“Os grupos financeiros veem a mitigação de CO2 como um filão para a atividade do capital”. Entrevista com Arturo Villavicencio

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17 Março 2021

 

À vista do mundo, sobre a mesa, é possível vislumbrar, sem muito esforço, a estratégia traçada pelas esferas econômica, financeira e empresarial frente à enésima crise do capitalismo: contemplar a biodiversidade através de olhos marcados com o símbolo do dólar, apropriar-se de seus recursos naturais e assimilá-los em sua engrenagem hiperprodutiva, ultraconsumista e superexplorador, como um bem de mercado a mais.

Banking Nature, de Sandrine Feydel e Denis Delestrac, El camino, de Fran Menchón e Tomás Suárez e System Error, de Florian Opitz, são apenas algumas crônicas de uma lógica perversa, que equilibra as fragilidades e contradições de sua retórica discursiva com a energia da mensagem, com suas ambiciosas campanhas publicitárias de greenwashing e a aparelhagem de todo um sistema (político, financeiro e midiático) a serviço de seus interesses.

Diante deste panorama, o cientista e professor equatoriano Arturo Villavicencio (integrante do IPCC quando ganhou o Prêmio Nobel da Paz, em 2007) articulou Neoliberalizando la naturaleza (Siglo XXI, 2021), um extenso ensaio no qual destaca estas falhas assumidas até mesmo pelo mundo acadêmico e ambientalista.

Longe de apresentar soluções maximalistas, o autor encontra pontos cegos inclusive em soluções aparentemente verdes, desmonta homilias políticas e corporativas, e semeia mais incógnitas do que respostas, em um mundo cada vez mais cinza, menos verde, e com ausência absoluta de panoramas brancos e pretos.

A entrevista é de Samuel Regueira, publicada por La Marea, 12-03-2021. A tradução é do Cepat.

 

Eis a entrevista.

 

Qual foi a gênese deste projeto?

Em momento algum tive a intenção de escrever um texto desta amplitude. Foi há alguns anos, quando comecei a trabalhar com a Universidade Andina Simón Bolívar, em questões relacionadas ao meio ambiente, a mudança climática e a energia.

Ao longo dos dias, percebia que diversos temas tinham sido penetrados pela ideologia neoliberal de uma maneira muito sutil, validando teses como a que a mercantilização e a comercialização da biodiversidade são o caminho mais adequado para conservá-la, quando essas estratégias não só não beneficiam os povos indígenas, como também, ao longo do tempo, produzem uma deterioração da natureza. Foi um trabalho de uns dois, três anos.

Sintetizemos esse dogma, em poucas palavras.

De acordo com a ideologia neoliberal, a “utilidade” de um ecossistema se revela. Pode ser a possibilidade de armazenar carbono, proteger uma bacia hídrica ou atrair turistas... Seja como for, tem um valor econômico suscetível de ser comercializado e mercantilizado. O bem natural se torna assim como qualquer outro bem capital.

Como esta retórica conseguiu prevalecer de maneira hegemônica?

O discurso foi se impondo gradualmente nos anos 1990 e inícios deste século. Existiam outras estratégias de conservação da natureza em torno do desenvolvimento sustentável ou da proteção de povos indígenas, mas como estas foram fracassando por diversos motivos, o neoliberalismo ganhou força.

O livro aborda, por exemplo, a apropriação de terrenos, que transforma a África no “lixão dos países industrializados”. Sobre quais outras bases esta corrente está assentada?

Um dos aspectos mais perigosos do discurso é a ideia da mitigação compensatória. Não importa o dano que uma atividade econômica provoca à natureza, sempre e quando for possível compensar em outro lugar. Parece-me bastante grave que se desenvolva uma grande atividade para inventariar e quadricular a natureza e que se coloque preço em todos os serviços e na biodiversidade, porque sobre a base desse preço se compensará a destruição de um lugar.

Em torno disso, criou-se uma série de mecanismos financeiros em bancos e grupos nos quais esta ideologia penetrou de forma muito forte: toda a preocupação pela mitigação de CO2 passou a ser vista pelos grupos financeiros como um filão bem importante para uma nova atividade do capital.

Exerceram um conjunto de estratégias que, além disso, se sofisticaram...

A exploração da natureza se desenvolveu tradicionalmente com base na mineração ou atividade petroleira. O que acontece é que, agora, frente a elas, aparecem formas menos tradicionais, como a privatização e mercantilização da água, das florestas e dos serviços ecológicos, a comercialização de material genético procedente de plantas e animais, a incorporação de povos e áreas ao ecoturismo...

