "nacionalismo vacinal" ou "tribalismo vacinal". Muitos líderes já denunciaram a crise moral que esta situação representa para todos nós.

Por que a política falhou em traduzir uma voz tão plural e proeminente?

Os líderes políticos consideram mais do seu interesse apoiar as grandes empresas que contribuem para a economia nacional. Mas, na verdade, eles escolhem o lucro, proteger a economia às custas das pessoas. Em termos políticos, as nossas vozes não têm podido contrastar o peso das empresas farmacêuticas nem das que beneficiam das suas atividades.

No aspecto econômico, os países mais pobres têm menos proteção, e por isso a pandemia afetará vários equilíbrios. Quais são os riscos mais graves que esses países terão que enfrentar nos próximos anos?

Para começar, os equilíbrios nas sociedades afetadas pela pandemia não eram firmes. O mundo estava em um caminho suicida e em um ponto de explosão. A máquina econômica pré-pandêmica criava continuamente distância entre as pessoas e a riqueza. Essa máquina manteve a maioria dos seres humanos no nível mais baixo de renda, enquanto 99% da riqueza é distribuída para um punhado de pessoas. A pandemia piorou essa lacuna entre as pessoas e a riqueza, porque as pessoas perderam sua renda e seu sustento maciçamente, à medida que a renda e a riqueza dos super-ricos continuaram a aumentar. Nesse contexto, a pandemia pelo menos parou ou desacelerou o motor econômico e nos dá a oportunidade de construir um novo motor econômico capaz de unir pessoas e riquezas e mantê-las juntas. Porque a máquina econômica pré-pandêmica não estava apenas nos levando a um ponto explosivo, mas também estava prestes a destruir o mundo com o aquecimento global. Estávamos vivendo em uma casa em chamas e, em vez de apagar o fogo, estávamos ocupados dando uma grande festa dentro de casa para celebrar os nossos sucessos econômicos. A questão da vacina tornou-se um símbolo de como somos insensíveis ao nosso futuro. Esquecemos que os seres humanos se tornaram a espécie mais ameaçada do planeta. Não há como escapar de nosso caminho suicida a menos que o reconheçamos e decidamos mudar o percurso. Devemos demonstrar a nossa consciência a partir da vacina: a vacina não diz respeito apenas à proteção contra um vírus, mas à proteção contra nós mesmos.

Está claro como a vacina para os países mais pobres será uma mercadoria difícil de conquistar, como acha que podemos lidar com essa emergência?

A verdade é que estamos errados desde o início da pandemia. Assim que o inimigo global foi identificado, uma reunião de emergência do Conselho de Segurança da ONU deveria ter sido convocada para iniciar um processo para proteger cada vida no planeta. Isso ainda pode ser feito agora. Elaborar um plano de proteção global, para substituir aquele existente, egoísta. O Conselho de Segurança pode encarregar o Secretário-Geral para apresentar um plano abrangente para a produção e distribuição de vacinas no caso de uma emergência. Este Plano da ONU deveria identificar todas as capacidades de produção de vacinas espalhadas pelo mundo e também oferecer maneiras e meios para garantir que todas essas capacidades sejam utilizadas e, quando possível, aumentadas.

O foco na pandemia está voltado principalmente para a Europa e os países mais ricos, que têm a capacidade de fornecer dados e projetar uma resposta. Depois temos um continente como a África onde os dados são escassos...

O mundo tornou-se muito egoísta durante a pandemia. As empresas de vacinas concentram-se nos países ricos porque são os que apresentam melhores ofertas. Toda a atenção está voltada para eles. Não é a disponibilidade de dados que lhes garante as vacinas, é o dinheiro.

A Itália este ano sediará os líderes do G20 e a cúpula da saúde para refletir sobre como construir um novo mundo após a pandemia. Que conselho daria a eles?

É importante pensar no que acontecerá com o mundo após a pandemia. Procuro sempre chamar a atenção das pessoas para que entendam que esta é uma ótima oportunidade para recomeçar, romper com as velhas formas de fazer as coisas. Nosso trabalho para construir um novo sistema econômico deve começar hoje porque amanhã será tarde demais. A velha máquina econômica está agora desativada pela pandemia e devemos tirar proveito disso. É claro para nós que precisamos sair de nosso atual percurso suicida. Devemos redesenhar nosso sistema educacional para preparar os jovens para se tornarem empreendedores, em vez de abandoná-los à busca inconclusiva de empregos. Todo o sistema financeiro precisa ser redesenhado para apoiar cada jovem a se tornar empreendedor. Será necessário elaborar novas leis para criar instituições financeiras para o empreendedorismo social. Esperar o fim da pandemia para iniciar novas iniciativas é uma forma segura de não assumir a nossa responsabilidade. Não vamos cair nessa armadilha. Vamos começar agora a nossa nova jornada.

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