A tecnologia digital nos torna melhores? No momento, parece que não

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25 Fevereiro 2021

“Talvez devêssemos desviar a atenção da tecnologia e começar a centrá-la no que está fazendo conosco. Frente aos governantes do dígito e a máquina, urge um novo orgulho de ser humano”, escreve Alfonso Ballesteros, professor de Filosofia do Direito, da Universidade Miguel Hernández [Espanha], em artigo publicado por The Conversation, 21-02-2021. A tradução é do Cepat.

Eis o artigo.

Acredito que cabe afirmar duas coisas sobre a digitalização que ainda não foram ditas, ou não o bastante. A primeira é que é uma espécie de forma de governo absoluta. Governo, porque tem uma capacidade ordenadora, de estabelecer boa parte das normas que orientam a vida das pessoas, quase sem interferência das instituições legítimas. Absoluta, porque este governo exclui a si dos dispositivos com os quais domina, do mesmo modo que o tirano não aplica a si a lei que cria. Desta forma, os engenheiros do Vale do Silício educam seus filhos sem a tecnologia que apresentam para milhares de usuários como positiva e conveniente.

A novidade deste governo é que não obriga de forma grosseira como o tirano, que domina com a pura força da coação. É uma forma de poder muito mais forte, mas muito mais enigmática e amável, que dirige nossas condutas na interioridade. A ordenação da vida procede do gosto, do like e da personalização. Este governo de facto e ilegítimo tem hoje alcance mundial.

A segunda tese é que esta forma de governo traz como resultado uma tendência à animalização do ser humano, a torná-lo um animal digitalis. Isto é central do ponto de vista da produção da comunicação. Se o homem se parece com a máquina, comunica-se pouco, pois nunca é impulsionada por vícios, é sempre funcional e sóbria. A comunicação animal e viciante, por outro lado, é potencialmente ilimitada.

O mito da neutralidade

Às vezes, pensa-se que as coisas são neutras porque podem ser utilizadas para uma coisa boa ou má, como uma faca para cortar alimentos ou para ferir o outro. Isto é uma meia verdade e traz como consequência não avaliar como são as coisas, mas somente como são utilizadas. Também acontece com as redes: o Facebook não é ruim, pois eu o utilizo bem. Como a faca, pode ser bem ou mal utilizado.

Esta visão parece considerar o ser humano como impermeável às coisas que o cercam, como se tudo se reduzisse ao uso que se faz delas e não, por assim dizer, o que elas fazem conosco. Não há dúvidas de que são elaboradas com determinados propósitos.

O mesmo acontece com a arquitetura, que é a arte de criar espaços com determinados propósitos. Quando um arquiteto distribui os espaços, condiciona de forma significativa a vida dos que viverão neles.

Um exemplo. Em fins do século XVI, quando surgiu uma maior sensibilidade a respeito da privacidade familiar, proliferaram os corredores que permitiam aos criados circular sem ver os senhores, e vice-versa. Era possível aproveitar o corredor para fazer o bem ou o mal, mas isto não muda em nada que tenha sido uma condição que permitiu maior privacidade.

Com a tecnologia digital acontece o mesmo. Pode ser usada de muitos modos, mas isto não impede que nos condicione. Se a tecnologia digital não é neutra, cabe se perguntar: nos torna melhores? Respondamos a isso com as duas tecnologias principais, segundo a distinção de Frank Pasquale: as primeiras buscam nos conhecer por completo, as segundas nos viciar.

As tecnologias que buscam nos conhecer por completo são as “tecnologias da reputação”: avaliam, medem, pontuam e predizem o nosso comportamento. Paradigma disso é o sistema de crédito social chinês. Por sua capacidade de conhecer a saúde da pessoa, a reputação permitiu a muitos países da Ásia controlar muito melhor a pandemia da covid-19, ainda que naturalmente à custa da privacidade das pessoas.

Junto à reputação estão as tecnologias que buscam nos manter na frente das telas. Configuram o que aparece na tela para nos viciar. São as chamadas “tecnologias de busca”. E o que nos mostram? Com base em macrodados, personalizam completamente a tela e se nos mostram só o que nos agrada. A tela fica absolutamente personalizada ou, em termos mais precisos, permite uma manipulação absoluta.

As consequências são evidentes. Se na tela só vemos o que gostamos, nos tornamos narcisistas e o mundo se torna subjetivo. É tal a carga de subjetividade que nos tornamos hostis às verdades de fato, antes comumente aceitas, mas que não são estimulantes para nós. Isto é uma séria ameaça a nosso sentido de comunidade, que se baseia na existência de um mundo comum objetivo e compartilhado. Que realidade comum cabe, se o mundo nos é apresentado personalizado?