No Equador, os setores ambientalistas falam em superar a fase extrativista e dar passagem a novas atividades amigáveis ao meio ambiente, como este caso concreto do ecoturismo.

O livro é crítico também a esse fenômeno.

O ecoturismo tem efeito sociais, culturais e ambientais que despertam muita confusão e convém ter clareza em relação a eles. A máxima capacidade de acolhida das Galápagos, por exemplo, é de 50.000 turistas por ano. Qualquer excesso alteraria a integridade de seus ecossistemas. Em 2019, ultrapassaram os 250.000. Não é descabido pensar que chegaremos a um milhão de turistas e este seria o fim das ilhas.

É preciso pensar também no cálculo de toneladas de CO2 em deslocamentos aéreos para estas regiões de ecoturismo. Cada turista da Europa pode poluir duas vezes mais que uma pessoa local. Mas a interrupção total do turismo, vimos na pandemia, é um impacto econômico muito sério. Portanto, não há resposta e nem solução fáceis.

Um dos argumentos que costumam apresentar é a justificativa do nível aquisitivo do país para essa exploração ou essa ‘necessidade’ extraordinária de consumo...

Eu sempre sustentei que se o subdesenvolvimento fosse um problema somente de natureza econômica, seria superável, mas o problema real é de mentalidade. No Equador, o governo anterior queria criar uma espécie de Vale do Silício que fosse a salvação milagrosa para o país, um centro onde seriam pesquisadas as possibilidades de nossa riqueza e se descobriria como nos salvar dos problemas que tínhamos.

Existem soluções, mas precisamos ter clareza de que não sairemos da pobreza da noite para o dia. Precisamos olhar a longo prazo para construir um projeto social e político. O problema mais grave é a desigualdade social, e a distância entre a posição acomodada de uns poucos e a situação de necessidade da grande maioria, que se amplia cada vez mais.

Há lugar para o otimismo?

Tem que haver. Se não pensarmos que podemos melhorar, nunca nos colocaremos a trabalhar. O problema é quando chegam políticos com soluções redentoras e milagrosas... depois de vários anos, ficamos mais pobres do que antes, mais endividados e com problemas graves como a corrupção sistêmica ou o esbanjamento de recursos públicos em ‘elefantes brancos’ [obra ambiciosa e faraônica, financiada publicamente e que não se conclui].

‘Neoliberalizando la naturaleza’ também aborda a Iniciativa Yasuní-ITT.

Nesse projeto, o Equador ofereceu ao mundo [deixar de] explorar a riqueza do país em troca de uma compensação. Criou muita expectativa, em minha avaliação um pouco ingênua, diante da possibilidade de diminuir as emissões de dióxido de carbono.

O ex-presidente [Rafael] Correa sempre argumentou que a “comunidade internacional mesquinha” não aceitou a oferta do Equador, mas nem os grupos ambientalistas e nem os acadêmicos questionaram para que eram esses recursos que esse governo reivindicava. No que seria investido? Onde estava o desenvolvimento? Para asfaltar o país com grandes rodovias? Com divisas para continuar importando veículos de luxo do exterior? Ou para promover a agricultura de pequenos camponeses?

Deveríamos criar mais consciência sobre esses problemas e sobre suas soluções, o livro aguça o debate e mostra que as coisas não são tão simples, nem tão boas como querem apresentar.

Qual é a sua opinião a respeito do ‘greenwashing’?

As empresas vestiram muito habilmente a roupagem verde e, sob esse marketing, podem desenvolver ações para reparar seus danos. Um exemplo: atualmente, explora-se de maneira alarmante toda a madeira balsa na Amazônia, em um excesso que afeta as árvores e os ecossistemas. Frente a isto, há uma empresa transnacional que diz que irá semear 15.000 hectares em toda a região do Equador.

O que acontece? Este território não está abandonado, mas é ocupado por camponeses que efetuam uma agricultura de sobrevivência. O que acontecerá? Vão comprar as terras a um preço atrativo, pode ser que se tornem assalariados e com isto se atenderá a demanda de fabricação de turbinas eólicas.

E, a priori, sempre concordamos com as energias renováveis, mas é preciso levar em consideração que essas turbinas também são causadoras da destruição ambiental. As soluções nunca são uma coisa ou outra, sempre há ganhadores e perdedores, e o verdadeiro problema continua sendo que olhamos a natureza como uma fonte de riquezas que precisa ser explorada para solucionar problemas de subdesenvolvimento.

 

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