Animal digitalis

Hannah Arendt destaca em seu ensaio mais importante sobre filosofia da tecnologia o grave perigo do cientificismo. Ela vê o cientificismo como o problema de que sejam diluídas as diferenças entre homem e máquina.

Arendt anuncia, além disso, a possibilidade de que esta dissolução de diferenças faça com que a linguagem humana se torne matemática e formal, sem significado algum, ao modo da máquina. Esta matematização da comunicação a faria limitada e funcional, os seres humanos se confundiriam com as máquinas.

Nós nos comunicamos como máquinas? Minha tese é que não. Ao contrário, a digitalização cria adictos que não param de se comunicar digitalmente. E não com sinais matemáticos, que levariam a ser funcionais como as máquinas, mas mediante uma linguagem emocional própria dos animais. Ou seja, é uma comunicação animalizada porque o homem, enquanto animal, é suscetível ao vício e o vício leva a repetir condutas compulsivamente. Esta repetição no âmbito digital é produtora de dados, o que gera enormes lucros.

Neste sentido, a comunicação digital tem uma série de traços que tendem a animalizar o ser humano ao torná-lo adicto, emocional, transparente, fechado no presente e solitário. Estes traços, combinados entre si, configuram o animal digital.

- Primeiro, a digitalização é viciante porque a tecnologia digital é viciante por design. Provou-se que o smartphone, ou telefone inteligente, imita com grande êxito as máquinas caça-níqueis de Las Vegas. O propósito do programador é, aqui, da maior importância: aumentar sempre o tempo do usuário no dispositivo.

- Segundo, o vício procede, em boa medida, da emoção digital. A emoção, na medida em que está relacionada aos instintos, é algo que compartilhamos com os animais inferiores e que se distingue do sentimento, como algo que compartilhamos com os superiores. A emoção se relaciona com a psique e com os circuitos automáticos do cérebro e se distingue dos sentimentos em vários sentidos.

A emoção é efêmera, situacional e performativa, leva a agir, a reenviar conteúdos, etc. O sentimento, ao contrário, é estável, duradouro e se refere à realidade objetiva. Não necessariamente conduz à comunicação, como o sentimento de luto que pode levar, ao contrário, ao recolhimento. A emoção se deixa explorar economicamente por este novo capitalismo, o sentimento não.

- Terceiro, o caráter transparente do ser humano. O indivíduo se exibe voluntariamente, mas também é desnudado completamente pela chamada inteligência artificial. O indivíduo se torna transparente diante da máquina. Esta pode saber com grande exatidão, por exemplo, em que momento um adolescente se encontra emocionalmente mais vulnerável. Este conhecimento do interior do indivíduo permite aos donos da máquina o controlar por dentro, em sua psique, ao conhecê-lo melhor que ele próprio.

- Quarto, a tecnologia digital coloca o indivíduo em uma solidão ocupada. Estar só em alguns momentos é necessário para o ser humano, porque permite refletir. O problema da solidão digital é que, por um lado, dificulta as relações significativas com outros (ao introduzir sempre um intermediário, a máquina), por outro, nos tem permanentemente entretidos de modo que não podemos refletir. Por esta razão, é uma solidão ocupada. Ou seja, nos mantém sempre alterados, algo que, como viu Ortega, é próprio dos animais.

- Quinto, a redução ao presente. O tempo real permite que vivamos um presente aumentado ou passemos “de um presente a outro”, como disse Byung-Chul Han, sem a dimensão da temporalidade. Este fechamento no presente é uma demonstração da animalização, ou seja, é própria de animais inferiores. Estes carecem de tymós, coragem, para adiar o presente prazeroso. O thymós está aberto à memória, a experiência e a projeção para o futuro. A tecnologia digital tende a nos animalizar como animais inferiores, ao dar prioridade total ao prazer no presente (epithymía).

Parece-me que, não necessariamente de forma isolada, mas, sim, combinados, estes traços tendem a nos animalizar. Nenhum deles é exclusivo do digital, mas manifestação de uma tendência mais ampla detectada há décadas por pensadores, filósofos, sociólogos e psicólogos.

No entanto, neste momento, a animalização permite que o capitalismo da vigilância, que é a nova mutação do capitalismo encetada em inícios do século, continue funcionando para o benefício de poucos e à custa de milhões.

Talvez devêssemos desviar a atenção da tecnologia e começar a centrá-la no que está fazendo conosco. Frente aos governantes do dígito e a máquina, urge um novo orgulho de ser humano.

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